O que é um terrorista?

Redação
Por Redação março 10, 2011 14:20

Desde os ataques de 11 de setembro de 2001 aos EUA, as palavras “terror”, “terrorismo” e “terrorista” começaram a entrar naquela zona da linguagem em que elas já não servem para comunicar, mas para esconder e dissimular. “Terrorista!”, brande Uribe com a certeza de que deu a resposta definitiva para o porquê de não se negociar com as Farc. “Terrorista!”, grita o candidato a vice-presidente Índio (DEM) a qualquer governo de esquerda com o qual o Brasil tenha se relacionado nos últimos anos, tentando assim colher dividendos eleitorais na República Morumbi-Leblon. “Terrorista!”, brada a direita americana para explicar sua estranhíssima guerra, na qual não há um Estado inimigo, uma força bélica reconhecível do outro lado, sequer uma declaração, como costumavam exigir as guerras antigas. Trata-se de um dos termos mais abusados na política contemporânea, sem dúvida.

O vocábulo “terror” entra na língua como designação de um ato político justamente no momento de fundação da democracia moderna. De acordo com Antonio Houaiss, na acepção 6 do termo, “terror” é o nome por que se designa o período da Revolução Francesa compreendido entre 31 de maio de 1793 (a queda dos girondinos) e 27 de julho de 1794 (a queda de Robespierre). O “terror”, portanto, nem é invenção árabe nem é o oposto da democracia, mas aparece na história como um momento de consolidação desta última, pelo menos em seu  sentido original, francês.

Já “terrorista” é termo mais recente, de entrada na língua em 1836, para o substantivo, e 1881, para o adjetivo, segundo Houaiss. Ele ganha circulação com grupos como o Narodnaya Volya, na Rússia: jovens que tinham uma plataforma de democracia radical, mas que começaram a recorrer a táticas como o assassinato seletivo (o mais famoso sendo o do Czar Alexandre II, em 1881). Sobre eles, Dostoiévski escreveu um grande relato, Os Demônios, em que o romancista conservador russófilo tentava alertar para os perigos do niilismo. Os grupos terroristas estudantis russos só seriam derrotados politicamente, no entanto, pelo bolchevismo, que sempre criticou os métodos do populismo Narodnaya e impôs sua solução política em 1917. A associação entre as lutas de esquerda, populares e/ou nacionais de libertação, ao “terrorismo”, portanto, não condiz com o momento de entrada do termo na língua, embora algumas dessas lutas tenham feito uso de táticas classicamente classificáveis como terroristas e uma fração ainda maior delas tenha sido assim etiquetada pelas forças dominantes contra as quais lutavam. Ao longo da colaboração dos EUA com o regime segregacionista da África do Sul, o Congresso Nacional Africano e seu líder principal, Nelson Mandela, foram caracterizados como “terroristas”. Ainda em 2008, 14 anos inteiros depois do fim do apartheid, 9 anos inteiros depois que Mandela havia concluído sua presidência na África do Sul, os EUA ainda o catalogavam oficialmente como terrorista, fato que ninguém menos que a chanceler de George W. Bush, Condoleeza Rice, definiu como “embaraçoso”.

Até a primeira metade do século XX, o terrorismo, entendido como atentado em massa a vidas de civis inocentes, não era parte do jogo político na Palestina histórica. Ele chegou ao território com os grupos Hagana, Irgún e Stern, todas elas organizações sionistas cuja atividade principal eram atos de terrorismo no sentido estrito definido acima. Na Wikipédia anglófona, no entanto, o leitor encontrará os Narodnaya russos definidos como “terroristas”, enquanto as organizações sionistas que cumpriram papel central na fundação de Israel são listadas com os eufemismos “grupo militante” ou, de maneira ligeiramente mais próxima à realidade, como “grupo paramilitar”. Desde 1967, Israel realiza contra o povo palestino, com alguma regularidade, ações catalogáveis como de terrorismo de Estado no sentido estrito, incluindo-se o assassinato seletivo, a tortura, a demolição de casas, o encarceramento extrajudicial, o bombardeio indiscriminado, a punição coletiva, a colonização, confisco, cerco e monopólio de terras por colonos fortemente armados, a monopolização da água e a picotagem do território palestino com postos policiais de controle de alta truculência e por estradas exclusivas para colonos. Mas só em raríssimas comarcas o leitor verá o termo “terrorismo” associado às ações de Israel.

Hagana comete os primeiros atentados terroristas contra árabes na Palestina já nos anos 20 e, ao longo dos anos 40, as organizações sionistas cometem amplos crimes definíveis como terroristas, tanto contra árabes como contra ingleses. É o caminho histórico pelo qual se fundou o estado de Israel. No entanto, Israel, que ao longo de sua existência e, especialmente, desde 1967, comete crimes definíveis como terrorismo de Estado contra os palestinos, mantém um virtual monopólio sobre os usos do termo “terrorista”. Ele tem sido usado há décadas e, com especial furor, desde 2001, para caracterizar quaisquer interlocutores que construa a nação palestina como seus representantes. Ao mesmo tempo, não há um reconhecimento oficial de Israel acerca do papel do terrorismo em sua própria fundação, já demonstrado amplamente pela historiografia. Esse monopólio sobre a palavra não é fruto de uma “conspiração” e, muito menos, de uma “conspiração judaica”. Ele é explicável pela imensa assimetria nas forças de comunicação dos dois lados, pelo enorme poder do lobby pró-Israel nos Estados Unidos e pela força de pressão exercida por esse lobby sobre políticos e imprensa do mundo todo, particularmente no Ocidente. O resultado concreto desses processos tem sido a identificação do lado palestino, a priori, com o terrorismo, e a instalação de uma conversa na qual é sempre a obrigação do lado palestino desfazer essa associação, como pré-requisito para que a conversa possa se iniciar.

É o mesmo jogo da direita americana mais belicista para justificar suas intervenções no Oriente Médio, com as catastróficas consequências que conhecemos.

Este artigo é parte integrante da Edição 90 da Revista Fórum

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Sobre o autor

Idelber Avelar é colunista da Revista Fórum e ex-editor do blog "O Biscoito Fino e a Massa" (http://idelberavelar.com). É Professor Titular de Literaturas Latino-Americanas e Teoria Literária na Universidade Tulane, em New Orleans. É autor de Alegorias da Derrota: A Ficção Pós-Ditatorial e o Trabalho do Luto na América Latina (UFMG, 2003) e Figuras da Violência: Ensaios sobre Ética, Narrativa e Música Popular (UFMG, 2011), e coeditor de Brazilian Popular Music and Citizenship (Duke UP, 2011), entre outros livros. Mantém o Twitter @iavelar

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