Falsificações da Revista Veja sobre a Universidade de Brasília

Redação
Por Redação julho 6, 2011 08:07

Sob o título “Madraçal no Planalto,” a última edição da Revista Veja publicou uma “reportagem” sobre a Universidade de Brasília (UnB) com uma série de erros factuais. A matéria, escrita para demonstrar que a UnB estaria tomada pela intolerância e por “perseguições” a quem pensa diferente de uma reitoria supostamente esquerdista, incorre em várias falsificações e demonstra desconhecimento básico acerca do funcionamento de uma universidade pública brasileira. Uma longa lista de personalidades, incluindo até mesmo o insuspeito Ministro Gilmar Mendes, desmentiu categoricamente a Veja nas últimas 48 horas.

A matéria afirma que o Reitor José Geraldo de Sousa Júnior foi eleito depois de uma “manobra” que deu aos alunos o mesmo peso eleitoral dos docentes e dos funcionários. Cumprindo o já conhecido papel de acadêmico amestrado da Veja, o historiador Marco Antônio Villa empresta outra citação para os propósitos da revista: “Nenhuma universidade de ponta tem esse tipo de sistema eleitoral.” Acontece que a afirmação da revista é falsa. Não houve qualquer “manobra”. O Conselho Universitário, instância máxima de deliberação da universidade, no qual os professores representavam 70% dos votantes–e onde, portanto, os alunos nem de longe tinham o mesmo peso dos docentes–decidiu pela eleição paritária.

A afirmação atribuída ao Prof. Frederico Flósculo—e, tratando-se de Veja, há que se dizer “atribuída”, já que nunca se sabe se o entrevistado realmente disse o que está entre aspas—demonstra ainda mais desconhecimento, não só sobre a UnB, mas acerca de todo o sistema universitário público brasileiro. O Prof. Flósculo teria dito que na UnB “nos últimos anos, meus projetos de pesquisa têm sido sistematicamente rejeitados”. Ora, o financiamento da pesquisa feita em universidades públicas brasileiras vem de órgãos federais, como a CAPES e o CNPq, ou estaduais, como a Fapesp. Os projetos são enviados pelos docentes aos órgãos financiadores e depois avaliados por profissionais da área, sem qualquer participação ou interferência da universidade. Mesmo que ela quisesse, a UnB não poderia “rejeitar” projetos de pesquisa de um docente, posto que não é ela quem os financia. Isso é informação elementar sobre a universidade brasileira, que a Revista Veja não possui ou omite em má fé.

A outra inverdade publicada pela Veja se refere à Faculdade de Educação da UnB. Segundo a Revista, a Profa. Inês Pires de Almeida, da Faculdade de Educação, teria sido vítima de “represálias” por parte da Reitoria, perdido a chefia e sofrido “devassa” em seu trabalho . Sublinhe-se que não há qualquer declaração da professora na matéria e não se sabe se ela corrobora a versão da revista, mas o fato é que a Profa. Inês simplesmente perdeu uma eleição. A Faculdade de Educação realizou eleições internas em agosto e setembro de 2010, inclusive com debates públicos entre os candidatos. Venceu a professora Carmenísia Jacobina Aires, que hoje ocupa a direção da FE. A perda da condição de gestora de convênios com órgãos de governo adveio do fato de que … a Profa. Inês não era mais diretora! Simples assim.

Outra falsificação presente na reportagem diz respeito ao Prof. Ibsen Noronha, que teria dito que sua disciplina “desapareceu do currículo”. O Prof. Ibsen Noronha é conhecido por ter sido o advogado que acompanhou o DEM na ação contra as cotas no STF, ter levado uma reprimenda pública do Ministro Lewandowski e ter escrito um perfil elogioso de um príncipe da família real. Quanto ao teor da matéria, a realidade dos fatos é que Ibsen Noronha jamais foi professor concursado da UnB. Longe de “desaparecer do currículo”, o conteúdo em questão foi incorporado a uma disciplina obrigatória, “História do Direito” que, como tal, só pode ser ministrada por professores efetivos da instituição.

A matéria de Veja resvala na difamação pura e simples ao afirmar que o “único mérito acadêmico evidente” do atual Reitor, o Prof. José Geraldo de Sousa Júnior, “deriva de sua militância política”. O currículo do Prof. José Geraldo inclui: a autoria de quatro livros acadêmicos e a organização de 24 publicações, além de 56 artigos em periódicos e 43 capítulos de livros.

