Reeleita, Dilma passeia pelas Maratonas de Chicago, Nova Iorque e Filadélfia

Se estivessem por aqui, Dilma e qualquer brasileiro sentiria a força dos cidadãos de Chicago, de Nova Iorque e da Filadélfia, que exigem o máximo da organização dos eventos que sediam, e que se envolvem com o evento; sentiríamos a força de milhares de...

Lições de cidadania na Maratona de Chicago

Entrevistas – Eliud Kipchoge (vencedor da maratona de Chicago) e  Heleno Fortes, maratonista e Diretor Técnico da HF Treinamento Esportivo

Heleno Golden Four BSB 2012

Por Ronaldo Ribeiro, de Chicago

Brincadeira, claro.

Se estivesse por aqui, o que veria a nossa presidente reeleita? Que lições tiraria sobre a organização de eventos nos Eua? E que paralelos poderiam ser traçados entre as duas culturas, a brasileira e a americana, com relação à nossa forma de organizar grandes eventos?

Como povo e nação, o que aprendemos depois de termos sediado a Copa do Mundo de 2014? O que a presidente reeleita Dilma Rousseff teria a aprender com a forma de organizar eventos nos Eua? E, talvez de forma mais importante, o que todos nós cidadãos brasileiros teríamos a aprender com eventos como as Maratona de Chicago, Nova Iorque e Filadélfia?

As controvérsias sobre o Brasil ter sediado a Copa voltarão à tona com a aproximação das Olimpíadas de 2016 no Rio. Atraso nas obras, tráfico de influência em licitações, desperdício e mau uso de dinheiro público e privado serão novamente tópicos de debates acalorados. Para evitarmos os mesmos erros cometidos na organização de mais um megaevento, o que fazer?

Sem dúvida que questionar, apurar e punir os abusos e ingerências durante a organização e promoção de um evento de tamanha proporção foi parte fundamental do aprendizado. Penso, contudo, que um dos benefícios de tais eventos é que os mesmos forçam a todos nós a sermos mais cidadãos. Tais eventos obrigam a todos nós a nos envolvermos direta ou indiretamente com questões ligadas à cidadania. Somos forçados a pensar sobre a organização e utilização do espaço público; sobre quais são ou deveriam ser as prioridades de nossa cidade, de nosso estado e do país como um todo; sobre como nossos representantes gerenciam o orçamento público em função dos nossos interesses. Porque um megaevento é uma experiência coletiva comprimida em termos de tempo e espaço.  Sendo assim, funciona como uma lente de aumento colocada sobre todos nós, e a partir desse olhar podemos ver como nós nos comportamos como cidadãos.

E como é que nós nos comportamos como cidadãos durante a Copa do Mundo? Mais ainda, como é que nós nos comportamos durante as eleições presidenciais, e como nos comportaremos em dois anos durante as Olimpíadas?

Acabo de presenciar a maratona de Chicago. Guardadas as devidas proporções, poderíamos chamá-la de um grande evento que envolve muito planejamento e envolvimento da população. O mesmo em Nova Iorque e na Filadélfia em anos passados quando estive lá. Após assistir a maratona, fica claro para mim que temos muito o que aprender com a forma com que os americanos organizam seus eventos. Verdade, os Estados Unidos deram e dão ao mundo aberrações como George Bush, tiroteios em escolas secundárias, e vários tipos de expressão cultural acertadamente classificadas de forma sumária como enlatados. Verdade. Em termos de organização de eventos, repito, os americanos sabem o que fazem.

O que teriam visto e aprendido Dilma Rousseff e Aécio Neves se tivessem corrido as Maratonas de Chicago, Nova Iorque e da Filadélfia? (o exercício mental de visualizar Dilma e Aécio em ação é no mínimo grotesco) Talvez de forma mais importante, o que teríamos todos nós cidadãos brasileiros aprendido com a forma dos americanos de organizar seus eventos se tivéssemos participado dessas maratonas?

Fundamentalmente, e este é meu ponto, Dilma, Aécio e qualquer brasileiro sentiria a força dos cidadãos de Chicago, de Nova Iorque e da Filadélfia, que exigem o máximo da organização do evento, e que se envolvem com o evento; sentiríamos a força de milhares de pessoas que acordaram cedo para serem voluntários, para torcer, para se divertirem, para prestigiar, para simplesmente participarem, e para exigirem direta ou indiretamente de seus governantes que um evento público seja feito da melhor maneira possível, e que assim valha cada centavo do dinheiro do contribuinte.

