Eleições 2014: o vento virou?

Eleições 2014: o vento virou?

Pesquisas divulgadas nesta semana mostram recuperação da presidente Dilma, dificuldades para Marina e consolidação de Aécio no papel de coadjuvante

Por Anna Beatriz Anjos e Glauco Faria 

A disputa presidencial mais sui generis desde 1989 teve lances de suspense e drama durante esta semana. Nos bastidores, corriam rumores sobre a candidatura de Aécio Neves (PSDB): especulava-se que ele abandonaria a disputa por conta do mau desempenho nas pesquisas e, como forma de combater a hegemonia petista, apoiaria Marina Silva (PSB), sua algoz na corrida pelo Planalto. Na terça-feira, o tucano decidiu, de súbito, ir a público para dizer que continuava no páreo. “Vou lutar até o último instante”, disse aos jornalistas, ao lado de importantes quadros de seu partido, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Se os ânimos na campanha tucana já estavam em baixa desde o levantamento do Datafolha divulgado sexta-feira (29) pelo Jornal Nacional, o sentimento se manteve na última quarta, quando o mesmo instituto veiculou novos números. Enquanto Marina permaneceu com 34% e Dilma oscilou positivamente um ponto, atingindo 35% das intenções de voto, Aécio caiu novamente, chegando à casa dos 14%. Horas antes, o Ibope havia divulgado suas estatísticas, que também contribuíram com o pessimismo tucano. O ex-governador de Minas Gerais foi o único que perdeu votos em relação aos dados anteriores: despencou de 19% para 15%, e viu o crescimento das adversárias (Marina passou de 29 para 33 pontos; e Dilma, de 34 para 37).

A queda de Aécio nas pesquisas refletiu em seu desempenho no segundo debate entre os presidenciáveis, promovido na segunda-feira em conjunto pelo SBT, Uol, Folha de S. Paulo e Jovem Pan. Se no primeiro embate, pela avaliação de alguns analistas, ele havia se saído bem e se colocado de forma incisiva em diversos momentos, neste virou “nanico” ante à polarização entre Marina e Dilma, que buscaram a todo momento o confronto entre si, sendo também os dois alvos principais dos demais candidatos. Embora articulado, o tucano foi burocrático e caiu em algumas “armadilhas” preparadas por seus rivais – entrou, por exemplo, no jogo da presidenta Dilma na pergunta que lhe fez sobre segurança pública, ocasião em que a petista emplacou uma defesa das ações de seu governo na área de mobilidade urbana.

A verdade é que, nos últimos dias, por conta da crise que acomete sua candidatura, Aécio precisou se reafirmar inúmeras vezes. Em entrevistas convocadas de última hora ou por meio das redes sociais, onde publica posts garantindo que é a “mudança segura”, tem tentando manter a unidade de seu eleitorado e convencê-lo de que ainda há chances de chegar ao segundo turno. Mas será que isso é realmente possível?

(Infográfico: Karina Santos)

(Infográfico: Karina Santos)

Erro de estratégia e ônus político

“Acho que é muito difícil do Aécio reverter a situação”, avalia Aldo Fornazieri, cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Para ele, o tucano falhou em se consolidar como representante da mudança política que grande parte do eleitorado deseja. “Quando ele ficou empacado em torno dos 20% dos votos [antes da morte de Campos] , ali já era possível perceber que existia uma crise de confiança em relação ao Aécio”, pontua.

Fornazieri atribui a estagnação e posterior queda de Aécio a um erro estratégico de campanha. “Ele tentou disputar um eleitorado cativo da Dilma – as classes C e D – com programas em que mostrava a casinha pobre do povo do Nordeste. Se dirigiu a esse público e deixou o eleitorado tradicional do PSDB para ser capturado pela terceira via. Não se dirigiu às classes média e média alta e, quando a Marina entrou, capturou rapidamente esse eleitor“, analisa.

De fato, Marina Silva roubou votos do tucano. Desde que passou a concorrer, tirou-lhe seis pontos – ele aparecia com 20% no último levantamento realizado pelo Datafolha, antes da morte de Campos. Para estancar seu declínio, ou um novo fato político tem de ocorrer – o que não está fora de cogitação, em uma eleição na qual um dos principais candidatos morre de forma trágica em um acidente de avião – ou Aécio precisa voltar a ser agressivo.

O presidenciável já tem adotado o lema do “sou a mudança segura, não uma aventura”, fazendo um contraponto à “nova política” da ex-ministra de Lula e, no debate promovido pelo SBT, reforçou uma estratégia já adotada no encontro anterior na Band, atacando de forma contundente Dilma, buscando reconquistar parte do eleitorado anti-petista que migrou para Marina. De acordo com levantamento feito pelo jornal O Globo, o tucano usou 60% do seu tempo para fazer ataques, índice inferior apenas aos de Eduardo Jorge (70%) e Luciana genro (78%). Do total de críticas de Aécio, 67% foram destinadas à pessoa da presidenta e 33% ao “governo federal”.

