A sobrevaloração de Julio Cortázar no Brasil: um capítulo de nossa ignorância sobre os vizinhos

Redação
Por Redação fevereiro 24, 2012 02:26

A sobrevaloração de Julio Cortázar no Brasil: um capítulo de nossa ignorância sobre os vizinhos

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Introdução

Imagine um hipotético doutorando argentino apresentando na Universidade de Buenos Aires um projeto de tese que comparasse as obras musicais de É O Tchan e Pixinguinha. Certamente esse hipotético estudante seria considerado um doido varrido ou desavisado por qualquer brasileiro com um mínimo conhecimento da nossa música. Isso não quer dizer, claro, que É O Tchan não tenha valor. Tem, e muito, dentro do seu contexto. Mas, jogando-o numa comparação com Pixinguinha, você provavelmente perde a chance de dizer algo relevante sobre qualquer um dos dois.

Coisa semelhante acontece no Brasil com a literatura argentina: os nomes “Cortázar” e “Borges” são mencionados na mesma frase e, às vezes, até analisados comparativamente em teses, como se pertencessem à mesma galáxia do universo literário argentino. Não pertencem, e este é o caso já há bem mais de trinta anos, não só na Argentina, mas em toda a América Latina e também nas comarcas norte-atlânticas onde Julio Cortázar foi lido, nos anos 60, como se tivesse sido um grande escritor. Mas a notícia insiste em não chegar ao Brasil, onde jornalistas, comentaristas culturais, diletantes e mesmo muitos acadêmicos pensam em Cortázar nos termos com os quais o próprio Cortázar pensava em si mesmo, ou seja, um artista estética e politicamente revolucionário.

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Se é pra ler Cortázar, leia isto

O conceito de valor

Da mesma forma como a situação hipotética descrita no primeiro parágrafo não significa que É O Tchan não tenha o seu valor, a situação real descrita no segundo parágrafo não quer dizer que a leitura dominante no Brasil esteja “errada” e a leitura dominante hoje na Argentina, no resto da América Latina, nos EUA e na Europa esteja “certa”. Não se trata disso. O valor estético não é um fato positivo – ele é resultado de lutas interpretativas, apropriações, releituras, num processo mediado por uma série de instituições (universidades, imprensa, bibliotecas), e sempre contingente. Tentei descrever como vejo o processo neste longo e tedioso ensaio, a cuja leitura convido os interessados.

Portanto, não, não se trata de “certo” ou de “errado”, nem muito menos de que eu esteja sugerindo que você “não pode mais” gostar do Cortázar do qual se acostumou a gostar. Trata-se de entender por que e como e quando quem gosta do quê. Pois, se não é verdade que o gosto e o valor sejam empirias positivas, tampouco é verdade que eles sejam fenômenos misteriosos, inexplicáveis, que acontecem simplesmente como resultado de um “gostar” que estivéssemos condenados a não entender.

Em outras palavras, há uma explicação, caro leitor, para o fato de que você continue acreditando que é um grande escritor um sujeito que, em seu contexto original e em todos os outros contextos relevantes (que aqui quer dizer: contexto no qual o texto realmente é lido), se considera um escritor menor, no máximo uma boa introdução para adolescentes ao prazer da peripécia literária, e em todo caso jamais, jamais, jamais um escritor que possa ser mencionado na mesma frase com Jorge Luis Borges, Juan José Saer, Macedonio Fernández, Roberto Arlt ou qualquer outro dos autores reconhecidamente grandes da mais rica tradição de prosa ficcional da América Latina — o que não quer dizer, evidentemente, que Cortázar não continue tendo muitos fãs na Argentina, nem que jornais e suplementos literários não continuem a prestar homenagens, publicar textos elogiosos, marcar efemérides.

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Cortázar na Argentina

Como tenho perfeita consciência de que ainda não chegou ao Brasil a notícia de que Julio Cortázar é um escritor menor na Argentina – e trata-se de uma notícia que já tem trinta anos, pelo menos –, compartilho aqui o juízo que sobre ele fazem alguns dos críticos e escritores argentinos que com mais atenção se debruçaram sobre a tradição literária de seu país, para que não pensem que estou mentindo: César Aira, o mais prolífico romancista contemporâneo argentino, escreve que Cortázar é um “escritor para adolescentes”. Na avaliação de Ricardo Piglia, “depois de Todos los fuegos el fuego [Cortázar] já não escreveu mais, dedicando-se exclusivamente a repetir seus velhos clichês e a responder às exigências estereotipadas de seu público”. Sobre O jogo de amarelinha, Beatriz Sarlo, a mais reconhecida crítica argentina de hoje, escreve que é um romance que “sofreu enormemente a passagem do tempo”. Para Tomás Abraham, um dos principais filósofos do país, o romance está “escrito para candidatos de agência de turismo cultural”, uma “perfumaria free tax de aeroporto”. Eu poderia continuar citando, indefinidamente. Não é um juízo sobre o qual haja grande polêmica.

É verdade que houve uma época em que Cortázar foi lido na Argentina, e também no resto da América Latina, como um grande renovador das letras castelhanas. Mas essa leitura morreu há mais de trinta anos, e sua sobrevivência no Brasil é um fenômeno curioso, porque não se trata de uma interpretação que se sustente em oposição à dominante na Argentina, polemizando com ela. Não. É uma leitura que se mantém por inércia, em completa ignorância de como Cortázar é lido em seu contexto original. Repito: é óbvio que isso não significa que a leitura feita na Argentina é  a “verdadeira”. Não existem leituras definitivas. Mas imagine um argentino que escutasse Renato e seus Blue Caps — até aí, problema nenhum. Mas se ele os ouvisse acreditando que foram os grandes renovadores da música popular brasileira no século XX, você seria o primeiro a exclamar que está faltando informação. O caso de Cortázar no Brasil é idêntico e eu não exagero na comparação: Cortázar tem, para a literatura argentina do século XX, a importância que têm Renato e seus Blue Caps para a música brasileira popular.

Por que persiste, então, por inércia, a leitura celebratória? Uma boa pista pode vir do experimento de trollagem que faço com este tema no Brasil há mais de dez anos.

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Resultados da trollagem anual

Já há bastante tempo eu faço, pelo menos uma vez por ano, o exercício de “dar essa notícia”, que sempre pega os leitores (ou aspirantes a leitores) brasileiros de Cortázar em profunda surpresa. Este ano, no Twitter, não foi diferente. As respostas foram sempre as mesmas: não dou conta da desconstrução dos meus ídolos, ou sinto prazer na leitura e essa complicação intelectual está me tirando a ilusão, ou Cortázar me faz sentir tão bem. As respostas variam muito pouco e reiteram o mesmo ponto: a literatura de Cortázar reconcilia o leitor, confortavelmente, com os clichês e estereótipos que ele já traz de antemão. Depois da experiência catártica, purgada de qualquer desassossego, o leitor se sente bem.  Em dez anos realizando minha operação de trollagem, jamais vi um leitor brasileiro elogiar Cortázar nos termos opostos, ou seja, de que sua literatura o tivesse descolocado. O elogio é sempre feito em termos bem confortáveis.

A epítome desse conformismo estético, moral e político é o tão decantado experimento de permutabilidade de O Jogo da Amarelinha, romance que pode ser lido linearmente ou na ordem sugerida pelo autor na primeira página, começando-se no capítulo 73, depois passando ao 1, ao 2, ao 116 etc. Entre os leitores que celebram essa permutabilidade como uma grande radicalidade estética — e, trabalhando há anos com literatura hispanoamericana em vários lugares, só encontrei brasileiros que o fizessem –, nenhum deles menciona o fato realmente relevante aqui, ou seja, o de que dá absolutamente na mesma qual a ordem você lê o livro. Bibliotecas foram escritas sobre O Jogo da Amarelinha, mas até hoje nunca vi alguém demonstrar qualquer diferença entre a leitura que começa no capítulo 1 e a que parte do capítulo 73.  Ou seja, o suposto experiemento estético é, na verdade, um penduricalho ornamental.

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Liliana Heker, a autora da cacetada final

A canonização de Cortázar

Qual seria, então, a leitura de Cortázar canonizada nos anos 60 e que persiste no Brasil até hoje? Trata-se, basicamente, de uma interpretação ancorada na utopia de coincidência entre vanguarda estética e vanguarda política. Digamos assim: “escreverei literatura de vanguarda, radical, mas estarei ao lado do povo”.  Nem foi tão radical assim esteticamente, como vimos, nem esteve tão ao lado do povo como pensou — entre os que lutaram mesmo contra a ditadura argentina, é praticamente unânime o desinteresse (ou mesmo o desprezo) pela atividade “política” de Cortázar, e sua “solidariedade” com a Revolução Nicaraguense, no fim da vida, chegou a píncaros de egocentrismo que causaram visível desconforto entre seus anfitriões.

Durante o chamado Boom da literatura latino-americana dos anos 60 (o grande fenômeno editorial que catapultou o próprio Cortázar, Vargas Llosa, García Márquez e Carlos Fuentes ao reconhecimento mundial), o belga-argentino declarou, tentando fundamentar sua utopia de coincidência entre política e estética: “o que é o boom senão a mais extraordinária tomada de consciência por parte do povo latino-americano de uma parte de sua própria identidade? Todos os que qualificam o boom de manobra editorial se esquecem de que o boom não foi feito por editores mas por leitores, e quem são os leitores senão o povo da América Latina?” Em outras palavras, para Cortázar, o sucesso de vendas de seus livros, e o do seu grupo de amigos, significava que o povo latino-americano estava alcançando a consciência.

A citação resume os termos em que Cortázar se enxergou a si mesmo: como agente de uma conscientização do povo latino-americano. Essa continuidade ilusória entre estética e política, através da qual a literatura seria uma espécie de substituto para o atraso econômico e social do continente (“continuamos subdesenvolvidos, mas temos a melhor literatura do mundo”, foi a consigna repetida à exaustão na época), desmorona no momento em que rui o projeto de redenção modernizante pelas letras, sepultado pelo instrumental mortuário das ditaduras militares, a partir das quais a única modernização possível na América Latina passa a ser a tecnocrática. Quem quiser mais detalhes acerca de como isso aconteceu, pode consultar o primeiro capítulo deste livro, no qual desenvolvo um pouco a história mas, em todo caso, a explicação para a decadência da figura de Cortázar na América Latina é esta: a obra não renovou sua legibilidade para além daquele contexto. O massacre argumentativo que lhe impôs Liliana Heker em 1980, quando Cortázar chegou a afirmar que só existia literatura argentina fora do país, consolidou esse destino.

Tanto isso é verdade que todos os fãs de Cortázar no Brasil que o tenham lido – já que ele também tem fãs que nunca o leram – o elogiam com os clichês tomados diretamente daquele marco de interpretação. Na verdade, não há outra celebração possível de Cortázar, ela é sempre a mesma: a aventura do exilado, o romantismo do artista maldito que acredita no potencial redentor da arte, o flâneur que se perde na cidade ou na estrada, em geral sentindo-se inteligente através da humilhação de uma mulher (como a Maga, em O Jogo da Amarelinha), os artefatos da cultura de massas (como o jazz) transformados em ticket cult, etc. etc. etc. Todos os elogios a Cortázar são variações desses clichês.

