A guerra “gelada” dos EUA contra a Rússia

A guerra “gelada” dos EUA contra a Rússia

O ano de 2014 foi marcado pela tentativa incansável do governo norte-americano de isolar, alienar e enfraquecer a Rússia, utilizando a Ucrânia como bucha de canhão. E, como os últimos meses mostraram, há pouco que Vladimir Putin e o resto do mundo possam fazer para deter os interesses político-corporativos dos EUA

Por Diana Johnstone, em Counterpunch | Tradução por Vinicius Gomes

Em 2014, os Estados Unidos agiram dentro de um cenário montado para: 1) reassumir o controle norte-americano sobre a Europa, bloqueando o comércio entre União Europeia e Rússia; 2) levar a Rússia à falência; e 3) livrar-se de Vladimir Putin e substituí-lo por um fantoche, como o falecido beberrão, Boris Yeltsin. Os últimos dias deixaram claro o lado sórdido da guerra econômica dos EUA contra a Rússia.

Tudo começou com um importante encontro internacional sobre o futuro da Ucrânia, em setembro de 2013, onde o principal tópico versava sobre a revolução do gás de xisto, que os EUA esperavam usar para enfraquecer a Rússia. O ex-secretário de energia norte-americano, Bill Richardson, estava na reunião para fazer a “venda”, sendo aplaudido por Bill e Hillary Clinton. Washington esperava usar suas técnicas de fracking para fornecer um substituto às fontes de gás natural, tirando a Rússia do mercado.

Mas esse truque não cumpriria seu objetivo, dependendo apenas do sacrossanto “mercado”, uma vez que o fracking é mais caro que a extração do gás russo. Uma enorme crise era necessária para distorcer o mercado com pressões políticas. Com o golpe de Estado, em 22 de fevereiro, arquitetado por Victoria Nuland, os EUA tomaram efetivamente o controle sobre a Ucrânia, colocando no poder o seu representante, Arseniy Yatsenyuk, ou apenas “Yats”, que promoveu a adesão ucraniana à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

Essa ameaça direta à base naval russa na Crimeia conduziu ao referendo que devolveu à Rússia, de maneira pacífica, a península que historicamente lhe pertenceu. Mas o coro conduzido pelos EUA condenou tal retorno como uma “agressão militar da Rússia”. Essa ação defensiva é utilizada pela Otan como uma prova das intenções de Putin em invadir seus vizinhos europeus, sem motivo algum.

Enquanto isso, a “invasão” econômica dos EUA passou despercebida.

A Ucrânia possui algumas das maiores reservas de gás xisto da Europa. Assim como outros europeus, os ucranianos se colocaram contra o uso do fracking por conta dos danos ambientais em suas terras, mas, diferente de outros países, a Ucrânia não possui qualquer legislação restritiva quanto a isso. A Chevron já está no páreo, assim como R. Hunter Biden, o filho do vice-presidente dos EUA, que está na banca de diretores da Burisma Holdings, a maior produtora privada de gás na Ucrânia.

O jovem Biden estará no comando da unidade legal da Burisma para contribuir com sua “expansão internacional”. A Ucrânia também possui um solo fértil. A Cargill, gigante norte-americana do agronegócio, é particularmente ativa no país, investindo em elevadores para grãos, ração animal, uma enorme produção de ovos e um escritório de negócios chamado UkrLandFarming, assim como no porto de Novorossiysk, no Mar Negro. O também muito ativo Conselho de Negócios EUA-Ucrânia inclui executivos da Monsanto, John Deere, CNH Industrial, DuPont, Eli Lilly&Company.

A Monsanto planeja construir uma “instalação de sementes de milho não-modificados geneticamente” de 140 milhões de dólares, evidentemente almejando o tímido mercado transgênico na Europa. Foi em uma reunião patrocinada pela Chevron, nesse Conselho comercial, que Victoria Nuland mencionou, em seu discurso, os cinco bilhões de dólares gastos pelos EUA nos últimos 20 anos para conquistar a Ucrânia.

Em 2 de dezembro, o presidente Petro Poroshenko nomeou três estrangeiros como ministros: um norte-americano, um lituano e um georgiano. Alguns minutos antes da nomeação, ele concedeu a estes a cidadania ucraniana: a norte-americana Natalie Jaresko é a nova ministra das finanças do país. Vinda de uma família com origens ucranianas e formada pelas universidades de Harvard e DePaul, Jaresko saiu do departamento de Estado para Kiev, quando a Ucrânia conquistou sua independência da União Soviética, com o objetivo de chefiar o departamento econômico da recém-inaugurada embaixada dos EUA. Três anos depois, ela saiu da embaixada para comandar a Western NIS Enterprises Fund, financiada pelo governo norte-americano. Em 2004, ela estabeleceu seu próprio fundo de equidades. Como apoiadora da Revolução Laranja de 2004, ela serviu como “laranja” do presidente Viktor Yushchenko no Conselho para Investimentos Estrangeiros.