(Foto: Reprodução)

A aparição de Beto Albuquerque (PSB), vice de Marina, no programa de Alckmin gerou atrito entre as campanhas do governador de São Paulo e de Aécio Neves (Foto: Reprodução)

Se os votos de Aécio estão debandando, algumas figuras de sua base parecem não estar muito dispostas a fazer crescer sua popularidade. Em São Paulo, por exemplo, o governador e candidato à reeleição Geraldo Alckmin (PSDB) preferiu, em alguns de seus programas, colocar falas de Beto Albuquerque (PSB), vice de Marina, a explorar a imagem do presidenciável tucano. É bem verdade que seu vice, Márcio França, é companheiro de partido de Albuquerque, fato que traz um pouco mais de sentido à parceria. Mas o jogo político vai além disso. “O Alckmin, caso se reeleja, almeja ser candidato a presidente da República em 2018, então não tem nenhum interesse que Aécio ganhe. Se o tucano se elege presidente, será o candidato natural do PSDB em 2018”, analisa o professor.

Caso o quadro se congele até o final do primeiro turno e confirme uma segunda etapa entre Dilma e Marina – ou então, uma vitória de uma das duas logo no primeiro turno, com Aécio apenas em terceiro lugar –, será a primeira vez desde 1989 que o PSDB ficará fora da reta final da competição – depois da disputa entre Lula e Fernando Collor, um candidato do partido sempre esteve no páreo na reta final. “Há uma demonstração de que o partido vem perdendo força. Já perdeu as três últimas eleições, vem minguando. A preocupação principal é o Legislativo, onde o PSDB perdeu muita força. Há uma sinalização perigosa nesse sentido”, afirma Fornazieri.

Para Geraldo Tadeu, cientista político e diretor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), o momento é de expectativa e decisão não somente para o país como um todo, mas também para os tucanos. “Não ir para um segundo turno vai ter consequências em um futuro governo, porque se a Dilma vencer, mantém-se a polarização, provavelmente, o PSDB volta a ser o principal ponto de oposição à presidente. Se a Marina se elege, existe a possibilidade de o PSDB governar com ela”, avalia.

“A candidatura Aécio faz água e, para usar um termo consagrado, já é cristianizada, nem o próprio partido acredita na sua candidatura. Obviamente, ele vai até o final por um motivo muito simples: o PSDB tem que fazer bancada se quiser sobreviver como partido, e ter um candidato a presidente é muito importante para estimular votos na legenda e carrear votos que vão compor o coeficiente eleitoral para o Legislativo”, explica Francisco Fonseca, professor de ciência política no curso de Administração Pública e Governo na FGV/SP. “Mas é um barco à deriva, sem rumo, o PSDB vai sair bem menor do que já é.”

Marina – fim da escalada?

As pesquisas divulgadas na quarta-feira também serviram à análise da trajetória de Marina Silva. As esperanças de que continuasse a crescer exponencialmente, como vinha ocorrendo desde a morte de Campos, foram frustradas pelas últimas estatísticas, que apontam uma acomodação temporária de sua candidatura. No último final de semana as dificuldades começaram a aparecer para a ex-senadora, muito por conta de idas e vindas sem eu programa de governo. O capítulo referente à questão LGBT, por exemplo, foi alterado após o Pastor Silas Malafaia cobrar uma resposta da candidata por meio do Twitter em relação a seu apoio ao casamento civil igualitário. Entre outras mudanças, o termo foi substituído por “união civil”.

Esta não foi a única errata no texto, que teve também a menção ao incentivo para a utilização de energia nuclear retirada, além de virem depois acusações de que trechos inteiros foram copiados de outras fontes, como versões anteriores dos programas dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula. Em entrevista ao G1, a candidata disse ainda não ser favorável à revisão da Lei da Anistia, sendo que, em 2008, havia publicado artigo no jornal Folha de S.Paulo com uma posição contrária à de agora. Os erros não passaram batido e, nas redes sociais, estudos de monitoramento mostram que menções negativas à candidata cresceram e superaram as de seus adversários mais próximos.

De acordo com Francisco Fonseca, a presidenciável tem dificuldades naturais, como o fato de ser de um partido menor e dispor de pouco tempo na televisão. Mas não só isso. “Ela apresenta um discurso e alianças de última hora cheios de contradições. Veja que o Olavo Setúbal declarou o apoio dele, consequentemente do seu banco, à candidata Marina. Como que alguém que se diz defensor da ‘nova política’ busca um dos setores mais privilegiados da sociedade brasileira, o financeiro”, aponta. “Esse estancamento tem a ver com suas fragilidades e com a sua estatura política, que é de pequena pra média”, sustenta.