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A fórmula dos contos de Cortázar

Depois da publicação de seu primeiro livro de contos, Bestiário (1951), uma obra realmente inovadora, que compreendia o peronismo em chave até então não vislumbrada, os relatos de Cortázar passam a repetir uma fórmula, que lhe garantiu enorme sucesso de mercado e que se repetia com tediosa previsibilidade. Essa fórmula pode ser resumida em três ou quatro movimentos: 1) um personagem, sempre homem, topa-se com um lá-fora, um estrangeiro, um desconhecido: o réptil no zoológico em “Axolotl”, o acidente de moto em “La noche boca arriba”, a queda do avião em “La isla al mediodía”, a artista de cinema em “Queremos tanto a Brenda”, a Revolução Sandinista em “Apocalipsis en Solentiname” etc. 2) O choque produz no sujeito um desassossego que o descoloca, e instala uma esfera “fantástica” diferente da que estava presente na ordem anterior: o visitante do zoológico começa a transformar-se em réptil em “Axolotl”, o acidentado de “La noche boca arriba” começa a ter alucinações de que é um prisioneiro azteca, o passageiro do avião em “La isla al mediodía” passa a ter a visão perfeita da ilha, o fã começa a se fundir com a atriz em “Queremos tanto a Brenda”, as fotografias tiradas na Nicarágua começam a revelar uma realidade terrível que o protagonista não havia visto etc. 3) O conto conclui com a esfera “fantástica” coexistindo com ou substituindo a realidade anterior, enquanto o leitor sente que, catarticamente, passou por uma purgação, uma aventura através da qual a ficção lhe deu o vislumbre de uma outra dimensão. A execução desses passos é intercalada com pitadas de humor piegas à la María Elena Walsh, algumas piadas machistas e um ou outro comentário supostamente high-brow sobre alguma esfera da cultura de massas, em geral o jazz.

A previsibilidade é tal que basta ler sete ou oito contos de Cortázar – falo dos textos posteriores a Bestiário – para que se adivinhe, sem muitos problemas, como terminarão os outros relatos. Leia Todos os fogos, o fogo, e depois faça o exercício com As armas secretas. É muito mais fácil que adivinhar final de telenovela ou bang-bang.

É por isso, então, que Cortázar é hoje consumido, na Argentina, principalmente como um escritor para adolescentes. O texto não resiste à releitura. Nisso não há, evidentemente, nenhum problema. Adentrar os adolescentes no gosto pela peripécia já é, em si mesmo, um mérito. O problema é continuar tratando-o, na ignorância de toda essa história, como se fosse um renovador das letras.

Porque, afinal de contas, para argumentar que um escritor é um renovador da literatura, você teria que ter alguma boa explicação para o porquê de essa obra não ter conseguido, nos últimos quarenta anos, renovar minimamente sequer as suas próprias condições de legibilidade, sequer em seu contexto de circulação original.

Comentários

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Redação
Por Redação fevereiro 24, 2012 02:26
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84 Comentários

  1. Vanessa fevereiro 24, 03:58

    Eu fiz um trabalho de conclusão de curso (jornalismo) baseado em “O Jogo da Amarelinha”, que na época era o meu livro preferido. Eu gosto muito do autor, é um dos meus preferidos. Não o considero um revolucionário, mas gosto muito do seu estilo narrativo e da sua maneira de construir “esferas fantásticas”. Me influenciou bastante, mas confesso que faz tempo que não leio. Apesar de concordar com esta “fórmula” narrativa citada – que o levou ao sucesso -, não o considero um leitor adolescente. É muito valorizado, mesmo. Mas não em detrimento de outros. Talvez tenhamos autores brasileiros que ganharam fama demais lá fora, assim como Clarice Lispector. Eu a adoro, mas acho um exagero toda essa “coisa” criada em torno dela.

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  2. Marcelo Barbão fevereiro 24, 04:03

    Idelber,

    tudo na vida tem um outro lado. Inclusive as análises sobre Cortázar. Essa visão de escritor adolescente, aqui na Argentina, não é aceita por todos e alguns nomes importantes ainda (ou voltaram) o veem como um grande escritor. Veja o texto que Martín Kohan apresentou na Feira do Livro ao apresentar o póstumo dele: http://www.diarioperfil.com.ar/edimp/0369/articulo.php?art=14760&ed=0369

    Quanto ao método da trollagem, será que ao colocar algo sobre Borges não choverão os clichês via Twitter?

    Abs
    Barbão

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    • Idelber fevereiro 24, 04:34

      Salve, Marcelo, este texto do Martín é maravilhoso. Lembro-me bem de conversar com ele sobre o tema, e veja que o texto confirma o quase consenso crítico sobre Cortázar na Argentina ao qual eu aludo no post, exatamente ao insurgir-se contra ele: a Julio Cortázar mismo, es decir a su literatura, se lo suele dar por muerto con sospechosa recurrencia. Portanto, eu escolheria o que está por dentro (“voltaram a”) e não o que está por fora do seu parêntesis — “ainda”. É um gesto que aparece: a tentativa de criar outro marco de legibilidade da obra de Cortázar hoje, diferente daquela em que a obra adquiriu os sentidos que conhecemos.

      Resta saber se funcionará. O Martín tenta fazer isso no último parágrafo do texto. Mas os termos ainda me parecem muito próximos daquela leitura anterior, que parece não convencer mais muita gente. Em todo caso, no evento de que outro marco de leitura se construa, Martín seria um dos mais equipados para fazê-lo. Aguardemos, como dito acima, nenhuma leitura é definitiva. Mas o texto do Martín confirma que há um quase consenso, exatamente ao se insurgir contra ele. Abraços.

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      • Marcelo Barbão fevereiro 24, 16:58

        Não discordo que haja um consenso, Idelber. Mas consensos são… bom, já sabemos. O que me parece é que dentro deste consenso há exatamente o que você diz sobre a obra do Cortázar: fórmulas gastas e repetidas. Um intelectual de literatura na Argenitna se não diz que “Cortázar é de adolescente” acaba sendo mal visto. E acabou-se a discussão. Por isso, gosto da postura do Martín.

        E falo tudo isso, claro, porque para mim Cortázar não é secundário, não é sobrevalorizado. Gosto muito dele, apesar de tudo que possa dizer a teoria literária.

        abs
        Barbão

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        • Idelber fevereiro 24, 18:27

          É isso aí, meu caro Barbão: concordamos no essencial. Independente de se gostar ou não de Cortázar, estamos de acordo em que a obra não parece ter renovado suas condições de legibilidade. Por isso também gosto do gesto do Martín, que é o de tentar outro ângulo de leitura. Como você vê abundantemente aqui na própria caixa, os termos com os quais Cortázar é reinvidicado (especialmente no Brasil) continuam os mesmos de quarenta anos atrás. Acho bacana o gesto de quem está procurando outro caminho, outro ângulo de leitura. Será bacana se surgir, mas não será fácil. Abs.

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          • Marcelo Barbão fevereiro 25, 04:10

            Concordo discordando, Idelber. Há muitos escritores que são reinvidicados com os mesmos termos de quarenta, cinquenta ou duzentos anos atrás. E a culpa disso é um pouco de vocês, professores de literatura, hehehehehe, que engessam autores dentro de parâmetros e análises, sendo repetidos ad eternum por alunos incapazes de elaborarem análises próprias.

            Eu sempre falo que teóricos de literatura e críticos deveriam ser encarcelados e proibidos de escrever, mas ninguém me ouve! hehehehehehe

            Abs
            Barbão

          • Idelber fevereiro 25, 23:27

            Há muitos escritores que são reinvidicados com os mesmos termos de duzentos anos atrás. Não creio. Não creio mesmo. Adoraria ver um exemplo. Shakespeare, Homero e Dante, para ficar em três exemplos acima de qualquer suspeita, são reivindicados hoje em termos bem diferentes do que eram em 1810.

            E a culpa disso é um pouco de vocês, professores de literatura, hehehehehe, que engessam autores dentro de parâmetros e análises. Para isso há uma solução, meu caro amigo Barbão: é só ignorar-nos. No entanto, não é isso que vejo. O que mais vejo nos autores estreantes é o desejo de serem “engessados” por ensaístas, críticos, professores e tesistas. Se se preocupassem menos com o que dizem os professores de literatura, talvez pudessem, eles mesmos, estabelecer com mais eficácia os parâmetros em que são lidos.

  3. Thiago Quintella de Mattos fevereiro 24, 04:55

    Idelber,
    Excelente artigo e nem precisava dizer isso. À medida que eu o lia me vinham as perguntas, mas você as fez e as respondeu. Não via Cortázar como inovador litarário, mas gosto muito dessas “fórmulas” e daquelas passagens de melancolia e observações solitárias e introspectivas; acho boas algumas analogias ao povo argentino e latino-americano, como em Os Prêmios, pelo que ousei a interpretar, que poderia levá-lo à condição de “conscientizador”do povo argentino. Tudo isso que dele gostava, então, era a sua abordagem política e filosófica, pelo que entendi aqui. Quanto às comparações com Borges, quem gosta de ler e se informa um pouco, jamais poderia juntá-los em mesmo trabalho ou assunto. Numa entrevista à TVE da Espanha, em 77, parece que ele já percebia que havia “exagerado a si mesmo”.

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  4. fabricio kc fevereiro 24, 04:56

    A crítica que acrescenta algo à literatura é sempre pessoal, assinada, e substancialmente composta pelo gosto pessoal do crítico, respeitando a tarefa implícita de justificar o porquê do seu gosto (referenciando-se, claro, na história da Literatura, da arte, da Estética…).

    Assim sendo, até concordo com a opinião sobre Cortázar (leio e releio muito borges, mas muito pouco Cortázar, não sou fã do autor), mas ela precisa ser melhor embasada e escapar para além da quase absurda comparação com Borges (que é mesmo de outro universo e de outra qualidade) e mais ainda, abrir mão de recorrer à generalização sobre as reações e opiniões de alguns leitores pouco dados aos riscos literários (embora o texto atribua bastante crédito a “importantes” críticos argentinos, como Beatriz Sarlo).

    “A fórmula dos contos de Cortázar” parece mesmo indicar pobreza, embora os movimentos apontados só pareçam clichês diante da repetição do autor. Devia argumentar mais sobre as falhas e falta de qualidade dos movimentos em si.

    Mas quando vc fala da canonização do autor e julga Cortázar como um auto-iludido narcisista e hipócrira que se apropria da pecha de revolucionário, vejo nisso o velho ressentimento de uma esquerda que “não sabe ler” literatura (claro que não é o seu caso, mas se aplica em vários outros e se reflete palidamente aí no texto) – que está sempre a abrir mão da arte em favor de um debate que gira sempre em torno de uma “culpa” mal (in)formada, ao redor de uma responsabilidade que não compete à arte (e muito menos ao autor literário). Se Cortázar é autor de uma obra “datada” e alcançou certa projeção mundial mais pelo contexto da revolução Cubana do que pela qualidade de sua obra, tal análise dispensa o critério do caráter do autor. Então, o artigo, pra mim, começa ali no tópico “A fórmula dos contos de Cortázar”, mas se esvai muito rápido… :(

    Toda obra deve ter sua pitada de atemporal para se tronar clássica, isto é, sobreviver a mais de uma geração. Mas também, as vezes, a própria crítica muda e se renova, as vezes em anos, noutras em décadas. Para se ter uma opinião definitiva sobre Cortázar vale a pena um pouco mais de profundidade e ousadia na argumentação. Mas tendo a concordar com a tese do texto…

    (mas a intenção “iconoclasta” de atualizar o Brasil não se parece com a a acusasada atitude de um “agente de uma conscientização” do povo (leitor) brasileiro?).

    Bom debate!

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  5. Pedro Mandagará fevereiro 24, 06:02

    Idelber,

    embora eu ache as flutuações de valor do Cortázar na Argentina um tema fascinante em si, me preocupa um pouco o tom do teu texto. Me parece que tu, junto com a “esquerda do Twitter” (por exemplo o Sterzi), estão alienando possíveis leitores ao radicalizarem tanto a forma como expressam suas posições, num processo que só pode levar a que vocês falem sozinhos pra vocês mesmos.

    Me explico. Acho válida a tática blietzkrig nas redes sociais em momentos de crise – a avalanche de informações e opiniões sobre o caso do Pinheirinho, por exemplo. Mas a repetição do mesmo modus operandi para tudo, passar o dia inteiro falando do Kassab ou da Dilma ou de Belo Monte não tem eficácia nenhuma – na verdade é contraproducente. É necessária uma intervenção mais estratégica no discurso, pensando quando e como intervir com eficácia. Repetir a mesma coisa o dia inteiro só faz com que se ganhe RTs dos amigos.

