Notas sobre o retrocesso político brasileiro

Redação
Por Redação março 12, 2012 04:59 Atualizado

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Na caixa de comentários deste texto recente do Raphael Tsavkko, apareceu uma divergência entre dois amigos queridos, que eu reputo entre os comentaristas políticos mais lúcidos da internet, o Raphael Neves e o Celso de Barros. O ponto central do texto do Tsavkko é a crítica à ideia de que a esquerda teria que aprender algo com os evangélicos – crítica com a qual eu concordo. Especialmente num país em que um dos principais líderes da bancada teocrata, Anthony Garotinho, é cria de Leonel de Moura Brizola (coisa da qual as viúvas do engenheiro não costumam se lembrar), em que o Partido dos Trabalhadores vai se transformando em campeão dos Parques Gospel com dinheiro público e o fundamentalismo teocrata conta com amplo apoio do poder estatal, incluindo-se concessões de rádio e TV, creio que é meio surreal atribuir as (parciais) vitórias da teocracia somente ao seu suor e trabalho duro, como se esse trabalho ocorresse num terreno neutro. Acreditar nisso já é um evangelismo. Se há algo a se censurar na esquerda brasileira de hoje (falo da esquerda que está no poder), é ter aprendido demais com os teocratas, ao ponto de já ser duvidoso se a definição de “esquerda” a ela realmente se aplica – “esquerda” é um termo que surge na França, lembremos, no bojo da luta pela laicização da política. Mas isso é matéria para outro texto. A divergência entre o Raphael Neves e o Celso de Barros está só tangencialmente relacionada a essa questão, e trata mesmo de uma pergunta interessante: há ou não há um retrocesso político em curso no Brasil?

Para defender a ideia de que ele não existe, meu amigo Celso de Barros mobiliza vários argumentos. Nenhum deles é falso, mas é a relação entre eles e o problema em questão que merece um exame mais detido. Aí vai o primeiro: ando meio impressionado com o pessoal dizendo que a Dilma está sendo um retrocesso em questões como aborto ou direitos LGBT. Como assim, retrocesso? O aborto já foi legal? Governos anteriores tinham uma postura mais aberta com relação a alguma dessas questões?

Vou começar separando dois lados aqui, o jurídico e o político. É verdade que a legislação brasileira nunca previu o direito ao aborto (a não ser em casos muito específicos) e ao casamento gay. Mas também é verdade que o Direito é, como sabia Hegel, um discurso noturno, que capenga atrás dos processos políticos reais. Em outras palavras, se você for esperar que um retrocesso político se manifeste na legislação, será tarde demais. Tome-se o exemplo dos EUA: se entendemos “retrocesso” mais ou menos como sinônimo de “direitização” (e é, no fundo, assim que nós, esquerdinhas, entendemos o termo), parece-me inegável que os EUA vivem um retrocesso nos últimos 30 anos. O xingamento que constituía a palavra “comunista” se trasladou para a palavra “liberal” (nos EUA, como sabemos, usada com um sentido um pouco diferente, significando “à esquerda do centro”), que hoje é um termo do qual o Partido Democrata foge como o diabo da cruz. Posições políticas que antes eram de centro foram passando, pouco a pouco, a ser associadas com uma “esquerda” que sequer tem voz nos legislativos do país – e posições que antes caracterizaríamos como de esquerda caíram completamente para fora da esfera do dizível. Esse retrocesso é tão patente que as três administrações Democratas – duas de Bill Clinton, uma de Barack Obama – terminaram realizando transformações conservadoras que a direita havia tentado sem sucesso, o desmantelamento do sistema de bem-estar social, pelo primeiro, e a oficialização do direito de assassinato extra-judicial de cidadãos estadunidenses, pelo segundo, para ficar só em dois exemplos. Coloque aí quantos mutatis mutandi vocês quiserem, mas vejo o governo brasileiro realizando muita coisa que a direita sempre quis e nunca conseguiu: para não ir mais longe, liberar a mineração em terras indígenas, um velho sonho da ditadura militar.

Celso tem razão parcial ao fazer a pergunta retórica Governos anteriores tinham uma postura mais aberta com relação a alguma dessas questões? Digo razão “parcial” porque Lula, por exemplo, deu declarações inequívocas a favor do casamento gay, além de viabilizar e comparecer à Conferência Nacional LGBT, completamente ignorada por Dilma, que sequer se dignou a dar uma declaração. Portanto, não é verdade que em matérias LBGT, não haja precedente de posições governamentais mais abertas. Mas a questão principal não é nem essa, pois retrocessos não se medem somente por aquilo que um governo diz ou faz, mas também por aquilo que um governo deixa de dizer ou fazer. É ilusório imaginar que, em política, o silêncio ou a omissão nos deixam sempre no lugar onde estávamos antes, sem avanço nem retrocesso. Ora, se outras peças do tabuleiro se moveram, o silêncio pode, sim, configurar retrocesso. Nunca fomos uma maravilha de Estado Laico impecável, mas a presença de um teocrata convicto no Ministério, o volume de iniciativas legislativas que solapam a laicidade e a quantidade de ataques homofóbicos no país são, sim, elementos novos, pelo menos em comparação com o passado recente. Aqueles que estão sempre dispostos a salvar a pele do oficialismo nessa matéria dirão que os dois últimos fenômenos não são “culpa” do governo e o primeiro é uma adaptação necessária à governabilidade do presidencialismo de coalizão. Considero esse argumento bastante cínico, pois o governo tem o alto-falante, tem a chave do cofre e tem ampla maioria legislativa. Calado, imóvel e cúmplice é que não deveria ficar. Mas não o atacarei com os tacapes já conhecidos. Em vez disso, vou propor um breve exercício de memória: voltemos à estratégia desenhada por Nove-Dedos para as eleições de 2010.

O objetivo de Lula – plenamente realizado – era que Dilma saísse das eleições de 2010 com uma situação no Congresso melhor do que a ele teve que enfrentar, especialmente no Senado. O PT abriu mão de lutar por vários executivos estaduais para ter aliados suficientes na luta por vitórias legislativas. Em Minas Gerais, pediu-se a Patrus Ananias que tapasse o nariz e aceitasse ser vice de Hélio Costa, numa constrangedora aliança que gerou cenas impagáveis. No Rio de Janeiro, a aliança foi com Sérgio Cabral. No Paraná, o PT pediu votos para Osmar Dias, um dos maiores inimigos do MST no estado. E por aí vai, Brasil afora. Tudo para conquistar a tal maioria legislativa. Pois bem, ela foi conquistada. Todos os comentários de petistas sobre os resultados das legislativas de 2010 – incluídos os deste blogueiro, que sempre votou e fez campanha para o PT – foram de enorme euforia, afinal de contas, só do Senado, foram varridos Arthur Virgílio (AM), Marco Maciel (PE), Heráclito Fortes (PI), César Borges (BA), Mão Santa (PI) e Tasso Jereissati (CE), além de barradas as entradas de César Maia (RJ) e muitos outros. Tudo isso pra quê? Ora, supunha-se que era para avançar uma agenda legislativa minimamente de esquerda. Em vez disso, Kátia Abreu foi trazida para dentro da base do governo (fazendo dobradinha ruralista com Aldo Rebelo no assassinato do Código Florestal), o PT-SP tentou aliança com Kassab e dele levou um drible-da-vaca, o PT-RJ consolidou, no plano municipal, sua dobradinha com a Secretaria de Habitação estadual (responsáveis pelas criminosas expulsões e desalojamentos da Copa), o PT na Amazônia impõe uma truculência desenvolvimentista que não se via desde a ditadura militar e, no Paraná, vai se impondo o apoio ao mesmo Gustavo Fruet cuja derrota para o Senado fora tão comemorada em 2010. Uai, mas os sapos todos engolidos nas eleições para os executivos estaduais não tinham o objetivo de vencer no legislativo e ali avançar uma agenda? Agora, depois de vencer no legislativo, o argumento é que não dá pra fazer nada sem antes engolir os mesmíssimos sapos na política legislativa também, porque os teocratas são numerosos? Não são, não. Qual é o limite do fisiologismo? Vão aceitar o quê até quando?

Quanto aos dois argumentos do Celso de Barros, de que 1) a declaração homofóbica da Dilma foi o “não farei propaganda de opção sexual”? Se for esta, enfim, não é uma declaração homofóbica. O governo não tem que se meter no que o sujeito reza, nem a favor nem contra, e nem com quem o sujeito trepa, nem a favor nem contra e 2) Vale distinguir as duas questões. Casamento gay é uma questão de direitos humanos, e aqui vale, por exemplo, o STF simplesmente reconhecer que a CF garante o direito de dois adultos estabelecerem entre si o contrato que quiserem. Mas aborto é um negócio muito mais complexo, que envolve, antes de mais nada, a discussão sobre quando surge um ser humano, eu me arriscaria a sugerir que eles não estão à altura deste meu amigo e grande pensador brasileiro. Em primeiro lugar, porque a frase não será permitido a nenhum órgão do governo fazer propaganda de opções sexuais não acontece num vácuo, ela tem lugar num contexto. Deixemos de lado o fato de que já deveria estar claro para uma pessoa com a preparação intelectual de Dilma Rousseff que não existe “opção” sexual, e sim “orientação” — ninguém escolhe ser homosexual, nem hétero. O fundamental aqui é que a oração “não será permitida a propaganda de opção sexual” é patentemente absurda, e é sim, homofóbica, pois em nenhum momento ocorreria a ela ou a nenhum de nós dizer que os contos de fadas, novelas das oito, romances de amor e comédias românticas cinematográficas, com os quais convivemos diariamente há tempos, são “propaganda de opção sexual”. Por que não? Ora, porque esses relatos sancionam a heteronormatividade. Por que, então, um relato de amor gay (e não era disso que se tratava, era do kit anti-homofobia, mas eu chego lá; um relato de amor gay também foi vetado por Dilma, pessoalmente, no caso da campanha de prevenção à AIDS) deve ser visto como “propaganda de opção sexual”?  A homofobia (e o racismo, e a misoginia, e o etnocentrismo etc.) é exatamente isso: a recusa a se aplicar o princípio da igualdade de direitos quando de igualdade se trata, e a recusa a se reconhecer as diferenças quando de diferenças se trata. Por que, então, a retirada do kit anti-homofobia é uma medida homofóbica, se o estado não deve se imiscuir na questão de com quem você trepa? Ora, porque no mundo realmente existente há um montão de gente com bastante poder — concessões de TV, por exemplo — imiscuindo-se na questão de com quem os homosexuais trepam. Ninguém é assassinado nem espancado por ser heterosexual. No segundo argumento, eu não consigo realmente entender a lógica do Celso, de que o aborto não seria uma questão de Direitos Humanos. Ora, não há direito humano mais fundamental que o direito ao próprio corpo. O aborto é, para as mulheres, um direito humano por excelência, e o fato de que uma grande parcela da população veja uma “alma” num feto de seis semanas em nada muda a questão. Os Direitos Humanos são, e têm sido, ao longo de sua história, com mais frequência do que muitos imaginam, uma matéria de jurisprudência contramajoritária.

No caso da cultura e da política ambiental, os retrocessos são tantos, tão numerosos, tão brutais e tão frequentemente tratados por mim aqui neste e em outros espaços, que os dois links anteriores só dão uma pálida ideia do que está acontecendo. Quem diz que “só aconteceram retrocessos no Ministério da Cultura e no Ministério do Meio Ambiente” não entendeu, me parece, as experiências dos Ministérios de Gilberto Gil (e Juca Ferreira) e Marina Silva (e Carlos Minc). Toda a plataforma desses dois Ministérios estava ancorada na ideia de que eles já não eram pequenos apêndices que tratavam de questões localizadas, e sim instrumentos para se pensar e se executar a totalidade da política do Estado. A entrada do Ministério de Gil/ Juca no tema dos direitos autorais, da economia da cultura, da socialização de informações, por exemplo, realizava uma operação notável: expandia as atribuições do Ministério da Cultura, de penduricalho ornamental que lida com o financiamento das artes, para uma ampla política de acesso à cidadania. O desmantelamento dessa experiência não é uma questão que diz respeito só à “cultura”, entendida como cinema mais teatro mais música mais literatura. É o desmantelamento de uma experiência cidadã que diz respeito à totalidade das atribuições de governo. É muito grave. Um raciocínio similar pode ser feito no que se refere ao que entendemos como “meio ambiente”.

À galera que está disposta a justificar tudo (eu não incluo o Celso de Barros nessa galera), não custa lembrar uma lei da política: quando o esporte conhecido como engolição de sapos é desatado sem controle, sem limite, sem freio e sem resistência, logo logo não é mais possível diferenciar quem é o sapo, e muito menos quem é que engole e quem é que está sendo engolido.

