Sete teses sobre as ocupações de 2011

Redação
Por Redação fevereiro 14, 2012 15:31

Sete teses sobre as ocupações de 2011

Ocupação de Wall Street

Um ano atrás, quem imaginaria que uma multidão insistente e pacífica, sem quaisquer laços com a Irmandade Muçulmana, retornaria à Praça Tahrir uma e outra vez, durante semanas, até derrubar o ditador egípcio Hosni Mubarak? Quem teria previsto que um movimento de ocupação popular, de contornos antineoliberais e, em alguns momentos, anticapitalistas, varreria os EUA de leste a oeste, deixando estupefatos e sem reação tanto os dois partidos políticos como os comentaristas da mídia corporativa? Quem suporia que a profundidade da crise e a mobilização popular derrubariam Primeiros-Ministros europeus, como na Grécia e na Itália? Quem imaginaria 2011?

1. As ocupações de 2011 enterram mais uma vez as teleologias da História. A última vez que ouvimos falar que a História havia chegado a seu ponto final foi nos anos 90. Francis Fukuyama tomou a queda do muro de Berlim como comprovação de que a teleologia da História—ou seja, a concepção que a entende como dirigindo-se a um fim pré-estabelecido—havia se realizado, com a vitória definitiva do capitalismo liberal, que então só necessitaria ajustes em seu interior, sem qualquer outra ameaça externa. Não foi uma revolução socialista, mas um atentado terrorista em Nova York que se encarregou de pôr a pá de cal nessa celebração otimista. A década que se seguiu ao atentado foi marcada pelo conceito de guerra sem fim: os EUA tentaram rearticular sua hegemonia em declínio através da construção de um inimigo onipresente, virtual e despersonalizado, e nessa toada viveu-se a década 2001-2011. Quando mais parecia que o binômio “imperialismo dos EUA x fundamentalismo islamista” se manteria como a polarização definidora da política mundial, emergem em todo o mundo árabe ocupações populares sem relação com o islamismo e, no Ocidente, sem qualquer relação com o morno antagonismo que opõe liberais ou social-democratas aos conservadores da direita. As ocupações de 2011 reafirmam a condição inacabada da História, sua natureza radicalmente pendente, seu caráter de puro devir.

2. As ocupações 2011 apontam sinais de falência generalizada dos partidos políticos. Talvez não haja fio unificador mais visível em todas as revoltas (Tunísia, Egito, EUA, Grécia, Portugal, Espanha, Itália, Inglaterra, Bahrein, Iêmen, Síria, Argélia etc.) que seu caráter autônomo em relação às coletividades políticas já sancionadas, nos casos europeus e estadunidense, pelas democracias representativas ou, no caso do mundo árabe, pelas autocracias militares ou monárquicas. Aqui, a Espanha é emblemática: sob um governo social-democrata, liderado por José Luis Zapatero, um Primeiro-Ministro de considerável prestígio no exterior, uma multidão de indignados fez ouvir clara e em bom som a mensagem de que nem PP, o Partido Popular, de direita e franquista, nem o PSOE, o Partido Socialista Operário Espanhol, de Zapatero, os representavam. Não se trata só de que estes movimentos são independentes dos partidos. Trata-se de uma ruptura muito mais profunda, através da qual as multidões (des)organizadas denunciam a perda da capacidade destes partidos de representarem os desejos políticos reais que se articulam na pólis. As ocupações não se levantam apenas contra as ditaduras e o autoritarismo, no mundo árabe, e o arrocho salarial e a financeirização da vida, no Ocidente, mas também, em ambos os espaços, contra as estruturas supostamente representativas da política. Neste contexto, não faz sentido responsabilizar os indignados da Espanha pela vitória do PP nas últimas eleições, posto que seria bastante difícil encontrar grande diferença entre a política econômica aplicada por Zapatero e aquela imposta anteriormente por Aznar.