    No caso do Cortázar, acho que a linguagem blietzkrieg contaminou tua reflexão literária, gerando um texto que só posso qualificar de preguiçoso. Toda a parte de interesse desse texto já estava no teu artigo sobre o valor. De resto temos algumas afirmações categóricas em excesso e um tom algo grosseiro (mesmo que mais requintado que teus últimos tweets sobre o mesmo assunto). Pegue-se, por exemplo, esse trecho:

    “sua “solidariedade” com a Revolução Nicaraguense, no fim da vida, chegou a píncaros de egocentrismo que causaram visível desconforto entre seus anfitriões”

    De Byron a Sartre, intelectuais que se engajaram sempre foram acusados de fazê-lo em causa própria – o que faz a acusação ser um clichê que, sem desenvolvimento, não tem qualquer valor. Ainda mais por vir precedida por outro ataque não-argumentado e de nível semelhante.

    Acho que é necessário um certo cuidado com o nosso capital cultural, nós da área de Letras/Ciências Humanas (sou da Letras). Começar pelo que somos fortes, pela análise e leitura cuidadosa de textos e eventos. Quando possível, ler os acontecimentos do mundo ou das notícias ou da política a partir da nossa área, e não rebaixar esta para o nível do discurso político extremado do dia-a-dia das redes sociais. Acho que tu fazia isso bem, uma época, mas andou se perdendo.

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    • Marco Natalino fevereiro 24, 20:15

      Pedro, admito não ter conseguido perceber extremismo nenhum no post. Na verdade, a palavra nem se aplica. O texto é sobre um fato curioso a respeito da recepção de um determinado autor no Brasil, ou seja, que ela é muito divorciada da interpretação dominante (e, pelo que parece, quase consensual) alhures.

      Talvez o que você chame de extremismo seja o que outros chamem de clareza e capacidade de síntese? Ou, talvez, extremismo seja a exposição desavergonhada de bons argumentos que desbancam o senso comum? Realmente, o texto é desavergonhadamente iconoclástico, provocador. E claro. E sucinto. Enfim, um excelente post de blog.

      PS: Eu gosto do Cortázar. Gostei bastante de Divertimento, não tanto de O Jogo da Amarelinha. Mas, talve porque esqueceram de me avisar que ele era um escritor genial antes de me presentearem os livros, eu não me senti muito incomodado com o texto do Idelber. :)

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    • Dannyboy fevereiro 25, 07:27

      Também achei o texto fraco. E cai justamente na postura que ele próprio critica, como apontou o colega acima: de conscientizar o Brasil e os leitores de esquerda – ou sei lá a quem diabos o Idelber se dirige nesse caso – de que Cortázar, afinal de contas, nem é tão supimpa assim.

      E eu com isso ? O que diabos isso diz sobre a literatura, sobre qualquer literatura?

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  6. Pedro Mandagará fevereiro 24, 06:07

    Relendo, percebo que consegui escrever “Blitzkrieg” sistematicamente errado, mas espero que tenha dado pra entender.

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  7. googala fevereiro 24, 08:29

    interessante essa abordagem. E pensando bem , jogo de amarelinha, o bestiário( principalmente o conto “Casa Tomada”) fizeram/fazem parte da minha estante adolescente preferida. Só acho que ele está muito mais pra uma Rita Lee do que pra um Renato e seus Blue Caps em relação à importância na MPB. Vc exagerou. abç

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    • Idelber fevereiro 25, 00:46

      Renato e seus Blue Caps foi pesado, foi pesado, eu admito. Mas se eu disesse Rita Lee não ia funcionar, porque existe muita gente que acha (com alguma razão, convenhamos) que Rita Lee revolucionou o rock brasileiro :)

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    • Idelber fevereiro 24, 12:33

      Alguns comentários são realmente sensacionais. O texto é sobre o que aconteceu com a leitura de Cortázar na Argentina nos últimos trinta anos, e você me sugere o (bom) livro do Arrigucci de mil novecentos e setenta e três?

      O livro dele refutava previamente o que só aconteceria de 1980 a 2010 de que forma mesmo? Elabore aí pra gente!

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  8. Léo Bueno fevereiro 24, 09:34

    Gosto do Idelber, mas aqui ele perdeu a chance de não falar besteira. O valor literário de Cortázar não pode ser entendido apenas no contexto argentino – tanto menos ele, que nasceu na Bélgica e passou grande parte da vida em Paris. O próprio Borges, cosmopolita como era, sempre desprezou essa crítica de ranço nacionalista. Cortázar não foi apenas um grande criador de entrechos, nem apenas um grande estilista: ele influenciou muitos, de Lygia Fagundes Telles a Michelangelo Antonioni, o que extrapola qualquer reivindicação de exclusividade que possa advir da crítica para analisa-lo. E o que é isso de dizer que Cortázar não poderia ser posto no mesmo nível de Arlt e Saer? Arlt, para começar – um criador de histórias invejável – não sabia escrever… Ele próprio reconhecia, a crítica que o elogiava e até seus fãs. E Saer, por agradável que seja, é pouco mais do que um barroco tardio, pelo menos uma década atrasado em relação, por exemplo, a Carpentier. Acho que o Idelber podia aplicar algo um pouco além da borração de botas acadêmica ao analisar qualquer tipo de literatura.

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  9. Rafael L fevereiro 24, 09:40

    Li esse artigo com a impressão de que lia alguma teoria conspiratória. Não resisti e resolvi recorrer à Internet (não podia acreditar em tamanha indolência do “povo” argentino). Tudo bem, talvez não bastasse o fato de eu me considerar com um bom leitor. De todo modo, nenhum artigo mudaria minha opinião sobre Cortázar, mas certas coisas, não posso deixar passar.

    Enfim, fui atrás. E descobri que a conceituada revista argentina Criterios tem um artigo recente reconhecendo o quanto Cortázar não deixa de surpreender os próprios críticos argentinos (http://www.revistacriterio.com.ar/nota-tapa/julio-cortazar-vuelve-a-sorprendernos/)

    A Escribirte (admito, não conhecia esta) publica um artigo de um colombiano que fala mal tanto de Cortázar quanto de Borges. E nota-se que, para a revista, é como se profanasse dois deuses ao mesmo tempo.

    (ainda que, pessoalmente, não goste tanto de Borges. Aliás, jamais poria os dois na mesma frase: tem estilos absurdamente diferentes).

    O conceituado suplemento literário da Página/12 faz uma releitura de Cortázar e convoca DIVERSOS escritores, alguns deles ARGENTINOS, a falar sobre sua relação com o escritor. Nem sempre boa, verdade, mas a convocação em si já diz muito (http://www.pagina12.com.ar/diario/suplementos/libros/10-929.html)

    Por fim, e este eu nem precisava pesquisar para saber a respeito, a Revista Ñ, ótima revista de cultura do jornal Clarín, tem matéria especial nesta semana mesmo, lembrando os 50 anos de Sobre Cronópios e Famas.

    Em suma, a autora do texto: cuidado com as pessoas com quem anda. Eles não são a Argentina, como eles podem querer lhe fazer imaginar. Eles são só… um grupo. Pequeno, e nada representativo. Me arrisco a dizer que são, provavelmente… famas.

    Abraços respeitosos.

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  10. João Camilo fevereiro 24, 10:12

    Não vejo um problema em dizer que Cortázar tem uma fama por conta do engajamento político (e ele também é cultuado na frança, não só aqui) e que ele não pertence ao mesmo panteão do Borges. Mas até aí, Arlt, Saer e muito menos Macedonio (que é o Borges afinal de contas, ou melhor, uma criação da biografia borgesiana) também não estão nesta fila.
    Claro que o jogo da Amarelinha é um filho bastardo do mundo do joyce, claro que o truque da leitura é uma farsa (assim como é o truque da leitura de todas novelas, quando você lê capítulo 1, 2,3),o que é provavelmente o verdadeira truque do Jogo da Amarelinha, mas acaba aí. Ele é vítima das mesmas manias, defeitos e problemas de diversos autores, especialmente esses voltados para experimentação que tanto ocorreu no modernismo francês. Dizer que ele se repetia? O Borges parou de contar coisas novas nos anos cinquenta e passou a se repetir também. E daí? O máximo que pode ser dito é que a classificação de inovador do Cortázar é um erro nosso. Não que sua valorização seja um erro. No Universo do Borges, ele está ali, na espera, durante os momentos em que o Borges decide descansar. Provavelmente no nível do Bioy, afinal você não vai deixar de ler Coleridge só porque ele não é Wordsworth.

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  11. Eduardo Campos Lima fevereiro 24, 10:31

    Prezado Idelber,

    Para qualificar a coincidência entre vanguarda estética e vanguarda política como “utopia” é preciso apresentar o projeto de Brecht (para falar de apenas um autor) como fracassado – ou pior, como fadado à inércia e à inutilidade. Não preciso dizer, ainda, que há um longo caminho entre Cortázar e produtores de arte plenamente conscientes de seu papel político.

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    • Idelber fevereiro 25, 01:00

      Caro Eduardo: eu não uso o termo “utopia” como sinônimo de “fracassado”. Eu o utilizo em seu sentido estrito, ou seja, etimológico: o lugar que não há. Abraços.

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      • Eduardo Campos Lima fevereiro 25, 06:45

        Ora, professor, se tal lugar existe como projeto mas continua sendo “um lugar que não há”, só podemos falar em fracasso. E, historicamente, não foi o caso: houve, como conceituou um crítico estadunidense, um “modernismo político”, resultado da dita confluência entre vanguarda artística e vanguarda política. Não acho que Cortázar tenha alguma relação com isso (teríamos tentativas argentinas muito mais aproximadas, como Tucumán Arde, por exemplo), de forma que a argumentação nesse sentido parece-me meio fora de lugar.

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        • Idelber fevereiro 26, 04:58

          Caro Eduardo: Platão, Thomas More e Fourier, para falar de três autores de reconhecidas utopias, também descreveram “lugares que não há” (e que nunca existiram nem vieram a existir) e nem por isso “fracasso” é o primeiro termo que nos vem à mente quando falamos de suas obras. Enfim, não quero impor uma interpretação. Se você quer ler, no meu sintagma “utopia de continuidade entre estética e política”, o termo “utopia” como sinônimo de fracasso, fique à vontade. Reitero que não é o sentido em que costumamos pensar quando falamos da utopia de Platão, ou da utopia de Morus, ou da utopia de Fourier, para ficar em três exemplos em que uso do termo é universalmente aceito.

          Sim, é evidente que houve um modernismo político. Resta saber se esse modernismo realizou a convergência entre estética e política nos termos em que se propunha. Resta saber, por exemplo, se se realizou sem grandes percalços, no interior desse modernismo, a combinação entre a experimentação formal e a “conscientização das massas” de forma a atingir simultaneamente objetivos estéticos e políticos. O suicídio de Maiakóvski, o final da vida de Brecht, convertido em funcionário de um partido que lhe censurava até os versos, a nítida perda do caráter experimental no cinema de Einsenstein com o passar do tempo, e uma infinidade de outros exemplos pareceriam sugerir que essa convergência sempre foi bastante problemática.

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          • Eduardo Campos Lima março 6, 04:56

            Prezado Idelber, utopia é uma ideia bonita. Mas esse mundo das ideias pouca relação tem com o leninismo, por isso é estapafúrdio seu uso junto a “vanguarda política”. Só se estivermos nos referindo a momentos de impossibilidade da ação política, em que restou apenas sonhar com um tal “lugar que não há” (isso exigiria, entretanto, a demonstração de que essa impossibilidade esmagadora existiu).

