O fracasso da candidatura Aécio – depois da queda, o coice

O fracasso da candidatura Aécio – depois da queda, o coice

Candidato tucano tenta ao menos garantir Minas Gerais para escapar de um vexame histórico. Junto com ele, o PSDB pode viver um processo de encolhimento agudo como partido nacional

Por Anna Beatriz Anjos e Glauco Faria

A semana começou com um fato inusitado, mas não exatamente surpreendente na campanha presidencial. No domingo, surgiu a notícia de que o candidato à presidência da República pelo PSDB Aécio Neves havia entrado com uma ação judicial contra o Twitter pedindo que a empresa fornecesse os dados cadastrais e eletrônicos de 66 perfis que, de acordo com o tucano, articulavam uma rede virtual de disseminação de mentiras e ofensas com o objetivo de atingir a sua honra.

No mesmo dia, os tuiteiros reagiram à ofensiva do peessedebista. “É um absurdo, uma postura absolutamente antidemocrática. Ele não tem a menor noção do que é liberdade de expressão. Sou de Minas Gerais e aqui todo mundo conhece as histórias de censura, ligações de madrugada e demissões de jornalistas. É algo inacreditável”, destacou o escritor e crítico de cinema Pablo Villaça, do blog “Diário de Bordo”. Ele ainda ressaltou à página eletrônica da Fórum que a atitude poderia prejudicar ainda mais a situação do PSDB nas urnas, já que o episódio só reforçava a imagem de que o candidato não respeita opiniões divergentes.

Talvez justamente por ser um tiro no pé dado pela campanha tucana, a ação não repercutiu na mídia tradicional. Matéria da Rede Brasil Atual mostra que o próprio Twitter respondeu à altura a tentativa do presidenciável de ter acesso a dados sigilosos de seus usuários. “Com a devida vênia, são meras elucubrações do autor, absolutamente desprovidas de qualquer indício de veracidade”, descrevia um comunicado da empresa. “Quanto à conduta de usuários cuja ilicitude em nenhum momento restou demonstrada, não podem servir de fundamento para a eventual quebra do seu sigilo de dados. Admitir esse tipo de medida corresponde a transformar o Poder Judiciário em instrumento de perseguição de cidadãos, dando margem ao surgimento de um Estado policialesco, que desconsidera as garantias fundamentais dos cidadãos de forma injustificável”, finalizava.

Para muitos, o episódio foi uma mera tentativa de criar um factoide que trouxesse gás à combalida campanha de Aécio. No mesmo final de semana, a revista Veja trazia em sua capa uma matéria com supostas denúncias do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, que envolveriam políticos de cinco partidos, entre eles o PT, e o falecido governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Uma chance que o tucano teria de capitalizar duplamente vantagens eleitorais contra suas principais adversárias. As pesquisas que vieram depois, no entanto, não tinham boas notícias para Aécio.

(Foto: Reprodução/Facebook)

Aécio Neves moveu ação contra o Twitter. Ele quer obrigar a empresa a divulgar dados de 66 usuários que, segundo o tucano, formam uma “rede de difamação” contra ele (Foto: Reprodução/Facebook)

Descida e estagnação

Pesquisa do Instituto Vox Populi, divulgada na quarta-feira (10), mostra Dilma com 36%, Marina com 28%, e Neves com 15%. As estatísticas do Datafolha, veiculadas no mesmo dia, apontam Dilma e Aécio também com 36% e 15%, e Marina um pouco acima, com 33%. Já na sondagem do Ibope, publicada na sexta-feira, Neves foi o único que não oscilou (manteve-se com 15%); já Rousseff e Silva aparecem com 38% e 31%. Os três  institutos projetam um segundo turno bastante apertado entre a criadora da Rede e a presidenta: 42% a 41%; 47% a 43% e 43% a 42%, respectivamente, o que se caracteriza como empate técnico.