3. As ocupações 2011 são uma crítica da representação e resgatam uma memória dos oprimidos: a democracia direta. A autonomia popular reunida na Plaza del Sol, em Liberty Plaza e em dezenas de outras praças públicas ao redor do Ocidente denuncia o caráter não-democrático da democracia liberal. A financeirização do mundo também molda os partidos políticos, e nenhum exemplo é mais eloquente que os EUA: 80% dos cidadãos estadunidenses desaprovam o Congresso de seu país, mas não podem renová-lo, porque a legislação eleitoral é construída de tal forma que só os Partidos Democrata e Republicano sobrevivem—ambos, o segundo um pouco mais, cativos dos interesses do grande capital e, muito especialmente, do capital financeiro. As ocupações 2011 mostram que a falência da democracia representativa é filha da financeirização do mundo. A disseminada desilusão com a administração Obama, por exemplo, não deu lugar a um crescimento do Partido Republicano nem à formação de um terceiro partido (há dezenas de “terceiros partidos” nos EUA, desprovidos da possibilidade de participação no processo político real). Essa desilusão deu lugar ao Ocupar Wall Street. A resistência do movimento às regras estabelecidas no jogo eleitoral e a preferência pela construção da democracia direta lembra muito mais a Comuna de Paris ou Maio de 1968 que qualquer outro movimento acoplado à maquinaria de representação política da democracia institucional. Em assembleias, passeatas, nos comoventes microfones humanos do Ocupar Wall Street (saída encontrada para contornar a proibição de microfones nas praças), nas oficinas solidárias oferecidas pelos ocupantes, encontra-se em gestação outro conceito de democracia, cujo atributo principal, sem dúvida, é este: ele se reinventa permanentemente. Ninguém sabe no que vai dar.

4. As ocupações 2011 demonstram que nenhuma luta popular genuína pode se limitar hoje a fronteiras nacionais. A quebra do capitalismo europeu transforma o aparato eleitoral de suas nações em pouco mais que uma escolha do comissário que irá obedecer as ordens do capital financeiro. Num contexto de integração monetária continental e integração comercial global, em que a manipulação de títulos de dívida e o fluxo de capitais são capazes de derrubar uma economia europeia em questão de dias, desapareceu a diferença entre governos conservadores e social-democratas, pois praticamente desapareceu a margem de manobra destes últimos. Os social-democratas e socialistas podem ainda manter uma retórica mais progressista, alguma memória de sua época de representantes da classe trabalhadora e disposição a um “diálogo” (sempre infrutífero) não vistas na direita, mas o resultado final, especialmente na política econômica, é o mesmo. Nas ocupações de 2011, por boas razões, têm sido minoritárias as vozes que acreditam numa rearticulação da potência autônoma da multidão com o aparato político nacional. Talvez desde a I Internacional Comunista ou, no máximo, a onda de revoluções abortadas na Europa durante o período da III Internacional, não se sentia tão nitidamente a necessidade de um processo revolucionário global, que escape do dilema entre ceder às limitações impostas pelo capital ao Estado-Nação e abdicar de tomar o poder para permanecer na pura negação. A saída para esse dilema, como todas as outras questões estratégicas que acossam as ocupações, continua pendente, de resolução não vislumbrada. Mas é nítida a consciência de que qualquer adequação aos limites do Estado-Nação não satisfará a energia transformadora já desatada.

5. As ocupações de 2011 enterram de vez o mito da democracia liberal tolerante com o dissenso. O exemplo definitivo aqui são os EUA, justamente porque o “Ocupar Wall Street”, ao contrário, por exemplo, da revolta de excluídos na Inglaterra, tem sido um movimento pacífico. Mesmo assim, a repressão policial tem se manifestado de forma assombrosa. Em meados de novembro, correu o mundo a imagem de um policial de Davis, na Califórnia, lançando spray de pimenta sobre um grupo de estudantes sentados de braços dados na área central do campus. O policial tinha o semblante de quem dedetiza uma nuvem de insetos. Em Seattle, a jovem Jennifer Fox foi espancada por policiais até sofrer um aborto. Ainda em Seattle, uma senhora de 84 anos, Dorli Rainey, recebeu jatos de spray de pimenta na cara até não conseguir se mover sem ajuda de companheiros de ocupação. Em Nova York, a polícia deliberadamente orientou os manifestantes a se dirigirem à Ponte do Brooklyn para ali prendê-los. O acampamento da Liberty Plaza foi acossado por faróis da polícia durante semanas, piscando ao longo da noite para impedi-los de dormir. Veteranos de guerra foram espancados pela polícia de Boston ao se interporem entre ela e os manifestantes, tentando defendê-los de uma desocupação que violava grosseiramente a primeira emenda da Constituição. São centenas de presos em todo o país, todos eles cidadãos pacíficos que exerciam um direito previsto em lei. Só com grande ingenuidade ou má fé seria possível defender hoje a ideia de que a Primeira Emenda significa algo quando se trata de mobilização popular anticapitalista nos EUA.