            A derrota de Brecht, de Eisenstein e de Maiakovski foi política. Esta é a maior prova de que a dita convergência de fato ocorreu: a supressão de um projeto estético pela polícia política. O “modernismo político” foi, portanto, derrotado na luta de classes. Os vencedores foram os proponentes de um outro modernismo, cuja expressão artística teve seus grandes momentos em Ezra Pound e em Borges, esse que o senhor usa como baliza da grande arte.

          • Idelber março 9, 01:55

            Caro Eduardo, não fui eu quem teve a ideia “estapafúrdia” de discutir a relação entre vanguarda política e vanguarda estética. Trata-se de um tema discutido há bastante tempo, e que tem enorme lastro bibliográfico. No caso da literatura latino-americana, que é a pauta aqui, você pode começar com (e cito referências aqui não para arrotar erudição — não creio que você vá fazer essa acusação, mas ela invariavelmente aparece quando citamos livros em blogues –, mas para mostrar que é um tema antigo e muito discutido) RAMA, Ángel (1973): “Las dos vanguardias latinoamericanas”, em La riesgosa navegación del escritor exiliado. Arca. Montevideo, 1995; pp. 135-148. É um ensaio clássico, reimpresso em muitos outros lugares, no qual “as duas vanguardas” do título se referem justamente a “vanguarda política” e “vanguarda estética”. Beatriz Sarlo é outra ensaísta que constantemente discutiu a relação entre essas duas vanguardas no caso da América Latina. Não é, em outras palavras, um problema que eu tenha tirado da cartola.

            Quanto a “utopia”, parece que vamos mesmo ter que concordar em discordar. Para você, o termo significa “sonho” ou “ideia bonita”. Entendo esse uso cotidiano do termo, mas não é o sentido em que eu e muitas outras pessoas o usamos — Fredric Jameson, por exemplo, de credenciais marxistas inegáveis, usa o termo “utopia” para definir a luta pelo socialismo . Em todo caso, não acho que você esteja completamente equivocado ao dizer que um projeto estético foi suprimido pela polícia política (incluída aí, lembremos, a polícia “leninista” da Alemanha Oriental — que sufocou Brecht — e a polícia “leninista” da URSS, que sufocou Maiakóvski e Eisenstein). Mas acredito que dizer que isso esgota o problema, ou prova que a combinação entre projeto estético e conscientização política não estava plagado de contradições, é um baita reducionismo. Creio que aqui sou eu, não você, quem se alinha com o que pensaram e escreveram Brecht, Maiakóvski e Eisenstein: eles constantemente expressaram preocupação com o tema. Estiveram bem longe de tomá-lo como algo resolvido e tranquilo.

            Por fim, não é somente Borges que é a baliza do que é grande arte para mim. Brecht, Maiakóvski e Einsenstein também o são. Eu constantemente me interesso por tentar pensar os problemas, contradições e dilemas irresolutos dos autores que considero grandes artistas. Não acho que nenhum grande artista tenha estado imune a eles. Um abraço.

            Atualização em 11/03: Lendo o ótimo livro de Jorge Wolff, Telquelismos latinoamericanos, dedicado justamente a uma das últimas utopias de coincidência entre vanguarda artística e vanguarda política, encontro esta citação de Beatriz Sarlo, que mostra como essa utopia de confluência esteve disseminada na Argentina (e, por certo, em outras comarcas): El día que llega la revista Tel Quel a Buenos Aires con los poemas de Mao escritos en chino y la foto de Kristeva, Barthes y Sollers en la Plaza Roja de Pekín, me dije: bueno, efectivamente esto es así, la revolución cultural china y las vanguardias francesas pueden coincidir en la página de un libro. Y como ya se sabe que el mundo existe para coincidir en la página de un libro el teorema quedaba demostrado. Cosas así hoy parecen casi extravagantes pero entonces eran casi un lugar común (In: Hora, R. y Trimboli, J./ (org.) Pensar la Argentina: Los historiadores hablan de historia y política. Buenos Aires: Ediciones el Cielo por Asalto, 1994, pp. 168-169).

  12. Idelber fevereiro 24, 10:48

    Estão sensacionais os comentários! Objetivo plenamente atingido :=)

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  13. Karl fevereiro 24, 11:50

    Mas para que a gente lê, então? Vocês, críticos literários, são muito complicados, hehe

    Será que o prazer de ler um livro qualquer é da mesma estirpe deste gerado pelo esfacelar de sonhos e opiniões errôneas? Seu texto, entretanto, é extremamente bonito e claro, Idelber. Quase me convence que a crítica é melhor que a coisa-em-si do livro.

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  14. Punkramenaz fevereiro 24, 12:03

    Caraca… é o tchan é foda… o que é estranho é dar tanta relevância a não relevância dele na Argentina, frente nossa ignorância tupiniquim… Cortázar tem um sabor de não literatura, para não literatos, não estetas… talvez a razão de seduzir adolescentes, pois se dirige ainda ao mundo encarnado, a linguagem do encantamento primitivo… dai que a guerra na qual o crítico insiste sempre estará perdida, pois se há simpatia de um sujeito em ser cronópio e ojeriza por ser fama, logo esse debate se torna inútil pois o que importa é a transfiguração da realidade imediata ou renovação da cosmovisão e não adequação objetiva num debate que se assemelha, para um cronópio, a uma guerra de traças sem o devido apetite… Cortázar sabia que esse poder de renovação da percepção não estava isolado na literatura e muito menos na sua. A fórmula de seus contos, que o crítico aponta astutamente, o próprio Cortázar entrega em algumas entrevistas, destacando sempre a dificuldade de adquirir um ponto de vista legítimo. Mas parece mais fácil fechar uma janela e não deixar o ruído do mundo com sua insignificância atrapalhar a reflexão… Como Mário Quintana no Brasil, não é tão quisto polo meio acadêmico, mas gera poetas noite e dia… bons ou não, deixe para os famas decidirem pontualmente unidos numa ilustre reunião…

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  15. charlles campos fevereiro 24, 12:44

    Seu texto peca por parecer não entender que um país com um cânone literário relevante aceita o estabelecimento de seus ícones tanto pelo que diz a Academia, quanto pelo que diz a Vox Populi. Por isso sim, pode-se colocar Cortázar na mesma frase com Borges, sem sacralizações tolas, assim como o país no século XX que mais produziu grandes escritores (os EUA), coloca na mesma frase Hemingway e Faulkner, apesar desse último ter sido muito superior ao primeiro. Cortázar tem muitos pontos em comum com Hemingway, mas o mais importante é o fato de ter criado um estilo, ter colaborado com uma melodia nova para o mundo das letras. Borges e Faulkner, por mais que tenham sido grandes, não são intocáveis: há páginas e páginas muito medianas no conjunto da obra dos dois para que notemos com mais humildade a incontestável falência dos dois.

    Cortázar foi o melhor escritor do boom latino-americano. Tinha o estilo mais brilhante, a visão mais inovadora, em que promoveu a ruptura dos últimos vestígios de regionalismos estanques da prosa do continente. Garcia Marquez lamentou, em uma crônica, que não lhe tenham dado o Nobel. Há um ensaio ótimo de Vargas Llosa, em Sabres e Utopias, em que se traça a devida importância de Cortázar como elemento fortemente influente para a criação de uma nova literatura hispanoamericana, sofisticada, elegante, soberba, que se ombreava lado a lado com qualquer outra produzida no mundo. E há um fator importantíssimo: o humor de Cortázar. As reflexões morellianas em O Jogo da Amarelinha rescende uma graça até então sem contornos no compêndio de tragedias das letras latino-americanas. Llosa ressalta a perda de qualidade da fase final de Cortázar, em que ele deixa o apuro da escrita de lado e parte para aventuras de política de esquerda. Mas mesmo nesse período_ em que, sempre lúcido, ele reconhece seu ensejo em “escrever cada vez pior”_ ele produz páginas belíssimas, como as que estão em “Nicarágua, tão violentamente doce”.

    Essa falácia de “autor para adolescentes” conta um ponto a favor das intenções de Cortázar. Adolescente deve parecer sua alta imaginação para aqueles que veem a literatura do continente indissociável aos seus aspectos tristes de entravamentos de partidarismos políticos. Kipling também era visto como escritor para adolescentes; Hemingway também. E hoje se fala muito mais de Kim e os contos da Jangal, e se vê a concisão de livros como The Sun also Rising como influência perene, do que os já esquecidos autores politizados (como, digamos, Dos Passos) do período. O mesmo destino solidifica a permanência de Cortázar.

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  16. charlles campos fevereiro 24, 12:53

    E sobre repetição de clichês, os últimos livros de contos de Borges levam os cacoetes dele a enésima potência. Ler “A Memória de Shakespeare”, p. ex, é uma exaustiva constatação de que o mal da senilidade criativa condena todo grande autor a se tornar paródia de si mesmo.

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  17. charlles campos fevereiro 24, 13:42

    Eu estou lendo seu post aos pingos.

    As fórmulas para os contos de Cortázar são, citando o frade Guilherme de Baskerville, a criação de silogismos encaixando-os em leis inventadas para dar-lhes fundamento. Posso contar uns dez contos de Cortázar que não se adequam a esses parâmetros. Caso de “Final de Jogo”, em que Cortázar demonstra ter total domínio do conto, sendo o avesso dos itens apresentados acima; “O Perseguidor”, e uma boa parte de “As Armas Secretas”.

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  18. Danilo Maia fevereiro 24, 14:08

    Seus argumentos me parecem bastante consistentes, mas me ocorre uma questão: não é possível ser um “autor reconhecidamente grande da mais rica tradição de prosa ficcional da América Latina”, como você pontuou, e ainda assim ser sobrevalorizado?

    Não é possível que a idolatria de sua massa de leitores e críticos tenha escamoteado imperfeições literárias até mesmo de Borges?

    Não seria o próprio cânone literário uma sobrevalorização por natureza, indispensável à construção de mitos como Borges e James Joyce?

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  19. charlles campos fevereiro 24, 14:11

    Meu último comentário (cheguei ao final do post).

    O fato de não ser devidamente lido em seu país de origem, para qualquer leitor com boas horas de atividade sobre a leitura de seus autores preferidos, não é demérito para o valor do escritor. Faulkner, na metade final do século passado, era pouco lido em seu país, e muito lido na América Latina, assim como, anteriormente, era mais lido em França e na URSS. Imagine Dostoiévski sendo medido pela pouca permeabilidade que tinha na União Soviética, em substituição pela literatura tolstoiana de determinismo moral adotada pelo Partido. Imagine colocar Onetti no terceiro time por ele nunca ter tido a mesma repercussão que os outros autores do período. Ainda hoje Onetti é muito menos lido que Cortázar.

    Dos autores que vc citou acima, conheço Piglia, que não fez nada mais que emular e depurar a magia de Respiração Artificial em seus outros livros. Então, se trata do que fala dos outros sem ter a devida dimensão do seu umbigo.

    Há uma escola de escritores latino-americanos muito influenciada por Cortázar, e outros como Rulfo. Deves conhecer, claro,Samanta Schweblin e o grupo de ficcionistas de até 27 anos do qual ela pertenceu.

    Contos previsíveis? Isso é considerar equivocadamente que Cortázar adotava uma retilinearidade policialesca na composição dos contos, tipo A-Z, em que algum mistério escondido era revelado no final, o que, ao menos nas minhas leituras, eu jamais vi. Cortázar já escreveu em diversos ensaios que seus contos ambicionavam o impacto, mas não tinha essa preocupação de pulp fiction. Muitos finas derivam para o surrealismo, ou para a ternura mais franca, como é o caso de Final de Jogo.

    E esse martelar na mesma tecla de “leitura para adolescente”, renitente, não passa de má-intenção. Isso vem de encontro à análise de Bolaño de que a América Latina não possui literatura de gênero por sermos subdesenvolvidos. Bolaño é um continuador de Cortázar, se formos ler a história do continente através da criatividade literária.

    Para quem se interessar, esse link:

    http://charllescampos.blogspot.com/2010/09/2666.html

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  20. João Paulo fevereiro 24, 14:20

    Pois eu penei para terminar As armas secretas. Poucas vezes li um livro tão chato. Se é literatura para adolescente, prefiro Dumas, Verne, Salinger.