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Redação
Por Redação março 12, 2012 04:59 Atualizado
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69 Comentários

  1. André março 12, 06:32

    Idelber,
    Concordo que, sob a ótica da esquerda, parece ter havido um retrocesso na questão do Estado Laico com a Dilma. Creio que não poderia ser muito diferente depois que se abriu a Caixa de Pandora, nas eleições de 2010. Mesmo tendo em vista a estratégia traçada pelo PT para o legislativo. Mas essa evangelização da política não está simplesmente substituindo a catolização não praticante que imperava antes? Até que ponto nosso mal-estar não é pela invasão de nossa praia pelos farofeiros gospel?
    Outro ponto, será que a heteronormatividade propagada pela mídia privada necessite de um contraponto governamental nos mesmos termos? Sei que você não afirmou isso, mas estou pensando nas campanhas pelo uso de camisinha do Ministério da Saúde supostamente autocensuradas recentemente. Ou na estratégia desastrosa do Kit-Gay.
    Também não creio que o aborto possa ser visto unicamente como um direito da mulher ao próprio corpo. Senão por que não permitir o aborto até os nove meses desde que o feto fosse devidamente anestesiado?

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  2. Elton Castro março 12, 06:36

    Idelber,

    Em primeiro lugar: eu sou favorável ao direito ao aborto. Dito isso, permita-se discordar. Você escreveu “Ora, não há direito humano mais fundamental que o direito ao próprio corpo.” Existe sim: o direito à vida. O Celso está certo, a debate é mais espinhoso e precisa ser feito com toda a sociedade, porque ela envolve questionar o que é um ser humano. Acho que poucas pessoas considerariam como humano uma mórula microscópica de poucas semanas ou mesmo um embrião em seus 3 meses de existência. Mas o mesmo não pode ser dito de uma gestação de 7 meses ou mais, quando o nascimento é até mesmo possível, mesmo que prematuro. Onde fica essa fronteira entre o não humano e o humano? Isso é complexo e tem elementos objetivos e subjetivos. Precisaria ser debatido com toda a sociedade.

    Acho a postura do governo em relação à questão LGBTT tíbia e não consigo entender porque o kit anti-homofobia não avançou mais desde aquele primeiro momento. Sei também que sexualidade não é opção e que é absurda a ideia de propagandear orientação sexual, etc. Mas a frase foi dita em relação àquele vídeo em que se dizia que o bissexual tem o dobro de opções de parceiros ou bobagem semelhante que ninguém entendeu o porquê de ser dito em um material cujo fim é combater o preconceito (só me ocorre que o vídeo fosse uma peça com o fim único de incentivar os bissexuais a se assumirem como tais usando para isso o argumento mais besta possível). Tal vídeo poderia ser criticado em nossa homofóbica sociedade como “propaganda de opção sexual”, mesmo que essa seja uma ideia absurda. Talvez, até por causa da sórdida campanha presidencial, a Dilma ache que esta questão seja seu calcanhar de Aquiles, ou esteja simplesmente como o proverbial gato escaldado.

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    • Gabriel Gabbardo março 12, 07:02

      Pois é, acho difícil tratar a questão do aborto com a simplicidade que o Idelber assume. Uma coisa, como tu colocaste, Elton, é fazer aborto com uma semana de gravidez; outra é abortar uma criança (note o termo que uso) que está com oito meses na barriga da mãe. Fazer uma distinção é complicado.

      Mais: o direito da mulher ao próprio corpo, enquanto aplicável no primeiro caso (na minha opinião, óbvio), é absolutamente inaplicável no segundo. Caso um aborto seja realizado com uma criança de oito meses, é porque há um considerável complicador de saúde no meio, que coloca em risco a vida da mãe (o que violaria o seu direito à vida, e novamente se reforça a posição – correta- do Elton).

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      • André março 12, 07:06

        Não concordo com o segundo ponto. Direito ao corpo não é para fazer apenas coisas saudáveis com ele.

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    • Bárbara março 12, 11:40

      Pois eu acho que, antesdo direito à vida, deveria vir o direito à dignidade. A vida sem dignidade não vale nada. Não vale nada viver se você não tem um mínimo direito a saúde, educação, moradia…

      E não se sabe ao certo quando a vida começa, e mesmo o Direto atualmente não reconhece o feto como ser humano com direitos, mas apenas como um “ser humano em potencial”. Sendo assim, se se pode fazer pesquisas com células-tronco de embriões não aproveitados, se se permite realizar transplantes de órgãos de pacientes com morte cerebral, mas cujo corpo ainda “vive”, se se reconhece o direito de abortar quando o feto é fruto de um estupro, então deveria sim se ampliar o direito ao aborto. (Eu particularmente defendo o ponto de vista da Mayana Zatz, de que só há vida com sistema nervoso central, e portanto apenas após a décima segunda semana de gestação).

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      • Gustavo março 12, 19:29

        “Durante a 3ª semana o processo notocordal e a placa neural vão se alongando em direção a membrana bucofaríngea. O epiblasto se diferencia, provavelmente por ação de substâncias indutoras, em uma região com células mais alta denominada placa neural, a primeira estrutura relacionada ao Sistema Nervoso Central.”

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      • Elton Castro março 13, 05:53

        Não faz muito sentido falar sobre vida, já que tudo é vivo: os progenitores, o espermatozoide, o óvulo, o embrião…
        Acho que a questão é definir parâmetros legais para o momento em que passamos a considerar que embrião tornou-se um humano com direitos (evidentemente que eu falo de um humano real, não daquele sofisma do “humano em potencial”).
        Você toca num ponto importante que é a o critério do desenvolvimento encefálico, acho que é por aí.

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  3. André março 12, 06:47

    Outra coisa, além de respeitar a orientação sexual do outro, deveríamos principalmente respeitar também a opção sexual do outro. Mesmo porque, se a ciência descobrir que orientação sexual não existe, o que existe é um conjunto de traumas sexuais associado a um desequilíbrio hormonal, já estaríamos desarmando o bando de “caridosos” que surgiria propondo a cura.

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    • Elton Castro março 13, 05:38

      Isso é algo que eu sempre digo: não acredito que seja escolha mas, mesmo que fosse, eu defenderia este direito de escolha.

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      • Bruno Galvao março 14, 13:44

        Verdade, acho muito conservador esse apelo do movimento por orientação sexual. “Me aceitem, porque eu nasci assim não tenho culpa”. Caralho, não acredito que se nasça gay e qual o problema se eu tiver escolhido ser gay? Na verdade, essa é a opinião de sartre, é uma escolha. Não exatamente a gente escolhe ser gay, mas a gente escolhe um conjunto no qual está incluído ser gay.
        Mas, por favor, também é muito estranho em ciência provar alguma coisa nessa área. Francamente, há muita baboseira positivista. Já ouvi falar que o fato de haver uma proporção de filhos mais novos serem gays deve-se a hormônios que a mãe de segunda terceira gestação soltaria.

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  4. Idelber março 12, 07:11

    Galera, fiquem à vontade para debater a questão do aborto com toda a liberdade. Vou pedir licença pra não responder porque, como sabe o pessoal que me acompanha, eu já escrevi bastante sobre o tema lá no Biscoito Fino e a Massa, que apesar de finado ainda está no ar com os arquivos disponíveis. Pra quem não conhece esses textos e queira ler o que eu penso sobre o assunto, é só dar um pulinho lá.

    Abração e ótima segundona pra todo mundo.

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  5. Conrado março 12, 08:14

    Vocês podem achar o que quiserem sobre direito ao abortamento. Na época em que o PT era de esquerda, muita gente era contrária. Hoje, no caminho do centro para a direita, muita gente continua sendo contrária.

    Até aí, normal. Mas aposto que nenhum de vocês, contrários ao direito de abortar (ou, em sua versão envergonhada, a favor de “debates mais profundos com toda a sociedade”), seria a favor de botar na cadeia uma mulher que tenha abortado. Isso nos define, isso nos diferencia da direita.

    Quer dizer; agora, não tenho mais tanta certeza.

    Esqueçam os exemplos (apesar de terem sido bons exemplos, prova disso são os comentários). Esse é o ponto central do texto. Essa é a evidência do retrocesso.

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  6. Roberto Pereira março 12, 10:15

    Negar o retrocesso do governo Dilma em relação aos LGBTs não se sustenta em nenhuma análise.

    Nem vou falar de Lula, que tirava de letra toda a babaquice dos fundamentalistas nessa questão com uma piada que sabia que o homem simples iria entender. E não caía em falsas polêmicas moralistas. O oposto que Dilma desastradamente fez ao dar aquela declaração extremamente infeliz.

    Mas FHC mesmo, ainda que não tenha feito nada a favor dos gays concretamente, mas ao menos eu conheço uma foto dele segurando a bandeira do arco-íris.

    Alguém imagina a Dilma – que se “informa” sobre o tema na TV do “bispo” fazendo a mesma coisa?

    Dilma foi desastrosa em tudo. E querer tomar a frase dela (absurda por si só) fora do contexto em que ela foi dita, não é algo que se sustente num debate honesto.

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  7. wagner março 12, 10:46

    A entrada, de forma tão nefasta, da religião na política e, por consequência, na vida do país, é tão óbvia, tão assustadoramente explícita, que chega a impressionar que alguém queira negar isso usando qualquer tipo de argumento tortuoso.
    E o que acho mais grave nas posturas retrógradas adotadas por Dilma e equipe nesses quesitos é que não representam expressão de pensamentos ou opiniões pessoais, apenas têm objetivos de não desagradar determinados grupos em troca de favores discutíveis.

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  8. Gustavo Rabello março 12, 10:49

    Sabe, o buraco é mais embaixo…

    O retrocesso político, o vergonhoso silêncio e as falas constrangedora são um tipo de abandono… é como se nada disso fosse importante, e não sendo, a direita teocrática que se “divirta” com essas questões: o que vale mesmo é a economia.

    Mesmo tentando se opor, com os instrumentos pragmáticos disponíveis, ao perigo do ajuste financeiro (o centro da economia vai exportar a crise junto com a liquidez, espera só) que se avizinha, mesmo com a louvável inclusão social que esses mesmos instrumentos pragmáticos permitem (quem vai ser contra?); mesmo com tudo isso, vai chegar o momento em que o pessoal que pensa vai se dar conta que é impossível ser “setorialmente” de esquerda.

    E olha que eu tenho a maior esperança de que minhas avaliações estejam equivocadas. Abandonei o barco ainda não.

    Abraços

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  9. Idelber março 12, 10:50

    Bons os comentários, hein? Muito bons. Outro abraço, galera, mergulhado na leitura por aqui.

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  10. Emil março 12, 11:03

    Meu comentário é bem marginal ao texto, e mais sobre um movimento que às vezes eu vejo você (e boa parte da esquerda) fazer, Idelber.

    Que é necessário frisar os retrocessos do governo Dilma até agora, não se nega, e o texto vem em boa ocasião. E ele todo poderia ser escrito sem necessariamente dizer que concorda com a crítica do Raphael Tsavkko (de quem eu gosto muito, mas dessa vez acho que tomou um pau argumentativo do Senshô, e um pau considerável, já que ele o texto do Raphael foi escrito em resposta e isso consiste em uma bela vantagem. Enfim, o texto que motivou tudo isso está aqui: http://sensho.posterous.com/o-que-a-esquerda-deveria-aprender-com-os-evan). Porque o texto do Tsavkko é ruim, não se endereça ao ponto central do texto do Senshô, que é, mais do que um elogio aos evangélicos, uma autocrítica à esquerda, que realmente anda peidando na farofa quando o assunto é massficar.

    Eu sei que eu não ando fazendo nada, trabalho de base mesmo nulo.

    Então, digressei um monte, mas o movimento é o seguinte: pega algo que um amigo ou aliado escreveu, ainda que meio mequetrefe, dá aquela defendida por cima e aproveita pra bater em quem tá precisando apanhar. E nada contra bater em quem tá precisando de uma surra, mas isso de defender bobagem que o amigo falou ainda vai voltar pra morder todo mundo na bunda, pode apostar. Não hoje, não agora, mas sugiro que fiquemos de olho.

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    • Raphael Tsavkko março 12, 18:59

      Mesmo como autocrítica, o texto do Senshô não chega no ponto. Faz uma autocrítica envergonhada, tratando a esquerda como uma coisa só, sem separar o que virou o Pt do que se manteve na esquerda e também esquecndo que o crescimento vertiginoso dos Krents se deu, também, graças à ajuda ou memso falta de oposição por parte do PT (que se diz de esquerda). Colocar a culpa dos erros e problemas na esquerda não é autocrítica, é assumir culpa pelo que um setor fez e imputar ao todo.

      Claro que a esquerda precisa fazer autocrítica, mas nem toda precisa assumir os erros do PT. Esquecer convenientemente da cooptação dos movimentos sociais, de lideranças e a visível perseguição a outros movimentos não dá.

      Uma autocrítica em que se critica sem entender o panorama completo de cooptação e acomodação é incompleto e serve a propósitos obscuros.

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  11. NPTO março 12, 13:03

    Grande Idelber! Valeu pela resposta. Respondendo por partes:

    1) O parque gospel é realmente um absurdo, sem dúvida, um negócio inacreditável. Mas o debate levantado pelo Tsavvko se referia mais ao governo federal. A respeito do Acre, concordamos.