6. As ocupações de 2011 realçam o papel das novas tecnologias e o caráter insubstituível da rebelião presencial. Já se transformou em senso comum a ideia de que as novas tecnologias digitais e redes como o Facebook e o Twitter cumprem papel central nas novas revoltas. Isso é correto, evidentemente. Na rebelião de consumidores excluídos na Inglaterra, todo o agendamento de levantes se deu pelo comunicador do Blackberry (BBM), enquanto que, nos EUA e no Egito, o Twitter e o Facebook multiplicavam os canais de circulação do protesto. Não se trata simplesmente de que novas tecnologias se transformam em veículos de comunicação comparáveis ao telefone ou ao telégrafo privilegiados em outras eras. Os novos trabalhadores são, eles mesmos, peças de um capitalismo cognitivo, no qual a produção de lucro passa pelo valor imaterial da mercadoria produzida: patentes, propriedade intelectual, dívida sem materialidade sob a forma de puros títulos, teologia do copyright. Eis aí os termos decisivos através dos quais se articula a dominação capitalista hoje. Ou seja, o próprio capitalismo financeiro contra o qual se rebelam as multidões de 2011 tem como atributo a imaterialidade reproduzível das formas de comunicação usadas pelos manifestantes. É exatamente por isso que nada é mais ingênuo que celebrar as novas tecnologias digitais como instrumentos emancipatórios em si. Foi a rebelião presencial que desatou, tanto nos EUA como na Inglaterra e no Egito, a repressão aos fluxos digitais, com cancelamento de contas, bloqueio de circuitos e censura a mensagens subversivas. Justamente porque as ágoras digitais e físicas não estão separadas—ou seja, porque elas compõem a teia do capitalismo cognitivo–, não tem sentido tecer loas ao poder liberador das novas tecnologias sem reconhecer que o inimigo acusou o golpe precisamente porque o povo revoltoso ocupou a praça. Nenhuma ocupação da praça acontecerá sem fluxo de energia revolucionária digital. Nenhum trabalho de rede substituirá a ocupação da praça.

7. As ocupações de 2011 revelam que a luta pelo cancelamento da dívida está para o capitalismo cognitivo assim como a luta pelo salário estava para o capitalismo industrial. Esta tese do autonomista italiano Gigi Roggero vai, me parece, ao centro da questão. Em todas as revoltas do mundo ocidental, tanto nos EUA como na Europa, as multidões rebeladas vão se dando conta de que nenhum aumento salarial ou mesmo garantia de emprego significará muito num contexto em que a manipulação dos títulos da dívida e a especulação com os capitais migrantes têm o poder de colocar toda uma economia nacional de joelhos. Passamos do que Michel Foucault chamou de sociedade disciplinar—aquele momento moderno no qual grandes aparatos (igreja, escola, fábrica, exército, hospital, prisão) constituíam um sujeito sob perene vigilância—àquilo que Gilles Deleuze chamaria de sociedade de controle, na qual a dominação já se dá através de formas móveis, imateriais, virtuais, em constante deslocamento, para as quais o modelo já não é a prisão (embora esta continue a cumprir o seu papel), mas a corporação. O capitalismo da era da sociedade disciplinar se baseou na produção e na propriedade. No capitalismo da sociedade de controle, a produção já foi exportada para alhures (China, Tailândia, Terceiro Mundo), enquanto o capital se dedica a vender serviços e comprar ações. A sociedade disciplinar era o espaço do sujeito vigiado. A sociedade de controle é o espaço do sujeito endividado. A chamada crise das hipotecas nos EUA não foi o resultado de um erro tangencial ou lateral ao sistema. Foi a expressão da lógica mesma, mais profunda, desse sistema, que só pode se reproduzir através da teia da dívida imaterial, impagável. Por isso, as massas autônomas, de Madri a Nova York, do Cairo a Atenas, vão se dando conta, no interior da luta, de que se reafirma um princípio revolucionário por excelência: não se pode mudar nada sem, antes, mudar tudo. Esse axioma marxiano é, hoje, mais verdadeiro que na época de Marx.

