Com a palavra, os homens trans

Com a palavra, os homens trans

Nos últimos anos, os homens trans têm se mobilizado para lutar contra os fatores que os segregam: discriminação e, sobretudo, invisibilidade. Conheça as demandas desse grupo, cada vez mais organizado

Por Jarid Arraes

Na sociedade, muitas pessoas fazem parte de grupos marginalizados, esquecidos e silenciados, que sofrem com os mais diversos tipos de negligência e omissão sob a sombra da invisibilidade. Os homens transexuais compõem um desses grupos, ainda hoje enfrentando barreiras sociais altíssimas, a começar pela ignorância e falta de informação. Muita gente não sabe quem são os homens trans, o que passam e o que reivindicam. Na verdade, é mais comum que exista bastante confusão, pois a maioria das pessoas sequer reconhece a existência de homens transexuais como indivíduos que reivindicam uma identidade masculina; ou seja, como homens.

Nos últimos anos, no entanto, os homens trans receberam algum destaque para levantar a voz e apresentarem suas demandas. Com o lançamento do livro “Viagem Solitária” do escritor e psicólogo João Nery, os programas da grande mídia abriram seus roteiros e cadeiras de entrevistas para que ele falasse de sua vivência enquanto homem trans, compartilhando tudo o que passou para que pudesse viver com a mínima dignidade essencial a todo ser humano.

Com o foco que João Nery trouxe à causa, vários garotos e homens transexuais se sentiram motivados e encorajados a vir a público. O resultado disso foi somado aos esforços que já existiam antes de “Viagem Solitária” e hoje há um movimento que cresce cada vez mais, de forma organizada e politizada. É o caso do IBRAT, o Instituto Brasileiro de Transmasculinidades, do qual João Nery é coordenador regional no Sudeste do Brasil. Além dele, outros conhecidos ativistas integram a organização, como o “Xande” – como é conhecido Alexandre Peixe dos Santos, um dos primeiros homens transexuais a falarem na televisão nacional aberta.

O IBRAT atua como uma rede de homens trans ativistas, formando lideranças para o movimento social, visando controle e desenvolvimento de políticas públicas, direitos e garantia de cidadania ao segmento.  É também um instituto de monitoramento e produção de pesquisas acadêmicas e grupos de estudos sobre transmasculinidades. Possui 14 núcleos estaduais nas cinco regiões do país e três núcleos de pesquisas.  Além do IBRAT, também há a iniciativa da ABHT – Associação Brasileira de Homens Trans, que tem caráter nacional e tem representado os homens transexuais brasileiros.

Assim como João Nery, o primeiro homem trans conhecido a ter sido operado no Brasil, ainda em 1977, Alexandre também enfrentou graus absurdos de violência pelo fato de ser um homem transexual. “Fui violentado sexualmente por quatro caras dizendo que aquilo era uma lição para eu aprender a ser mulher e gostar do que mulher tem que gostar. Fui surrado por vinte caras que me colocaram numa roda e diziam que se eu quisesse ser homem teria que aprender a brigar como homem”, relata.

Além de ter vivido situações gravíssimas de agressão, Xande também exemplifica outras situações de violência que são comuns a todos os homens transexuais. “Sem falar nas agressões verbais, como xingamentos. Há também a agressão velada, como entrar em uma loja de roupas masculinas e a atendente perguntar se aquelas roupas são para seu namorado, irmão ou pai”.

Devido a situações em que direitos são violados e homens trans são expostos e constrangidos, o IBRAT toma a frente de diversas demandas do grupo no Brasil. Para falar um pouco sobre essas reivindicações, João Nery e Alexandre Peixe dos Santos concederam uma entrevista à Fórum, que pode ser lida na íntegra abaixo:

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João Nery (Foto: Arquivo pessoal)

Fórum – Quais são as principais demandas dos homens trans hoje no Brasil? 

João Nery – As principais demandas do segmento de trans homens são a ampliação da quantidade de ambulatórios e de hospitais que realizem tratamento especializado do processo transexualizador; criação de programas de qualificação profissional, geração de empregos e renda; pedagogia de inclusão, com conscientização de professores e alunos, nas escolas e universidades, sobre a população homossexual/trans; previsão de espaços diferenciados para este segmento em cadeias masculinas; aprovação da PL 2005/13 – Lei de Identidade de Gênero (chamada de Lei João W. Nery).

O grupo que hoje representa os homens trans é a ABHT – Associação Brasileira de Homens Trans, de caráter nacional.

Alexandre dos Santos – Atualmente os homens trans lutam para sanar o esquecimento das nossas demandas resultante da invisibilidade nos últimos anos. Precisamos de uma atenção à saúde dos homens trans desde o processo transexualizador a todas as outras transversalidades que dizem respeito à saúde integral, considerando a perspectiva do corpo lido como sendo do sexo feminino, somos homens e exigimos respeito a nossa identidade de gênero. Lutamos por uma visibilidade que nos ajude a possibilitar mais segurança e cidadania aos homens trans.

Fórum – O movimento LGBT falha em falar das pessoas trans? 