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  21. Tiago Mesquita fevereiro 25, 01:38

    Se o Cortazar está para a literatura argentina como o Renato está para a música popular daqui, então o Tchan é muito mais importante que o Cortázar. O Tchan é uma das coisas mais importantes da música popular nos anos 90.

    Agora, de volta ao que importa, será que o Cortázar não fala coisas ao contexto brasileiro que não fazem sentido no seu contexto original? Será que não seria possível buscar esse sentido mais compreensivo? Tentar entender porque ele faz esse sucesso?

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    • Idelber fevereiro 25, 15:50

      Essa é uma excelente hipótese: também acho que não cabe descartar a recepção de Cortázar no Brasil como se fosse somente uma questão de “falta de notícias”, embora a falta de notícias exista e seja inegável. Mas que a obra tenha adquirido, em outros contextos, sentidos que não circulam no seu contexto original é uma ótima hipótese, realmente, para o que está em jogo aqui, e o seu outro comentário toca num ponto importante da diferença entre Argentina e Brasil: na Argentina, como se trata de um país já constituído no interior de um projeto letrado, com a quase universalização da alfabetização atingida muito antes que no Brasil, o beletrismo exerce muito menos fascínio. Afinal de contas, o letramento já há bastante tempo não é privilégio de uns poucos.

      Quanto ao sentido adquirido por uma obra em outros contextos, há um exemplo fascinante na própria Argentina: em seu contexto original, The Wild Palms não é, normalmente, listada entre as principais obras de Faulkner, certamente não no mesmo time que The Sound and the Fury, Light in August ou Absalom, Absalom! Na Argentina, Las palmeras salvajes possivelmente tenha sido o texto mais importante de Faulkner para a tradição literária do país — afinal de contas, Borges dedicou a ela uma tradução inesquecível ;)

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  22. Tiago Mesquita fevereiro 25, 01:46

    Parece-me que uma das razões para a sobrevivência desse gosto pelo Cortazar vem muito de um beletrismo que insiste em sobreviver nos cadernos culturais, no mercado editorial e nas discussões midbrow sobre literatura e artes. Nestas flips da vida, o que se vê é o elogio de uma conversa de elevador com requintes do artesão da palavra. Mais que isso, o Small Talk é a regra da prosa de autores jovens aqui em São Paulo, por exemplo. O Cortázar é small talk por excelência.

    Sobre o chamado à consciência, acredito que a segunda faze do cinema novo no Brasil também parece carregar em si significados parecidos. No entanto, tratava-se de um projeto de uma indústria local. Da possibilidade do Brasil ser narrado por brasileiros.

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  23. Marcus Pessoa fevereiro 25, 04:39

    Acho que vou passar por inculto ou ignorante, mas deve haver algum motivo pelo qual sinto prazer imenso pela literatura, e nenhum por ensaísmo literário.

    Eu simplesmente não estou interessado no suposto ou falso caráter renovador ou revolucionário de Cortázar. Eu apenas sinto um prazer imenso ao lê-lo. Assim como sinto lendo literatura considerada menor, como Chandler, por exemplo — que tem um monte de clichês absolutamente deliciosos. Nunca pensei em fazer uma hierarquia entre elas, ou entre estes e outros considerados grande literatura.

    (depois que escrevi esse comentário, li o do Charlie Campos, que faz essa mesma comparação com literatura policial. Deve significar alguma coisa)

    Interessa-me menos ainda o contexto ou discurso político do autor sobre sua própria obra. Alguns dos autores que eu mais gosto (Céline, por exemplo) estiveram completamente equivocados a respeito do tempo em que viviam.

    Acho importante que quem dá valor a isso leia textos como o seu, tão esclarecedores. Eu só acho isso bem irrelevante.

    Espero que este comentário não pareça rude.

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    • Idelber fevereiro 25, 15:03

      De jeito nenhum, Marcus! Inclusive, a comparação com Chandler (e poderíamos acrescentar Stevenson, Kipling etc., ou seja, escritores cujo foco é a peripécia) me parece perfeita aqui para o caso.

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  24. Leandro fevereiro 25, 05:41

    Excelente texto. Interessante que boa parte das introduções aos estudos literários no Brasil (pelo menos nos seguidores da tradição “uspiana”) parte do esquema que você apresentou no começo da última seção.

    Talvez a “resistência” de Cortázar por aqui tenha raízes institucionais também, não?

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  25. Leonardo fevereiro 25, 10:58

    Tardiamente, eu entrei aqui pra defender o Cortázar do ressentimento-nosso-de-cada-dia do Idelber, mas acho que não é mais preciso. Fiquei até com dó do Idelber, de tanta pancada – merecida – que ele levou. E defenderei-o, portanto: o louvável da atitude do Idelber é ousar levantar uma crítica contra uma unanimidade. É isso que incomoda ao Idelber: a pretensa unanimidade brasileira, baseada no fato de estarmos, em sua opinião, “out of touch”, ou démodé, como diziam antigamente. Daí, o Cortázar ter sido meramente o veículo para a ira santa do Idelber. Mas não se preocupem: logo, ele trollará sobre outras coisas, para o bem de nossa saúde intelectual. Viva o livre pensar.

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    • charlles campos fevereiro 25, 12:36

      Concordo sobre a qualidade instigatória dos textos do Idelber sobre literatura. Ele me fez adquirir o Macedônio. Mas há de se ter cautela no decímetro gerador de polêmicas, para que a coisa em vez de privilegiar a inteligência não ressaltar o tal “ressentimento” do blogueiro. Já li textos de doutores pela internet que transcendem a bobagem pura. Há um jornal, o Opção, especialista nesses sorbounismos pés-de-chinelos. Quando li a menção a É o Tchan, no texto, já vi que o Idelber transitava por um campo minado. No referido jornal, (link abaixo), na ânsia pelo ineditismo intelectual, já li besteiras como “Woody Allen é superior a Dostoiévski e o maior artista da história”, “o filme Dois Filhos de Francisco é melhor que os últimos romances de Garcia Marquez”, “Bolaños, do Chapolim Colorado, é superior a Bolaño, de 2666″ e assim vai. Aqui estão alguns exemplos para exercitar o constrangimento pelos outros:

      http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/filosofo-diz-que-woody-allen-e-superior-a-dostoievski

      http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/chaves-do-inferno

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  26. Aninha fevereiro 25, 11:29

    Esse discurso do falo isso há 10 anos e ninguém liga ficou mesmo parecendo mágoa de caboclo ;)

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    • Idelber fevereiro 25, 14:32

      hahaha, não é mágoa mesmo. É pura diversão de ouvir certas coisas ;) Poucos temas me divertem tanto!

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      • Pedro Mandagará fevereiro 25, 14:36

        Só eu acho esse tipo de resposta infantil?

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        • Idelber fevereiro 25, 14:59

          Brinquei com uma leitora que brincou comigo. O texto “adulto” está lá em cima. Se tiver argumentos para rebatê-lo, é só escrever.

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          • Pedro Mandagará fevereiro 25, 18:06

            Teu argumento, pelo que entendi, é assim: o juízo de gosto é subjetivo e o valor literário (ou o cânone) é contingente, constituído de lutas interpretativas. Aplicado ao caso do Cortázar, as leituras das últimas décadas na Argentina têm desvalorizado sua obra, enquanto o Brasil estaria supostamente defasado. Suponho que, subjacente a isto, também estejas falando da desvalorização dos outros escritores do “boom” latino-americano, que me parece ter ocorrido simultaneamente.

            Nossa interpretação “defasada” se basearia na conjunção entre revolução política e estética (a famosa união entre “arte revolucionária” e “forma revolucionária”). O passo seguinte seria mostrar que Cortázar não era revolucionário em nenhum dos dois planos. Acho que foste excessivamente sumário ao falar da atuação política de Cortázar. Simplesmente dizer que ele era egocêntrico, ou que colegas argentinos não valorizavam seu papel na resistência à ditadura, não fornece elementos o suficiente para julgar a atuação de toda a (longa e contraditória) vida de um intelectual. O simples fato de Cortázar, junto com G. Márquez, nunca ter renegado o socialismo enquanto os outros companheiros de geração debandavam para o outro lado já serviria para matizar tua crítica.

            Teu ataque à escrita de Cortázar já é um pouquinho mais elaborado, embora, claro, eu não concorde. Ler Rayuela pelos dois caminhos propostos não muda nada do enredo, mas acho que esse não era o ponto. Faz (bastante) tempo que li, mas o que me chamou a atenção nos capítulos “extras” foram as indicações metaficcionais. Sobre os contos, reconheço também a fórmula – mas não acho a repetição necessariamente negativa. Imagina julgar por esse critério alguém como, sei lá, Dickens: de novo uma criança, de novo gente pobre em Londres, etc. Acho a crítica em relação ao machismo do Cortázar bem mais procedente e relevante, mas também teria que ser mais longa.

            Também fazes um ataque ao efeito que Cortázar causa no leitor, a partir de testemunhos de tua “trollagem” anual. Supostamente seria um efeito de conforto, um texto que não inquieta de maneira nenhuma o leitor. Tu tentas objetivar esse efeito “reconfortante” a partir da leitura da fórmula que C. repete nos contos, mas não creio que haja relação necessária entre uma coisa e outra (diversas comunidades interpretativas podem se “descolocar” a partir da leitura de diversos tipos de texto). À parte isso, introduzes no meio de uma discussão sobre cânones que se constroem de maneira contingente e histórica um pretenso critério objetivo de valor (o bom texto é aquele que inquieta).

            Não acho que tua crítica se resolva bem internamente, mas também discordo que a associação entre política e estética fosse tão ilusória assim. Meu caminho seria ler esta proposta “de dentro”, isto é, a partir dos pressupostos da época. Se era uma ilusão, era uma ilusão vivida. A crítica à modernização literária proposta pelos autores do boom parece pedir mais da literatura do que ela pode dar: sim, a única modernização passou a ser a tecnocrática, mas o que exatamente os autores poderiam ter feito?

            Em linhas gerais, acho que não atingiste teu objetivo mais explícito, mostrar a derrocada do valor de Cortázar na Argentina e por que no Brasil não se acompanhou essa desvalorização. Também não é evidente por que teríamos que seguir os argentinos nisso (concordo com o comentário do Tiago Mesquita nisso). Teus ataques diretos ao Cortázar também são muito rápidos para serem decisivos. De maneira geral, acho que a maior parte das tuas posições são defensáveis, mesmo que eu não concorde, mas demandariam mais trabalho argumentativo.

            Pondo o comentário sobre o texto de lado, noto que tens usado uma retórica condescendente com quem discordou de ti nessa questão, tanto aqui quanto no Twitter (onde por exemplo disseste: “Ler aqueles comentários é um fantástico exercício de etnografia do senso comum literário” – outro comentário infantil). Era mais sobre a retórica e a estratégia discursiva, que sobre o post em si, que meus comentários anteriores falavam. Gosto muito do teu trabalho acadêmico, mas parece faltar um cuidado reflexivo na tua atuação pública recente extramuros. Sobram afirmações categóricas e polêmicas: Cortázar é “um ídolo do senso comum complacente”, Rayuela uma “porcaria” pretensiosa e intolerável, e o mesmo estilo é utilizado para falar de política. Nesta, concordo com a maior parte das tuas posições, mas não consigo entender como trocentas denúncias enfáticas por dia ajudam alguém em alguma coisa. É a isso que me referia quando disse que estavas te arriscando a falar sozinho: acho que a esquerda do Twitter, pra usar a expressão de antes, tinha que aprender a pensar estrategicamente. No afã de comentar tudo, muitos cometem erros primários, como se indignar contra TTs reacionários citando os mesmos nos seus tweeta (e, portanto, ajudando a que eles permaneçam no top ten). Começando por esses cuidados mínimos, se poderiam pensar em intervenções políticas mais pensadas, menos emotivas ou “indignadas” – ou seja, trazer o cuidado intelectual que exercitamos na vida acadêmica para dentro da atuação pública, em vez de nivelar o discurso por baixo.