Curiosamente, a foto que ilustra a matéria da Veja traz como subtítulo “professores reclamam de controle ideológico”, mas é na verdade a imagem de uma livre manifestação dos estudantes pela aceleração das obras de extensão do campus. A ironia extra é que depois dessa manifestação, os estudantes foram recebidos pela reitoria para negociar.

A reação à “reportagem” da Veja foi contundente. O Diretório Central dos Estudantes publicou uma carta. O Reitor também. A respeitada Professora Barbara Freitag-Rouanet escreveu uma bela resposta, assim como o Prof. Aldo Paviani. Uma longa lista de testemunhos também contradisse a matéria. Veja ouviu seis professores.

É mais um capítulo na história da Revista Veja, que agora replica estratégias já adotadas em outras comarcas para desqualificar instituições públicas de ensino com objetivos que têm muito pouco a ver com a busca da verdade.

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Redação
Por Redação julho 6, 2011 08:07
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29 Comentários

  1. Débora julho 6, 08:18

    Com um histórico de tantas reportagens mentirosas, não consigo entender como há leitores que não sentem suas inteligências subestimadas por esse detrito de maré baixa que é tal revista, como sempre fala Paulo Henrique Amorim. Que a revista tenha um posicionamento de extrema direita, “tudo bem”, estamos em uma democracia. Mas fazer uso de falcatruas apenas para perpetuar mentiras é algo muito sério.

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  2. Helena Pinheiro julho 6, 08:48

    Parabéns pelo belo texto,Idelber!

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  3. Daniel Prazeres julho 6, 09:09

    Um adendo às falsificações, segundo tweet do Decano de Assuntos Comunitários, o professor Pimentel comunicou que não falou nada à Veja.
    http://twitter.com/#!/ervargas/status/88327724061556736

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  4. Tiago Mesquita julho 6, 09:49

    só falta falar que a Barbara Freitag e o Rouanet são petistas

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  5. Claudio Roberto Basilio julho 6, 09:51

    Fazia um tempinho que a Veja não aprontava uma das suas… Dito isso, cabe a mim afirmar: que benção é ler um artigo do Prof. Avelar!

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  6. marcos nunes julho 6, 10:19

    O mais preocupante disso tudo é que a Veja, se tanto, colocará um “erramos” bem pequinininho em alguma de suas páginas, e a versão passará por fato, a propaganda por verdade, o dito ficará como dito e o não dito circulará tão somente nas redes sociais.

    Bem, isso também não preocupa tanto assim, porque quem compra, assina ou lê a Veja sabe o que poderá encontrar nela; quando pouco, a nratificação de seus preconceitos tortos; quando muito, a constatação de que não há horizonte de mudança na linha editorial da revista, quer se goste ou não dela.

    Como sempre, restará à TV Brasil abrir para o contraditório e veicular informações corretas sobre o assunto, se já não o fez e, se o fez ou se o fizer, lá vem mais bordoada sobre a “chapa branca” do canal público…

    Enquanto isso, o governo continua a tratar esses seus adversários muito bem, com fartas distribuição de verbas públicas para veiculação de suas mensagens institucionais. Vejo aí um sintoma de covardia e uma vontade de sintonia.

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  7. Lázaro Borges julho 6, 10:43

    Até o Gilmar Mendes desdice esta matéria.

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  8. Teresa julho 6, 10:51

    E ainda ofendem o islamismo chamando a universidade de madraçal (escola islâmica), numa associação estúpida e ignorante entre islamismo e radicalismo.

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  9. @che_gayvara julho 6, 20:08

    Posso esperar tudo da Revista Veja,uma publicação que liga islamismo á violência,diz que todo pobre é burro e porco(Diogo Mainardi se diverte com isso!),acusa o STF de apoiar um AI-5 GAY!(http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/o-ai-5-gay-ja-comeca-a-satanizar-pessoas-se-aprovado-vai-provocar-o-contrario-do-que-pretende-acabara-isolando-os-gays/),e acusa o PT de ser responsável pela extinção dos dinossauros…

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  10. Marcelo Idiarte julho 6, 20:30

    Veja mais uma vez foi… Veja.

    O que me conforta, em meio a um jornalismo tão espúrio e deprimente, é que eles não param de perder assinantes. Tanto que a Editora Abril está há 3 meses com uma campanha semanal ininterrupta oferecendo esse lixo de revista pela metade do preço.