* Agradeço a Giuseppe Cocco, Bruno Cava e Alexandre Nodari por referências bibliográficas e interlocução na preparação deste artigo. Ele é parte integrante da edição 105 da Revista Fórum.

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Por Redação fevereiro 14, 2012 15:31
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15 Comentários

  1. João Paulo fevereiro 14, 19:32

    Idelber,
    Apesar de serem 7 teses, o que significa que não se deve achar no post, por definição, uma única proposição sobre 2011, eu acho que não estaria errado se notasse um fio condutor nelas. Assim, eu pergunto, esperando não ter entendido mal o texto: como é que movimentos que pedem e dão lugar a eleições, por meio de partidos (ou proto-partidos), objetivando, entre outros, a elaboração de constituições podem, apesar de também pedirem o fim da corrupção e das plutocracias locais, ser colocadas juntas com movimentos que representam a desilusão com boa parte destas “formalidades”? Não seria possível que Fukuyama se visse confirmado, já que a força por uma democracia próxima da liberal na África e no Oriente Médio é mais forte e revolucionária do que a força contra ela existente na Europa e nos Estados Unidos (ou mesmo no Chile)?
    E você não acha que parte de sua análise não reside no mesmo tipo de teleologia que você denuncia na tese 1? Eu sinceramente fico com a impressão que sua defesa da história em aberto parece mais uma profissão de fé do que uma conseqüência de sua análise, pois se a lógica do capitalismo é a descrita nas 7 teses, então uma história que fique sempre sob este capitalismo só poderá levar a tempos mais sombrios. Isso não é uma teleologia inversa da de Fukuyama? E se esta lógica for quebrada pela consciência popular dos oprimidos que afirmam a democracia direta, então teremos chegado a um outro fim de história. A não ser que você esteja pensando na vitória de um capitalismo à chinesa, o que permitiria adiar o fim para daqui a bem mais tempo. É claro que eu posso ter exagerado nas inferências, mas esta dúvida surgiu, em parte, de eu não perceber muito bem se você está dizendo que capitalismo nenhum poderá levar a algum progresso, ou se somente a variante atual dominante no ocidente é que não leva a isso. Você, enfim, não vê nenhuma saída para o capitalismo, entendendo “saída” não somente um estado vegetativo qualquer, mas algum novo ciclo de benefícios? É claro que “história” não é sinônimo de “progresso”, mas eu fico pensando se não estamos numa armadilha (ou numa aporia), pois se negamos o “progresso“ contínuo, caímos no catastrofismo ou numa idéia de circularidade do tipo ascenção-queda, ambos não deixando de ser, em graus diferentes, formas teleológicas de se ver a história.
    Mas para não acabar no tom sombrio e relativista, uma última pergunta: o que é que os movimentos do tipo espanhol e americano podem aprender com o fracasso da geração Seattle-Fórum Social Mundial?

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  2. Bruno Cava fevereiro 15, 05:51

    Gostei muito do texto, uma análise do horizonte de lutas muito digna do Biscoito Fino. Acredito que se aplica o que o Eduardo V. de Castro falou ontem no tuíter. Não se trata de renunciar, ignorar ou mesmo deixar de pensar o Estado, mas de não partir dele, não o assumir como perspectiva e ponto de vista, para pensar e agir nas lutas e movimentos. É preciso pensar o estado, sim, e mesmo traçar um plano de corte prático-teórico por dentro dele, de seus pontos de acoplamento, ruptura, dissenso e potencialização. No plano prático, é o rendimento das ocupações, desse ciclo de lutas que, na sua diferença, reúne tunisianos e islandeses, de Tahrir a Nova Iorque, da acampada espanhola ao Xingu Vivo. Tudo isso sem perder o antagonismo, sem convergir num altercapitalismo como síntese dos “contrários”. No plano mais teórico, esse autonomismo (perspectiva da multidão, das forças minoritárias) resgata aquele marxismo mais arejado e não-estatalista, que vem do jovem Marx, passa pelos trotskismos e chega até a antropologia canibal. Tudo isso sem perder a luta de classe, no seu paralelismo de gênero/sexualidade/raça/etnia/renda. Abraços!