Há outros obstáculos para o crescimento da candidatura do PSB, como o fato de ser muito mais difícil abocanhar os votos de Dilma do que os de Aécio. Se a criadora da Rede é forte nos grandes centros urbanos e entre a população jovem de classe média, Rousseff tem também penetração nas cidades menores, onde o governo federal possui mais influência em função dos efeitos positivos gerados pelas políticas sociais. “Esses grandes centros – São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais – têm um volume de eleitores muito grande. Do ponto de vista estratégico, não tem como ela [Marina] tentar vencer nas cidades do interior, porque dispenderia muitos recursos e muito tempo em um eleitorado que é estatisticamente menor”, analisa Tadeu.

Portanto, para que continue ganhando corpo, Marina precisa “desidratar” ainda mais Aécio. “Ela não consegue mais tirar votos da Dilma, que conseguiu estancar o leve movimento de queda que teve no primeiro momento de entrada da Marina. Esses 37% que o Ibope lhe dá, e também os 35% do Datafolha, mostram que teve um movimento de recuperação. Por isso há um teto para o crescimento da Marina”, aponta Fornazieri. O embate, agora, deve ser entre as duas.

Os caminhos de Dilma

A campanha da presidenta Dilma Rousseff conseguiu novo gás com as sondagens divulgadas na semana. Uma nova estratégia entrou em ação após a subida da candidata do PSB nos levantamentos, como admitiu o secretário-geral da presidência da República Gilberto Carvalho. “As últimas pesquisas não, mas o surgimento da Marina claro que provocou uma mudança de estratégia no sentido de colocarmos nosso programa de maneira mais clara”, admitiu. Mesmo reconhecendo a história e o passado da pessebista, ele não hesitou em apontar o que considera aspectos contraditórios da adversária da petista. “O grande problema da Marina não é ela ser evangélica, o problema é o discurso contraditório de mudança. Como falar em mudança com a aliança que ela representa. Como ser mudança ao lado de Paulo Bornhausen?”, questionou.

Dilma deu mostras das novas diretrizes de sua campanha no debate do SBT, quando priorizou o embate com Marina Silva, só se relacionando com Aécio para responder a ataques do adversário. Assim, mais uma vez de acordo com o levantamento de O Globo, 71% das críticas feitas pela petista foram direcionadas à adversária, que também encaminhou 71% de seus ataques à presidenta. Na TV, uma peça bastante criticada mesmo entre o petismo comparava a ex-senadora a Jânio Quadros e Fernando Collor (no caso deste último, sem mostrar sua imagem, já que se trata de membro da baseada aliada). No programa de quinta-feira a peça não foi veiculada, mas o tema do pré-sal foi lembrado para demarcar a diferença entre as duas candidaturas.

(Foto: Léo Cabral/MSilva Online)

“Ela apresenta um discurso e alianças de última hora cheios de contradições. Veja que o Olavo Setúbal declarou o apoio dele, consequentemente do seu banco, à candidata Marina. Como que alguém que se diz defensor da ‘nova política’ busca um dos setores mais privilegiados da sociedade brasileira, o financeiro”, aponta Francisco Fonseca (Foto: Léo Cabral/MSilva Online)

Para Geraldo Tadeu, parte da responsabilidade pela estagnação de Marina nas intenções de voto se deve justamente a essa mudança de estratégia de Dilma. “Houve imediatamente uma reação muito forte do PT e de seus aliados, que partiram pra uma ofensiva grande. A polarização foi bem acirrada, o que pode ter levado a uma diminuição nesse entusiasmo pela Marina”, considera.

A campanha da presidenta foi eficiente em apontar as contradições e inconsistências do discurso e programa de governo de Marina, como a questão do pré-sal, trazida à tona no debate – a pessebista não soube dizer quais são seus planos para a reserva. Dilma bateu de frente com a adversária apontando que o tema aparece apenas uma vez em todo o seu programa de governo, e completou dizendo que “aquilo” que ela despreza vale um trilhão de reais.

A tática de confronto, porém, apesar de correta, precisa ir além das propostas programáticas para garantir a dianteira da petista. “A estratégia dos candidatos é feita não somente em relação aos adversários mas em como o cidadão comum está enxergando o processo eleitoral. Vejo a estratégia da campanha da Dilma buscando desconstruir a candidatura Marina mas já prevendo o embate com ela no segundo turno”, aponta Francisco Fonseca.

Outro dado importante para a candidatura Dilma é a elevação dos índices de aprovação de seu governo, 36% tanto no Ibope quanto no Datafolha. “Uma margem boa seria de 42%, mas ela teria que recuperar uma avaliação ainda de uns seis pontos, porque está em 36% hoje”, pontua Aldo Fornazieri. “Acho que ela está mostrando o que o governo fez. Tirando a economia, não dá pra dizer que o governo da Dilma foi ruim, tem várias realizações, mas foram cometidos erros. Por exemplo, esse programa de investimentos na infraestrutura é bom, mas ela começou tarde a fazer as concessões”, explica, para justificar o crescimento da avaliação após o início do horário eleitoral.

(Crédito da foto de capa: Ichiro Guerra)

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