  27. Idelber fevereiro 25, 19:46

    Espetacular, Pedro. Agora sim, eu entendo sobre o quê você quer conversar. Vamos lá. Não discordo de tudo, de forma nenhuma. Aliás, concordamos no essencial.

    Sobre o seu primeiro parágrafo: está correta a sua interpretação sobre o que eu entendo por valor e cânone, mas eu não usaria o termo “subjetivo” como sinônimo de “contingente”. Essa “contingência” é mediada por instituições, imprensa, bibliotecas, prêmios etc., ou seja, ela é “objetiva” no sentido de que ela tem lugar em, e se articular através de, estruturas sociais reais. E eu também não diria, no caso do Cortázar, que o problema é que o Brasil estaria “defasado”. Sim, eu sei que você pode pegar as minhas frases sobre “a notícia de 30 anos que não chegou ao Brasil” e interpretá-las assim. Mas note que eu disse no texto que o curioso não é o fato de que predomina no Brasil a leitura de 40 anos atrás. Eu disse que o curioso é que essa leitura não se sustenta polemizando com a leitura dominante na Argentina, contrapondo-se a ela, argumentando contra ela. Ela se mantém em completa ignorância dessa outra leitura, produzida no contexto original da obra. Isso é grave, Pedro, e deve ser apontado.

    Daí as minhas gozações, das quais você não gostou, mas o que eu posso fazer se apresento um texto discutindo a evolução da leitura de Cortázar nos últimos trinta anos e um leitor aparece dizendo “sugiro esta leitura aqui”, com link para o (bom, insisto) livro de Arrigucci de 1973, como se estivesse me apresentando uma novidade? É uma espécie de arrogância uspiana (atenção: não estou dizendo que todo mundo na USP é arrogante, estou dizendo que há uma forte tendência ao umbiguismo) que leva, como no caso apontado, provavelmente um aluno, a fazer isso.

    Quanto à crítica contida no seu segundo parágrafo: eu a aceito, e é claro que eu não ofereci elementos suficientes. Nenhum post de blog oferece elementos suficientes para fundamentar nada. Mas note que eu ofereci o link ao Alegorias da Derrota onde há um capítulo de quase 50 páginas em que essa crítica à continuidade ilusória entre estética e política é argumentada. Esse livro foi bastante lido no Brasil (nos circuitos de especialistas, claro), e ele foi criticado (algumas vezes muito bem) em outros aspectos, mas esse primeiro capítulo sobre o boom foi, talvez, o que mais concordância suscitou. Não conheço nenhuma refutação dele. Se você conhece, ou quer oferecer uma, mande bala. Eu a publico aqui, inclusive.

    Os teus terceiro e quarto parágrafos são bons. Mas note uma diferença: quando eu detalho a fórmula dos contos de Cortázar, eu destrincho (sim, claro, de forma rápida, sumária, como é o caso em blogs) uma estrutura, um procedimento. Ao dar o exemplo de Dickens, você diz “de novo uma criança, de novo gente pobre em Londres” etc. Ora, isso não são procedimentos, são temas. Dickens faz coisas extremamente diferentes com esses temas. Note que não há coincidência de temas nos exemplos que dou sobre Cortázar: um é sobre um zoológico, outro sobre um acidente de avião, outro sobre um fã de cinema, etc. Mas mostro — sim, de maneira rápida, poderia argumentar muito mais — que o procedimento é o mesmo. Portanto: sua menção a Dickens não rebate o que eu disse sobre Cortázar.

    Isso significa que necessariamente, o texto bom é o texto que inquieta? Não, claro que não. Claro que, como você aponta muito bem, diversas comunidades interpretativas podem se “descolocar” a partir de diferentes tipos de texto — nisso eu vejo que você leu o meu ensaio sobre o cânone, e eu agradeço a leitura! Ora, caro Pedro, eu sou um grande defensor da literatura de Paulo Coelho, de Harry Potter, da literatura de entretenimento, como você pode dizer isso sobre mim? O que eu estou apontando é uma disjunção: um escritor que está muito mais próximo de Harry Potter que de Borges ou Lezama é lido no Brasil como se fosse um Borges ou Lezama. Isso é interessante, deve ser discutido! Não há juízo de valor aqui, não há mesmo (claro que quando eu digo “porcaria”, há juízo de valor, mas isso é outro contexto, eu chego lá).

    O teu quinto parágrafo traz o embrião de uma crítica ao primeiro capítulo de Alegorias da Derrota, e eu insisto: você está falando de reflexão e, se quiser desenvolver essa crítica mais reflexivamente, eu a publico aqui. O que eles poderiam ter feito? Não sei, pra mim nunca se trata de uma formulação nesse tempo verbal e o que sei é que outros escritores da época escolheram outro caminho. Eu menciono três: Lezama Lima, Salvador Elizondo e Roa Bastos partiram em rumos bastante diferentes, e que hoje me inspiram – inclusive politicamente – de um jeito que Fuentes, Vargas Llosa e Cortázar não inspiram. Fica aí o desafio.

    Quanto ao comentário sobre a rapidez, a falta de reflexividade e a estratégia discursiva, contidos no sétimo parágrafo, eu os uso para responder ao sexto: não, caro Pedro, eu acredito que você se equivoca ao adivinhar qual era meu objetivo com o texto. Não era “mostrar a derrocada do valor de Cortázar na Argentina e por que no Brasil não se acompanhou essa desvalorização”. Eu apontei isso, claro, mas o objetivo era dar um sacolejo nesse sentido comum da leitura de Cortázar e este objetivo está plenamente atingido. O fato de que tanta gente esteja se defendendo, repensando, reagindo é o que vale aqui. É nesse contexto que devem ser lidas minhas referências a “porcaria” ou “ídolo do senso comum”. É claro que há algo de exagero, de boutade nesse tipo de comentário. Nenhum senso comum, nenhum consenso, jamais foi sacudido sem algum tipo de exagero.

    Você não vê a utilidade de “trocentas denúncias enfáticas”? É uma pena. As vítimas das atrocidades costumam vê-la. Em todo caso, costumam apreciar o ato de denúncia. Quanto à ideia de “trazer o cuidado intelectual que exercitamos na vida acadêmica para dentro da atuação pública, em vez de nivelar o discurso por baixo”, eu estou totalmente de acordo. Se você conhecer outros blogs de acadêmicos brasileiros onde este tipo de papo que estamos tendo aqui esteja acontecendo, ou se conhecer outro acadêmico blogueiro que, além de escrever um texto desta longitude defendendo uma posição num blog, dedica este tipo de atenção a um único leitor de quem jamais sequer ouviu falar, por favor me mande o link!

    Deixo um abraço e o agradecimento.

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  28. Cida Sepulveda fevereiro 26, 20:18

    Olá

    Gostei do ensaio. Corajoso com um porém – já está assumindo a crítica de outros. Quero ver criticar um texto que se mantém na unanimidade, por exemplo, José Saramago, ou ainda, literatura (se é que se pode chamar assim) de tantos escritores brasileiros que estão fazendo marketing a qualquer preço, vendendo a mãe se preciso for….Não gosto de Cortázar e adoro Borges.

    Sobre o comentário que transcrevo abaixo, retirado daí de cima:

    E a culpa disso é um pouco de vocês, professores de literatura, hehehehehe, que engessam autores dentro de parâmetros e análises. Para isso há uma solução, meu caro amigo Barbão: é só ignorar-nos. No entanto, não é isso que vejo. O que mais vejo nos autores estreantes é o desejo de serem “engessados” por ensaístas, críticos, professores e tesistas. Se se preocupassem menos com o que dizem os professores de literatura, talvez pudessem, eles mesmos, estabelecer com mais eficácia os parâmetros em que são lidos.

    Penso que os professores de literatura deveriam estar mais atentos à produção literária do presente, afinal, são vozes autorizadas e, em tese, conhecem literatura. Mas até onde isso é fato? Não serão apenas técnicos, especialistas neste ou naquele autor? Como escritora viva, não quero ser engessada e preferia não ignorar os professores de literatura. Na verdade, por muito tempo eu quis acreditar que a arte também pode ser um lugar de encontro. Mas, o que se vê?

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    • Idelber fevereiro 26, 22:54

      Perfeito, Cida. Quanto a Saramago: não é um escritor que me fascine muito e eu toparia, sim, em algum momento, escrever um ensaio detalhando o porquê. Aprecio Jangada de Pedra e gosto mesmo, para dizer a verdade, de um livro pouquíssimo conhecido dele, O Ano de 1993. Gosto muito menos de obras que têm um público muito maior, como Memorial do Convento. Toparia, sim, escrever sobre.

      Quanto à sua inquetude no último parágrafo: eu acho que há muitos, muitos acadêmicos se dedicando à literatura do presente. Estão por aí, é só procurar. A academia tem muitos problemas (a endogenia, por exemplo), mas não creio que a falta de atenção à produção do presente seja um deles. De bate-pronto, sem pensar muito, eu poderia citar para você estudos (artigos, livros, teses) escritos sobre Milton Hatoum, Zulmira Ribeiro Tavares, Cristóvão Tezza, João Gilberto Noll, Ana Miranda, Carlos Sussekind, Ricardo Lísias, Silviano Santiago, Rubens Figueiredo, Santiago Nazarian, Luiz Ruffato, Ana Maria Gonçalves, Chico Buarque de Hollanda, Carola Saavedra, Bernardo Carvalho, Elvira Vigna-Marú, Sérgio Sant’Anna, André Sant’Anna e Menalton Braff, para ficar só na prosa de ficção, que eu conheço melhor que a poesia.

      Existe, é claro, o problema de que esses estudos circulam pouco, não chegam a muitos leitores etc. Isso é mais ou menos uma vocação, um destino deles. Mas, hoje em dia, com a internet, você realmente querendo ter acesso a esses estudos, você os encontrará. Um abração.

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      • Tiago Mesquita fevereiro 27, 07:39

        Acho que gosto mais do Saramago que o Idelber, mesmo assim, se o compararmos com o tamanho que a literatura portuguesa tem no século XX ele fica menor. Só pra mencionar nomes mais recentes: Herberto Helder, Lobo Antunes, Maria Gabriela Llansol, Gonçalo Tavares, Augusto Abelaria (fora o Agostinho Silva, como ensaísta). é um time respeitável.

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  29. Cida Sepulveda fevereiro 27, 04:04

    Ok, Idelber, diálogo é fundamental. Abraço, Cida

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  30. Pedro Mandagará fevereiro 27, 05:24

    Idelber,

    achei tua resposta ao meu comentário melhor que teu post. Se esse fosse o estilo desde o início, nem haveria discussão!

    Mesmo assim, pontuo algumas coisas rapidinho. Posso ter me expressado mal, mas não quis equacionar “subjetivo” e “contingente”. Quis fazer a equação dupla juízo de gosto – subjetivo (expresso por “eu gosto de”) e juízo de valor – contingente (expresso por “X é melhor que Y” – também não sei se juízo de valor é a expressão mais adequada pra isso, teria que refletir um pouco mais).

    Concordo que se pode apontar a ignorância dos estudos no Brasil a respeito da fortuna crítica do Cortázar na Argentina, mas creio que não fizeste isso. Citas umas declarações na internet e só. Teu argumento teria mais estofo citando publicações, acadêmicas ou jornalísticas.

    Sobre a repetição de temas e procedimentos, se pode facilmente achar outros exemplos. Muita gente da tradição do conto repete bastante seus procedimentos. Deixo Hemingway e Carver como exemplos norte-americanos. Mas isso não é o essencial: queria apontar que não vejo esse valor negativo na repetição. Uma defesa exaustiva estaria além da minha capacidade de argumentação no momento, até porque pensei pouco sobre o assunto, mas acho que a repetição – inclusive de procedimentos – pode ser defendida por analogia com a ideia de variação (da música). Enfim, deixo isso como uma ideia.