Chicago deu ao mundo notáveis como Muddy Water, Howlin’ Wolf, Nat King Cole e Benny Goodman. Dilma, Aécio e qualquer brasileiro sentiriam a força do som desses mestres enquanto estivessem assistindo ou correndo a maratona. Sentiriam a beleza da arquitetura de Mies Van der Rohe, Frank Lloyd, e também das obras de Chagal e Picasso a céu aberto.

Lições de cidadania…   São essas algumas das lições das maratonas de Chicago, Nova Iorque e Filadélfia, para Dilma, para você e para mim…

Entrevista com os atletas de elite – Kenenisa Bekele, Eliud Kipchoge, Rita Jeptoo, Florence Kiplagat

 

Kenenisa Bekele, recordista mundial dos 5km e 10km

Talvez eu tenha sentido um pouco de overtraining em Paris. Sinto-me mais experiente agora.”

Venho da pista, e a maratona é uma competição bastante diferente, seu competidores não interessam, é uma luta contra você mesmo”

O único recorde que tenho a quebrar é o da maratona, estou trabalhando para isso”

 

Rita Jeptoo, campeã da Maratona de Chicago em 2014 e 2013

Muito vento nos últimos 15k da prova. Estava focada, não pensava em nada, apenas na vitória. Consegui…   

Quando você está treinando você sempre pensa: “Até onde meu corpo pode ir?” Hoje ele foi até onde eu quis…”

 

Eliud Kipchoge, melhor tempo de 2h4m5seg, Berlim 2013

Estou me preparando para ir além da minha melhor marca em Berlin. Autoconfiança é tudo, e eu acredito em mim.”

 

Florence Kiplagat, campeã da Copa do Mundo de Meia-Maratona, Nanning, China, 2010

Como atleta, tenho que ser flexível, saber me adaptar…   isso tem sempre que estar em sua mente.”

 

Entrevista – Heleno Fortes

Diretor Técnico e idealizador da HF Treinamento Esportivo, maratonista (melhor tempo 2h33m50s, Chicago, 2012)

 

Revista Fórum – O escritor Haruki Murakami escreveu o livro “Do que eu falo quando eu falo de corrida”. Em mais de vinte anos como treinador e corredor,  vinte e uma maratonas, sendo dezoito abaixo de 3 horas, e nove abaixo de 2h e 40min, afinal, o que você fala quando fala de corrida? E o que passa na sua cabeça durante uma maratona?

Heleno Fortes – Normalmente quando falo sobre corrida com iniciados e aficcionados, falo sobre os aspectos técnicos. Contudo, principalmente com aqueles que não praticam ou acompanham o esporte, tento sempre salientar os aspectos psicológicos e motivacionais, aspectos que podem ser de interesse tanto para aqueles que praticam qualquer atividade física como para aqueles sem nenhuma ambição atlética. Se inicialmente a corrida pode parecer uma atividade banal, já que não oferece desafios técnicos como os do tênis, da natação ou os do futebol, a praticidade da corrida, a facilidade com que pode ser praticada, a torna uma atividade ideal para aqueles com uma vida ocupada. Afinal, qualquer um pode correr, mesmo que não tenha nenhuma orientação. Comparativamente, é um esporte com poucos custos, ideal para aqueles que desejam desenvolver não só o físico mas também a concentração e a disciplina. Apesar da aparente simplicidade, há um mundo de possibilidades dentro do esporte, e são os aspectos psicológicos e motivacionais que me mais me entusiasmam. E é sobre eles que prefiro falar quando falo de corrida.

Revista Fórum – Pode explicar o que quer dizer sobre os aspectos psicológicos e motivacionais relacionados à corrida

Heleno Fortes – Cada distância oferece seus desafios e suas recompensas físicas e emocionais. Falando sobre a maratona, sabe-se que ela é uma prova longa, e assim desenvolver a habilidade de pensar de forma positiva e realista durante a competição, avaliando constantemente o próprio desempenho, faz parte do treinamento e da performance de um atleta. O participante deve ter metas claras e atingíveis, e deve mentalizá-las antes e durante a prova. Fundamentalmente, o atleta deve aprender a ler bem os sinais que o corpo emite, para que, junto com o treinador, as variáves do treino sejam ajustadas. Além da mentalização das situações principais e ideais, o maratonista deve também estudar o trajeto antes das competições e saber aquilo que pode dar errado durantes as provas. Todo esse processo de educação física enriquece o cotidiano do praticante, que acaba por aumentar sua consciência corporal. Em resumo, para ter uma performance ideal, o maratonista deve pensar durante a maratona naquilo que já tinha pensado anteriormente durante os treinos, deve ativar durante a prova a memória física e sensorial que ele construiu durante toda sua preparação.