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  3. Thiago Leal fevereiro 15, 08:15

    Dá para dizer que a democracia liberal está para hoje como o despotismo esclarecido estava para o século XVIII?

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  4. dra fevereiro 15, 08:52

    perfeito, assino embaixo. grande abraço!

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  5. Pablo Castro fevereiro 15, 10:10

    Maravilha, Idelber. Os pontos cruciais do seu artigo me parecem ser o sexto e o sétimo. A princípio, nada mais dialético que o advento da internet e das tecnologias a ela ligadas acabarem por facilitar imensamente um levante ou uma rebelião em questão de poucos dias, ao contrário de 20 anos atrás ( pra não falar do século XIX com a Comuna de Paris ). Isto se encaixaria como uma luva na tese de Marx de que o desenvolvimento das forças produtivas cria contradições dentro do sistema. Difícil discordar também que todo um setor da economia contemporânea passa por essas tecnologias, sobretudo o mercado financeiro que, na verdade, desde a década de 70, é quem puxa a economia mundial. Ironicamente, no momento em que o setor financeiro começa a girar em falso, já incapaz de criar a rentabilidade esperada ao seus papéis fictícios, o papel da produção mais básica da economia mundial passe a ser crucial : energia , matérias primas e comida tendem a ficar cada vez mais valorizadas no mercado internacional, enquanto a produção imaterial tem uma tendência de desvalorização – inclusive do trabalho imaterial, não só do capital financeiro. Não sei se nisso concordamos . Não conheço o conceito de capital cognitivo, mas me parece que a ilusão de que a produção de mais-valia , premissa básica da economia global, se deslocaria da chamada economia real para o setor financeiro , e o trabalho imaterial compensaria a tendência declinante do emprego industrial , se revelou uma quimera. ( Posso não ter entendido bem) Sobre a tese do intelectual italiano Gigi Roggero, a de que a luta pelo cancelamento da dívida estaria para o “capitalismo cognitivo” da mesma forma que a luta por melhores salários para o capitalismo industrial pode estar correta a curto prazo, mas mesmo que as dívidas fossem canceladas , os mercados financeiros pesadamente regulados ou pelos bancos centrais ou por alguma forma de poder supranacional, restaria o capitalismo nas suas formas básicas de propriedade , modo de produção, democracia representativa etc , ou seja , tudo que não funciona mais a olhos vistos em países insuspeitos de tendências esquerdistas. Nesse caso, seria impossível voltar à Era de Ouro do Pós-Guerra, quando as economias nacionais tinham pleno emprego e altíssimas taxas de crescimento. Evidentemente , hoje não seria possível esperar qualquer tipo de crescimento econômico significativo, do ponto de vista do capital, principalmente em países como a Grécia , Portugal, ou mesmo Espanha e Itália. Na verdade, é claro que pra qualquer país crescer e economia global tem que crescer , e essa margem de crescimento global é progressivamente declinante. De forma que me soa um pouco ingênuo imaginar que o cancelamento das dívidas resolveria muita coisa, embora possa ser uma bandeira aglutinadora em tempos críticos como o que estamos assistindo.

