Crônica: Político infiel pode… E eleitor infiel?

Crônica: Político infiel pode… E eleitor infiel?

Antigamente, em troca do voto do eleitor, o político dava comida, roupa e até viagem à cidade natal. Hoje, pelas notícias, uma coisa que está “na moda” agora é dar material de construção. E muita gente sugere: “Pegue o material, mas vote contra o sujeito”

Por Mouzar Benedito

Vendo, ouvindo e lendo as notícias de gente presa por fazer boca de urna ou por transportar eleitores de graça até a seção eleitoral, me lembrei de algumas eleições de “antigamente”.

Transportar os eleitores, principalmente de bairros rurais para a cidade, era praticamente uma obrigação dos candidatos.

Até de uma cidade para outra os partidos e candidatos pagavam o transporte de eleitores. Lembro-me que tinha gente que morava em São Paulo mas mantinha seu título de eleitor na cidade em que sua família morava, para aproveitar e viajar de graça para sua terra natal na época das eleições. Os candidatos pagavam a passagem e, conforme o caso, ainda dava uns “presentinhos” a mais.

No caso de cidades pequenas, em que os cabos eleitorais iam buscar eleitores de seus candidatos na roça, não se limitavam a oferecer o transporte: forneciam comida também.

No meu tempo de criança, eu via uma disputa muito acirrada, quase uma guerra, entre políticos municipais do PSD e da UDN e até me divertia.

Uma das coisas que presenciava silenciosamente era algum eleitor manhoso passar na loja do candidato do PSD e sair de lá com um presente para votar nele. Podia ser um guarda-chuva, um corte de tecido, qualquer coisa.

Depois, o mesmo sujeito passava na loja de um candidato da UDN e saía de lá devidamente presenteado de novo.

Alguns políticos descobriram um jeito de ganhar a “fidelidade” desses eleitores: davam, por exemplo, só um pé de sapato antes das eleições. Se ele fosse eleito, dava o outro. Assim, o eleitor se via forçado a votar nele.

Outros que ofereciam dinheiro davam só a metade de uma nota. Se ganhasse, entregava a outra metade depois das eleições.

No caso de eleições estaduais ou federais, os próprios presidentes municipais dos partidos às vezes exigiam presentes para apoiar um ou outro candidato, principalmente a deputado. Sei que isso acontece hoje também, mas antes as coisas eram mais explícitas.

Um exemplo, ainda do meu tempo de criança (não éramos bobos, éramos meninos observadores): Sebastião Paes de Almeida, um mineiro que tinha o monopólio da indústria de vidro plano no Brasil, resolveu ser deputado federal pelo PSD. Riquíssimo, Paes de Almeida espalhou muita grana por muitos municípios mineiros.

Na minha terra, o presidente do PSD ganhou, para apoiá-lo, um automóvel Simca Chambord, que era um dos mais caros do Brasil na época. E ainda mais: um bom dinheiro para comprar eleitores.

Acontece que ele teve um acidente com o Simca e mandou a conta do conserto para o candidato a deputado pagar. Isso, para os políticos tradicionais, era absolutamente “normal”. Ético? Claro que não, mas ética e política combinam muito pouco. Existem exceções, claro, mas poucas, muito poucas. E os “éticos” são quase sempre vistos como meio anormais, condenados ao fracasso.

As mutretas continuam, só que agora são proibidas por lei. As coisas são feitas debaixo dos panos, mas não deixaram de ser feitas. Pelas notícias, uma coisa que está “na moda” agora é dar material de construção. E muita gente sugere: “Pegue o material, mas vote contra o sujeito”.

Estranhamente, já vi gente falar muito mal de um candidato qualquer e votar nele porque ganhou alguma coisa em troca. Aliás, é (ou foi) muito comum dar jogos de camisa de futebol para times da periferia, em troca de apoio nas eleições. Políticos que sempre ferraram aquelas mesma pessoas, votando sempre contra os interesses populares, ganham o apoio em troca dessas besteiras. Não adianta discutir, provar que o voto nesse político é um tiro no pé. Esses eleitores sabem que o sujeito é sacana e contrário aos interesses deles, mas aceitam o negócio.

Lá pela década de 1980, um advogado mineiro dava assessoria de graça para 33 movimentos de moradia na região metropolitana de Belo Horizonte. Encarou vereadores safados que sacaneavam esses movimentos. Tudo de graça!

Ele saiu candidato a vereador e só quatro desses movimentos o apoiaram. Os restantes venderam seu apoio aos vereadores de sempre, sabendo que seriam sacaneados por eles nos quatro anos seguintes. Não havia ingenuidade, era safadeza mesmo. Jogos de camisa de futebol e algumas cestas básicas (só na época da eleição, não era uma coisa contínua) foi o preço do apoio. Elegeram os candidatos dos quais sempre falaram mal e com quem brigaram muito.

Não seria o caso desses eleitores serem um pouco infiéis aos compradores de voto em vez de “trair” o advogado que os defendia?

Bom… Falando em fidelidade e infidelidade dos eleitores, e voltando às minhas lembranças sobre o negócio de alimentar os eleitores no dia da eleição, lá vai uma historinha.

Às vezes era comida de verdade, acompanhada de refrigerantes. Depois chegou o tempo dos sanduíches. E sobre isso eu me lembro de uma acontecimento divertido.

Um caminhão levava de volta para um bairro rural os eleitores do PSD.

Na estrada de terra, esburacada, um eleitor com o bucho cheio se sentiu mal com o caminhão chacoalhando, e vomitou.

E levou a maior surra.

Motivo: tinha vomitado sanduíche de presunto. E esse tipo de sanduíche era fornecido só no reduto da UDN, partido adversário. O PSD, nessas eleições, dera só sanduíche de mortadela.

Político infiel não costuma apanhar, mas eleitor infiel… pelo menos esse pagou caro!

(Crédito da foto de capa: Divulgação)

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