ladrões de coca-cola

  voltava do trabalho caminhando,...

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voltava do trabalho caminhando, como sempre faço.
 
dedico-me ao exercício peripatético desde a tenra juventude.
 
caminhava, então, margeando a estrada de ferro abandonada que rasga a cidade de aracaju quando um carroceiro freou sua diligência.
 
do alto, o cocheiro gritou: vou até o final do trilho, o senhor não quer uma carona?
 
não queria, mas não seria deselegante com este fraterno desconhecido.
 
subi, tal qual um fidalgo do século XIX.
 
troc, troc, troc…
 
enquanto o cavalo trotava eu pensava: tantos carros passaram por mim antes deste miserável.
 
uns, pilotados por amigos, chegavam mesmo a buzinar; parar, nunca.
 
tá osso esse natal não é meu senhor?, perguntou-me o cocheiro, puxando conversa.
 
era véspera da festa do papai noel e em datas festivas costuma-se substituir qualquer indagação climatológica pelo assunto do dia.
 
pra mim, respondi meio fleumático, o que não pode faltar no dia de hoje é isso que o senhor me deu agora: amor e solidariedade.
 
ele sorriu com os poucos dentes que lhe restavam, concordando. 
 
o cavalo eriçou a crina, ergueu o rabo e peidou. 
 
a carroça é o único veículo cujo escapamento está virado para a cara do condutor.
 
eu trabalhei nesse prédio, falou-me o homem – insensível aos flátulos do animal rocinante – apontando um lindo edifício residencial.
 
conheço o homem que o construiu, é meu amigo, o engenheiro Alb…
 
o cocheiro não me deixou concluir. ah, foi preciso muito homem pra construir esse prédio, meu senhor. um homem só não faz isso, não.
 
eu mesmo recolhia o entulho e jogava na boca do mangue, meu filho trabalhou de ajudante de pedreiro e o meu genro assentou o piso com a turma dele.
 
era gente pra burro: soldador, eletricista, mestre de obra…
 
com mil diabos, eu pensei, esse sujeito faz parte da história desse edifício, mas na placa só constava o nome do meu amigo engenheiro.
 
o carroceiro emendou ainda: olhe, quando falam das pirâmides, sempre dizem o nome de um faraó e atribuem a ele a construção.
 
o diabo é que o tal faraó nunca deve ter dado uma martelada num prego.
 
ao dizer isso ele gargalhou, quixotescamente, seguido pelo relincho do cavalo, que parecia entender tudo o que o colega dizia.
 
eu ouvi em silêncio e fiquei pensando: você lê a bíblia e não sabe quem foi a costureira diligente que cingiu a túnica do cristo e que, diligentemente, remendava-lhe os furos provocados pelo roçar na relva seca e espinhosa do caminho.
 
não sabemos quem costurava suas sandálias de couro de burro.
 
tampouco sabemos o nome do cabra que construiu a cruz.
 
menos ainda quem foi o camponês que plantou e regou a semente cuja árvore, ao invés de fruto, deu a madeira ao carpinteiro insensível construtor de cruzes.
 
em meio a estes pensamentos percebo, do outro lado da pista, na mão contrária à nossa, uma aglomeração de carros.
 
pessoas descem dos carros, das motos, dos ônibus.
 
ao chegar mais perto, percebemos, tombado, um caminhão carregado de garrafas pets de coca-cola e a multidão a saqueá-lo.
 
um motorista, de camisa polo com a estampa de um jogador de golf, deixa no carro a esposa e os três filhos – que provavelmente voltavam da escola – e vai furtar os refrigerantes.
 
grande exemplo.
 
belo presente de natal para família, garrafas furtadas.
 
como formigas sobre o açucareiro, o povo avançava e enchia mochilas, sacolas, porta-malas.
 
o motorista parou o ônibus e o trocador correu para furtar pra ele e pro colega; os passageiros, oportunistas, avançaram sobre a mercadoria.
 
motobys, carros de transporte escolar e outros com logos de firmas, uma pick up toro, uma hilux…
 
menos o carroceiro.
 
o carroceiro, assistindo toda aquela barbárie, me disse: veja só, meu senhor, quem destes aí não teria dois reais para comprar uma garrafa destas?
 
agora imagine o senhor, continuou ele, que o pobre do motorista, além de pagar pelo prejuízo do caminhão, ainda terá que se responsabilizar pela mercadoria.
 
e os jornais, emendou o cavalo relinchando, amanhã falarão do saque, das garrafas e até do fabricante. e nós vamos ficar sem saber o nome do infeliz que diria aquela geringonça e o tamanho do prejuízo que ele terá que arcar.
 
palavra da salvação.

 


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