O PSDB em um perigoso vespeiro

O PSDB em um perigoso vespeiro

O discurso extremista daqueles que se manifestaram pelo impeachment de Dilma Rousseff e pedem uma nova intervenção militar no país encontrou abrigo junto ao maior partido de oposição do país. Conseguirá o PSDB fazer frente ao PT sem aceitar essa possível base eleitoral para o futuro?

Por Vinicius Gomes

A presidenta Dilma Rousseff (PT) foi reeleita no último dia 26 com uma vantagem de 3% sobre seu adversário Aécio Neves (PSDB). Na quinta-feira (30), o PSDB requisitou, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), uma auditoria das eleições para “evitar que o sentimento de fraude continuasse a ser alimentado nas redes sociais”.

Seis dias depois, no primeiro sábado de novembro (1), duas mil pessoas fecharam parte da Avenida Paulista.  Suas vozes indignadas com o resultado do pleito, que dá a quarta vitória presidencial consecutiva ao PT, clamavam pelo impeachment da presidenta e até por intervenção militar. No dia seguinte (2), Xico Graziano, coordenador digital da campanha de Aécio, criticou o ato do dia anterior em seu perfil no Facebook. “Achei absurdo tal manifestação. Antidemocrática, não republicana. Ainda por cima, pedindo a volta dos militares, meu Deus, tô fora disso. Esconjuro”, escreveu.

Não demorou para que o ex-deputado federal pela legenda, ligado ao ex-presidente FHC, fosse chamado de “comunista”, “traíra” e, pasmem, “linha auxiliar do PT”. A cada elogio por sua lucidez na crítica, outro ataque chamando-o de “petralha”. O tucano provavelmente não suspeitava quão grande é o ódio anti-petista, a ponto de que ele próprio, tradicional tucano, fosse acusado de “traidor da social democracia”. Os principais alvos de tal turba tinham sido apenas, até aquele momento, os “nordestinos beneficiários do Bolsa Família”.

É fato que o extremo da direita costuma dar suas caras, destilando seu discurso de ódio, na esteira de uma propaganda de medo, geralmente envolvendo a economia e o risco de perda de empregos. Isso não é exclusividade brasileira, e muito menos novidade na história mundial. Mas essas pessoas que acreditam que a presidenta recém-reeleita deve ser retirada do poder – nem que por uma nova intervenção militar – seriam de fato simpatizantes peessedebistas, ou elas apenas encontraram na sigla a maior força oposicionista a um governo democraticamente eleito mas que consideram “corrupto” e “aparelhador” demais para administrar o país? Se esse for o caso, como o PSDB vai se posicionar? Refuta o golpismo e finca o pé pelo equilíbrio democrático (defendendo seu próprio passado), ou tenta abraçar estes manifestantes para aumentar seu cacife eleitoral?

Recentemente, o editora da revista Fórum Renato Rovai apelidou os manifestantes que foram à Avenida Paulista como Banana´s Party, em um paralelo ao Tea Party norte-americano, a facção ultraconservadora dentro do Partido Republicano, que acredita no segundo retorno de Jesus, é contra qualquer programa social “comunista” e é incansável em levantar a possibilidade de um impeachment do presidente Barack Obama. O termo “banana”, empregado pelo jornalista, foi usado, provavelmente, apenas para dar um ar mais tropical ao movimento.

Protesto de olho no “impeachment” de Dilma from Luiz Carlos Azenha on Vimeo.

Então seria passível de comparação com os republicanos a emergência dessa “nova” direita brasileira que marcha nas ruas em nome de Deus e da família e pede aos céus e aos militares que os libertem dos governos do PT? Segundo o sociólogo e analista político Rudá Ricci, não há resposta fácil para tal questão. “Comparar com os EUA exige compreender as divisões do conservadorismo e da direita naquele país. Há, ao menos, três grandes divisões neste bloco: Republicanos, Tea Party e Libertários”, argumenta.

Os Libertários formam um agrupamento social importante nos EUA, que radicaliza o direito individual e da propriedade e defende, acima de tudo, a Constituição norte-americana. Tanto que, ao mesmo tempo em que consideram Edward Snowden um herói (por revelar violação do direito à privacidade promovida pelo governo), também são fervorosos defensores do direito à posse de arma de fogo individual – o famoso Artigo 2 na Magna Carta norte-americana.

“Já o Tea Party é uma articulação política [não um partido] ultraconservadora e ultramoralista. Nasceu em 2009. Seu foco é o confronto com políticas sociais ou aumento de impostos. Organizam protestos contra leis federais que assumem esta orientação social”, continua Ricci. Um dos mais famosos casos ocorreu contra o Affordable Care Act [popularmente chamado de Obamacare], cujo objetivo era fornecer plano assistencial para mais de 30 milhões de norte-americanos que não tinham nenhum tipo de seguro de saúde em um país onde os valores para o atendimento médico, mesmo em hospitais públicos, eram altos demais para quem não contava com um plano de assistência médica. Isso, para o Tea Party, explica Ricci, eram medidas vistas como “socializantes, no caminho da adoção do comunismo”.

Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Em outubro do ano passado, o governo norte-americano ficou paralisado (shutdown). A Casa Branca estava impedida de pagar suas próprias contas por conta de uma reação dos republicanos para destruir o Obamacare. O que aconteceu, basicamente, é que o Partido Republicano, que tinha a maioria dos assentos na Casa dos Representantes, era a parte do Legislativo que essencialmente estava chantageando o governo, mesmo com o perigo de uma moratória. Com apenas atividades de policiais, Forças Armadas, médicos, tráfego aéreo e sistema penal tendo verba para funcionar, o Tea Party preferia ver o mundo em chamas e o inferno congelado a ter que ceder ao programa federal de assistência médica de Obama.

À época do shutdown, o linguista Noam Chomsky afirmou que havia um racha entre os republicanos, causado principalmente pela base eleitoral extremamente irracional do partido: ”O Partido Democrata de hoje se assemelha muito ao que se chamava de ‘republicanos moderados’ anos atrás. E os republicanos foram tão longe para a direita que simplesmente não conseguem mais votos […]. Então foram compelidos a mobilizar uma base de eleitores e recorreram a elementos no país que sempre estiveram ali, mas eram uma espécie marginalizada do sistema político, como os extremistas religiosos, por exemplo”.

Chomsky confirmou a existência de grandes partes extremamente irracionais da sociedade norte-americana que acabaram sendo mobilizadas politicamente pela estrutura republicana, na esperança de que essas pessoas pudessem ser uma base eleitoral que os manteria no poder. “Mas isso, partindo da presunção de que eles seriam controláveis”, pondera o intelectual. “E o que está acontecendo é que eles estão perdendo o controle dessa base. Isso é um dilema profundo para o partido republicano.”

Estaria também o PSDB, com a turma dos “bananas”, sofrendo o mesmo impasse que experimentam os republicanos em relação à turma do chá?

“Não creio que o PSDB viva esse dilema”, afirma o cientista político e professor na Universidade de São Paulo (USP) José Álvaro Moisés. “Seus dirigentes condenaram as manifestações a favor da volta dos militares. Outra coisa é se o partido quiser dialogar com esses setores: o único caminho para isso é dissuadi-los do apoio à ditadura através da demonstração de como e porque a democracia é um regime de qualidade superior.”

Para José Gregori, que ocupou os cargos de secretário nacional dos Direitos Humanos e ministro da Justiça no segundo governo FHC, quem foi à rua com demandas antidemocráticas não tem absolutamente nada a ver com o partido. “Eles não têm nenhum parentesco à alma, à história e à estratégia do PSDB, porque não têm no Brasil ninguém mais contra o autoritarismo e a favor do Estado democrático e de direto do que o PSDB”, avalia.

“Há uma direita em formação fora do PSDB, que votou contra o PT, mas que não se apresenta como necessariamente tucana”, explica Ricci. Essa direita seria ainda mais radical do que o “Tea Party tucano”. “É composta por jovens de classe média, em sua maioria, paulistanos. Possuem baixa experiência e cultura política e, por este motivo, suas formulações são primárias, sustentando rejeições, mas poucas proposições”, considera o sociólogo.

O argumento inicial de Ricci ecoa a ponderação de Gregori, quando este afirma que estes reacionários e conservadores podem “ter pegado carona” com o PSDB, por ter sido o partido que disputou o segundo turno com o PT, mas que não o representam. “Aritmeticamente eles somaram os votos contra a Dilma, mas não somaram nos votos a favor do PSDB e do Aécio, do ponto de vista de sua coerência e do PSDB defende”, garante.

Na USP, Moisés vem conduzindo pesquisas de opinião desde meados dos anos 1980 que mostram que existe no Brasil um segmento de pessoas, algo em torno de 15%, que sempre se manifesta a favor de uma ditadura. “São minoritários e não têm representação partidária clara, ao menos até agora, salvo a posição de pessoas como o deputado [Jair] Bolsonaro. É evidente que, do ponto de vista democrático, não devem ser apoiados nem estimulados, embora tenham o direito de expressar o seu ponto de vista”, analisa o professor.

“Não temos nenhuma saudade do regime militar. Isso não quer dizer que sejamos contra os militares democráticos, ou as Forças Armadas como elas têm atuado desde que o Brasil voltou ao Estado democrático e de direto”, esclarece Gregori, concluindo: “Quem tem saudade tem que se inscrever em outro partido e não no PSDB”.

E quanto ao cacife eleitoral? O PSDB abraçaria tal eleitorado para constituir sua base e conseguir derrotar o PT em futuras disputas? Só o tempo dirá.

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