    Toda semana eles dizem que é a “última oportunidade para assinar Veja com 50% de desconto”, mas na semana seguinte está tudo rigorosamente igual – sinal do desespero que ronda o bairro Pinheiros.

    Outra coisa que me conforta, esta muito mais, aliás, é que há uma lei que obriga a que um exemplar de cada edição da revista seja depositado na Biblioteca Nacional. Ou seja: mesmo que queiram (e certamente um dia os profissionais que lá estiveram vão querer) apagar o passado recente da Veja, isso jamais vai ser possível. Jamais.

    Tudo isso que eles estão produzindo, esse lixo travestido de jornalismo, vai ficar para sempre gravado na História. Um dia não restarão mais brasileiros manipulados por esta revista, e então todos poderão revisar a trajetória da Veja, edição a edição, e observar o quão vil, deplorável e vendido foi o serviço prestado pelas pessoas que trabalharam em sua Redação.

    A História há de perseguir essas pessoas até o último dia da vida delas. E mesmo que futuramente se arrependam, jamais vão poder apagar o que estão fazendo.

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  11. Marcelo Idiarte julho 6, 20:40

    Em tempo: evidentemente eu me refiro ao passado recente da Veja, ao últimos anos da revista.

    Certamente o que está acontecendo lá não é o que Mino Carta e outros vislumbraram quando fundaram a revista. E tampouco o que outros profissionais que passaram por lá, sobretudo na década de 70, também entendiam como Jornalismo.

    Voltei para fazer este reparo para não ser injusto com tanta gente boa que passou pela Veja. Os precursores não podem pagar por esta bandalha que tomou conta da Redação de Veja, especialmente dos anos 90 para cá.

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  12. Pádua Fernandes julho 6, 23:27

    Ótimo texto. Ademais, a faculdade de direito da UnB, origem do professor (e atual reitor) José Geraldo de Sousa Júnior, ficou em primeiro lugar no último exame da OAB (eis a lista das instituições: http://s.conjur.com.br/dl/desempenho-estado-exame-ordem-20103.xls). Que efeitos nefastos o “esquerdismo” gerou!

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    • Idelber julho 7, 08:53

      Caríssimo Pádua: lembremos que a Veja publicou uma matéria sobre o exame da OAB, posterior à “reportagem” sobre a UnB. E não disse a seus leitores qual foi a universidade lider de aprovação.

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  13. Amanditas julho 7, 08:00

    Oi Rovai,
    Excelente texto, parabéns. Posso publicar lá no boimatenews? –> www ponto boimatenews ponto wordpress ponto com ?

    Abraços
    Amanda

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    • Idelber julho 7, 08:52

      Oi, Amanda, o autor do texto sou eu. Sim, claro que pode reproduzir, com menção de autoria e link para a fonte.

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  14. André julho 7, 08:02

    Idelber, apenas uma pequena correção, diversas universidades possuem linhas de financiamento interno de pesquisa. Além disso, existem as bolsas que são dadas para a instituição (que são uma forma de financiamento indireto de projeto de pesquisa). Os critérios nessas seleções são, não raro, sofríveis. O que não corrobora a “reportagem” de Veja.

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  15. Jabuticabo do B julho 7, 11:02

    Minha contribuição à celeuma. Ao utilizar a palavra “madraçal”, Veja faz acenos ao movimento “Tea Party” americano ou, mais precisamente, à raivosa oposição que argumentava a teoria pela qual Barack Obama seria um agente terrorista muçulmano secretamente planejando desde a infância a destruição do país do qual hoje é presidente.

    http://fatorjabuticaba.blogspot.com/2011/07/madracal-em-ingles-e-madrassa.html

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  16. ruy marcondes garcia julho 7, 14:21

    Há algum tempo atrás, comecei a receber gratuitamente (para “degustação”), exemplares semanais da Veja. Enviei uma mensagem, no site da revista, solicitando minha exclusão da “promoção”; em suma, pedi para não mais receber a revista. Claro, fui solenemente ignorado.
    No mesmo site, providenciei uma alteração do meu cadastro, pois eu estava listado como “assinante provisório” ou coisa que o valha.
    Mudei meu endereço para o de uma Cooperativa de Materiais Recicláveis aqui de Campinas. A alteração foi aceita. Imagino que os catadores de papel devem ter recebido a revista por um bom tempo. O melhor destino para esse lixo.