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  6. Pablo Castro fevereiro 15, 10:11

    Só pra finalizar, achei muito feliz a citação da velha marxiana “não se pode mudar nada sem, antes, mudar tudo.” Isso me leva a um filósofo que tenho acompanhado com muita atenção há alguns anos : o alemão Robert Kurz. Não sei se já leu algo dele, mas pra mim ele é o mais incisivo intelectual marxista do fim do século XX e início do XXI : inclusive o estilo sarcástico e impiedoso dele me lembra o do próprio Marx. Ele tem alguns livros desde a década de 90 em que já afirma categoricamente que , por motivos intrínsecos ao capitalismo, que remontam aos conceitos fundamentais da economia política de Marx, os dias estavam contados para a equação capitalista. Abandonando ou relativizando o conceito de luta de classes , ele insistiu que o crucial estava na economia política : boa parte das esquerdas marxistas do século XX passaram ao largo dessa leitura. Até porque, historicamente, a análise de Marx n’ O Capital estava ainda muito distante do ponto histórico em que haveria uma crise estrutural da auto-acumulação do capital, os movimentos operários revolucionários nunca problematizaram devidamente o próprio conceito de dinheiro, que , além de ser mediador de mercadorias, constitui ele próprio uma mercadoria ; na verdade, A mercadoria. Há poucos dias ele soltou um artigo muito incisivo, entitulado ” Não há Revolução em parte alguma ” , em que na verdade ele joga um banho de água fria nas esperanças de revolução nos movimentos contemporâneos , como Occupy Wall Street, a Primavera Árabe , os indignados na Espanha. Na leitura dele, não há Revolução sem teoria revolucionária : se nos ativermos a reinvidicações pontuais , nunca entenderemos os mecanismos já introjetados em todas as relações sociais de produção, sem a abolição dos quais seria impensável qualquer melhoria significativa da vida humana. Embora relativamente difícil de ler, e provavelmente mal traduzido em alguns pontos ( o tradutor é de Portugal), gostaria de saber sua opinião a respeito : http://o-beco.planetaclix.pt/rkurz400.htm

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    • diego março 7, 19:25

      Nossa cara, obrigado por me apresentar esse Kurz. Seu nome não me era estranho, já outros o mencionando, mas foi seu link que me levou a lê-lo pela primeira vez.
      o texto é interessante mesmo, e realmente difícil de acompanhar em alguns pontos.
      Pesquisando por ele encontrei um site cheio de textos traduzidos dele. Já vi um falando de guerra cambial e gostei também, ele tem algo que me interessa atualmente que é, como você falou, impiedoso, especialmente com a própria esquerda, que se encontra completamente letárgica.
      Sabe, tenho me interessado mais por economia atualmente, e estou tentando entender os modelos neo-classicos, austriacos e keynesianos. Li um livro Bawerk (considerado por Shumpeter o maior economista burgues) intitulado A Teoria da Exploração.
      Faz uns questionamentos bem interessantes à teoria do valor do trabalho e à dialética de Marx, sendo que várias “excessões” à lei do valor que ele apresenta obviamente não são, até um leigo como eu pôde ver, no entanto, depois de muito fuçar na net não achei uma criatura polemizando com as teses do juro positivo e as teses da utilidade marginal de uma perspectiva marxista. Me lembro de ouvir vários professores na faculdade falando em “voltar à Marx” e isso sempre me irritou, até que um outro disse: “se quiser ser marxista, FAÇA como Marx, vire seus opositores de trás para a frente”. Talvez esse Kurz seja um que faz isso, então valeu.

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      • Idelber março 7, 23:13

        Diogo, você também pode procurar textos do Kurz nos arquivos da Folha. O jornal traduziu, durante um tempo, textos dele, e creio que ele chegou a escrever colunas especialmente para a FSP. É muito amigo do crítico literário brasileiro Roberto Schwarz, que foi uma espécie de “introdutor” de Kurz no Brasil. Marxistão, bem ortodoxo.

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  7. Hugo Albuquerque fevereiro 16, 19:34

    Idelber,

    Sou suspeito em dizer que concordo integralmente com o post, até pela minha constante troca de ideias com as partes envolvidas na história. E interessante ver – como você identifica bem e relaciona com clareza e precisão nas entrelinhas – a relação entre aquilo que Trotsky viu e que também ressoa na filosofia contemporânea (sobretudo em Deleuze): a impossibilidade de uma revolução ou reforma social se sustentar ao assumir uma postura sedentária.