O banqueiro lituano Aivaras Abromavicius é o novo ministro da Economia, colocando a política econômica do governo claramente sob influência dos EUA – ou até sob seu controle. O novo ministro da Saúde, Aleksandr Kvitashvili, da Georgia, é educado nos EUA e não fala ucraniano. Ele já havia servido no mesmo cargo em seu país nativo, quando o fantoche norte-americano Mikheil Saakashvili foi presidente.

A presença dos EUA na economia da Ucrânia está agora completa. O cenário foi montado para começar as ações de fracking,provavelmente transformando Hunter Biden no mais novo oligarca da Ucrânia. Ninguém está mencionando isso, mas o controverso acordo comercial entre a União Europeia e a Ucrânia, cujo adiamento impulsionou os protestos na praça Maidan – que culminaram com o golpe de Estado em fevereiro –, removeu barreiras comerciais, permitindo a entrada das exportações agrícolas da Ucrânia, produzidas por corporações norte-americanas, nos outros países europeus.

O governo ucraniano está profundamente endividado, mas isso não evitará que tais corporações tenham enormes lucros à custa dos salários baixos e mercado desregulado da fértil Ucrânia. Os países produtores de grãos na Europa, como a França, podem ser severamente prejudicados pela competição barata. O ataque do governo russofóbico de Kiev no leste ucraniano está matando o setor industrial do país, cujos mercados estão na Rússia. Mas para os chefões do governo, no oeste ucraniano, isso não importa: a morte de uma indústria velha pode manter os salários baixos e os lucros altos.

Logo que os EUA tomaram controle da economia ucraniana, Putin anunciou o cancelamento do projeto de gasoduto South Stream, cujo acordo havia sido assinado em 2007 entre a Gazprom russa e a petroquímica italiana ENI, como maneira de garantir a entrega do gás russo aos países do Balcãs, Áustria e Itália – circundando a Ucrânia, que se provou nada confiável como um país de trânsito, por conta de suas repetidas falhas em pagar suas contas ou desviando o gás destinado para a Europa, para seu próprio uso. A alemã Wintershall e a francesa EDF também haviam investido no projeto South Stream.

Nos meses recentes, representantes norte-americanos passaram a colocar pressão nos países europeus envolvidos para saírem do acordo da South Stream, que era um potencial “salva vidas” para a Sérvia, por exemplo, que continua empobrecida desde os bombardeios da Otan e a privatização barata de suas indústrias para países estrangeiros. Além disso, o governo sérvio em Belgrado resistiu aos alertas que o país deveria se juntar à política externa da UE contra a Rússia, se quisesse garantir seu status de candidato à adesão do bloco.

O “elo fraco” era a Bulgária, que também se beneficiaria como país de trânsito para o gasoduto. Na capital búlgara Sofia, a embaixadora norte-americana Marcie Ries passou a ameaçar os empresários búlgaros de que eles poderiam se prejudicar se fizessem negócios com empresas russas, que estão sob sanções. O presidente de saída da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, de Portugal, também ameaçou a Bulgária por seus contratos da South Stream. Finalmente, o deputado John McCain, ex-candidato à presidência dos EUA, voou até Sofia para forçar o primeiro-ministro búlgaro Plamen Oresharski a sair do acordo, deixando a South Stream “perdida” no Mar Negro sem um ponto de entrada no continente através dos Bálcãs.

Isso tudo é muito cômico, considerando o mote propagandista favorito dos EUA contra a Rússia: de que a Gazprom é uma nefasta arma política usada por Putin para “coagir e intimidar” a Europa. A única evidência para tal é que a Rússia tem repetidamente exigido, em vão, que a Ucrânia pague suas já atrasadas contas do gás.

O cancelamento da South Stream é mais um golpe da Otan contra a Sérvia. O primeiro-ministro sérvio Aleksandar Vucic lamentou a perda da South Stream afirmando: “Nós estamos pagando o preço por um conflito entre grandes potências”. Os parceiros italianos do acordo também ficaram muito insatisfeitos com as enormes perdas, mas os oficiais da UE, assim como a mídia, estão jogando a culpa em Putin – como sempre.

Talvez, quando você é repetidamente insultado e não se sente “bem-vindo”, você vai embora. Putin levou seu projeto de gasoduto aos turcos e, imediatamente, o vendeu para o primeiro-ministro Recep Erdogan. Isso parece ser um bom negócio para a Rússia e Turquia, mas a verdade sobre o caso ainda é obscura.

As reservas naturais da Rússia são usadas como meio de coerção? Se Putin pudesse usar a Gazprom para mudar a política de Erdogan para com a Síria, e acabar com sua determinação em tirar Bashar al-Assad do poder, tendo como ganho a derrota dos fanáticos do Estado Islâmico, tal acordo teria um excelente resultado. Mas, até agora, não há sinais de que seja o caso.