Embora a todo momento reafirme sua permanência na briga e sua crença de que há chances de chegar à reta final, Aécio assiste ao distanciamento das adversárias com apreensão. Reportagem do jornal Folha de S. Paulo publicada na quinta-feira revela que o fluxo de doações destinadas ao comitê tucano diminuiu muito desde que foi rebaixado ao terceiro posto da corrida. Segundo a matéria, a campanha teria realizado até uma readequação nos gastos, cortando tudo o que é considerado supérfluo, como pesquisas internas.

Aparentemente resignado, o presidenciável tenta manter seu reduto eleitoral. Em Minas Gerais, ele aparece com 26% das intenções de voto, atrás da presidenta Dilma, que tem 33%, e empatado tecnicamente com Marina Silva, com 25%, de acordo com o Datafolha. Seu candidato a governador, Pimenta da Veiga, tem 23% no levantamento do mesmo instituto divulgado na terça-feira (9), e está bem atrás de Fernando Pimentel (PT), que lidera com 34%, no limite de decidir a eleição no primeiro turno.

Por conta disso, o candidato tem viajado mais a seu estado e esteve nesta quinta-feira (11) em Montes Claros e Belo Horizonte. “Vocês não podem me deixar passar por mentiroso”, apelou a uma plateia de jovens do partido, aludindo ao fato de que dissera momentos antes para jornalistas que venceria em Minas Gerais. Um cenário e um discurso bem diferentes de uma campanha que imaginava, em agosto de 2013, ter 70% dos votos no estado, com uma vantagem de 3 a 4 milhões sobre Dilma Rousseff.

Que o cenário é bastante desanimador para o presidenciável do PSDB, não há dúvidas. Mas o que fez com que sua candidatura murchasse dessa maneira? E mais: isso respingará no partido como um todo e em seu desempenho eleitoral pelo país?

O fracasso de Aécio

Marina Silva. Essa seria uma resposta fácil para a primeira pergunta, mas não é totalmente correta, nem tampouco a única possível. O mau desempenho de Aécio se deve, antes de tudo, a ele mesmo. “O fato é o seguinte: é um candidato ruim, que não tem empatia com o Brasil atual. Foi o pior candidato que o PSDB teve desde a ditadura militar”, avalia o cientista político Rudá Ricci.

Por isso, a entrada da ex-ministra de Lula na corrida pela sucessão presidencial pode ter sido o estopim para o processo de declínio do tucano, mas não a causa. “A Marina enfraquece [a candidatura de Aécio], mas, mais do que isso, intensifica um processo que já estava em curso antes de sua entrada. Por isso, me parece muito difícil reverter”, analisa Rosemary Segurado, cientista política e professora da Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP). Ela se refere à falta de identificação entre o ex-governador de Minas Gerais e a maior parte do eleitorado brasileiro – inclusive entre as classes média e média alta, público cativo dos tucanos. Isso se comprova pelo fato de que, mesmo antes da tragédia que vitimou Eduardo Campos, Aécio não conseguia deslanchar nas pesquisas, e ficou estagnado na casa dos vinte pontos.

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“O PSDB de São Paulo não fincou. Eles já anunciavam, em conversas reservadas no ano passado, que o Aécio iria engolir a traição do ‘Lulécio’ e ‘Dilmasia’, aqueles comitês que ele criou em Minas do Lula com Aécio e Dilma com Anastasia [Antônio, sucessor de Aécio no governo de MG]”, afirma o cientista político Rudá Ricci (Foto: PT.org)

Se a própria base eleitoral do PSDB não abraçou Aécio como candidato, tampouco o fizeram os setores da população que nas últimas eleições foram decisivos para eleger Lula e Dilma (classes C, D e E, formadas pelo eleitorado de renda familiar até cinco salários mínimos), e nos quais Marina Silva já tem um percentual de votos maior que o do ex-governador. “O perfil dele é demasiadamente de classe média, média alta”, aponta Ricci, que classifica este como um dos fatores determinantes para o fracasso de Aécio.