    2) Concordo inteiramente que a dimensão legal tem que ser relacionada à luta mais ampla dentro da sociedade, mas aí é que eu acho que os avanços LGBT foram mais notáveis. Ontem na capa do Globo – do Globo, veja bem – tinha uma chamada para reportagem sobre a Carmem Lúcia, descrita como “defensora das liberdades e do casamento gay”. Faz muito pouco tempo, isso seria inconcebível. Estamos chegando no ponto em que quem é contra o casamento gay é que vai precisar se justificar. Acho que tem mais políticos de direita reconhecendo direitos LGBT do que políticos de esquerda vacilando em sua defesa. Não é hora de relaxar e descuidar da luta, é claro, mas não acho que o quadro seja ruim, não. Acho que a visibilidade recente dos evangélicos é reação a progressos reais.

    3) O Crivella é uma besta, sua presença no ministério é ruim, mas o problema é muito mais fisiologismo do que teocracia, eu acho. O Ministério da Pesca é aquilo que a gente sabe, um fóssil meio ministério, meio mensalão. Se dessem o ministério da Educação para o Crivella, onde as opiniões dele sobre o mundo seriam realmente importantes, eu concordaria com o argumento de avanço da teocracia. Mas, ao menos por enquanto, acho que é mais sinal de um problema mais velho, o fisiologismo.

    4) Concordo que a Dilma deveria estar usando mais sua maioria parlamentar, até porque, visto que não há dinheiro para novas grandes iniciativas, talvez fosse uma boa hora para fazer umas boas leis. Vamos ver como a questão evolui até o fim do governo.

    5) Que eu me lembre, o “não fazer propaganda de opção sexual” era resposta a um questionamento sobre o vídeo que dizia que os bissexuais têm o dobro de chance de encontrar um parceiro. Isso é uma comparação com conclusão favorável a um dos itens comparados. É uma abordagem errada para incentivar a diversidade, eu acho (claro, posso estar errado): devemos deixar claro para os jovens que os bissexuais, os homossexuais, ou quem quer que seja, têm o direito de serem diferentes; não que uma diferença seja melhor que as outras. Além do que é obviamente irrelevante para combater a homofobia: se uma opção sexual é aceitável porque nos convencemos de que ela é um “bom negócio” (100% a mais de mercado potencial), as que não nos convencerem serão inaceitáveis?

    6) No caso da propaganda de prevenção à AIDS, que o Vinícius do “Relances” levantou lá no Amálgama, concordo inteiramente, a retirada foi um erro: não deve ofender ninguém a visão de casais homossexuais fazendo aquilo que os heteros fazem em novela todo dia, e havia uma questão de saúde pública que deveria ter prevalecido mesmo se o anúncio fosse mesmo ofensivo.

    7) Quanto ao aborto, reitero: é uma questão de direitos humanos, mas que se rege inteiramente por uma questão anterior, relativa a concepções sobre o que, exatamente, é uma vida humana. Se o feto não for um ser humano, o único corpo em questão é o da mulher, e aí seu direito é indiscutível. Se for um ser humano, tem os mesmos direitos do corpo da mulher. Se não soubermos se é ou não é, podemos pensar em um critério razoável que estabeleça que até certo ponto da gravidez, só há um corpo (o da mulher), e aí ele decide absolutamente; a partir daí, há dois, e não há decisão a ser tomada. Não é só uma questão religiosa: o Hitchens, por exemplo, achava que o feto era um ser humano.

    8) Sei que vão discordar, mas ainda não há consenso sobre o quanto da homossexualidade é genético, e discordo da posição, atualmente majoritária, de usar “orientação” ao invés de “opção”. Eu prefiro mesmo opção a orientação, porque é o que me interessa politicamente. É possível que o sujeito tenha vontade de ser gay por determinação genética, ou por vontade divina, é possível que ele tenha vontade de ser gay por ato soberano de sua consciência, mas o que me interessa é que ele tem vontade, e, visto que essa vontade não prejudica ninguém, deixem o cara exercer sua vontade.

    9) A discussão no Amálgama era sobre direitos humanos, e é ali que não enxergo retrocessos; na área da política cultural, é razoável dizer que houve mesmo retrocesso . Na área ambiental, é possível que tenha havido (não entendo nada disso, respeito o pessoal que briga por essa questão), mas suspeito que todos os problemas já estivessem presentes durante o governo Lula.

    Valeu pela conversa!

    Celso

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    • Manuel março 12, 14:59

      Celso,
      Algumas respostas:
      1) Acho q o Idelber também estava se referindo ao parque bastimal de Betim (prefeitura do PT) nesse ponto. Nem é uma discordância, é só pra ajudar a divulgar o caso.
      2 e 3) Não vou tentar discutir se, num “balanço geral”, houve avanço ou retrocesso na questão LGBT. Se o levantamento do Grupo Gay da Bahia serve para alguma coisa (eu não conheço indicador melhor), ele vem apontando que nunca tantas pessoas LGBT foram assassinadas no Brasil. O último número, se não me engano, era de quase um assassinato por dia. Fosse apenas a metade, já seria gravíssima a omissão do governo federal. Se o clima na opinião pública melhorou, como você argumenta, essa omissão é ainda mais grave, porque o custo político da ação seria menor. Acho que os evangélicos têm reagido a avanços reais na luta LGBT (no caso do aborto, em que só houve retrocesso, a “reação” talvez seja mero oportunismo), mas a visibilidade deles têm crescido também por causa do apoio do PT e do governo federal (o Ministério da Pesca, por exemplo, pode não ter grande importância em termos de política, mas com certeza deu visibilidade à bancada evangélica). Sobre aborto, observe que o discurso oficial no governo Lula era de que se tratava de “uma questão de saúde pública”. Hoje, é como se as mulheres vítimas dos abortos clandestinos não existissem. Não há nenhuma querela a respeito da humanidade dessas mulheres, ainda assim não se faz nada para impedir que elas morram.
      Por fim, o que talvez seja o argumento mais importante: a polêmica sobre o kit-antihomofobia foi em maio do ano passado. Desde então, que política o governo federal elaborou para educação para a diversidade (provavelmente a melhor resposta para a violência e a homofobia em geral) e combate ao bullying homofóbico nas escolas? Se isso não é omissão, não sei o que é.

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      • Manuel março 12, 15:01

        Ah, sim. Sobre avanço da teocracia, você viu as evidências do primeiro parágrafo do último post deste blog?

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      • NPTO março 12, 17:10

        Manuel, bons questionamentos os seus. Vamos lá.

        Nem imagino o que seja o parque batismal, mas deve ser um desastre. Nisso eu concordo inteiramente com os críticos, é petista fazendo besteira (modero aqui meu vocabulário em consideração à caixa de comentáro alheia). Meu foco aqui é o governo federal.

        É bom esclarecer exatamente do que estamos falando: o aumento do número de ataques homofóbicos é gravíssimo, mas não sei exatamente o que o governo federal pode fazer além de campanhas de esclarecimento, etc.; segurança pública é competência dos governos estaduais, e, se for o caso de mudar alguma lei (na linha dos hate crimes, etc.) a competência é do Congresso. Não acompanhei o debate sobre a lei anti-homofobia para além do que saiu no jornal, mas tive a impressão de que o negócio empacava na questão do discurso: o medo dos religiosos é que seja proibido pregar contra a homossexualidade. Se quiserem minha opinião (não que alguém tenha pedido, fazem bem em não pedir), eu cederia nesse ponto para passar uma punição mais severa para crimes em que a homofobia fosse um agravante.

        Eu não acho que o discurso contra o homossexualismo deva ser proibido porque eu não acho que quase nenhum discurso deva ser proibido. Muita gente aqui já defendeu o regime cubano, um dos regimes mais grotescamente homofóbicos de que se tem notícia; deveriam ter sido proibidos de fazê-lo? É claro que não, até porque a homofobia não era o núcleo da ideologia socialista (como não é das religiões que condenam o homossexualismo). Tanto os socialistas quanto os cristãos estão flagrantemente violando seus princípios quando são homofóbicos, e devem ser denunciados por isso: mas não proibidos. É sempre tentador pedir que o Estado faça o trabalho de convencimento que nos cabe fazer, mas é uma tentação a ser resistida.

        Muita gente de esquerda defende os direitos dos muçulmanos praticarem sua fé (e estão certos em defender esse direito). Mas na ausência de uma eventual, e extremante necessária, grande reforma do Islã, qualquer lei que proíba doutrinas homofóbicas o criminaliza imediatamente. Eu sou contra fazer isso. Enquanto o sujeito estiver só falando, e não estiver dizendo para os outros partirem para a violência, eu sou a favor de que não se proíba (se partir, é claro, deve ser abatido como um cão raivoso).

        E eu não diria que o discurso do Lula sobre aborto fosse em nada diferente do que propõe a Dilma. Gostaria de poder dizer que o Lula avançou muito nessa agenda, mas não seria verdade. A questão voltou à agenda na campanha por causa de uma entrevista da Dilma em que ela apoiava a legalização em termos que o Lula nunca usou em nenhum momento em que isso significaria efetivamente começar o processo de legalização.

        Abração

        Celso

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        • Manuel março 13, 04:20

          Pessoalmente, acho que um pronunciamento da presidenta por ocasião de um dos horríveis ataques do ano passado (à la Obama de 2006 sobre política e religião, ou de 2008, sobre racismo) faria diferença. Além disso, é educação (dentro e fora da escola). Se o problema fosse só a frase sobre bissexualidade, bastava editar o vídeo. O fato de que isso não foi feito, e, aliás, de que nada foi feito nesse campo até agora, revela que o governo escolheu o lado dos bullys nessa questão.

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        • Manuel março 13, 08:11

          Sobre a sua posição a respeito do PLC 122, você também é a favor de que pontos de vista racistas e xenófobos possam ser livremente divulgados (até mesmo por concessões públicas de TV e rádio)? Pessoalmente, estou bastante convencido de que a opinião do Bruno Cava, de que criminalizar não é solução, está correta. Ainda assim, creio que poderiam ser pensadas penas educativas, além da apreensão de material homofóbico (ou racista ou xenófobo etc.) que configure discurso de ódio, mesmo que não constitua uma incitação direta à violência. Algo nessa linha: http://www.ilga-portugal.pt/noticias/340.php
          Além disso, penso que seria razoável a perda da concessão no caso de reincidência nesse tipo de discurso.

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    • Vinícius de Melo Justo março 12, 15:57

      Bom, como o Idelber na prática aprofundou os questionamentos que fiz nas duas respostas dirigidas ao Amálgama, não sei se tenho muito a adicionar. Vou fazer então uma resposta de cunho mais pessoal e menos argumentativa (mas não isenta desta dimensão).

      Não sou de esquerda. Não sou de direita. Não sou de centro. Não sou o partido do Kassab. Creio-me um liberal mais crítico ao capitalismo do que a quase totalidade de meus pares, e mais disposto a buscar outros paradigmas do que confiar no receituário deste ou daquele teóricos liberais (por exemplo, adoro o Mill, mas já sabemos que a visão dele de indivíduo é no mínimo ultrapassada). Estas convicções levam-me a ficar ao lado do que se convenciona chamar esquerda em quase todas as questões que envolvem direitos civis.

      Quem me conhece ou já me leu sabe, portanto, o quanto eu me sinto traído e estelionatado (se não existe, acabei de inventar) pelo atual governo do PT. Eu não esperava grandes modificações econômicas – e elas não vieram -, mas esperava que um voto na Dilma, em especial após a campanha nojenta de José Serra, seria um freio a esse neoconservadorismo boçal que já ganhou bastante força no Brasil. O corte evangélico para esse fenômeno é, em minha visão, apenas uma visão simplificada de um processo maior.

      Ledo engano. O governo Dilma não representou um refluxo da tendência, antes confirmou-a e não a deslegitimou. Foi bem lembrado, Celso, o contexto da declaração de Dilma. E qual foi o contexto? A pressão pela queda do Palocci. Você até pode discordar, mas há um discurso político construído dentro do PT (ou trazido para seu seio) sobre direitos civis a homossexuais, contrariado e rechaçado pela declaração presidencial. Nessa brincadeira, Dilma conseguiu um monte de coisas: referendou a gritaria quanto a existência de qualquer iniciativa do MEC para incentivar a tolerância, deu uma rifada no Haddad (como se ele precisasse de mais “telhado de vidro”) e garantiu que a gritaria da bancada evangélica teria espaço nas decisões de políticas públicas. Ah, manter o Palocci também não foi possível.

      Uma declaração conciliatória à la Lula seria muito menos danosa (embora pouco para avançar a pauta): algo como “esses programas são piloto, ainda vamos alterar muitas coisas antes de lancá-los”. Não. Dilma jogou tudo na fogueira. Isso, para mim, é traição, pois era isso que eu temia quando votei nela para evitar a vitória de Serra. Talvez fosse até pior com ele na presidência, mas se eu pudesse ver o futuro teria sem dúvida anulado o voto novamente no segundo turno.