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  17. Luís CPPrudente julho 7, 19:18

    A revista semanal da famiglia Civita usa muito da mentira e quase nada da verdade. Realmente é um verdadeiro jornalixo a serviço do retrocesso.

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  18. Robson Moreno julho 8, 20:24

    Belíssimo artigo Idelber! Mas, perdoe a minha inquietação, não seria muita energia gasta com tão podre e vil veículo? É verdade que tem gente que leva tal semanário a sério, mas vale a pena disputar por corações e mentes que já são da extrema direita e de direita e só entendem e aquilo que querem? Creio que nada, nem esse brilhante artigo, pode trazer um pouco da “luz dos fatos” a essas pobres “almas perdidas”. No entanto, se fossemos um país civilizado, esta revista podre, deveria publicar o direito de resposta no mesmo espaço, com o mesmo tamanho e diagramação e ainda pagar uma multa pesada por não cumprir o básico do jornalismo minimamente sério: checar os fatos. Por último, gostaria de sugerir este artigo escrito por Alberto Dines, a cinco anos atrás sobre a mesma porcaria….quer dizer, revista: http://www.tvebrasil.com.br/observatorio/arquivo/principal_060516.asp#artigo

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  19. José Antonio Meira da Rocha julho 8, 20:29

    Curioso… Demétrio Magnoli, outro acadêmico amestrado, citado na matéria sabe-se lá por que, não tem currículo Lattes… que chato…

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  20. Carol Corado julho 9, 06:26

    Só pra fazer um comentário ácido: aposto que o jornalista Gustavo Ribeiro, autor da pseudo-reportagem, teve vontade de estudar na UnB, mas provavelmente não passou no vestibular, tadinho… Daí, precisa inventar fatos por não conhecer o cotidiano da universidade.
    Excelente post, Idelber! Temos que ter compaixão por essas pobres criaturas que poderiam gastar o papel da revista com algo útil para a humanidade, mas não o fazem.

    Abraço,

    Carol
    Bióloga, UnB (2004)

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  21. Paulo Cesar julho 9, 08:35

    A Veja e no Brasil o que o jornal News for the Word foi na Inglaterra uma máquina de escrever mentiras, uma hora ela fecha, informação sim, mentiras não.

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  22. Diego Massami Carvalho julho 11, 08:22

    Na esteira da infeliz matéria de Veja sobre a UNB temos o brilhante artigo do professor mestre Washington Araújo publicado em Carta Maior sob o título “Imprensa criminosa”. Creio que vale a pena repercutir pois desmascara o antijornalismo, sempre rasteiro e difamador dos Torquemadas encastelados na direção e na redação da Veja.

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  23. Emmanuel julho 12, 12:17

    Concordo plenamente com a matéria, só tenho uma retificação a fazer. Em muitas universidades públicas, como a USP por exemplo, as bolsas da CAPES e do CNPq são geridas por órgãos internos da instituição de ensino, que escolhem os critérios e a banca examinadora para a concessão das bolsas. Portanto, não é impossível que docentes supostamente perseguidos não tenham seus pedidos de bolsas atendidos (eu disse apenas que não é impossível). Não sei se é esse o caso da UnB; precisaria verificar.

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  24. André Bueno julho 13, 07:10

    Idelber,

    Primeiro cheguei a sua matéria de obituário sobre o Paulo Renato. Distribuí pelo Facebook. Agora, encontrei este texto sobre a UnB que também achei interessante; foi só quando fui compartilhar no FB que percebi que era sua também. Resultado… Decidi escrever elogiando. Parabéns!

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Sobre o autor

Idelber Avelar é colunista da Revista Fórum e ex-editor do blog "O Biscoito Fino e a Massa" (http://idelberavelar.com). É Professor Titular de Literaturas Latino-Americanas e Teoria Literária na Universidade Tulane, em New Orleans. É autor de Alegorias da Derrota: A Ficção Pós-Ditatorial e o Trabalho do Luto na América Latina (UFMG, 2003) e Figuras da Violência: Ensaios sobre Ética, Narrativa e Música Popular (UFMG, 2011), e coeditor de Brazilian Popular Music and Citizenship (Duke UP, 2011), entre outros livros. Mantém o Twitter @iavelar

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