Entrevista a "O Povo", de Fortaleza, sobre movimentos sociais

Redação
Por Redação março 4, 2012 04:59

A jornalista Júlia Lopes, do jornal O Povo, de Fortaleza, me solicitou uma entrevista sobre os movimentos de ocupação e demais movimentos sociais de emergência recente. Ela está publicada na edição de hoje do jornal (página 45). Como a versão publicada lá traz alguns dos cortes normais na imprensa que trabalha com limite de caracteres, republico aqui a íntegra para o leitor do blog. Agradeço à Júlia, que me fez perguntas que considero excelentes.

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Há como dividir períodos, no Brasil, com relação a forma de organização dos movimentos? Mesmo que muitos processos corram paralelamente, dá pra se falar em marcos, datas significativas?

A periodização é sempre complicada, mas poderíamos dizer que, no caso brasileiro, a relação com os aparatos políticos possui três grandes momentos, e estamos iniciando um quarto. Há um primeiro momento, no começo do século XX, em que predominam as estratégias de luta anarquista: a greve geral, por exemplo. A partir dos anos 20 e 30 entramos em outra dinâmica, hegemonizada pelo PCB, na qual as lutas estão submetidas ao vaivém da III Internacional e às conveniências do Partidão. E, depois do interregno da ditadura militar e da efêmera luta armada, abre-se o período marcado pela emergência do PT, em que há uma tentativa de incorporação de vários outros movimentos – negro, feminista, indígena etc. – ao marco de uma luta partidária operária não estalinista. Acho que hoje estamos adentrando outro momento, do esgotamento desse marco, em que as principais lutas ocorrem fora de estruturas partidárias.

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Os movimentos estão cada vez mais específicos, pelo que observo. Se nos Estados Unidos o povo ocupa as ruas de Wall Street para retrair a presença do capital financeiro, nos países submetidos a ditaduras se movimentam para uma libertação, no Brasil para a não subserviência do governo brasileiro aos ditames da Copa. Ou a construção de um Acquário, de forma arbitrária, se a gente se aproximar mais do mapa. Mas o que poderíamos dizer das semelhanças entre os movimentos? Como o Brasil se situa dentro do contexto internacional?

Há alguns outros movimentos em ação no Brasil, além da resistência aos ditames da FIFA. Recentemente, 15.000 pessoas atravessaram a ponte que separa Juazeiro (BA) de Petrolina (PE) para protestar contra a ruptura do governo da parceria com a ASA (Articulação no Semi-Árido Brasileiro) para a construção de cisternas. Em parte como resultado dessa mobilização, o governo voltou atrás. Há alguns movimentos incipientes de ocupação que merecem toda atenção e apoio. Os movimentos de ribeirinhos, indígenas e atingidos por barragens, em defesa da Amazônia, mesmo sem grande repercussão no Sul-Sudeste, estão em mobilização cada vez maior. Os movimentos feminista, gay e em defesa do estado laico também têm dado sinais. Tudo isso é incipiente, por uma série de razões. Mas há movimentação e ela merece apoio. Eu tendo a achar que a mobilização chave, que merece toda a nossa solidariedade, é a que defende a Amazônia. Porque a expansão da fronteira agrícola, da qual a Amazônia é a grande vítima, é o coração do atual modelo desenvolvimentista-exportador.

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Grupos que se fizeram ouvir do final do século passado pra cá, que se organizaram e cresceram, como o Fora do Eixo (que atingiu âmbito nacional), trazem, de fato, mudanças estruturais? Como é esse “estar dentro” para os movimentos? (Seja dentro de uma lógica capitalista, ou de partidos políticos, instituições, ou mesmo uma lógica nova). Você apontaria outros grupos?

O Fora do Eixo é uma experiência espetacular. Como qualquer experiência que questiona o possível, eles estão trombando com questões não resolvidas, limites, encruzilhadas. Sou grande fã da garotada e confio que eles encontrarão saídas para os dilemas que se apresentam. Há muitos outros grupos: a Casa da Cultura Digital, formada a partir da experiência pioneira de Gil-Juca no Ministério da Cultura; nós mesmos, da Revista Fórum, temos, modéstia à parte, uma história única no que diz respeito a fazer pontes entre movimentos sociais e o aparato político; o Passa Palavra é um coletivo que eu respeito muito; o Xingu Vivo é uma ONG única pelo que representou até hoje no acompanhamento do ecocídio que acontece na região; os milhares de Pontos de Cultura espalhados pelo país disseminam experiências que nunca haviam encontrado eco. Enfim, há efervescência e há luta.

