O legado de Junho nas urnas

O legado de Junho nas urnas

Como as manifestações de 2013 estão afetando o processo eleitoral brasileiro? O antropólogo da Universidade de São Paulo (USP) Júlio Assis Simões e Tiago Tambelli, diretor do documentário 20 Centavos, falam sobre o reflexo das manifestações do ano passado no atual cenário político  

Por Marcelo Hailer

Logo depois que as manifestações de junho de 2013 arrefeceram e os institutos de pesquisa foram a campo para avaliar os governos, descobriu-se que todos haviam caído em termos de aprovação. Candidaturas que já estavam postas e que aventavam a possibilidade de vitória no primeiro turno despencaram. Agora, quando nos aproximamos da realização da primeira etapa destas eleições, os números revelam um cenário de avanço dos quadros conservadores em alguns dos locais em que ocorreram os maiores protestos, tanto nas candidaturas ao Legislativo, quanto ao Executivo.

Pode-se dizer que as manifestações foram marcantes em especial no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo. Nestes três estados, milhares de pessoas foram às ruas, em um primeiro momento protestar contra o aumento das tarifas do transporte público coletivo; posteriormente, ampliando e diversificando suas demandas a partir do episódio-símbolo da nova batalha da rua Maria Antônia, em São Paulo, no dia 13 de junho, que estampou as capas dos jornais e inundou as redes. Solidárias, milhões de pessoas foram às ruas, não mais para pedir a revogação de aumento da passagem, mas sim para dizer que estavam insatisfeitas com os serviços públicos no geral, e que desejavam mais participação no processo político-democrático. Ambas pautas que poderiam ser alinhadas à esquerda.

O Brasil entrou na rota das grandes manifestações, que já haviam chacoalhado outras partes do mundo. Nos Estados Unidos, elas ocorreram na forma no movimento Occupy Wall Street. Na Espanha, a ocupação da Praça Puerta del Sol, em Madrid, foi um sinal de protesto às medidas adotadas pelo governo de Luiz Zapatero para salvar bancos, iniciativa neoliberal perpetrada por um partido localizado tradicionalmente na esquerda, o PSOE. Na Turquia, tudo começou por conta da anunciada destruição da Praça Kasbah, que daria lugar a um shopping. Posteriormente, houve o levante no Egito que destronou o ditador Hosni Mubarak.

Nos Estados Unidos não houve mudança alguma: o mercado financeiro segue ditando as regras. Na Turquia, os conservadores permanecem no poder. Na Espanha, o PSOE foi alijado da presidência e o reacionário Partido Progressista ascendeu. No Egito, os conservadores acabaram de vencer as eleições. Em terras brasileiras, ao que tudo indica, os quadros conservadores triunfarão nos principais estados. A disputa pelo Palácio do Planalto segue uma incógnita com Dilma Rousseff e Marina Silva tecnicamente empatadas no segundo turno.

Manifestantes do Occupy Wall Street (Foto: Current.org)

Manifestantes do Occupy Wall Street (Foto: Current.org)

A direita no poder é a herança dos levantes?

O antropólogo da Universidade de São Paulo (USP), Júlio Assis Simões, discorda da tese de que junho tenha deixado como herança o conservadorismo na governança. “Não acho que a herança é essa. Acho que junho foi muito complexo e diferenciado. Começou com um movimento contra o aumento de passagens e ganhou força porque foi duramente reprimido, principalmente em São Paulo. A partir daí ganhou outra dimensão, passou a ser protesto difuso contra a estrutura política vigente e, ao mesmo tempo, uma demanda por mais e melhores serviços públicos”, analisa.

Julio Simões, professor da USP, não vê ressonância das manifestações no cenário eleitoral (Foto: Arquivo pessoal)

Julio Simões, professor da USP, não vê ressonância das manifestações no cenário eleitoral (Foto: Arquivo pessoal)

Opinião semelhante tem o documentarista Tiago Tambelli, que filmou parte das manifestações de junho e realizou o documentário 20 Centavos. Para ele, a partir do momento em que a imprensa tradicional deixa de classificar os ativistas como vândalos para tratar como manifestantes, há uma manipulação dos atos.” A primeira coisa a refletir sobre as manifestações de junho de 2013 é que elas não se iniciaram com nenhum movimento de direita, elas foram propagadas a partir de uma manifestação pública do MPL [Movimento Passe Livre], que já existia há vários anos na cidade de São Paulo”, explica. “Num dado momento, naquela nova batalha da rua Maria Antônia, a coisa se deflagrou na mídia, onde houve uma inversão de valores, pois o movimento vinha sendo caracterizado como um movimento de vândalos, sem bandeira, sem proposta. Mas como a policia na cidade de São Paulo desceu o cacete em todo mundo que estava lá, inclusive em seus próprios jornalistas, a mídia teve que mostrar o outro lado da moeda, essa foi a primeira inversão.”

