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Biblioteca Latino-Americana – Facundo, ou civilização e barbárie, de Domingo Faustino Sarmiento (1845)

  Domingo Faustino Sarmiento Não seria exagero dizer que este é o livro que inventa a Argentina moderna. Domingo Faustino Sarmiento é membro da geração liberal que funda a literatura argentina no...

 

Domingo Faustino Sarmiento

Não seria exagero dizer que este é o livro que inventa a Argentina moderna. Domingo Faustino Sarmiento é membro da geração liberal que funda a literatura argentina no exílio durante o regime do caudilho Juan Manuel de Rosas (1829-52), período em que o país se divide entre unitários (liberais que favoreciam a unificação com capital em Buenos Aires) e federais (coalizão de caudilhos e líderes regionais que defendiam um regime federativo com autonomia para as províncias). Praticamente toda a historiografia, teoria política e literatura argentinas dessa época, decisiva para a construção do país, se escreveria em Santiago, em Montevidéu ou no Rio de Janeiro. Sarmiento foi seu nome mais expressivo.

Em 1845, já exilado no Chile durante o regime rosista, Sarmiento publica Facundo, ou civilização e barbárie. À primeira vista, trata-se de uma biografia de Facundo Quiroga (1788-1835), o temível caudilho federal de La Rioja e antecessor de Rosas. Mas o livro acabou sendo muito mais que uma biografia. Foi um manifesto modernizador, um tratado etnográfico, a fundação da narrativa argentina e a sua mais célebre coleção de mitos. Foi também a base ideológica para a presidência do próprio Sarmiento, que se iniciaria 23 anos depois, em 1868. Estudando-se este livro, tem-se a chave para uma série de diferenças importantes entre o Brasil e a Argentina. Todos os grandes fundadores da literatura argentina no século XIX estão diretamente vinculados à luta pelo poder estatal. Fazendo uma analogia de Sarmiento com seus equivalentes no Brasil, é como se Machado de Assis ou José de Alencar tivessem escrito o programa ideológico da nossa classe dominante e depois se tornado de chefes de Estado — algo, evidentemente, impensável na realidade oitocentista brasileira. Até hoje, na Argentina, a literatura tem um papel chave nas lutas políticas. Está organicamente ligada a elas, em contraste com o Brasil, onde as duas esferas estão separadas com muito mais nitidez.

Facundo consolida a oposição entre os termos “civilização” e “barbárie”, que atravessariam todo o pensamento latino-americano no século XIX. Composto de três eixos principais — uma descrição histórica e geográfica da Argentina, uma compilação das proezas de Facundo Quiroga e um libelo político anti-rosista —, o livro associa a civilização a um modelo de desenvolvimento inspirado principalmente nos Estados Unidos. Civilizar o país, para Sarmiento, seria povoá-lo com imigrantes brancos, desenvolvê-lo com industrialização e ferrocarris, domar a imensidão vazia dos pampas. Seu conceito de barbárie, encarnado no “selvagem inculto dos pampas”, não está isento de racismo. O programa de Sarmiento para a Argentina não é somente modernizador. Trata-se também de um projeto de branqueamento.

Mas Sarmiento também polemiza com seus companheiros liberais que querem implantar uma modernização baseada em ideias europeias sem conhecer as entranhas do país. Daí o longo texto em que Sarmiento, com uma mescla de horror e fascínio, relata as proezas de Quiroga, de quem se diz que matou uma onça com uma faca e um poncho; explica os vários tipos de gaucho que se conhecem: o gaucho mau, o cantor, o baqueano e o rastreador; e descreve a imensidão dos pampas, que Sarmiento só conheceria ao vivo, aliás, alguns anos depois de publicar o livro.

Da mesma forma como nem todos os liberais modernizadores são iguais, para Sarmiento também há uma distinção entre os bárbaros. Quiroga, o caudilho mítico, e Rosas, o déspota atual, não são idênticos. Ambos são bárbaros sanguinários, mas Sarmiento vê em Quiroga a expressão autêntica dos pampas indomados. Ele tem altivez e honra. Rosas seria a reencarnação farsesca dessa barbárie, na forma de um tirano que apunhala pelas costas. Essa dicotomia atravessaria toda a cultura argentina e seria chave para a compreensão que teve a elite liberal do país, um século depois, da figura de Perón, um herdeiro do legado caudilhesco rosista.

Todos os grandes cacoetes que encontraríamos depois em Jorge Luis Borges, o maior escritor argentino de todos os tempos — a mistura delirante entre ficção e não-ficção, o jogo com citações falsas ou adulteradas, a tensão entre o ideário europeu e a realidade americana — já estão antecipados em Sarmiento, de quem Borges foi um grande admirador. Excludente, elitista e racista, Facundo é um documento indispensável para se conhecer a história do pensamento dominante latino-americano.

Para ler o livro completo no original espanhol, em excelente edição da Biblioteca Ayacucho, clique aqui. Para conhecer a nova edição brasileira, lançada pela Cosac Naify, clique aqui. Para ler um estudo mais detalhado da obra, escrito pela Profa. Laura Janine Hosiasson (USP), clique aqui.

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A Biblioteca Latino-Americana da revista Fórum é uma coleção de introduções às principais obras do pensamento de nossos vizinhos, um acervo de referência sobre os grandes clássicos latino-americanos. A cargo de Idelber Avelar, a Biblioteca incluirá breves resenhas, compreensíveis para o leitor não-especializado, de textos clássicos de historiografia, teoria política, literatura e outras áreas. Quando possível, ofereceremos também o link à própria obra e a outros estudos disponíveis sobre ela.

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6 comments

  1. dra Reply

    Fechar o Biscoito e passar a contribuir mais para a Fórum foi uma excelente idéia, Idelber!

    na minha opinião, estavam fazendo falta por lá textos como esse, menos colados à conjuntura política mais imediata (o q não quer dizer q não sejam altamente políticos, bem entendido).

    aliás, essa pauta da Biblioteca Latino-americana certamente vai ter muita coisa boa! aguardo ansioso os próximos textos.

    tenho aqui em casa uma edição do Facundo e outra do Martin Fierro, mas confesso q nunca li muito bem nenhum dos dois grandes clássicos platinos. são daqueles livros cuja leitura sempre adiamos, indefinidamente.

    meu pai, formado na escola pública argentina, sempre repete o chavão de q Sarmiento foi o “presidente maestro”, por ter sido professor e ter fomentado o sistema de educação pública por lá, afirmando a necessidade de “educar o Soberano” – o povo – para participar da política e da construção do país.

    ah, e me parece interessante tb o possível paralelo com o nosso Os Sertões, de Euclides, na abordagem da dicotomia Civilização (litoral) e Barbárie (interior)…

    grande abraço!

  2. paulo campos chaves Reply

    gostaria de ler a respeito ou mesmo adquirir obras do autor