A mudança dos Bálcãs para a Turquia aprofunda ainda mais o abismo entre a Rússia e a Europa Ocidental, que em longo prazo prejudicará os dois. Mas isso também aumenta a desigualdade econômica entre o Norte e o Sul europeus: a Alemanha ainda recebe suas entregas de gás russo, principalmente por conta de a co-autoria do projeto Nord Stream com Putin ter sido o ex-chanceler alemão Gerhard Schoreder. Mas os países da Europa mediterrânea, já afundados em uma crise causada pelo euro, foram deixados “ao relento”. Essa reviravolta de eventos pode contribuir para uma revolta política que está crescendo nesses países.

Ao passo que vozes estão se elevando na Itália, reclamando de que as sanções contra a Rússia estão prejudicando a Europa, mas deixando os EUA intocados, os europeus podem encontrar conforto nas ternas palavras do laureado com o Nobel da Paz sentado na Casa Branca, que exaltou a União Europeia por “fazer a coisa certa”, apesar de isso “ser duro para a economia europeia”.

Em um discurso para empresários corporativistas, em 3 de dezembro, Barack Obama disse que as sanções tinham a intenção de mudar a “mentalidade” de Putin, mas não achava que isso iria acontecer. Ele está esperando que os “políticos na Rússia percebam o que está acontecendo na economia” e é por isso que eles continuarão com as sanções. Isso foi outra maneira de dizer que roubar o mercado de gás natural da Rússia, forçar a Europa a aplicar sanções e conseguir com que os fantoches norte-americanos na Arábia Saudita inundassem o mercado com petróleo para derrubar seu preço – tudo isso com a intenção de fazer o povo russo jogar a culpa em Putin e, finalmente, se livrar dele. Em resumo, uma mudança de regime.

No dia seguinte, 4 de dezembro, a Câmara dos Deputados nos EUA expôs, de maneira oficial, o motivo por trás da bagunça, daquilo que é, provavelmente, a pior resolução legislativa a ser adotada: a Resolução 758.

Tal resolução é um compêndio de todas as mentiras lançadas contra Vladimir Putin e Rússia, em 2014. Provavelmente, nunca antes tantas mentiras foram reunidas em um único documento oficial e, ainda assim, essa propaganda de guerra foi aprovada por 411 votos a 10. Se, apesar desse clamor por guerra entre duas potências nucleares, ainda existirem historiadores no futuro, eles devem julgar tal resolução como prova da total falência da inteligência, honestidade e senso de responsabilidade do sistema político que Washington está forçando goela abaixo ao resto do mundo.

O congressista Ron Paul escreveu uma excelente análise desse vergonhoso documento intitulado “Congresso inconsequente declara guerra contra Rússia”. Seja lá o que se pense sobre as políticas domésticas de Paul, no campo internacional, ele se destaca como uma solitária – extremamente solitária – voz racional.

Após uma longa lista de mentiras, insultos e ameaças, percebe-se o lado comercial dessa perigosa campanha. A Câmara pede que os países europeus “reduzam a habilidade da Rússia em usar seu suprimento de energia, como forma de aplicar pressões político-econômicas em outros países” e “urge ao presidente que autorize a exportação de gás natural liquefeito para a Ucrânia e outros países europeus”.

O Congresso está pronto para se arriscar e até promover a guerra nuclear, mas o resumo disso é uma maneira de roubar o mercado de gás natural da Rússia, substituindo-o com aquilo que até agora não passa de um blefe: o gás de xisto através do fracking norte-americano.

Pior que a Guerra Fria

Os neoconservadores que manipulam os inábeis políticos norte-americanos não colocou o mundo em uma nova Guerra Fria: isso é muito pior. A longa rivalidade com a União Soviética se manteve “fria” por conta do princípio da Destruição Mútua Assegurada. Tanto Washington quanto Moscou sabiam perfeitamente que uma guerra “quente” significaria o uso de mísseis nucleares que destruiriam a todos.

Dessa vez, os EUA acham que já “venceram” a Guerra Fria e parecem embriagados com um senso de autoconfiança de que o podem fazê-lo novamente. Os norte-americanos estão renovando a força de suas armas nucleares e construindo um “escudo nuclear” na fronteira russa, cujo único propósito é dar aos EUA a capacidade de atacar primeiro – a habilidade de acabar com qualquer chance de retaliação russa contra um ataque norte-americano. Isso não vai acontecer, mas enfraquece a paz.

O perigo de um confronto direto entre as duas potências nucleares é, na realidade, muito maior do que na época da Guerra Fria. Nós estamos agora em uma “Guerra Gelada”, pois nada que os russos digam ou façam terá algum efeito. Os neoconservadores, que fabricam a política dos EUA por trás das cortinas, inventaram uma história totalmente ficcional sobre a “agressão” russa – que o presidente dos EUA, a grande mídia e agora o Congresso aceitaram e aprovaram. Os líderes russos responderam com honestidade, verdade e bom senso – permanecendo calmos, apesar dos ataques contra eles. Porém, isso não lhes fez nada bem. As posições estão congeladas. Quando a razão falha, aparece a força. Mais cedo ou mais tarde.

(Foto de capa: Reprodução)

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