      Para finalizar, creio que você se equivoca ao relacionar o termo “orientação sexual” às eventuais evidências de origem genética da homossexualidade. Para começar, desde as pesquisas de Kinsey sabemos que indivíduos raramente podem ser classificados como homossexuais ou heterossexuais puros – isso parece jogar água em seu moinho de que se trata de uma “opção”, mas é o contrário: enquanto a palavra “opção” denota algo passageiro e/ou contingente, a palavra “orientação” denota tendência de longo prazo – e inclui tanto os que praticam suas preferências ou não. Citando os personagens de Grande Sertão: Veredas, pode-se dizer que as opções de Riobaldo sempre foram hetero (com grande esforço para evitar relações com Reinaldo, mas ainda assim seus relacionamentos sexuais de fato foram exclusivamente com mulheres), mas pode-se dizer o mesmo de sua orientação, ou seja, a preferência às vezes não manifesta em ações, mas presente? Logo, só a genética não seria explicação suficiente, dado que há muitas contingências fenotípicas que podem influenciar.

      Ninguém é obrigado a pensar dessa maneira, é claro, mas não conheço visão que seja mais tolerante e mais laica que esta sobre a homossexualidade. E é inegável que, desde então, a pauta não avançou e muitas pessoas – inclusive amigos e conhecidos meus, o que mais dói – têm sido discriminadas e atacadas nas ruas apenas pela suspeita de serem gays. Só isso já seria motivo para evitar declarações como aquela. Se não o fazem, ou é por conivência ou é por oportunismo (leia-se “concordância” ou “governabilidade”).

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      • NPTO março 12, 17:26

        Grande Vinícius!

        Não lembrava mesmo que era a época do Palocci, mas você acha que era manobra diversionista? Se fosse, era ruim; a queda do Palocci provavelmente teve muito menos custo para a Dilma do que o negócio dos vídeos anti-homofobia.

        Eu ainda prefiro o termo opção, pelo motivo que eu dei: o que interessa nessa questão é que tem uns caras que querem fazer um negócio que não interessa ninguém senão eles mesmos; logo, isso que eles querem fazer deve ser inteiramente respeitado. Se eles querem por um motivo ou por outro não me parece relevante.

        PS: a propósito, os vídeos anti-homofobias das meninas e o do garoto descobrindo que é trans não são absolutamente apologia. Não deveriam ter sido objeto de qualquer polêmica. O do garoto bissexual sugere, sim, que a bissexualidade é melhor que tanto a heterossexualidade quanto a homossexualidade exclusivas.

        PSTU: agora que eu vi que meu “8″ seguido de “)”virou um smiley de óculos escuros. Pô, desmoralizou meu argumento completamente.

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        • Vinícius de Melo Justo março 12, 18:17

          Sobre Palocci:

          “Diante da decisão de Dilma, o ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho (PR-RJ), que participou da reunião com Carvalho, afirmou que estão suspensas as medidas anunciadas pelas bancadas religiosas em protesto contra o “kit anti-homofobia”. Em reunião, os parlamentares haviam decidido colaborar com a convocação do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, para que ele explique sua evolução patrimonial.”

          http://g1.globo.com/vestibular-e-educacao/noticia/2011/05/governo-nao-fara-propaganda-de-opcao-sexual-diz-dilma-sobre-kit.html

          Entendo sua preferência por “opção”, mas continua sendo um erro grave a meu ver. Em última instância, é isso que favorece esses movimentos de “cura da homossexualidade”: a crença generalizada de que homossexualidade não passa de um desvio de conduta sexual, quando na maior parte dos casos trata-se de naturezas diversas de sexualidade (que, como quis demonstrar citando as pesquisas de Kinsey, não são tão absolutas quanto parecem). Você está com boas intenções, e na prática você quer que o Estado não se meta na sexualidade alheia e encare isso como o exercício de um direito, mas na prática a teoria é outra, opa, opa, opa, não exija royalties – espero que você não seja partidário do MinC-ECAD!

          PS: Seu argumento já estava desmoralizado de saída, seu blogueiro sujo que não honra os vencimentos que recebe e pára de blogar. :P

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          • NPTO março 12, 18:41

            Ahá! Ao adicionar um emoticon você se tornou tão desmoralizado quanto eu!

            É mesmo, não tinha feito a ligação com o caso do Palocci, é realmente péssimo. Bom, minha opinião sobre o conteúdo dos vídeos continua a mesma, e ainda acho que a declaração da Dilma eu assinava. Pelo menos o Palocci caiu.

            E persisto com opção. Se um maluco quiser curar os gays, os gays que o mandem à…enfim, caixa de commentário alheia, vocês sabem para onde mandar o sujeito.

            Se o Laerte quer ser uma crossdresser bissexual, o que me interessa é que ele quer ser isso, e todo mundo tem que aceitar. Garanto para vocês que ninguém até hoje encontrou o gene do bissexualismo crossdresser. Se encontrarem, se não encontrarem, acho inteiramente irrelevante do ponto de vista político. Só é relevante se a gente achar que, caso seja uma opção, é “culpa”dos gays eles serem gays, uma idéia ridícula demais para ser discutida.

          • Raphael Tsavkko março 12, 19:14

            A questão da Orientação, Celso, muitas vezes é mais política que encontra fundação científica – por mais que eu, como o Vinícius, me incline para a segunda.

            Há uma bareira clara, ideológica, entre quem usa o termo “opção” e o termo “orientação”. O primeiro normalmente se insere num contexto teocrático e conservador, enquanto o segundo, obviamente, não.

            Mais que uma opção de escolha (do termo) trata-se de uma demarcação ideológica e de respeito. É uma forma de marcar posição e fechar as portas aos teocráticos.

            O mesmo, claro, não se aplica à “homossexualismo” versus “homossexualidade”, em que o primeiro denota doença e o segundo é a forma correta.

            PS: Sem emoticon para não me desmoralizar também!

          • F. março 14, 23:21

            Ok, o vídeo bissexual era ruim pacas, NPTO. E eu não sei se os outros dois, embora sem propaganda, cumpririam com os pretendidos objetivos anti-bullying ou pró-diversidade. Sei lá, eu apostaria mais em Diadorim e Riobaldo, Brokeback Mountain ou na edição de O Globo com a ministra Cármen Lúcia na primeira página como alternativas de levar o assunto às escolas.

            Discordo bastante do lance da “opção”, e nem é tanto pelo viés ideológico que o Tsavkko bem sublinhou, que situa sujeitos em espectros culturais até mais amplos que o político. É porque o teu raciocínio – ou a expressão da Dilma – esbarra num fato importantíssimo: o desejo sexual surge na adolescência.

            A pessoa está realmente preparada para dizer que pode trepar com quem quiser e ninguém tem nada a ver com isso aos 13, 15, 17 anos? Tem as ferramentas? Sabe se defender dos ataques que virão? A ideia de opção é, ao menos, inadequada para a experiência adolescente. E não é só isso.

            Como o relato abaixo é em primeira pessoa, prefiro usar apenas minha inicial nesses dois centavos sem concisão (a vida é um entra-e-sai do armário e só às vezes, como agora, isso me incomoda).

            Para mim, a atração pelo mesmo sexo veio juntinho com a puberdade. Lá no início dela. E eu repeli o desejo com inútil firmeza. Foi uma opção. Não tenho trejeitos aparentes, sou daqueles mais tolerados pela sociedade mezzo hipócrita. Sou daqueles que “sabem se comportar” (esse tipo de comentário… eu já ouvi muitas vezes em tom de elogio!).

            Logo, aparentemente, não me era muito difícil fingir. Mas os danos psicológicos e os riscos físicos dessa minha “opção” foram bem acentuados.

            Namorei exclusivamente meninas por quase dez anos. Foi com uma delas que fiz sexo pela primeira vez. Eu queria acreditar que teria atração por mulheres pela prática heterossexual. Logo eu, que nem bi sou. Nesta época, se alguém me oferecesse cura, eu não teria mandado o sujeito para aquele lugar impublicável. Eu teria me submetido às sessões de exorcismo, ou tomado a pílula que me oferecessem. Vergonha pouca é bobagem. Eu quis muito me “curar”, ou fazer a opção padrão (naturalmente, como acontece com heterossexuais).

            Arrumei uma namorada mais firme. Prima de um amigo da faculdade (que, por acaso, é gay e eu sabia disso; mas não conversávamos sobre o assunto). Fazíamos sexo. Eu cumpria tabela. Eu era “competente” para tanto, se é que me faço entender. O namoro ficou sério. Ela se apaixonou e eu tive uma falsa ideia de autoestima, de admiração pela minha capacidade de “optar” pela heterossexualidade sem que ninguém percebesse o contrário.

            Acontecia de, durante relações sexuais com ela, eu fantasiar com homens. Isso começou a se tornar mais e mais frequente. E eu já não fazia sexo sem pensar em homens. Ela se formou e eu me formaria no ano seguinte. Ela arrumou um trampo, cogitamos juntar as escovas de dente, essas coisas de juventude botando as asinhas de fora. E eu pensando em homens na minha indevassável intimidade.

            Tive um surto de lucidez e terminei o namoro. “Não é nada com você, o problema é comigo”, aleguei. E era verdade. Ela ficou mal e eu, muito deprimido, por vê-la sofrer e por saber o que havia me levado ao término da relação.

            Ninguém sabia de mim (só eu mesmo, no quarto, no escuro, de porta fechada, nariz tapado e pulsos quase cortados). A iniciação homossexual foi terrível. Quando a clandestinidade absoluta me era possível, eu fiz coisas muito arriscadas. De frequentar hoteis nas proximidades de rodoviária às duas da madrugada, onde também sentavam praça drogaditos, profissionais do sexo, gente imunda, bêbados. Homicídio no quarto ao lado.

            Ali conheci homens mal resolvidos – que me remetiam à ideia de ter uma mulher (como minha ex-namorada) e uma vida paralela, clandestina e perigosa. Nunca perguntei o nome de nenhum deles e mentia quando me perguntavam o meu. Cruzei um dia com um professor da faculdade, igualmente casado, mas ele fingiu que não me viu e que tinha entrado ali por engano. Imagino o desespero dele (eu fiquei desconfortável pacas, mas sabia que ele tinha muito mais a perder do que eu).

            A cada vez que eu fui lá, mais deprimido fiquei. Felizmente, não foram muitas exposições. O homicídio foi assustadoramente real – eu fugi em meio a gritos infernais de “polícia, polícia, ninguém sai daqui, vai todo mundo pra delegacia”. Imagine ser descoberto numa circunstância assim? Meus pais, que seriam muito bacanas anos mais tarde ante a “revelação”, ficariam muito preocupados. E com razão. Eu não estava no gueto básico (lá poderia encontrar gente conhecida). Meu início foi literalmente no submundo.

            Certo dia, fui a um show do Pato Fu. Galera estava toda lá. Na saída, estava um Fulano, que era quase meu vizinho, morava bem perto. Turminha foi embora a pé para casa e, em dado momento, seguimos somente eu e o Fulano em direção às nossas casas. Eu sabia que havia rolado um lance entre o Fulano e o primo da minha ex-namorada. Fulano era bem bonitinho. Tive uma ideia de jênio.

            - “Vou pra cima. Rolando ou não, ele vai contar para o primo da minha ex-namorada, o Beltrano. Beltrano vai me perguntar. Aí eu confirmo a história e consigo conversar com um amigo sobre isso, antes que eu exploda ou morra”.

            Essa ideia absurda – por que diabos não fui simplesmente conversar com meu amigo, que ainda por cima era gay? – me ocorreu em dois segundos. No passo seguinte, eu ataquei, porque se eu pensasse muito iria desistir. Rua deserta, busquei a mão dele. Fulano me olhou assustado. “Estou sozinho em casa”, eu disse, sem uma gota de saliva. Ele topou com a cabeça. Não falamos mais nenhuma palavra até chegar em casa. Meu primeiro beijo na boca de um homem foi no elevador do meu prédio. Eu estava eufórico e pensava no papo que teria com meu amigo, o objetivo inicial da minha ideia de jênio.

            Tudo aconteceu conforme o previsto, menos a parte do meu amigo vir me perguntar sobre o que tinha acontecido e eu poder desabafar. Mais de duas semanas se passaram e nada. Comecei a rondá-lo com comentários dúbios sobre uma noite de sexo após o show do Pato Fu. “É? Com quem foi?”. Explodi de raiva. “Olha, você sabe que eu ando mal, na maior deprê. Eu sei que o Fulano te contou. Não existe hipótese de ele não ter te contado. Estou há duas semanas esperando que você venha me perguntar sobre isso. Achei que você era meu amigo”. Mimimi.

            A resposta dele foi sen-sa-ci-o-nal. Mais ou menos assim. “Olha, realmente o Fulano me contou. Mas você não quis falar sobre isso, então eu te respeitei, porque é uma decisão tua falar ou não falar, escolher com quem falar. Eu mesmo nunca falei sobre isso contigo, porque escolhi outras pessoas para ter esse tipo de intimidade. E eu fico sinceramente emocionado de você ter me escolhido para conversar”. Foi o abraço mais fraterno que recebi em toda minha vida. Desabei. Soluçava, mal conseguia respirar. Eu falei umas 18 horas ininterruptas, chorei, ri, fumei dois maços de cigarros. Gargalhamos sobre sinuosa parte da anatomia do Fulano, que eu e Beltrano, afinal, bem conhecíamos.