Nery – A fala dos grupos LGBT contempla a homo-transfobia, quando discrimina as trans mulheres e travestis que são tidas como “gays afeminados” ou os trans homens, cuja maioria é vista como uma “lésbica masculinizada” que se veste como homem. Hierarquiza o próprio segmento gay, onde as mais pintosas são as inferiores na escala do politicamente correto. Falha, portanto, na compreensão e expressão do grupo que pretende representar sob aquela sigla.

Santos – Posso falar que [falha em falar] sobre os homens trans, especialmente. Visto que historicamente nosso segmento tem autoproduzido a invisibilidade e tem menos de uma década de ativistas homens trans se expressando publicamente, é natural o desconhecimento sobre o assunto. O movimento organizado de homens trans possui menos de cinco anos de existência e vive um momento introspectivo de conhecimento e levantamento das nossas próprias demandas. Externando essa visibilidade aos poucos, em parceria com o movimento organizado de travestis e mulheres transexuais, vinte anos à frente dos homens trans na militância organizada. Cabe a nós o esclarecimento coletivo no movimento LGBT e fora dele. Especialmente no que diz respeito à diferença entre orientação sexual e identidade de gênero.

Fórum – Em eventos e grupos nos quais as questões trans são abordadas, os homens trans passam por invisibilidade?

Nery – Certamente que sim. A categoria trans é sempre a que tem mais invisibilidade, sobretudo os trans homens, uma minoria ainda menor, dentro da minoria.

Santos – Sim, por todos os motivos já citados na pergunta anterior. Atualmente, o IBRAT atua como núcleo de homens trans da ANTRA, Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Essa parceria nos ajuda a ter autonomia ao tratar das demandas específicas dos homens trans e visibilidade política. Consideramos de grande importância que as identidades políticas trans, travestis, mulheres transexuais e homens trans estejam unidas para fortalecimento mútuo. Aos poucos estamos ganhando visibilidade e autonomia no movimento social e discussões acadêmicas, com as atividades do núcleo de pesquisa e a inserção de homens trans na academia.

Fórum – Como ficaram as questões trans no governo Dilma Rousseff (PT)? Houve avanços ou retrocessos?

Nery – Nos últimos quatro anos, o governo Dilma Rousseff não fez o que se possa considerar de relevante, que se destaque em benefício da população trans. E as carências são muitas. Pelo fato de não ter ampliado em quantidade satisfatória os ambulatórios para atendimento especializado e nem hospitais que realizassem cirurgias necessárias ao processo transexualizador, não houve incentivo para avanços e aprimoramento médicos e profissionais na área. Governando sob a pressão da bancada evangélica do congresso, arquivou a PL 122, uma reivindicação antiga para criminalização da homofobia. Engavetou também o kit anti-homofobia para as escolas. O PNE também sofreu censuras em relação à igualdade de gênero. Enfim, um retrocesso para um país que se diz democrático e laico. Até a permissão para o uso do nome social no exame do ENEM foi de certa forma incompleta, já que a informação não constou oficialmente no edital. Os interessados tinham que fazer uma ligação telefônica para a solicitação e muitos e muitas não conseguiram, devido ao fato das linhas estarem congestionadas.

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Alexandre dos Santos (Foto: Arquivo pessoal)

Fórum – É possível unir as pautas feministas e as pautas dos homens trans?

Nery – O transfeminismo é um feminismo “ousado” tanto como filosofia, como prática. Advém do feminismo negro e recentemente inclui os trans homens, caracterizando-se por um conceito amplo de   interseccionalidade e da noção de opressão. A unificação de pensamento se dá na necessidade de combater a visão biologizante (sexo = genitália), de que o sexo tem primazia sobre a noção de gênero. Acredito que com a maior visibilidade dos trans homens e sua participação cada vez mais ativa nas discussões, poderemos ter uma maior inclusão de seus membros, sempre no combate ao machismo.

Santos – Seguramente, o IBRAT tem pensado em pautas como o transfeminismo para homens trans e a pauta do homem trans negro. Homens trans, em sua maioria, tiveram uma socialização enquanto mulher, mesmo que essa não fosse sua identidade de gênero. Mulheres são criadas para silenciar, não reivindicar, não questionar, para a submissão diante do gênero masculino e toda a patrulha do corpo e expressão de gênero. Sendo assim, não é incomum que homens trans imprimam na sua personalidade alguns desses sentimentos de impotência e insegurança. Reivindicar a masculinidade em um corpo destinado ao feminino é uma afronta à masculinidade falocêntrica vigente. Assim como mulheres, homens trans são vítimas diretas do machismo e vivem na iminência da violência de seus corpos e da sua identidade.  É imprescindível fomentar discussões sobre o transfeminismo entre homens trans. Feminismo diz respeito a mulheres, mas diz também respeito a homens que possuem um corpo designado ao feminino e uma socialização enquanto mulheres.

Fórum – Os movimentos sociais podem melhorar a abordagem às questões dos homens trans? De que forma outros grupos podem contribuir com as reivindicações?

Santos – A melhor forma seria que esses movimentos dessem voz ao movimento organizado de homens trans, através da rede nacional IBRAT e seus ativistas pelo Brasil. Esperamos que homens trans não continuem esquecidos, desrespeitados e invisibilizados. Lutaremos incansavelmente para que estejamos cada vez mais fortalecidos e que possamos exercer plenamente a nossa cidadania enquanto homens que somos.

(Foto de capa: IBRAT)

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