    Eu tenho sim uma crítica ao capítulo em questão do Alegorias da derrota, mas não por alguma falha que eu veja no livro. Pelo contrário: é uma pesquisa maravilhosa e que tem ajudado muito na minha tese (que trata, em parte, do García Márquez). Meu problema é com toda a avaliação corrente sobre o boom, com essa ênfase negativa. No teu caso há um argumento sólido em defesa da avaliação, mas em muitos outros parece apenas recalque contra quem fez sucesso. (E isso se repete para outros períodos: uma professora chilena, que aliás admiro muito, menosprezou a obra do Bolaño numa palestra aqui em PoA, dizendo que era “supervalorizada”.) Enfim, agradeço a oferta de publicação, mas é algo que preciso pesquisar bem mais antes de formular extensivamente – até porque, repito, não seria o caso de derruar teu argumento, mas de tentar um outro caminho interpretativo.

    Por fim, não quis dizer que as denúncias são inúteis: quis dizer que falta uma visão estratégica. Em muitos casos as denúncias repetidas causam cansaço e cessam de ter repercussão, se tornando uma pregação aos convertidos. Acho que é o que ocorreu com Belo Monte. Claro que teve o boicote da mídia e etc, mas acho que faltou uma estratégia para maximizar o apelo das denúncias. Percebo, falando com pessoas que ainda estão ou saíram do Twitter, que denúncias nas redes sociais são o equivalente de passeatas na frente do MASP: algo que pode ter impacto, se se multiplica aos centenas de milhares, mas que também pode servir para isolar o grupo que denuncia.

    Agradeço a atenção, e deixo um abraço.

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  31. marcos nunes fevereiro 27, 05:29

    So achei que a comparação com Renato e seus Blue Claps indigna; eu citaria, para fazer justiça, The Fevers…

    Não implico tanto com Cortázar assim, mas concorco que os procedimentos dele são fáceis e repetitivos. Como prova, escrevi um conto seguindo sua linha, que está aqui, ó – http://papodehomem.com.br/demoninho/ – e poderia constar, penso eu, das obras completas dos copiadores de Cortázar.

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  32. Marjulie fevereiro 27, 12:13

    Olha, o próprio Cortázar fala do seu exagero em torno de sua auto-imagem em “A volta ao dia em 80 mundos”, livrinho curtinho e bem gostoso de ler. Cortázar é um pouco isso: ter um momento de gostosura na leitura. No “Jogo da Amarelinha”, ele me levou à revolta pelo machismo; mas, se pensarmos em outros autores, como Castro Alves e até o meu amado Álvares de Azevedo, há também um machismo extremado, e num lirismo que é puro eufemismo. De qualquer forma, acho que o gosto pelo Cortázar vem de um gostar de ler sem intransigência professoral (por mais que minha professora de literatura ocidental tenha sido minha introdutora em Cortázar e outros mais). Mas o exercício do contraditório sempre é bom.

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  33. Esteban fevereiro 27, 13:46

    Seria interessante ler algo seu sobre o Jorge Amado.

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  34. Cida Sepulveda fevereiro 27, 17:32

    Nossa, estou muito contente com este site, discussão de alto nível. Viva o Brasil! Ao menos aqui, agora.

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  35. Pedro Mandagará fevereiro 27, 19:32

    Opa. Passo de novo rapidinho pra deixar o link de uma dissertação que achei na net, ddefendida na UFBA, sobre a tradução de autores argentinos nos anos 70 no Brasil. Apenas tangencia a discussão, mas o trabalho parece muito bom:

    http://www.bibliotecadigital.ufba.br/tde_arquivos/11/TDE-2010-04-22T134429Z-1590/Publico/Dissertacao%20Jorge%20Hernan%20Yerroseg.pdf

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  36. Lin fevereiro 28, 14:51

    Quanto ao “contexto original da obra”, este foi a França, desde 1951, desde Bestiário. Cortázar instalou-se na França em 51. E a recepção de sua obra na França continua praticamente a mesma. Quanto à recepção na Argentina, o próprio Cortázar sempre se queixou de sofrer certo preconceito pelo fato do seu “exílio”. NO próprio discurso de agradecimento à obtenção da cidadania francesa ele menciona isso. Há no youtube, mas não encontrei o link.
    Pode não significar muita coisa, apenas que na Argentina o reconhecimento do valor de Cortázar nunca se comparou àquele ocorrido no Brasil e na França.

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    • Idelber fevereiro 28, 16:25

      O contexto original de uma obra não é o país de residência de seu autor, mas a tradição literária na qual ela surge, circula e com a qual ela está em conversação. Cortázar é, neste sentido, um escritor argentino, e nunca deixou de sê-lo. Não é um escritor francês.

      Quanto ao “preconceito” pelo “exílio” (palavra notadamente incorreta aqui, já que ele saiu porque quis — isso se chama expatriamento), ele seria bastante curioso como explicação da recepção de uma obra numa tradição nacional em que há enorme quantidade de clássicos reconhecidos que escreveram no expatriamento ou no exílio: para não ir mais longe, Domingo Sarmiento, Esteban Echeverría, Juan José Saer, Manuel Puig, Juan Gelman. A literatura argentina foi feita por exilados. Curiosamente, nenhum deles usou o “preconceito pelo exílio” como explicação para a forma como sua literatura foi recebida na Argentina.

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  37. Ramiro Conceição fevereiro 28, 18:59

    Idelber,

    não fui um leitor assíduo de Cortázar. Na verdade, li apenas um livro, De Todos Os Fogos O Fogo. Faz tempo. Mas recordo-me que considerei a obra magistral, principalmente, A Autoestrada Do Sul. Um comovente texto sobre a mencionada obra foi escrito pelo nosso amigo (http://miltonribeiro.opsblog.org/2009/03/13/todos-os-fogos-o-fogo-de-julio-cortazar/).

    Portanto, não posso discutir se Cortázar, em sua produção posterior, somente se repetiu, refazendo o bolo literário que havia descoberto e que lhe deu projeção internacional. Se tal fato aconteceu então creio que Cortázar sofreu muito, pois para um escritor, que tenha chegado à grandeza, mesmo que por uma única vez, constatar o empalidecer paulatino de sua pena deve ser, sem dúvida, algo terrível ( lembro-me agora de alguém que escreveu, em algum lugar que li, algo assim: se um poeta em toda a existência fizer 5 poemas dignos, então sua vida valeu ).

    Não li todos os comentários mas, Idelber, creio que você pegou pesado. Deixar no ar que uma comparação entre Cortázar e Borges seria semelhante àquela entre É O Tchan e Pixinguinha e afirmando, ainda, que o extinto grupo baiano tem algum valor, é, no mínimo, uma puta provocação: é o mesmo que comparar dois cus sacolejando ao som de Carinhoso.

    Por outro lado, Idelber, você toca numa questão importantíssima. Por que a dita intelligentsia brasileira (ou outras) adora criar mitos?
    Vou lhe propor, obviamente por provação, que você dê sua opinião sobre dois temas de hipotéticos doutorados:

    1) A importância na cultura brasileira entre a obra de Raul Seixas e a de Pixinguinha.

    2) A importância na cultura humana entre a Tabacaria de Pessoa e o Ulisses de Joyce.

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  38. Jéssica março 2, 17:05

    Olá, Idelber
    O Jogo da Amarelinha não é o meu livro favorito de Cortázar, mas acredito que a sua análise dele é completamente superficial.
    O enredo pode se enquadrar no seu esquema maniqueísta, mas o livro conta com fatores muito além do simples enredo.
    Sua estrutura propicia liberdade ao leitor, ao contrário do que você afirma, existem sim diferenças substanciais entre as duas leituras. Já que lendo-se segundo as orientações oferecidas pelo próprio autor, o desfecho pode ter um sentido diferente.
    Além disso, os textos do autor podem sim ser analisados por um prisma que você sequer citou: o da teoria da recepção e a do efeito estético. Mas, elas não parecem fazer muita sentido para você, já que os efeitos que a leitura causa nos leitores não são uma questão relevante na sua opinião.
    Iser e Jauss devem ter se enganado, ou quem sabe eles também não façam a menor diferença para a história da teoria literária.
    Bem, e até onde eu sei, a vida pessoal do autor, não é um fator de grande importância na análise da sua obra. O posicionamento político de Cortázar sim, não faz a menor diferença quando o assunto é a sua literatura.
    Outro fato que você não cita no seu texto é o olhar crítico que o autor possuía da criação literária, quem sabe aí temos mais um aspecto de análise que lhe passou desapercebido na sua leitura pobre da obra cortazariana.
    E para finalizar, Borges e Cortázar não cabem na mesma frase, são escritores de tempos e estilos diferentes, mas há mais uma coisa que não pode entrar na mesma frase: Política e Literatura.

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    • Idelber março 2, 18:13

      Cara Jéssica: tudo o que você disse está correto a meu ver, com uma exceção: eu não pretendi oferecer uma “análise” de O Jogo da Amarelinha. Nem poderia, num post de blog. Eu só fiz uma observação: não está demonstrada nenhuma grande diferença entre a leitura que começa no capítulo 1 e a leitura sugerida pelo autor, no capítulo 73. Se você diz que “o desfecho pode ter um sentido diferente”, por favor demonstre isso pra nós, porque me parece que isso não foi demonstrado ainda! Agora, todo o meu texto é sobre a recepção de Cortázar. Tudo o que está dito aqui tem a ver com teoria da recepção e efeito estético. Se todo o meu post é sobre a história da recepção de Cortázar, qual a diferença entre a recepção no Brasil e em outros lugares, etc., não entendo muito bem como se pode dizer que “os efeitos que a leitura causa nos leitores não são uma questão relevante na sua [minha] opinião”. Não está claro para mim o quê, no meu texto, autoriza essa conclusão. E a minha “leitura pobre da obra cortazariana” não é, evidentemente, uma leitura da obra, e sim uma série de observações sobre diferenças na recepção. Mas, reitero o desafio, se você vê um “desfecho de sentido diferente” nas duas ordens de leitura de O Jogo da Amarelinha, por favor demonstre pra nós, porque eu adoraria ver que dois sentidos diferentes são esses! Sobre a premissa de que política e literatura não podem se misturar na mesma frase, isso é debatível, claro. Alguns pensam que sim, outros pensam que não. Mas não há nenhuma dúvida de que se trata de uma afirmação completamente anti-cortazariana. Concordo com Cortázar que dizer isso é uma bobagem. Um abraço.

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      • Jéssica março 10, 19:04

        “Com os novos fragmentos (‘De otros lados’), a própria história se desdobra, no entanto, em direções antes apenas insinuadas. Assim,o episódio do atropelamento de Morelli (só então se toma conhecimento de seu nome) se desenvolve na visita que Horácio e Etienne fazem ao velho escritor no hospital (Caps. 100, 155, 122 e 154, estabelecendo uma abertura para a discussão teórica e para a anexação da poética fragmentária, constituída pelas ‘Morellianas’. Entremeados a esse episódio, se desenha o dos amores de Oliveira com Pola (Caps. 76, 101, 144, 92, 103, 108, 64) belos e breves como uma mulher que se identifica às fugazes pinturas de giz das calçadas e à própria cidade de Paris (Pola Paris, Pola Paris). Antes já apenas aludida de passagem, embora importante por ter atuado como fator de desequilíbrio no relacionamento entre Horácio e a Maga. Finalmente, alguns fragmentos (Caps. 135, 63, 88, 72, 77, 131, 58, 131) conduzem, com ironia, a fábula até o beco sem saída da recorrência circular, mostrando a volta de Horácio à ordem rotineira, aos cuidados sufocantes de Gekrepten, a uma espécie de decrepitude mental (como sugere o nome da moça), tornada ainda mais ridícula pelo contraste com a máxima tensão do episódio anterior, na janela do hospício” (ARRIGUCHI, DAVI JR. O escorpião encalacrado. São Paulo, 1973. pg 298)

        Bem, Idelber
        Acho que agora ficou mais claro sobre o que eu falei no nosso último contato.
        Quanto à recepção da obra, é provável que com os anos tenha havido uma queda da sua popularidade em solo argentino, mas isso não quer dizer que houve queda no valor literário.
        Em um estudo, ainda em fase de conclusão, defendo a hipótese de na história recente de sua recepção a obra ter se tornado um livro para público jovem devido à sua estrutura hipertextual.
        A releitura é uma prática louvável, quem sabe não seja a hora de você praticá-la!