            Eu tinha 23 anos quando entendi que não existe opção, embora não tenha discutido o assunto opção versus orientação à época. Eram tempos de GLS e olhe lá. LGBTTI nem pensar. Não existe opção para o desejo. Não há opção em sentir o que não se sente. Existe opção de fazer ou de não fazer sexo, tanto para homo e heterossexuais. Existe ego-distonia rolando solta para além do preconceito e das lâmpadas fluorescentes na cara de gente que sente a mesma coisa que eu. Também há opção de mentir e de cortar os pulsos.

          • Vinícius de Melo Justo março 15, 16:02

            Tudo que eu deveria ter dito mas jamais poderia por não sentir na pele. Lindo, F.

      • Raphael Tsavkko março 12, 19:11

        Comentários pertinentes e certeiros. Aplaudo!=)

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        • Bernardo Santos março 13, 04:53

          Celso,

          Acho que você está muito enganado quando diz que, basicamente, houve conquistas LGBT nos últimos anos, logo não houve retrocesso político. Como o Tsavkko frisou, grande parte das conquistas LGBT tem sido obtida por meios jurídicos. Outros avanços têm sido conquistados no âmbito da opinião pública, mas mesmo esses “avanços” são questionáveis. Veja bem, você está certo em dizer que o crescimento da violência homofóbica é resposta a conquistas reais. Mas você o faz com um ar de que “ah, beleza, então tá tranquilo, estamos avançando nessa questão”. Não, pombas, as pessoas estão morrendo! Se por um lado se conquista mais apoio de uma ampla parcela da população, e por outro lado se é agredido na rua, não dá pra enxergar o quadro todo como de “avanço”.

          De fato, do mesmo modo que a violência é resposta a conquistas, acho que a recíproca ao menos em parte é verdadeira: parte do crescimento ao apoio em relação aos LGBTs se deve a uma simpatia gerada pela violência que este grupo vem sofrendo. Algo na linha “os caras sofrem demais por serem o que são, e isso não é justo, mesmo que eu ache o homossexualismo [sic] errado”. Eu mesmo já ouvi esse tipo de discurso várias vezes.

          Mas o ponto central é: se existem avanços, eles estão ocorrendo *apesar* da completa (ok, vai, quase completa) omissão/inação do governo nesse sentido. Como disse o Idelber, omissão também é retrocesso. E como disse o Manuel, se a opinião pública tem melhorado em relação aos LGBTs, a omissão é ainda mais grave.

          Por último: repare que nas respostas ao longo da caixa de comentários, você foi cedendo em vários pontos que “realmente são lamentáveis”, “de fato isso aí foi um absurdo”. Contando todos esses, ao seu ver já não dá para considerar que houve sim um retrocesso?

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    • Raphael Tsavkko março 12, 19:06

      1) Na verdade se referia também ao PT, tendo o gov federal como parte mais visível.

      2) Os LGBT tem tido avanços exclusivamente no campo jurídico, via STF, no campo política – PT em especial – tem tido apenas derrotas. E muitas delas derrotas auto-impostas como barganha aos evangélicos, vide PLC122.

      3) A simbologia é mais improtante que o valor/peso do minsitério. Claro que é um ministério basicamente inútil, mas colocar um evangélico militante, da IURD, “Bispo”, tem um significado. Ele será chamado de Ministro, terá verba e respeito igual a qualquer outro ministro, por menos relevante que o seu seja.

      4) Disso eu tenho medo. “Evoluir” não é palara que se possa usar pra esse governo.

      5) Falar “opção”, em si, é terrível, mas a frase veio em resposta ao Kit Anti-Homofobia.

      6) -

      7) É uma questão de saúde púnlica. Pouco importa o papo da concepção. Mulheres farão aborto – e morrerão – com ou sem liberação. Esse debate sobre concepção é wish wash de teocrata pra tergiversar e não discutir o ponto principal.

      8) -

      9) Basta ver o que está sendo feito contra os povos indígenas e quilombolas para ver os retrocessos nos DH. O crescimento da violência homofóbica com aval governalmenta (ou omissão governamental) são exemplos claros. E até mesmo o mais fanático dos petistas, mas da área de cultura, reconehce retrocessos no MinC.

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      • NPTO março 13, 09:09

        Bora lá, Tsavkko:

        1) Sobre esses casos de PT fazendo parque gospel, etc., concedo o ponto inteiramente, é obsceno, ridículo, enfim.

        2)Eu não acho que o avanço tenha sido só no campo jurídico, não, acho que o avanço maior foi na sociedade. Comparem a discussão sobre direitos LGBT na grande imprensa atualmente com o que era alguns anos atrás.

        3) Eu acho que o significado do Crivella no ministério ainda é mais uma cooptação da IURD pelo Estado patrimonialista brasileiro do que uma cooptação do Estado patrimonialista brasileiro pela IURD. De qualquer jeito é feio, sem dúvida, mas ainda não é grave pelo motivo avanço teocrático (é grave, naturalmente, por duzentos outros motivos).

        4)Vamos ver como vai a agenda legislativa. Teve mudança na articulação política esses dias, vamos ver como vai.

        5) Reitero tanto o que já disse sobre opção quanto o que disse sobre o kit, dois terços de cujos vídeos eram bons.

        6)Não acho que o papo de concepção seja irrelevante, de jeito nenhum. Nos países europeus ele foi levado bastante a sério na discussão sobre até que ponto a gravidez pode ser interrompida. Você tem certeza absoluta de que o feto não é um ser humano até os nove meses?

        7) Como eu disse para o Idelber, minha discussão aqui é praticamente só sobre o debate com os religiosos. A área da cultura piorou mesmo, meio ambiente está ruim (embora para falar de retrocesso seja necessário estabelecer que governos anteriores – Lula inclusive – foram melhores, o que eu não acho que tenham sido).

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    • Chico Lacerda março 13, 04:14

      Celso, sobre o ponto 5: olhando localmente pro incidente do vídeo que defendia a bissexualidade como mais vantajosa, o “não fazer propaganda de opção sexual” faz sentido, e eu não reclamaria pelo fato deste vídeo ter sido substituído por outro de teor mais neutro. O problema é que o vídeo e o argumento foram usados como subterfúgio pra enterrar o programa. Da mesma forma que o ministro da saúde usou desculpas falsas e envergonhadas pra substituição do vídeo do carnaval.

      E um pouco sobre o ponto 2: nas últimas décadas, a causa LGBT (assimilacionista, de equiparação de direitos) teve apoio tanto da direita quanto da esquerda (e desta, mais tardiamente, dada a associação da homossexualidade com a decadência burguesa feita por certas correntes do pensamento comunista), mídia inclusive. Os entraves à causa neste período surgiram sempre da associação da política a grupos cristãos, seja pela direita, seja pela *esquerda*. É o que vejo acontecer no governo atual, que trata a causa de forma vergonhosa e envergonhada, no mais das vezes como moeda de troca com a bancada teocrata.

      Concordo com você que a luta LGBT continua avançando, mas isto se dá à revelia do governo e a partir de setores ainda intocados pelos grupos religiosos, como o STF, pelo movimento organizado e pela própria mudança de mentalidade de parte da sociedade. Enfim, por isso tudo, discordo quando você tenta negar que houve retrocesso na área, no governo atual. Pelo contrário, o retrocesso em relação aos governos Lula e FHC é grande e explícito.

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      • Chico Lacerda março 13, 08:27

        Corrigindo: “como o STF, *o* movimento organizado e *a* própria mudança de mentalidade de parte da sociedade”

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      • NPTO março 13, 09:14

        Chico, concordo que o kit anti-homofobia deveria ter sido revisado e retomado. E reitero que a retirada do vídeo do carnaval foi um erro. Mas discordo inteiramente da idéia de que a esquerda chegou atrasada na luta pelos direitos dos homossexuais. A luta pelos direitos dos homossexuais foi quase que exclusivamente conduzida pela esquerda, desde os ex-maoístas franceses nos anos setenta até o PT no Brasil. Os liberais brasileiros, por exemplo, sempre tiveram pouquíssimas tendências “libertarian”.

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        • Chico Lacerda março 13, 11:02

          Celso,

          Conheço pouco da história dos ex-maoístas franceses, mas aqui no Brasil, dos fundadores do grupo SOMOS de 1978, primeira organização ativista LG(BT) daqui, boa parte era egressa do Partidão, insatisfeitos com a falta de liberdade para discutir suas questões (houve um caso de agressão por colegas de partido, ao descobrirem-no, durante um congresso, tendo um caso com outro membro). No início dos anos 1980, depois de crescerem e conseguirem visibilidade, tanto o PC quanto o PT tentaram cooptar o grupo, com a condição que deixassem suas questões de lado e, após avanços políticos e sociais universais, voltassem todos juntos a elas. Antes de poder aceitar – ou não – o grupo se desfez. Em resumo, a militância aqui surgiu e manteve-se por um tempo apartidária, até porque não tinha espaço nos partidos.

          (Essa trajetória pode ser conferida em (partes de) três livros, Devassos no Paraíso, de João Silvério Trevisan; Além do Carnaval, de James Green e A Construção da Igualdade, de Edward MacRae)

          Desse hiato entre 1985 e início dos anos 1990 (a epidemia de AIDS desbaratou os grupos existentes), conheço pouco, e aí, sim, uma militância LGBT digna do nome pode ter surgido dentro do PT (antes da direita). Mas com a reestruturação do movimento no formato ONG, a partir dos anos 1990, e daí em diante, o apoio aos grupos (boa parte dos quais tentava manter-se apartidário) veio igualmente, de ambos os lados, direita e esquerda. E é aí que repito, o governo de Dilma apresenta uma descontinuidade flagrante nesse percurso de apoios.

          Obs.: agora me dei conta que posso ser mal interpretado: não estou afirmando que esta é uma luta de direita, claro que é de esquerda (mas não necessariamente dos *partidos* de esquerda, em determinado momento histórico).

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          • NPTO março 13, 11:10

            Chico, é bacana discutir com gente bem informada como você. Há, sim, uma briga do movimento gay com os velhos partidos comunistas (que perderam o bonde de 68 solenemente), mas o crescimento do movimento LGBT mais ou menos coincide com o declínio da importância desses partidos. Veja que os caras racharam com o PCB, assim como hoje há grupos brigando com o PT. Mas nenhum grupo de militância gay surgiu de um racha da ARENA, ou do PFL (tanto quanto eu saiba, pelo menos). E eu me lembro de bastante militante gay no PT, que, se não me engano, foi o primeiro partido a lançar candidatos abertamente gays (já em 1982, se não me falha a memória; chequem a informação no livro do Lincoln Secco).

          • Bruno Galvao março 14, 14:04

            Como tem povo o movimento gay que é conservador ou despolitizado e leitor da Veja.

    • He will be Bach março 13, 05:31

      Dr. Celso, pelamordedeus, como não enxerga retrocessos na área de direitos humanos? É só ver a situação de Belo Monte. Ok, é uma continuidade do governo Lula, que bisonhamente insistia nessa maldita usina. Mas a insistência de Dilma já é, em si, um retrocesso. Se, como ela mesma adora(va?) alardear, direitos humanos são inegociáveis, o mínimo que ela tinha de fazer era interromper a usina.

      Pense em como o governo recalcitra em manter aquele troço. Levou uma paulada da OEA e, em resposta, veio com aquele papo super cínico de “não mexam na nossa soberania”. Em retaliação, retiraram a indicação de Vanucchi para o órgão. Na verdade, acho que isso foi mais uma mensagem interna, querendo dizer: “Nós não estamos nem aí para os direitos humanos. Não contem com o Vanucchi porque ele será devidamente fritado.”

      E o problema não é só Belo Monte. É a mensagem que o governo passa. Ele está dizendo que indígenas são atropeláveis em nome de necessidades que não as deles. Daí, é claro que os agricultores maus-caracteres vão é sair detonando as comunidades indígenas ao seu alcance, pois têm um verdadeiro aval do governo. Governo que, diga-se, deveria honrar a memória de Chico Mendes, e só tem feito conspurcá-la.

      Além disso, a Copa do Mundo e as Olimpíadas têm tornado os DH ainda mais negociáveis. Tudo vale para entregar os raios das obras a tempo. Até mesmo tolerância com trabalho escravo ou leniência com morte de ativistas no Pará – é só acompanhar o Blog do Sakamoto para ver.

      Ah, e não vou nem falar mal da Maria do Rosário porque estudos do IPEA mostram que 65,4578% dos ativistas de DH já estão fazendo isso (hehehe). Aliás, acho que o fato de ela estar lá é uma mensagem parecida com aquela sobre o Vanucchi: “Nós não damos a mínima para os DH, tanto que fazemos questão de manter isso aí como ministra de DH.”

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      • NPTO março 13, 09:27

        Grande HwbB!

        Como eu disse, a política ambiental é outra história. No que se refere aos direitos dos trabalhadores da obra, dos habitantes locais, etc., todos devemos agradecer aos militantes que denunciam os abusos, mas aqui eu realmente, realmente duvido que a situação tenha sido melhor em governos anteriores. Evidentemente, tem que denunciar, o governo precisa corrigir.

        Mas parte da questão de DH em BM (os direitos dos índios afetados pela usina) depende de uma opinião sobre o efeito da usina sobre o nível do rio. O Idelber me mandou um bom material sobre isso, mas não consegui formar opinião própria, o que, indiscutivelmente, se deve ao fato de que não entendo nada disso. É melhor perguntar para outra pessoa que tenha melhor formação nessa área (isto é, não pra mim).