Revista Fórum – Memória física e sensorial para a corrida? Pode explicar?

Heleno Fortes – O treinamento esportivo produz mudanças fisiológicas no corpo do praticante. A cada sessão de treino acontecem, por exemplo, dentre outros processos físicos, micro-lesões nas fibras dos músculos, que por sua vez geram adaptações musculares. Essas adaptações permitem maior capacidade de desempenho do praticante, constroem uma “memória física”. Essa memória física é formada por um repertório de movimentos associados a um ritmo que o atleta poderá desempenhar durante os treinamentos e as competições. Dito de outra forma, o praticante treina para construir essa memória física de movimentos diretamente relacionadas a um determinado esforço muscular. Junto com esse repertório físico, durante o processo de treinamento, o atleta também constrói seu repertório sensorial, formado pela memória das sensações que ele teve antes, durante e depois dos treinos. Surpreende que o treinamento da memória sensorial ainda seja bastante negligenciado pelos praticantes de corrida, dada a sua importância para a melhoria da performance – e também para o aumento da satisfação da prática esportiva da corrida.

Revista Fórum – Por que essa negligência acontece?

Heleno Fortes – Uma das possíveis explicações é que o corredor foca demais nos aspectos físicos do treinamento. Como a corrida não é nem um esporte de grupo nem uma prática que envolve as reações de oponentes – como no basquete, nas lutas ou no tênis –, muitos corredores tem uma abordagem “matemática” para treinar; simplesmente calculam o tempo e o esforço físico para chegar de A até B. Em outras palavras, canalizam toda ou quase toda sua atenção para completar as sessões de treinamentos longos, de limiar, sub-limiar e intervalado no tempo determinado pelo treinador. Em aparência, correr é bastante simples. Quando se está competindo, ou mesmo para os não competidores, quando se está realmente interessado em se aprofundar no esporte, dominar as variáveis psicológicas e sensoriais é essencial. Grosso modo, a diferença entre um atleta fenomenal e um excelente atleta é seu preparamento emocional, psicológico, sua memória sensorial aliada à sua memória física. Pense em Paula Radcliffe, Haile Gebrselassie, Paul Tergat… ou pense em outros esportes, em Rafael Nadal, em Michael Phelps, em Michael Jordan. Todos alcançaram um tipo de “excelência emocional”. O que quero dizer, então, é que num treinamento ideal o corredor deveria também direcionar sua atenção para o que sente e pensa durante as sessões de treinamento. Desta forma, o praticante desenvolverá uma memória de sensações e associações ligadas à corrida. Durante a competição o corredor poderá acionar este repertório sensorial para ter um melhor desempenho. Ao contrário do que se pode imaginar, para se fazer uma boa maratona não é suficiente ter resistência, força, velocidade, flexibilidade e equilíbrio. Como provam os “grandes” dos esportes, a memória sensorial é o que faz a diferença.

Revista Fórum – Resistência, força, velocidade, flexibilidade e equilíbrio? Precisamos de todos esses elementos para correr uma maratona?

Heleno Fortes – Não. Alguém pode ser sedentário e desenvolver a habilidade de correr uma maratona simplesmente com orientação e treino específico para corrida. No entanto, durante o desenvolvimento físico o praticante certamente irá melhorar os elementos que mencionei. Em meu trabalho, tento desenvolver um treinamento mais holístico, que naturalmente incorpore elementos de resistência, força, velocidade, flexibilidade e equilíbrio – que para mim são os pilares do condicionamento físico. Com alguma frequência prescrevo Treinamento Funcional para meus atletas para que melhorem suas habilidades com relação a esses pilares. Como disse anteriormente, tento indicar o treinamento desses pilares de forma que o praticante amplie sua consciência corporal e memória sensorial. Mas o desenvolvimento desses pilares não é essencial para que se complete uma maratona.

Revista Fórum – De que forma a memória sensorial faz a diferença para um competidor participando de uma maratona?