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        • Idelber março 10, 21:29

          Cara Jéssica, a releitura é uma arte louvável, a de ler com atenção o que as pessoas dizem pela 1ª vez, mais ainda. Não, não ficou nada mais claro acerca do que você ficou de demonstrar no começo desta conversa. Eu não disse que os fragmentos compilados na segunda parte do livro (“De outros lados”) não acrescentam nada à anedota relatada na primeira parte. O que eu disse é que não está demonstrado que a leitura linear, que se inicia no capítulo 1, atravessa toda a primeira parte, e depois atravessa toda a segunda, produza sentidos substancialmente diferentes da leitura sugerida pelo autor na primeira página, iniciando-se pelo Capítulo 73. E para “demonstrar” o oposto você cita um parágrafo do (ótimo, insisto) livro do Arrigucci de 1973 (sério: se a obra é tão revolucionária assim, como é possível que vocês não consigam citar um mísero estudo escrito nos últimos 40 anos que argumente algo novo sobre ela?) que, basicamente, diz que os fragmentos da segunda parte acrescentam dimensão tal ou qual (‘discussão teórica’, ‘o beco sem saída da recorrência circular’ etc) à anedota narrada na primeira. Ora, qual é a diferença entre o que eles acrescentam quando lidos em ordem, depois de terminada a leitura da anedota, e a diferença que acrescentam quando lidos na sequência proposta na primeira página? Essa é a questão. Desenhando para você, então, qual é o desafio que teria que ser superado para desmentir o que está no meu post: lida a obra na sequência 1, os sentidos produzidos são X e Y; lida a obra na sequência 2, os sentidos produzidos são Z e P. A sua breve citação de um parágrafo do livro de Arrigucci está longe, muito longe de demonstrar que essa diferença existe, e mais longe ainda de demonstrar qual seria ela. Continuo aguardando também sua demonstração de qual é o trecho do meu texto que autoriza a conclusão de que “os efeitos que a leitura causa nos leitores não são uma questão relevante na sua [minha] opinião”, posto que todo o texto é uma discussão da diferença entre os efeitos produzidos no Brasil e em outras comarcas.

          Aguardo também o seu estudo, mande-nos notícias quando sair. Um abraço.

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  39. Pedro Mandagará março 16, 20:38

    “O que eu disse é que não está demonstrado que a leitura linear, que se inicia no capítulo 1, atravessa toda a primeira parte, e depois atravessa toda a segunda, produza sentidos substancialmente diferentes da leitura sugerida pelo autor na primeira página, iniciando-se pelo Capítulo 73.”

    Só um detalhe: a leitura 1 sugerida por Cortázar NÃO engloba os capítulos da segunda parte: “El primer libro se deja leer en la forma corriente, y se termina en en capítulo 56 (…)”.

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  40. Juan Castellarin março 20, 11:15

    Me desculpem se repito, essencialmente, algum comentário anterior: li apenas os primeiros. Aqui, minha opinião.

    Tenho 21 anos; sei que posso ser acusado de fanatismo, já que a esta idade não é complicado se envolver, não sem excesso, sentimentalmente com a literatura e se maravilhar com relativa facilidade. A hostilidade, nos casos em que um autor do nosso agrado é criticado, não é pouca. De qualquer maneira, arrisco esta defesa.

    Considero que o autor do texto incorre em um anacronismo, quando não prejuízo, digno de menção (é um ínicio forte, mas, acredite, justificado). Sendo argentino quem escreve estas linhas, dou fé de que a discussão, farto abundante, além de desnecessária, da adjudicação do estatuto de “melhor escritor argentino” continua entorno aos nomes de Cortázar e Borges. Sim, aquí na Argentina, lugar desde onde dispenso esta resposta. Se bem o primeiro é, em parte, considerado um autor para adolescentes -vale a pergunta a respeito de semelhante juízio: como definiriamos, então, os livros de J. K. Rowling?- a maestria das composições é indiscutível. Sim, aqui na Argentina.
    Porque acuso o texto de anacrônico? As críticas vertidas no mesmo à obra de Julio são as mesmas que autores argentinos dos anos 80′ repetiam com injustificada soberba, inveja, ou desdem. Não é dificil encontrar nas bibliotecas de qualquer assíduo leitor destas terras a obra completa de Cortázar; lida e relida; recomendada e anotada; emprestada e não sempre devolvida. Os anos não têm desgastado a cultura “Cortazariana”, expandida e viva desde sua gênesis.

    Naturalmente, não existe maneira de provar ‘a ciencia cierta’ a popularidade e estatuto no qual colocamos, culturalmente, a Cortázar na Argentina. Não é outro o motivo pelo qual falo desde a experiência universitária, de professores, da mídia, de mães e pais de amigos. Certamente, são contados com os dedos da mão aqueles que o julgam como um ‘escritor menor’.

    Para finalizar, creio que o exercico intelectual ao ler uma obra (atividade que realizam maiormente aqueles com aspirações literarias) acaba nos distanciando da intenção pela qual a obra é criada: distrair, enteter, conmover. E julgamos a obra desde esse lado, para o qual, repito, não foi concebido. “A rosa é sem porque”, propôs Silesius – sentencia que, de gozar de mais fama, teria deixado sem trabalho a mais de um crítico literario.

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    • Idelber abril 1, 23:17

      Caríssimo, parabéns pelo ótimo português em que você escreve.

      Eu adoraria ver uma demonstração — com referências reais a estudos, links, textos etc. — de que a discussão [...] do estatuto de “melhor escritor argentino” continua entorno aos nomes de Cortázar e Borges.

      Adoraria mesmo. Dizer “eu sou argentino e testemunho isso” não basta. Uma certidão de nascimento não confere a ninguém a garantia de que suas afirmações sobre o próprio país são verdadeiras. Mostre pra gente, com algumas referências reais, que nos lugares onde se estuda literatura a sério na Argentina, existe sombra de discussão sobre se Cortázar possa ser um escritor superior a Borges. Eu adoraria ver.

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      • Juan Castellarin maio 21, 13:57

        Obrigado pelo comentário, Idelber!

        Pergunta: o senhor considera como suficiente únicamente à série de Links, e referências de círculos letrados que atribuam uma valoração comparativa dos autores?

        Acho a resposta bastante dificil de argumentar.

        Não estou querendo eludir o previsível pedido que o senhor me confere, mas, se minha visão sobre a valorização não basta, porque bastaria a visão de outras pessoas que concordam comigo? Pela graduação que elas possuam?

        Esse foi o exercicio que o senhor realizou, e por isso discordo com o resultado.

        Quem quiser ouvir outras “vozes autorizadas” sobre o assunto poderá encontrá-las facilmente. Basta com procurar cortázar-borges, em Google.com.ar. Há uma série de resultados consideráveis sobre a discussão, ou pelo menos, várias comparações que desterrarão a idéia de que, na Argentina, Cortázar é considerado “um escritor menor”, falácia imperdoável.

        Pessoalmente gosto mais, muito mais, de Borges. Mas não poderia racionalizar a afirmação.

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  41. Jorge Nascimento abril 3, 06:06

    Começo citando (de memória, parafrástico) Borges, o tempo é quem pode erigir antologias memoráveis. Acho sim que Borges pode estar sendo estudado juntamente com Cortázar, comparar é ver semelhanças e diferenças, os jogos com o tempo e com o espaço aparecem nos dois autores. Borges clássico, com a erudição desvelada em suas ficções tão plenas de referências e pseudo-referências; Cortázar, através do insólito, contemporâneo, escancaradamente lúdico, reivindicando a etiqueta de cronópio para si. Borges foi o primeiro editor de Cortázar, adorou Bestiário. Ernesto Sábato, criticando Borges, dizia que o pior para um homem de “gênio” era ter “ingenio”. Esses fragmentos pretendem ser formulações que evidenciem o caráter “ideológico” de certas afirmações, se Cortázar é leitura para adolescentes, sorte deles. Nosso Machado de Assis, também o é, pela obrigatoriedade dos currículos escolares, que bom. Já li antologias argentinas com exercícios pouco criativos de interpretação de contos de Cortázar, já orientei dissertações sobre ele, participei de uma Banca de Mestrado sobre o Julio agora em março de 2012, e o tema era a questão do jogo e da revolução …
    Concordo com quem disse que essa ideia é antiga, o debate sobre o valor da obra de Cortázar perpassa sempre a questão do embate entre ele e Borges. Se tivesse de escolher, ficaria com os dois. Claro que o “conservadorismo elitista” de Borges se choca com o “esquerdismo lúdico” de Cortázar. Lembro do fim do conto Os teólogos, de Borges: “O final da história só pode ser narrado com metáforas, já que se passa no reino dos céus, onde não há tempo. Talvez fosse oportuno dizer que Aureliano conversou com Deus e que Este se interessa tão pouco por diferenças religiosas que o tomou por João de Panonia. Isso, entretanto, insinuaria uma confusão da mente divina. Mais correto é dizer que no paraíso Aureliano soube que, para a insondável divindade, ele e João de Panonia (o ortodoxo e o herege, o odiado e o que odeia, o acusador e a vítima) formavam uma única pessoa”.

    Para brincar, cronopicamente, eu diria: Quanto ao gosto dos Argentinos, isso é realmente irrelevante: eles acham Maradona melhor que Pelé…

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  42. Juan Castellarin maio 21, 19:06

    Relendo o artigo noto outra circunstância: foram citados críticos cuja tendência política é declaradamente progressista, ou secretamente, e não tanto, oligárquica. A informação não é irrelevante tratando-se justamente de um escritor ativo politicamente, e casualmente(?), de uma corrente revolucionária, distante das citadas anteriormente. Veja a tendência dos jornais e editoras que propagam escritos desses “críticos famosos”. Sabemos a influência que a mídia tem na opinião pública. Os interesses que desejam manter. O senhor consideraria que esses meios de comunicação dispensariam a fama de um escritor cujas idéias, plasmadas nos textos, e simbolicamente, na figura do autor, sabendo que a cosmovião do mundo entre ambos são diferentes e opostas? Guarde-me um lugar à dúvida.

    Também, e já concluindo, e pedindo desculpas pelo abuso do espaço, relendo os comentários, notei que Rafael L. realizou o catalogo que me foi requerido anteriormente. Citando, casualmente (?), jornais e revistas de uma tendência política, e mas amplamente, cultural, contrária à mídia predominante -que promove os críticos que foram utilizados para sustentar a tese do artigo.

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  43. Cronópio maio 31, 11:12

    “Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo de minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer e tudo recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.

    Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce; e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água.”

    Dá-lhe Cortázar!!!

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Sobre o autor

Idelber Avelar é colunista da Revista Fórum e ex-editor do blog "O Biscoito Fino e a Massa" (http://idelberavelar.com). É Professor Titular de Literaturas Latino-Americanas e Teoria Literária na Universidade Tulane, em New Orleans. É autor de Alegorias da Derrota: A Ficção Pós-Ditatorial e o Trabalho do Luto na América Latina (UFMG, 2003) e Figuras da Violência: Ensaios sobre Ética, Narrativa e Música Popular (UFMG, 2011), e coeditor de Brazilian Popular Music and Citizenship (Duke UP, 2011), entre outros livros. Mantém o Twitter @iavelar

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