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        • He will be Bach março 19, 18:38

          Dr. picaret… ops, digo, Celso!

          Não precisa ser hidrógrafo para poder opinar sobre Belo Monte.
          1) Antes de mais nada, pense nos índios que estão loucamente protestando contra a usina. Por que mais eles fariam isso se não estivessem sendo fortemente afetados? Esse dano que eles sentem na pele vale mais do que qualquer conhecimento especializado cuja ignorância você alega para não se posicionar (fujãaaaao!). Afinal, como você sabe, na prática, a teoria é outra (vi alguém falando isso em algum lugar, não lembro onde).
          O Vinicius é bem pragmático nesse ponto: “Se o EVC é contra, então tem problema com índio, logo, eu também sou contra.”
          2) Os vídeos que defendem a usina, geralmente, usam dados oficiais. Isso não é metodologicamente abominável por si só, mas, dado o evidente interesse do governo em atropelar quem quer que seja, os dados já ficam altamente suspeitos.
          3) A situação parece-me, sim, pior do que no governo anterior. Cê viu isto?
          http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=6145&action=read
          Você diz que já estava horrível assim antes, o artigo do Idelber defende que está piorando. No fundo, todos concordamos.
          4) E aqui tem mais um material para você (o Idelber deve ter te mandado o dossiê da ABA): http://temalguemaifora.wordpress.com/2011/12/12/belo-monte-um-desabafo/

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          • Vinícius de Melo Justo março 20, 17:07

            Só adicionando que o falecido (e saudoso) Aziz Ab’Saber é outro que deve ser arrolado na lista de meus argumentos de autoridade, mais conhecidos como “carteiradas”. Assim, como você ousa discordar dos dois ao mesmo tempo em matéria que envolve fortemente antropologia e geografia?

          • He will be Bach março 22, 05:13

            Pois é. Justamente você, que já foi assombrado pelo fantasma do Milton Santos:
            http://napraticaateoriaeoutra.org/?p=3147

  12. Luana março 12, 15:40

    É uma situação tênua esta. Dilma não pode ficar sem dialogar com o mundo evangélico, mas não pode ceder a tudo que eles querem porque a sociedade brasileira no todo, não tem a concepção de mundo que o universo evangélico tem. Bem, isto é do ponto de vista doutrinário.

    Do ponto de vista político, todos sabem que é um enorme risco a política misturar-se com a religião e, além do mais, os que estão envolvidos na política, estão preocupados com seus planos de poder, sejam pessoas da membresia, sejam pessoas do clero evangélico, eles são, na verdade, executivos da fé.

    Quem conhece a fundo o cristianismo, sabe que estas pessoas não estão preocupadas com a missão da igreja, pois o critianismo tem como princípio, a dignidade, a igualdade e o direito de todo homem. O cristianismo não impõe e nem nunca impôs.

    Ademais, é preciso fazer uma distinção entre o verdadeiro cristianismo, ou seja, aquele bíblico, do Jesus que cura, salva, transfigura, expulsa demônios, do cristianismo que nos faz observar uma religião permeada de elementos orientais, que surge a partir de uma escolha pessoal de homem-deus que se coloca como alguém que tem a função precípua de vir ao mundo e fazer um ministério de reconciliação. A função maior do evangelho de Cristo, que significa boas-novas, é a reconciliação do homem e de Deus, desde que, este aceite esta reconciliação, pois em nenhum momento será imposto isto.

    A Igreja, seja ela católica, protestante, pentecostal ou neopentecostal, quando se envolve na política, a invocação do nome do Senhor é apenas para satisfação destes e do clero que estão envolvidos, pela necessidade de poder. Quem conhece um milímetro do que é cristianismo, sabe que estas pessoas não passam de executivos da fé. Como a baixa escolaridade do povo brasileiro e as faltas de perspectivas sociais são intensas, muitas igrejas encontram o caminho para entrarem da política manipulando a membresia menos esclarecida.

    Quanto ao aborto, o debate precisa ser mais amplo num estado laico. Nenhuma igreja irá acolher e estes farão chantagens sim, com quem estiver no poder, seja qual for o partido. Eles, ou melhor, os políticos religiosos, cada um busca seus próprios interesses, mas há temas comuns a todos que a bancada acaba fechando é o caso, por exemplo, do aborto, e da questão homossexual. Mas se isto é classificado como pecado, neste tema que trabalham, esquecem que roubar, seja grana, seja consciência alheia, não é apenas pecado, como quebra de mandamento, já que se utiliza a religião para se falar sobre o tema.

    É um longo caminho isto, porque veremos políticos, presidentes de qualquer partido, dissimulando sobre o tema porque sabe que será triturado no púlpito. É por isso que é importante separar o verdadeiro cristianismo que tem sua essência em Cristo, que fundamenta-se nas boas novas do evangelho eterno que tem como função precípua da igreja, as boas novas da reconciliação, com as intenções de homens que não são e nunca foram tementes a Deus, mas que usam e abusam da boa vontade do crente dentro do seu corpo doutrinário e utliza o púlpito não para levar a mensagem do Cristo vivo, mas para levar seus interesses escusos que nada tem a ver uma vírgula com o cristianismo.

    Se tem uma coisa que o cristianismo de interpretação grega, sim, pois compreendemos uma religião oriental à luz dos pais da igreja cristã a partir de Agostinho, passando por Thomaz de Aquino, escolásticos e Lutero, temos uma compreensão lógica à luz do pensamento grego. Este cristianismo, geração a geração, milênio a após milênio, século após século, se renova nesta interpretação. Por exemplo, o neopentecostalismo está fundamentado na teologia da prosperidade.

    Um dado curioso, enquanto o Socialismo tem mais a ver na essência com o cristinismo e Marx, que era judeu e foi presbiteriano, por birra com a igreja, diante da intromissão desta na Europa, rejeita o cristianismo. O capitalismo, que por mais que Weber fale da Ética Protestante do Espírito do Capitalismo, qualquer estudo detalhado perceber-se-á que, capitalismo e cristianismo não tem nada a ver, mas este acolheu-O.

    O capitalismo é por excelência deísta, mas as igrejas protestantes americanas acolheram-nas e aí está o resultado. Uma reinvenção teologizada recorrente do pensamento greco ocidental, para pegar um monte de pessoas, às vezes de boa fé, às vezes incautas. O verdadeiro Cristo não tem nada a ver com isto. Como era onisciente, a pergunta que faz nos evangelho nos ajuda a compreender “Porventura encontrará fé o Filho do Homem quando retornar à Terra?

    Então, diante de tanta gente falando e se intitulando ser o enviado do Senhor, a pergunta deixa um monte de dúvidas. A soma de tudo isto: a História está repleta de relatos tristes, absurdos da união da igreja com o Estado. Isto é um tremendo retrocesso. A própria religião perde, pois aquela que domina o estado, costuma perseguir as outras.

    Não voto e não votarei em crente, digo isto como protestante. Não sei como o país irá sair desta, mas o fato é que, o pentecostalismo cresce no país, já domina imensamente o subúrbio do RJ. Não tenham como surpresa se, dentro de dez ou 15 anos, o Rio eleger alguém ligado ao clero pentecostal.

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  13. tecnocaos março 12, 16:54

    Existe apenas um aspecto em que o atual PT tem tido sucesso total nas suas políticas: o eleitoral (via desenvolvimentismo, omissão em casos polêmicos e alianças com teocratas e fisiológicos).

    Ou seja, José Dirceu venceu (e não to bancando a Veja, mas sim me referindo ao projeto de crescimento eleitoral e manutenção no poder). Nem sei mais se o Lula tem alguma capacidade de remediar isto. O momento decisivo talvez tenha sido quando frustrou-se a reforma do partido logo após a queda de Dirceu (o que talvez tivesse rachado o partido e custado a reeleição). E isso em grande parte porque aqueles que não estavam interessados em manter-se no poder foram espernear e fazer a eterna dissidência no PSOL, ao invés de optar pela reforma.

    Só discordo de uma coisa: não é necessário aprender com evangélicos, mas é preciso conversar com eles. O confronto direto não será vantajoso, pelo contrário, acho que os deixará mais fortes.

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  14. Luana março 12, 21:01

    Complementando o que havia falado antes. A fim de que outras culturas sobressaiam e ocupem o seu espaço de direito numa sociedade democrática e laica, é preciso, penso, que os movimentos sociais continuem buscando seu espaço, seja o MST, seja o Movimento Negro, seja o Movimento LGBT. Numa sociedade supostamente democrática, o pensamento único de quem quer que seja é inadmissível.

    As igrejas evangélicas e aí, neste aspecto, elas são de qualquer corrente cristã, mas chama a atenção os ataques dos pentecostais e neopentecostais à crença da cultura africana. Neste Ocidente cristão, não há espaço para o negro, até Deus é construído de uma forma de que não houvesse chances para ele. É um discurso absurdo tudo isto. A partir do momento que o Ocidente tomou para si os preceitos cristãos, dando suas interpretações ao longo deste tempo, a construção do cristianismo é de um Homem-Deus branco, que abomina qualquer coisa que seja africana.

    Isto nos chega até hoje e, no bojo deste discurso, séculos de dominação, de brigas intestinas entre os próprios africanos, de xenofobia, racismo e da falta de espaço do negro aqui, nas Américas. Uma luta que não tem prazo para terminar, especialmente, aqui no Brasil, com o ranço de uma sociedade escravocrata que em pleno século XXI a Casa Grande remasterizada permeia por todos os lados.

    Está na hora, penso, de negros, homossexuais, MST, enfim, os movimentos sociais, assim como a bancada evangélica terem seu espaço. Se esta gente continuar crescendo a cada eleição, a perseguição será cada vez mais intensa. Por que os movimentos sociais não se tornam partidos político cada um defendendo uma bandeira neste espaço democrático?

    Por que o Movimento Negro, por exemplo, não se torna o um Partido Político com representação nacional? Se eles não se organizarem para a manutenção de sua cultura, o pentecostalismo não dará espaço para eles e a tendência é perseguir qualquer que seja sua cultura, sobretudo sua crença que é vista como coisa, seguidores de demônios.Este Deus cristão branco, telogizado, não há espaço nem para a salvação do negro.Ele está fadado a morte eterna por ter adorado demônios e não ter passado pela crença cristã tal qual se interpreta hoje.

    Claro que nem todos os negros votarão neste partido se um dia chegar a existir, mas um Partido que surja como pontos principais não de segregação, mas pela inserção do negro, pelas cotas, pela manutenção de sua cultura e não perseguição à sua crença, pelas políticas públicas direcionadas a esta gente.

    Se todos se organizam, nada mais justo do que eles começarem a pensar nisto e ir para lá brigarem. O negro é manipulado todos os dias, ou melhor, uma massa neste país é manipulada todos os dias pela imprensa que sempre teve um pensamento único. Se na escravocracia, o pelourinho, a forca, eram instrumentos para calá-los; na República, tivemos os negros distantes dos direitos de cidadãos, não lhes foram permitido escola nem um pedaço de terra.

    Na redemocratização, para atender a Conferência da ONU, criou-se o sistema de cotas e a imprensa brasileira não só caiu, como ainda cai de pau nesta política pública. E o que dizer do número de negros morando em favela e serem os maiores na criminalidade?

    Há um longo caminho pela frente, é preciso, acredito, que o próprio negro conheça a sua cultura tal qual ela é, se alguém não conhece sobre si mesmo, será sempre um boneco nas mãos de quem sabe como ninguém manipular. Se o chicote foi aposentado, todos os dias, uma grande massa brasileira acorda e dorme sendo manipulado a pensar como a direita brasileira quer e, o que é pior, o povo brasileiro, formado de maioria negra, pensa contra si mesmo todos os dias, porque uma série de intelectuais que estão todos os dias na imprensa para se fazer legitimar este pensamento contrário ao próprio povo, estes intelectuais são utilizados à exaustão para massificar seus pensamentos e o povo ser levado a crer que eles estão certos.

    Não sabendo eles que, toda esta suposta intelectualidade não passa de firula para enganá-los e mantê-los, infelizmente, adestrados. Olha a situação do país, Idelber. Acabei de ver ainda há pouco, uma chamada de uma próxima novela das oito.

    Esta novela falará mais uma vez, do Rio. Quando não é Rio, é SP. Trará, os times cariocas, claro, o Flamengo. A Globo transmite o campeonato carioca para o N e NE e CO, enquanto isto, os times daquelas regiões têm sempre desempenho pífio no Brasileirão, pois os times do SE ganham com o direito de transmissão, além de seus produtos serem consumidos por uma série de torcedores ao longo do país.

    O que não dá para entender, é como as Federações destes estados aceitam isto. Veja o caso do meu estado, a Bahia. A Rede Bahia pertence à família Magalhães e nunca transmitiu o campeonato Baiano mas, no interior, assiste-se ao carioca.

    Não satisfeito com tudo isto, a Globo além de mostrar o campeonato carioca em tempos normais, mostrará também na novela. Claro que, ao utilizar o Flamengo, o time estará ganhando pelo uso da imagem, além de tentar trazer mais torcedores para os times. O que mais chama atenção é que, quando o um time do Rio o SP ganha, os comentaristas desta região falam como se houvesse alguma novidade, como se houvesse algo inédito.