Além disso, conflitos internos dificultaram a mobilização do partido em torno da candidatura. Algo, aliás, que já era previsível levando-se em conta que, em 2010, em seu discurso pós-derrota, José Serra havia mandado um sinal inequívoco para Aécio. “Ao lado desses 43,6 milhões de votos, nós recebemos, também, votos que elegeram dez governadores que nos apoiaram. Dos quais, um está presente. Um companheiro de muitas jornadas, Geraldo Alckmin. Ele se empenhou na minha eleição, mais do que se empenhou na dele.” Sendo que, à época, o então senador eleito por Minas havia sido saudado como um “herói da virada” por Veja, mas, como muitos outros governadores da legenda – exceção feita a Alckmin – preferiu não bater no governo Lula com medo de perder votos.

“O PSDB de São Paulo não fincou. Eles já anunciavam, em conversas reservadas no ano passado, que o Aécio iria engolir a traição do ‘Lulécio’ e ‘Dilmasia’, aqueles comitês que ele criou em Minas do Lula com Aécio e Dilma com Anastasia [Antônio, sucessor de Aécio no governo de MG]. Tanto que colocaram o Beto Albuquerque [vice de Marina Silva] na campanha do Alckmin”, destaca Ricci.

Há ainda, segundo o analista, um problema de posicionamento. “O discurso do Aécio é anacrônico”, considera. “Ele divulgou muito a agenda neoliberal; no ano passado, falou muito de privatizações, por exemplo. Ao insistir nessa agenda, não percebeu que o país é outro desde 2008. Aliás, o mundo inteiro é, depois da crise dos Estados Unidos em 2008. O mundo inteiro voltou a falar de Estado interventor, voltou ao debate a agenda neokeynesiana. Ele perdeu o eixo de uma leitura razoável do país.”

Essa será a primeira derrota de Aécio nas urnas. Ele, que já foi deputado federal, governador de Minas Gerais e senador – posto do qual está licenciado por conta da disputa presidencial –, ocupa cargos eletivos desde 1987. Seu primeiro revés eleitoral ficará marcado como um dos maiores fiascos da história de seu partido. Depois de amargar um inesperado terceiro lugar, quais as perspectivas para ele, em futuros pleitos, a curto prazo?

“Ele teria que se candidatar a um cargo muito rebaixado para sair vitorioso”, considera Ricci. “Deveria tirar uns dois anos sabáticos, como fez o Ciro Gomes, e voltar em um momento mais propício, como uma espécie de reserva de política do PSDB. Porque vai ser acusado internamente de ser a liderança ambiciosa que destruiu o partido”, explica.

O enfraquecimento do PSDB

Em uma reunião realizada na capital paulista na terça-feira (9), organizada pela Associação de Lojistas dos Jardins e reunindo parte da elite paulistana, Walter Feldman, coordenador da campanha de Marina Silva, tentava convencer seus interlocutores da viabilidade da candidatura e de um eventual governo da presidenciável do PSB. em busca de um eleitorado antipetista, que já migrou de forma significativa para a ex-senadora, desidratando a campanha de Aécio, o ex-tucano vaticinou: “Se Marina for eleita, muda tudo. Os partidos vão ter que se reestruturar. O PSDB não sei se sobrevive. O PSDB, se perder as eleições, vai haver uma debandada.”

A hipótese de debandada não vale apenas para o caso de vitória de Marina. A perda de poder do partido pode fazer com que haja migração de parlamentares para outras agremiações. O PSDB, que elegeu oito governadores em 2010, lidera a disputa somente em quatro Estados e, para alguns deputados estaduais, ser oposição não é exatamente um sonho. Segundo Rosemary Segurado, “o primeiro derrotado dessa eleição é o Aécio, mas o segundo é o PSDB”. Embora o mau desempenho de Aécio tenha evidenciado esse enfraquecimento da legenda, na prática, ele já ocorre há algum tempo.