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Como você definiria o uso das redes? De um lado, elas possibilitam, de fato, a participação. De outro, protegem o sujeito do outro lado do computador, resguardado inclusive do rótulo de “alienado”. Como se desenham as perspectivas, nesse período de ebulição?

Bibliotecas já foram escritas sobre as redes sociais, mas eu acho que uma compreensão clara do seu papel na luta política ainda vai demorar um pouco. Parte do problema é que as pessoas que têm domínio e conhecimento da maquinaria das redes sociais ainda não digeriram a bibliografia filosófica, sociológica, comunicacional, antropológica etc. necessária para fazer uma análise boa do papel atual dessas redes. E o vice-versa também vale: a turma de acadêmicos que digeriu bem aquela bibliografia não sabe tanta coisa assim sobre como funciona a internet. O problema é complexo e eu não tenho resposta em duas ou três frases, mas diria o seguinte: precisamos de sair dessa dicotomia boba entre “redes sociais como liberação, democracia realizada etc.” versus “redes sociais como tuiteiro de sofá que não faz nada”. Claro que estou estereotipando mas, no fundo, isso resume bem as simplificações com que se tenta relacionar internet e política hoje. E isso não capta o que realmente importa no problema, ou seja, a emergência de uma nova esfera pública e suas relações com a esfera pública tradicional, presencial, a praça. Num texto recente, eu tentei desenvolver um pouco a coisa, com as teses: Nenhuma ocupação da praça acontecerá sem fluxo de energia revolucionária digital. Nenhum trabalho de rede substituirá a ocupação da praça. É uma imbricação mútua que ainda precisa ser pensada.

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Como os movimentos se comportam frente a contradição entre a lógica própria e dos movimentos e a estrutura partidária dos governos federal, estadual e municipal?

No caso do Brasil, isso acontece com uma especificidade, porque no Brasil encontra-se no poder um partido surgido como Partido de Trabalhadores, com estrutura não estalinista, plural, democrática etc. Claro que, ao longo dos anos, tudo isso foi mudando, e permanece pouco daquela estrutura original, mas ainda sobrevive uma notável legitimidade do PT em muitas comarcas dos movimentos populares. Basta dizer que o PT lidera com folga, segundo a última pesquisa, o ranking de preferência partidária dos brasileiros: o PT tem 24% , enquanto que os segundos colocados (PSDB e PMDB) andam por volta de 6%. É um massacre inédito na história do Brasil. Isso faz com que o PT, no governo, tenha um potencial de cooptação inaudito também. Essa cooptação foi implacável durante o governo Lula e começa a dar sinais de esgotamento agora. Mas o atrelamento ainda é muito grande. A ruptura desse atrelamento não se dá sem contradições como, por exemplo, ficou visível durante a última greve em Jirau, em que integrantes da CUT foram literalmente despachados para lá com o objetivo de silenciar a greve.

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Você colocou em um dos textos que me enviou, que “O Grande Irmão estatal o vigia, mas um geek com boas conexões nas embaixadas também pode vigiar o Grande Irmão”. Como cidadão comum fica nessa disputa entre as grandes corporações, governos estatais e as ações hackers?

Esse foi um texto que escrevi em dezembro de 2010, quando estourou o caso Wikileaks. O entusiasmo era grande com as possibilidades emancipatórias da ação hacker. Ainda mantenho tudo o que escrevi lá, mas as coisas pioraram sensivelmente desde então. O Wikileaks continua na ativa, mas vem sendo estrangulado financeiramente. Os EUA conseguiram realizar uma ação inédita, prendendo cidadãos estrangeiros, em território estrangeiro, por acusação de violação a copyright. Sucedem-se, nos EUA e alhures, as iniciativas legislativas para silenciar o potencial emancipatório da Internet. Não faço previsões, mas a preservação da relativa liberdade que temos hoje na rede vai demandar muita, muita luta, disso eu não tenho dúvida.

Redação
Por Redação março 4, 2012 04:59
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Sobre o autor

Idelber Avelar é colunista da Revista Fórum e ex-editor do blog "O Biscoito Fino e a Massa" (http://idelberavelar.com). É Professor Titular de Literaturas Latino-Americanas e Teoria Literária na Universidade Tulane, em New Orleans. É autor de Alegorias da Derrota: A Ficção Pós-Ditatorial e o Trabalho do Luto na América Latina (UFMG, 2003) e Figuras da Violência: Ensaios sobre Ética, Narrativa e Música Popular (UFMG, 2011), e coeditor de Brazilian Popular Music and Citizenship (Duke UP, 2011), entre outros livros. Mantém o Twitter @iavelar

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