    Este modelo tem acabado com o futebol brasileiro que se centralizou nesta região, há uma má distruibuição de direitos e as federações acolhem. Sem falar no marketing que se faz em determinado jogador a cada temporada para que um monte de patrocinadores da emissora e de determinado time da vez ganhe, é o caso da bola da vez com Neymar.

    Enfim, há uma série de manipulações que a própria população precisa acordar para que perceba que em se tratando de mídia e da direita como um todo, haverá sempre um discurso contrário a ela mesma, mas ela não perceberá, porque os caras do PIG irão estar sempre sorridente para massa, a fim de pegá-los na emoção. Enquanto programas de massa continuarem pegando o povo na emoção, este povo não pensará da maneira como se deve, infelizmente.

    Sem falar que, qualquer liderança de esquerda que emerja e que fale a língua deste povo e seja uma ameaça para a direita do pensamento dominante, esta liderança será achincalhada todos os dias, 24 horas ininterruptos. É o caso de Lula, por exemplo, falou com a massa, é de esquerda, é uma ameaça, é preciso destruí-lo, para que não nos ameace, pois este o povo ouve.

    E os que surgirem serão chamados de populistas, choverão teses acadêmicas de históricos populistas no Brasil e na América Latina. Trabalha-se incasavelmente com qualquer líder de esquerda para destruí-lo e qualquer outro que surja, a imprensa trata de destruí-lo. Não é fácil direita do PIG, da Igreja e da elite reacionária brasileira. O mais triste é como o povo é recorrentemente usado como massa de manobra. Daí os movimentos sociais começarem a pensar em ocupar espaço político nesta democracia para que o povo acorde.

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  15. Marcos março 13, 02:26

    Idelber, acho que pode ter faltado um componente na análise, que é a força surda da religião no Brasil. Essa força normalmente é contida pela nossa cultura açucarada, do deixa disso, em especial entre os católicos. Não tanto entre evangélicos, é verdade.

    Será que valeria a pena a Dilma enfrentar essa força em campo aberto? Não haveria o risco de chabu, que acabaria mais reforçando o poder dos religiosos do que o minando? Os blogueiros da direita não correm o risco de estar certos quando dizem que qualquer plebiscito sobre esses temas “de valores” seria vencido pelo campo conservador? Vale a pena abrir esse flanco? O risco é essas passeatas com Deus se transformarem em Passeatas com Deus Contra o PT. Provavelmente é mais condizente com a nossa tradição de mudança lenta, segura e gradual deixar o STF e os diversos órgãos governamentais (INSS, CDHU, MTE) fazerem a mudança aos poucos, e trabalhar no fait accompli, do que criar um debate espetacular que a direita, com acesso a mídia e auxílio dos pastores, provavelmente venceria.

    Dá pra fazer uma analogia com a redução da desigualdade e a eliminação da miséria. Boa parte da esquerda passou os primeiros anos do governo Lula reclamando da lentidão da coisa e exigindo reformas radicais, desapropriação a rodo e adoção do receituário clássico da esquerda do terceiro mundo. E o Lula lá, mantendo o Palocci, o Meirelles e a LRF. E provavelmente a maneira Lula de fazer isso produziu muito mais resultados concretos, e muito mais estáveis, do que teria se o governo tivesse aberto fogo contra o grande capital, como desejavam e certamente ainda desejam alguns.

    A conciliação, gostemos nós ou não dela, é um traço fundamental de como as coisas se passam no Brasil. Na França, uma desigualdade como a brasileira não duraria uma semana. Os franceses botariam fogo em Paris. No Brasil a gente dá um tapinha nas costas do garçom e o garçom sorri de volta e chama de doutor. Todas as vezes que a Dilma tentou o afrontamento direto, perdeu. Fazer isso com a religião produziria resultados potencialmente catastróficos. Quantas prefeituras o PT teria se pusessem nele a pecha de Partido Ateu? Imaginem se os pastores resolvessem circular um manifesto como o dos generais de pijama? Se mil, dez mil pastores resolvessem desobedecer a lei e aceitassem ir pra cadeia por homofobia? Queremos dar-lhes a chance de se colocarem como os Gandhis Tropicais contra o PT da Maldade?

    De vez em quando, acho que esse tipo de demanda por radicalismo visa mais a contentar o ego de quem fala (e que quer ganhar debates sobre valores no grito, colocando do seu lado o monopolizador da violência organizada) do que a obter resultados concretos. Um projeto como aquele da reforma do código penal, mudando dois ou três parágrafos de leis aqui e ali, parece bem mais eficaz (para a garantia do direito da mulher de obter tratamento quando decide abortar) do que essa exigência de que a Presidenta saia por aí fazendo declaração e mandando prender padre.

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  16. Pedro Paulo março 13, 02:51

    O texto é ótimo e revela importantes reflexões, mas permite brechas… por isso os comentários voltados para a questão do aborto e LBGT, temas importantes, mas que recebeu críticas por deixaram o debate das eleições presidenciáveis de 2010 vazio.

    Discutir se opção sexual é homofobia, pq o correto é orientação sexual, e entender que isso é o “retrocesso mor” é jogar na lama temas de suma importância para o desenvolvimento, a educação, enfim… a política brasileira.

    Há questões mais densas a serem tratadas. Não podemos dividir o Brasil – como querem os da velha política – em preto e branco, não podemos tratar as questões ambientais sob a ótica ruralistas X ambientalistas.

    O articulista deu pouco espaço para discutir realmente as questões do retrocesso, deixando algumas delas para os parágrafos finais.

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  17. Conrado março 13, 03:44

    A normatização do abortamento legal (nos casos permitidos: estupro, risco pra mãe etc) e a distribuição da pílula do dia seguinte são obras do PSDB. Mais precisamente do José Serra. Houve pressão teocrática. O governo peitou (e não perdeu a eleição por causa disso).

    O governo de Dilma conseguiria com a mesma facilidade?
    O governo de Dilma conseguiria?

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    • Conrado março 13, 03:47

      PS: não existe abortamento por risco pra mãe, já que ainda não se trata de mãe. Mea culpa.

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    • Marcos março 13, 09:40

      Mas aí é o mesmo fenômeno de o governo do PT ter conseguido eliminar bizarrices da vida brasileira que o PSDB nunca conseguiria eliminar porque as centrais sindicais parariam o país – tipo vestibulares separados pra cada universidade e aposentadoria de 30 mil reais, embora esta ainda não esteja garantida. Não é fácil taxar o PT de partido antifuncionalismo como seria com o PSDB (pace Tsavvko et caterva), assim como não é fácil taxar o PSDB de comunista-ateu-abortista como é fácil com o PT. E isso apesar de quaisquer atitudes concretas adotadas por esses partidos quando no poder.

      Deve haver um nome em ciência política pra essa dificuldade maior, em sistemas pluripartidários, de partidos no poder aprovarem coisas, mesmo coisas boas, que possam ser usadas pra identificar esses partidos como radicais, antimajoritários e antidemocráticos.

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      • NPTO março 13, 11:33

        Marcos, é o efeito “Nixon goes to China”: se algum presidente que não o bisonhamente reacionário Nixon propusesse uma aproximação com a China, isso seria visto com suspeita: mas o cara tinha imensa credibilidade como anticomunista. Se o Carter, por exemplo, tentasse fazer a mesma coisa, seria taxado de fraco, anti-americano, comunista, etc.

        Da mesma forma, quando um partido de esquerda propõe uma medida de, por exemplo, flexibilização de leis trabalhistas, é mais fácil para os eleitores acreditarem (talvez erradamente)que primeiro todas as outras opções foram consideradas, e as medidas só foram tomadas quando não tinham mais jeito. Isso é bem mais difícil quando quem propõe é um desses economistas liberais que sugerem flexibilização das leis trabalhistas como resposta para absolutamente qualquer problema que lhe seja apresentado.

        É claro que se, todo santo dia, o Nixon for para a China, vão começar a desconfiar que ele é maoísta mesmo, e o negócio para de funcionar.

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    • NPTO março 13, 11:23

      Conrado, a regulamentação do aborto nos casos previstos em lei era tarefa muito mais fácil, e aposto que o PT também teria feito. No caso de risco à saúde da mulher, mesmo muitos religiosos bastante convictos admitem que, no mínimo, as duas vidas (supondo que haja duas vidas em questão) valem a mesma coisa. No caso de estupro, a esmagadora maioria dos cidadãos é capaz de imaginar sua filha no papel de mulher estuprada tendo que criar o filho do estuprador, o que, logicamente, provoca desconforto o suficiente para influenciar a opinião do sujeito. Nesses casos, os opositores da legalização é que têm uma luta ladeira acima para contrariar as convicções da população.

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      • Conrado março 19, 07:14

        Claro que é um mero exercício, e portanto não há como chegar a uma resposta conclusiva. Mas um vídeo contra a AIDS também me parece mais fácil de fazer passar que a descriminalização do abortamento, e no entanto…

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  18. André março 13, 04:01

    Nunca fui petista então não acompanhei debates ideológicos do partido nem os documentos oficiais que definem as linhas de pensamento petista. Mas já morei em cidades administradas pelo PT antes do Lula chegar à presidência. O PT sempre foi isso que está aí, aliança com o centro, um pezinho na igreja, favorecimento ao funcionalismo público (embora muito menos do que este se ache merecedor), desvio de parte dos investimentos em direção à periferia, etc. Nunca acreditei naquele PT urrado pelos Clóvis Rossis da vida. A menos do desempenho das agências reguladoras, o PT não me desapontou.

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  19. Eduardo Cruz março 13, 10:18

    Qualquer testemunha sensata do processo eleitoral de 2010 seria capaz de afirmar a ocorrência de um retrocesso político sobre determinadas questões, no país, a partir daquele momento. Defender a tese desse retrocesso sem trazer para o debate o significado daquela disputa eleitoral, sobretudo, em seu segundo turno, é desprezar um elemento chave para a compreensão da ideia. É supérfluo apontar incoerência entre a estratégia de Lula para assegurar ampla base de apoio parlamentar ao governo Dilma e a omissão desse governo diante do enfrentamento de determinadas questões sociais no Parlamento; é supérfluo, porque essa estratégia foi pensada em momento anterior a tudo aquilo que se sucedeu em outubro de 2010; é supérfluo, porque olvida o ganho de força de posicionamentos contrários.

    A última eleição presidencial terminou marcada por questões valorativas – em relação às quais excluo a questão ambiental e cultural. Durante o primeiro turno, testemunhamos, como presságio, o moralismo político de Marina Silva, que atraiu religiosos e não religiosos, sedentos pelo discurso moralizante. Não custa lembrar que Marina Silva utilizou a via oblíqua do plebiscito para escapar do debate entre sua eventual posição de estadista e as questões de valor, e que ela perdeu o apoio do bispo Malafaia em razão disso; noutro lado, as exigências religiosas ainda não haviam estourado, de todo, nos colos da Dilma e do Serra, pois o gatilho disso foi o resultado do primeiro turno. No segundo turno das eleições, houve evidente ganho de poder de barganha das camadas evangélicas organizadas, o que atribuo: i) à usurpação, pelos líderes envagélicos, da parcela dos votos “não religiosos” obtidos pela Marina Silva, a engrossar a expressão política de suas igrejas; ii) à concorrência desvairada entre Dilma e Serra por esse rescaldo de votos, em circunstâncias conturbadas, de curta duração e definitivas; iii) ao mero “voto crítico” conferido à Dilma pelas camadas inteiramente à esquerda, como fez o PSOL, sem exigência de contrapartida, ainda que específica e para apoio eleitoral e não governativo.

    As ações ou omissões do governo Dilma jamais se legitimarão pela fria análise das estratégias eleitorais, sobretudo se for o caso de excessiva cautela ou de erros propriamente ditos por parte do governo. Não se deve, no entanto, pretender enxergar o governo Dilma à luz de circunstâncias que não correspondem às de seu governo, mas às de seu antecessor ou de muito antes. Faz confusão quem acha que, considerando a bancada evangélica, a Dilma se preocupa mais com a governabilidade do que com o acerto de contas nas eleições. Isso não significa dizer que a autoridade maior da República não deva conduzir processos e avanços que estejam de acordo com o pensamento que autoriza chamar de centro-ESQUERDA o seu governo e o seu partido. Sendo assim, a Dilma tem o dever de arbitrar o embate entre as conveniências eleitorais e a sua plataforma ideológica, preservando minimamente determinado sentido.

    É aí que, a meu ver, ela tem errado: recordo-me de, mesmo sob a pressão do segundo turno da eleição presidencial, a Dilma ter defendido a união civil entre pessoas do mesmo sexo, condenando o casamento. No governo, porém, ela recuou em relação a pontos muito menos problemáticos, como a questão do vídeo institucional do Ministério da Saúde. Isso é prova de fraqueza e, talvez, evidência de ela ter sido, neste momento, domada no debate. E o que os críticos fazem? Focam, meramente, na pessoa da Dilma, numa batalha pela definição dela e de seu governo, cujo prêmio é o título de direita ou de esquerda, de progressista ou de conservador, de retrocedente ou não. O retrocesso já houve e ocorreu quando as camadas religiosas mais conservadoras conseguiram alçar-se à condição de definidoras de um debate; quer dizer, quando elas conseguiram pautar, verdadeiramente, o debate. Isso deve ser atenuado, contraditado.