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Bancada de parlamentares do PSDB pode diminuir nas eleições de 2014 (Fábio Rodrigues Pozzebon/ABr)

Mesmo lançando candidatos competitivos à presidência da República, é preciso ressaltar que a legenda vive derrotas sucessivas na corrida ao Planalto desde 2002. No Congresso Nacional, o quadro de declínio é semelhante. Em 2000, o PSDB chegou a ter a maior bancada de deputados na Câmara, contando com 104 parlamentares (à época, o aliado PFL era o segundo maior partido na Casa, com 101), mas, desde então, as perdas são evidentes. Em 2002, o PSDB elegeu 70 deputados; em 2006, 66; em 2010, 53, dos quais somente 44 ainda estão na legenda. Levantamento realizado pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) estima que a bancada tucana começará 2015 com, no mínimo, 36 representantes e, no máximo, 53.

Segurado atribui a derrocada tucana a dois fatores principais. Primeiro, à perda da presidência em 2002 para Lula. “Ali ele [partido] perde também a visibilidade, porque o governo, para o bem ou para o mal, dá visibilidade”, pontua. Segundo, à incapacidade de constituir uma oposição sólida e atuante, que de fato pressionasse o governo federal. “O PT, por exemplo, perde em 89, 94 e 98, mas fazia uma oposição que muita gente diz ser melhor do que a situação. Ia para cima, cobrava, se articulava, movimentava a sociedade civil, enfim, fazia barulho, porque isso era de sua natureza. Já o PSDB foi criado de uma ruptura do PMDB, na Assembleia Legislativa de São Paulo. Acho até que eles foram longe demais”, pondera.

O processo de decadência do PSDB foi, entretanto, bem mascarado, tanto pela mídia tradicional, que historicamente o apoia, quanto pela relativa competitividade nas eleições majoritárias. Rudá Ricci lembra que, em 2012, a legenda perdeu 34 prefeituras em São Paulo e outras 18 em Minas Gerais, estados governados pelos tucanos e onde normalmente se dá seu melhor desempenho. “Mas se isso acontecia, quando o PSDB ia para as majoritárias chegava ao segundo turno, e isso puxava, pela polarização, uma bancada mínima. O PSDB aparecia como principal partido de oposição e isso lhe conferia uma exposição pública, principalmente nos jornais, como o agente anti-PT”, esclarece o cientista político.

Alguns especialistas já comparam o processo tucano à situação vivida recentemente pelo Democratas ao fim das últimas eleições. Para Rudá Ricci, no entanto, ainda é cedo para fazer a analogia. “O DEM teve uma desidratação muito profunda de prefeitos e deputados que foram para o PTB e PMDB. Ainda não há nenhuma sinalização nesse sentido no PSDB. Pode ocorrer na sequência, mas agora é pouco prudente dizer isso”, defende.

A eventual debandada de quadros não é a única incógnita no futuro peessedebista.  De acordo com Segurado, os resultados nacionais dessas eleições podem mudar o que ela chama de “vocação” do partido. “Pode caminhar para um papel mais ou menos igual ao do PMDB, que tem a vice-presidência, mas por conta de todos os problemas do presidencialismo de coalizão, não porque tem um nome nacional – e isso há muito tempo. A sigla tem força nos estados e no Congresso, mas vai ficando dentro de um contexto mais regional”, avalia.

(Crédito da foto de capa: Orlando Brito)

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1 comment

  1. Clayton Ricardo

    Há um equívoco no artigo. Essa não será a primeira derrota eleitoral acachapante de Aécio Neves. Em 1992, saiu candidato a prefeito de Belo Horizonte e terminou em terceiro lugar. Foram para o segundo turno o petista Patrus Ananias (que se elegeu) e Maurício Campos do PFL. Como mineiro e professor sinto-me de alma lavada pela derrocada de Aécio. Ainda mais se perder o governo do estado. Ficará sem espaço e só terá chances se candidatando ao senado em 2018.

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