Tambelli acredita que após a virada de cobertura midiática há uma “infecção” nas manifestações. “O segundo momento das manifestações foi uma apropriação dessa mesma mídia, que inverteu os valores e passou a chamar os manifestantes de manifestantes e não mais de vândalos – isso em beneficio próprio, para defender uma posição jornalística hipócrita. Ela também se apropria do movimento e catalisa parte da sociedade que estava insatisfeita com uma falsa sensação de crise institucional, muito ancorada na corrupção. O que nós vimos foi uma infecção da mídia dentro do próprio movimento, com um discurso falso de que havia uma crise institucional instalada no Brasil”, avalia.

Manifestantes ocupam a praça da Sé, em São Paulo (Foto: Documentário 20 Centavos)

Manifestantes ocupam a Praça da Sé, em São Paulo, em junho de 2013 (Foto: Reprodução/Documentário “20 Centavos”)

Junho moralizante?

A questão da pauta ser muito difusa foi amplamente debatida, e muito se discutiu que, por conta disso, nada seria realizado em termos políticos. Falava-se, ainda, que se tratava de um levante mais conservador do que progressista. Para Simões, além da pauta, o caráter ideológico também era difuso. “Esse era um foco [revogação do aumento da passagem] amplo o bastante para atrair posições e pontos de vista dos mais variados e divergentes no espectro político-ideológico. Junho também foi aquilo que costumam ser os movimentos de efervescência: relativamente espontâneos – irrompem e logo depois refluem”, pontua.

Tambelli é ainda mais cético em sua análise ao afirmar que se tratava, em boa parte, de uma massa conduzida por uma pauta conservadora e criada pela imprensa. “A bandeira do MPL era uma bandeira de tarifa zero, relacionada ao transporte público na capital de São Paulo. Não tinha nada a ver com combate à corrupção, apartidarismo ou um movimento sem partido. O que a gente escutava na rua era uma massa ignóbil da classe média que gritava ‘sem partido’. A falsa sensação criada pelo poder midiático tinha o objetivo de atacar o governo eleito democraticamente, querendo pregar no governo [federal] a imoralidade”, comenta.

Herança maldita?

As pessoas foram às ruas, pediram mudanças, mas ao que tudo indica as coisas vão permanecer como estão, isso em se tratando da estrutura estatal e do sistema político. Mas será que, além do provável avanço da direita, não teremos algum tipo significativo de herança das manifestações de junho? “Acho que ficou uma mistura de rejeição da política que está aí – uma rejeição meio moral e meio ‘existencial’ – combinada com uma certa consciência de que os serviços públicos podem e devem ser melhores, transporte, saúde, educação etc. Não acho que seja uma herança de direita, mas ela também não vai exatamente onde a esquerda disponível – PT, PSOL etc – gostaria que fosse”, defende Júlio Simões.

Para Tiago Tambeli, o legado das manifestações de junho vem na forma de crítica direta aos setores da esquerda, que, em sua opinião, quando chegaram ao poder, abandonaram suas pautas históricas. “Para a esquerda, junho de 2013 foi pedagógico, pois hoje ela está refletindo que jamais deveria ter abandonado e trocado a rua pelo gabinete. Junho mostrou para a esquerda do Brasil que se ela não ocupar a rua, a direita vai ocupar. As lutas e liberdades nunca estiveram nos gabinetes, sempre estiveram nas ruas”, critica.

Tiago Tambeli, diretor do documentário "20 Centavos", que retrata as manifestações de junho de 2013 (Foto: Arquivo pessoal)

Tiago Tambeli, diretor do documentário “20 Centavos”, que retrata as manifestações de junho de 2013 (Foto: Arquivo pessoal)

Junho vai às urnas?

Quando as ruas do Brasil foram ocupadas no ano passado, especulava-se que surgiria um novo momento de participação na política brasileira. Júlio Simões não comprou essa tese. “O modo pelo qual os candidatos são escolhidos não foi afetado severamente pelos acontecimentos de junho. Esse modo já existia antes e continuará existindo, e tem a ver com os condicionantes mais gerais das eleições para cargos majoritários: vale sobretudo o marketing e o dinheiro. Por trás disso, suspeito que exista uma atitude geral da população de que política é mesmo assim, não tem muito jeito, faz bem quando não atrapalha. Acho que junho foi um momento em que essa atitude se tornou uma explosão de rejeição e de reivindicações. Agora voltamos ao cotidiano”, analisa.

Para Tambelli, a disputa acirrada  entre Marina Silva e Dilma Rousseff representa perfeitamente o sentimento e o discurso que motivava os manifestantes. “Se nós olharmos de forma política é assim: o PT encampou a pauta da reforma política na campanha de reeleição da Dilma, e houve sucesso, você poderia dizer que parte dos manifestantes estão com a candidata Dilma. O outro ponto é a Marina Silva: é possível identificar a ressonância que ela tem na sociedade com as manifestações a partir do viés da direita, pelo viés do discurso dos ‘sem partido’. E aí entra a coisa perigosa: os mesmos que gritavam ‘sem partido’ estão votando na Marina, que está aplicando uma nova política, que, na verdade, é apolítica”, sacramenta.

(Crédito da foto de capa: Reprodução/Documentário “20 Centavos”)

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