    Seria patético pensar que a esquerda deveria abdicar da oposição, da cobrança e da crítica, mas é preciso estar alerta quanto a alguns fatos, como o que revela que, enquanto se tenta definir Dilma Rousseff, caminhamos para quase um ano e seis meses, desde as eleições, de firmamento do discurso religioso no debate geral. É pouco oportuno colocar como premissa a hipótese de que a presidente, ideologicamente, vá querer disputar a sua reeleição tendo a apresentar, aos eleitores em geral, avanços em relação a uma pauta mais cara exatamente para a esquerda. Essa mesma esquerda que é segregada, que apresenta candidaturas inteiramente ideológicas, que ignora a viabilidade do essencial para preservar o secundário, que é tradicionalista ao pretender conservar intacto um projeto político que nunca encontrou acolhimento social expressivo; enfim, que não tem sido capaz nem mesmo de contrabalancear a expressão política das camadas religiosas organizadas.

    A evolução política que ajuda a compreender a razão de ser de ações e omissões do governo Dilma tem sido desprezada, isto é, combate-se os efeitos dessa evolução do que as suas causas. É isso que me levar a pensar que a esquerda deseja muito antes se afirmar como oposição ao governo petista do que tentar fazer a sua tese figurar com força e destaque no discurso político da nação. Trata-se, então, de uma opção política: enquanto a esquerda não deseja abandonar o pedestal da integridade de princípios para se ver mais ouvida, considerada e acolhida no seio social (inclusive pelo governo), as camadas envangélicas e conservadoras organizadas consolidam sua expressão política, tonificada em outubro de 2010, aproveitando-se do desejo do governo de não abandonar a chance de executar ao menos parte de seu projeto político.

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  20. paulo augusto março 14, 09:06

    Idelber,

    acho que já daria para fazer uma avaliação sobre a dimesnão que a política poderá ocupar na “administração” ou “governo” dilma. pra mim está ficando cada vez mais “administração”. mas preciso ouvir mais. ela já teve bons momentos mas parece que tem acreditado mais na sua versão “gerente mãe do pac” que na guerrilheira de cabeça erguida no tribunal da ditadura. acho que essa gerente é o que todo mundo quer dela, talvez inclusive e principalemente o próprio lula. mas será que é tudo que ela teria a oferecer?
    o esvaziamento político da cultural e do “meio ambiente” do governo federal apontam com firmeza para uma “administração” pela “mãe do pac”.

    e são muitos que acreditam que basta o bom gerente gerir em paz que tudo se resolverá, como passe de mágica ou obra de mão invisível.
    mas como o lula soube trazer a dimensão “política” para primeiro plano sempre que quiz fazê-lo, e soube usá-la a seu (e nosso) favor, a dilma também precisaria trazê-la, mas será que saberia usá-la?

    os debates gestados no MINC e no MA durante o governo lula impunham o resgate da dimensão política nos debates públicos e na vida cotidiana, e avançavam em diração de uma nova institucionalidade pós neo-liberal (o que se começa a fazer na islândia e na argentina por exemplo). mas ao que parece, nós optamos por apenas prepar a casa para o retorno dos seus legítimos senhores (casa desenhada pelo arquiteto deles e na medida dos sonhos deles) com seus “planos de negócio” travestidos de “políticas públicas” ou “projetos de país”.

    essas são questões talvez marginais ao bom debate desse blog (que me deram vontade de participar), mas o que os ventos trazem do outro lado do atlântico e desse mesmo também, é a necessidade de se repolitizar a própria política e principalmente o estado para ir além desse “sem chão nem rumo” do cinismo neoliberal quando despido de todas as suas falácias e fantasias.

    Mas será que nem a tragédia grega, nem a comédia italiana teriam algo a ensinar para a “esquerda brasileira” (seja lá o que isso queira dizer quando se pensa em todos os gatos que poderiam caber nesse saco)?

    por isso tudo, acho que seria bom para nós, e para ela, uma discussão do papel que a política vai tomando nesse “governo”, ou “administração”

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  21. Ramiro Conceição março 14, 13:00

    Ok,
    não há qualquer dúvida de que Dilma deu uma escorregadela em público, quando confundiu “opção sexual” com “orientação sexual”. Aliás, a nossa presidenta comete normalmente pequenas gafes semânticas quando fala de improviso (nem vou comentar sobre o Lula…). Encaro tal fato como uma limitação pessoal, que pode ser facilmente corrigida por uma assessoria especializada.
    O que realmente me preocupa é que uma campanha institucional, com o objetivo educacional à superação da homofobia na sociedade brasileira, seja denominada de “kit anti-homofobia” ou “kit-gay”.
    Catralhos me mordam!!!!! Não é necessário ser nenhum especialista em semiótica para perceber que quem elaborou tal campanha – politicamente correta!!!!!! – tem um BAITA PRECONCENTO DIANTE DA HOMOSSEXUALIDADE. Mais assustador ainda é que ninguém, GAY OU NÃO, deu um único pio sobre tal fato. Só para lembrar:

    kit
    (palavra inglesa)
    s. m.
    1. Conjunto de ferramentas ou artigos para uma mesma função, utilidade ou atividade.
    2. Embalagem que contém tudo o que é necessário para determinada ação ou atividade.

    Como dizia a música, que Elis cantava: “As aparências enganam aos que odeiam e aos que amam…”. E, efetivamente, lembrando Marx, estamos diante da coisificação de tudo… Ora, por que a sexualidade deixaria de ser uma mercadoria nesse mundo de mercadorias?

    Maximizemos a mais valia!

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  22. Ramiro Conceição março 14, 17:03

    Não sei se o comentário sairá duplicado. Cheguei em casa. No trabalho, não consegui comentar. Vamos lá.

    Caro Vinícius.
    Tal nomenclatura foi gerada pelo próprio MEC.

    Ainda mais, deixando mais claro o meu comentário anterior. No vídeo sobre bissexualidade, há uma piada escrotíssima: o bissexual tem uma probabilidade maior de encontrar um parceiro.

    Tal brincadeirinha é machista, grotesca e, terrivelmente, medíocre.

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  23. Ramiro Conceição março 14, 18:22

    1) Quanto ao aborto.

    De cara: é uma questão complexa. Nunca se sai com ganhos. Sempre se perde.
    Fiz – isso mesmo, fiz!!!! – um aborto em meados da década de 70. Minha companheira e eu, à época, extremamente jovens e, no meu caso militante do MEP, optamos pelo mesmo, sem qualquer drama de consciência. Nos endividamos. Meus companheiros de luta emprestaram a grana necessária. Conseguimos uma clínica por meio de uma companheira que fazia enfermagem na USP. E… aconteceu. Pagamos o que devíamos e, aparentemente, o tempo passou… Nos separamos… Cada um seguiu o seu caminho… E tudo terminou? Que nada! Até hoje, às vezes, volta em mim um vazio… Será que realmente fora necessário? Não tenho uma resposta clara, levarei pra morte tal sentimento difuso…
    Bem, mas o aborto além de ser uma questão individual é, principalmente social. No meu caso restou uma questão existencial, todavia, na sociedade, restam milhares e milhares de mulheres mortas… Milhares e milhares de mulheres abandonadas com seus filhos… Ou seja: é uma questão de saúde pública. E, consequentemente, uma questão de Estado. Com esse viés, creio, os governos Lula e Dilma deixaram a desejar.
    O aborto só será minimizado com altos investimentos em clínicas especializadas destinadas, principalmente, a grande massa da população brasileira. Mas, principalmente, com altíssimos investimentos na educação sexual das nossas crianças. Ora, isso pode querer dizer: com altíssimos investimentos na formação de professores competentes.
    A saúde social e a educação deveriam ser colocados no mesmo patamar, por exemplo, da exploração do pré-sal, do desenvolvimento de alternativas associadas à matriz energética, do combate ao tráfico e etc. Infelizmente, me parece, isso não vem ocorrendo em função da governabilidade associada à uma elite escrota. Portanto, diria que não houve um retrocesso, mas um processo de estagnação. O que é muito preocupante.

    2) Quanto à questão evangélica

    É muito preocupante a indicação do dito-cujo bispo para um ministério. Muito influente, ou não, pouco importa. Se está cedendo terreno à escuridão: aqui não há discussão, pois tal sujeito representa a associação com uma quadrilha de degenerados, por que não dizer biopatas?

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  24. Ramiro Conceição março 14, 18:53

    Quanto ao retrocesso da esquerda, não brasileira mas mundial, respondo com duas coisinhas :
    1) http://informaticacidadania.blogspot.com/2012/03/mosquito-e-as-tijoladas.html
    2) E com um poema que escrevi faz dois anos, aproximadamente…

    ESQUERDA DE MERDA
    by Ramiro Conceição

    É, já fiz cada quiproquó
    que mereci levar no fiofó.
    Até já casei com fantasma.
    Até já fedi… feito miasma.

    Casar com um fantasma,
    não teve problema algum:
    trepei; dormi; viajei; e me
    habituei ao sujo dito-cujo.

    O dilema foi que, por ser uma alma penada,
    o fantasma… não veio desacompanhado,
    mas… junto à fantasmanada acorrentada
    ao fantasmagórico de uma monada de putas,
    de estafetas, de piolhos diplomados na USP,
    um embuste!, um bando de metidos a besta,
    que se diziam “do Bem”, mas eram soleiras:
    era a geração pós-maluco-beleza,
    que enriqueceu o pobre mago da esperteza.

    Nunca cultivaram o belo,
    nunca puderam conhecê-lo:
    eram moçinhas e mocinhos
    a farejar com… focinhos.

    Ai… quanto papo cabeça!
    Quanta merda de esquerda!
    Ainda bem que tudo findou.
    O fantasma me abandonou.

    Por isso, grato, estou aqui,
    a finalizar essa obra-bufa;
    pois soube à boca pequena
    que algumas almas penadas,
    em solitárias, fétidas, cloacas,
    vestiram-se, com as gravatas
    de suas línguas, enforcadas.

    Reply to this comment
  25. Lelec março 15, 14:01

    Aproveitando a temática, um aperitivo de como os evangélicos compreendem bem o que é laicidade:

    http://www.youtube.com/watch?v=tuk-mF5KlD8

    É de fazer o jacobinismo anti-clerical borbulhar nas veias, né?

    Reply to this comment
    • Ramiro Conceição março 16, 07:22

      Caro Lelec.

      Penso-sinto claramente o que você quis dizer… Contudo, em defesa da Democracia, que estamos a criar, defendo que os evangélicos têm o direito, desde que dentro da Constituição, à manifestação no Congresso Nacional.

      Para mim, a questão é outra. Faz, pelo menos duas décadas, que “chefes” de algumas influentes igrejas pentecostais vêm desrespeitando a Carta Magna. Uma coisa é dentro de um culto, no interior de uma igreja, ser exposto uma rota doutrinária – que se pode considerar reacionária, preconceituosa. Outra, completamente diferente, é expor a mesma rota em um canal de televisão que é uma concessão e, portanto, pertencente ao Estado laico.

      Só um exemplo: há quase duas décadas, em rede nacional de televisão, o que a igreja do Macedo vem fazendo, contra gays e cultos afro-brasileiros, é crime. Quer dizer, há muito tais elementos já deveriam ter perdido, no mínimo, a respectiva concessão televisiva e, sob as luzes dos tribunais, deveriam estar sob julgamento: são meros delinquentes tal qual qualquer traficante, são nocivos ao desenvolvimento sadio da sociedade brasileira (e que fique claro: isso nada tem a ver com a massa evangélica, que tem direito constitucional à liberdade de culto).

      Daí vem o meu temor quando constato que um desses elementos é ministro no governo Dilma. Sim, poderia até fazer uma piadinha: ora, para que se diz ser cristão e salvador de homens, nada mais indicado do que o ministério da pesca…
      Todavia isso seria apenas uma piadinha escrota qual aquela contida do “kit-gay”: o bissexual leva vantagem, pois tem maior probabilidade de arranjar parceiros porque é muito hábil em lidar com buracos – com o seu e, principalmente, com os dos outros…

      Máfias são máfias.
      Lideranças, lideranças.
      Campanhas, campanhas.
      Governos, governos.

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Sobre o autor

Idelber Avelar é colunista da Revista Fórum e ex-editor do blog "O Biscoito Fino e a Massa" (http://idelberavelar.com). É Professor Titular de Literaturas Latino-Americanas e Teoria Literária na Universidade Tulane, em New Orleans. É autor de Alegorias da Derrota: A Ficção Pós-Ditatorial e o Trabalho do Luto na América Latina (UFMG, 2003) e Figuras da Violência: Ensaios sobre Ética, Narrativa e Música Popular (UFMG, 2011), e coeditor de Brazilian Popular Music and Citizenship (Duke UP, 2011), entre outros livros. Mantém o Twitter @iavelar

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