Heleno Fortes – O praticante que conhece bem como seu corpo reage nas mais variadas situações físicas e psicológicas terá muito mais possibilidades de ter um bom desempenho durante uma competição. O desenvolvimento sensorial do atleta poderia ser comparado ao desenvolvimento do músico, do pintor, do enólogo ou de qualquer outra atividade que requeira a associação entre habilidade física, percepção e performance. No caso da corrida, justamente porque nem a técnica nem a necessidade de responder a uma adversário ocupam a mente do praticante, ironicamente, a memória sensorial ocupa um lugar extremamente importante. De forma grosseira e um pouco brincalhona, o corredor deve aprender a lidar com seus pensamentos justamente porque não tem que pensar em mais nada enquanto corre (em termos de técnica ou oponente) – ao contrário dos judocas, dos ginastas etc.

Revista Fórum – Vejo muitos praticantes de corrida usando aparelhos de música. Qual a sua posição sobre escutar música durante a prática da corrida?

Heleno Fortes – Se o corredor se sente estimulado com o uso de aparelhos, por que não? Claro, como disse anteriormente, na minha abordagem como educador tenho interesse no treinamento da memória sensorial. Então, se o aluno está sempre treinando de headphone, ainda que a música possa estimular e entusiasmar, será que ele está prestando atenção aos sinais do próprio corpo, “memorizando” o que se passa com ele física e mentalmente enquanto faz um treino pesado de intervalado, por exemplo? É pouco provável, não é verdade? Portanto, sou a favor da alternância de recursos: do treinamento com e sem relógio, do treinamento lúdico e sério, do treinamento em várias superfícies, do treinamento em grupo e sozinho… enfim, do treinamento para a expansão do repertório físico e sensorial do atleta.

Revista Fórum – A corrida parece estar na moda? Você percebe isso no seu dia a dia profissional?

Heleno Fortes – Sem dúvida, uma moda boa, não!? Como disse anteriormente, a praticidade da corrida a torna um esporte muito atraente. Qualquer um pode sair de casa e voltar em 45 minutos tendo feito um treino com qualidades olímpicas. Moda ruim é dupla sertaneja tocando música sobre calcinha rosa… (risos)

Revista Fórum – Você não escuta sertanejo enquanto corre, então?

Heleno Fortes – (Risos) Não tenho preconceito contra o gênero, há coisas boas, claro, mas tenho outros interesses na música. Apesar de apreciar a voz e a beleza de Paula Fernandes, por exemplo (risos), musicalmente acho os solos de guitarra da banda Marillion ou do guitarrista Joe Satriani mais interessantes, ou as dinâmica das músicas do U2, ou as letras do Cazuza, ou a voz do nosso conterrâneo Kadu Viana, para não mencionar tantos outros. Sempre vou em shows – acabo de ver Roger Hodgson do Supertramp –, só que não corro escutando música. Enquanto corro aprecio a paisagem, bato papo com os colegas de treino, presto atenção na respiração, na passada, no competidor… ou penso na vida, ou às vezes não penso em nada…

Vamos dar uma corrida? (risos)

Revista Fórum – Algum novo desafio?

Heleno Fortes – Muitos, sem dúvida: correr a minha melhor maratona, sentindo fisicamente bem e emocionalmente alegre, sem ansiedade ou tensão; melhorar na música, já que tenho tocado violão há algum tempo; tomar cervejas melhores (gosto de cerveja também!) e viajar para lugares distantes, para poder curtir ainda mais minha casa e minhas raízes, minha família, minha mulher, meu cachorro; continuar passando para meus alunos o prazer de se sentir fisicamente bem; continuar, como diz o nome da minha profissão, educando pelo físico, através da corrida, através da educação física…

Tá bom ou quer mais?

Golpe 16 - O livro da blogosfera em defesa da democracia

Golpe 16 é a versão da blogosfera de uma história de ruptura democrática que ainda está em curso. É um livro feito a quente, mas imprescindível para entender o atual momento político brasileiro

Organizado por Renato Rovai, o livro oferece textos de Adriana Delorenzo, Altamiro Borges, Beatriz Barbosa, Conceição Oliveira, Cynara Menezes, Dennis de Oliveira, Eduardo Guimarães, Fernando Brito, Gilberto Maringoni, Glauco Faria, Ivana Bentes, Lola Aronovich, Luiz Carlos Azenha, Maíra Streit, Marco Aurélio Weissheimer, Miguel do Rosário, Paulo Henrique Amorim, Paulo Nogueira, Paulo Salvador, Renata Mielli, Rodrigo Vianna, Sérgio Amadeu da Silveira e Tarso Cabral Violin. Com prefácio de Luiz Inácio Lula de Silva e entrevista de Dilma Rousseff.




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