    Agora, atentando para a lição do velho Deleuze, é preciso retomar a polêmica em sua plenitude – de arte da guerra mesmo – para pôr em prática uma confrontação dotada de senso estratégico contra a sociedade de controle – e seus dispositivos resilientes (como a joça do PSD, p.ex.). Um problema que vemos no Brasil, p.ex., é que se de um lado existe um esgotamento do PT com sua domesticação – sobretudo neste momento -, por outro lado, a esquerda não produziu outra saída que não importe em equívocos – que não raro usam o paradigma de sistema ainda disciplinar, o que é irreal.

    abraços

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  8. João Guilherme Dayrell fevereiro 21, 04:46

    Idelber, pelo que entendo, o problema de Deleuze é em relação a um poder que não vale-se de um molde (lembrando que Debord dizia que o espetáculo é uma forma de poder destituída de ontologia)- marcado na pedra, duro, fixo – e, sim, opera por mudulação, coloca-se em variação de acordo com seu objeto, obviamente, no intuito de capturá-lo. Seria bem próximo à oikonomia, ou seja, a gestão, administração, que Agamben, e, agora, Ludueña, verão como dispositivo central da teologia. Sei que é sempre possível demarcar, como Borges, Kafka – o “novo” – e seus precursores. Minha dúvida é se é possível modos de vida outros quando da presença do Estado, ou de quaisquer organizações, sejam elas Empresas, Associações, que, trazendo o idêntico sob o disfarce de diferença, continue a exercer o monopólio da escrita – da história? – e, sobretudo, da leitura. Desde sempre (temos muito, mas muito que aprender com os índios), ao que me parece, nossa imaginação tem dono (seja o PT ou PSDB, não interessa).

    Eu não li o Fukuyama mas, me parece, que sua (otimista?) constatação só pode revelar a mais avassaladora forma de totalitarismo já vista. E como alguém disse aqui, se queremos, mais uma vez, repetir o esquema, elaborar novas eleições, uma constituição – a escrita que te diz que seu corpo não é, exatamente, seu – é provável que os hoje libertários sejam, amanhã, os novos donos da palavra.

    Por fim, é, de certa maneira, curioso que seja proibido microfones nas praças das cidades dos EUA. É curioso que um policial possa despejar spray de pimenta na cara de manifestantes pacíficos e espancar uma velhina. É bastante curioso, outrossim, que sejamos proibidos de manifestar, no Brasil, nossa posição desfavorável ao aumento da passagem de ônibus. É preciso pensar, também, que as rebeliões, como as do oriente, são realizadas, sobretudo, porque as pessoas passam fome e são, constantemente, brutalmente violentadas – principamente pelo Estado. Como continua a acontecer na América Latina – vide Pinheirinho.

    Talvez as pessoas tenham acordado para o fato de que o “capitalismo Cognitivo”, ou seja lá qual for o nome do que vivemos hoje, disfarça ao passo que torna, novamente, presentificada, as mesmas formas absurdas e inaceitáveis de violência já muito conhecidas. E não nos esqueçamos que, tendo em vista que o tempo não é homogêneo – como parecia querer o Fukuyama – a disciplina coexistirá, assim como a tanato torna-se concomitante à biopolítica.

    Eu sinceramente espero que o que estamos reivindicando não seja pouco, muito pouco.

    Abraços!

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  9. João Guilherme Dayrell fevereiro 21, 05:01

    No bom e no mau sentido, nós não andamos para frente. =)
    (desculpe ter sido tão longo)

    abraços, professor!

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Sobre o autor

Idelber Avelar é colunista da Revista Fórum e ex-editor do blog "O Biscoito Fino e a Massa" (http://idelberavelar.com). É Professor Titular de Literaturas Latino-Americanas e Teoria Literária na Universidade Tulane, em New Orleans. É autor de Alegorias da Derrota: A Ficção Pós-Ditatorial e o Trabalho do Luto na América Latina (UFMG, 2003) e Figuras da Violência: Ensaios sobre Ética, Narrativa e Música Popular (UFMG, 2011), e coeditor de Brazilian Popular Music and Citizenship (Duke UP, 2011), entre outros livros. Mantém o Twitter @iavelar

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