Direitos humanos: Ousar vale a pena

Redação
Por Redação abril 16, 2012 23:29

Saiu neste domingo, no New York Times, uma reportagem de muito interesse para todos os que estão ligados em direitos civis e, especialmente, em cidadania LGBT. O texto é longo, cheio de recovecos, estilo New York Times de domingo, razão pela qual prefiro fazer uma breve paráfrase e partir para as conclusões que quero tirar. Antes que alguém me lembre, deixo claro que estou consciente de que Brasil e EUA são dois países diferentes. Creio, no entanto, que essas diferenças reforçam, em vez de debilitar, as conclusões que quero oferecer aqui. As razões se seguem.

No dia 24 de junho de 2011, o parlamento de Nova York aprovou o casamento gay. Quatro senadores Republicanos (nos EUA os estados possuem Senados) romperam com o partido e votaram a favor da medida, oferecendo a margem necessária para a aprovação da lei. Todos eles haviam sido eleitos com o endosso do Partido Conservador, de ultra-direita – o mais influente entre todos os “terceiros partidos” no estado de Nova York. Dois deles, pelo menos, não teriam sido eleitos sem esse endosso.

Stephen Saland, Roy McDonald, Jim Alesi e Mark Grisanti, os quatro Republicanos que garantiram a aprovação do casamento gay em Nova York, estão bem longe de serem progressistas. No Brasil, eles estariam transitando na órbita do DEM, do PR, do PP, ou seja lá qual for o partido considerado de direita neste momento no Brasil, um país onde ninguém se diz de direita. McDonald é banqueiro, Alesi é empresário e Grisanti só derrotou o seu adversário, afro-americano e democrata – num distrito em que os democratas são uma maioria de 5 por 1 contra os Republicanos e 40% da população é negra – porque, na época, ele se declarou contrário ao casamento gay, defendido pelo seu oponente. O apoio ao casamento gay é baixo entre a população negra e Grisanti teve uma porcentagem do voto afro-americano impensável para um Republicano branco.

Todos os quatro foram declarados cadáveres políticos quando deram seu voto no dia 24 de junho e, de todos eles, Grisanti é o único cuja reeleição está em perigo. A reeleição de qualquer Republicano estaria em perigo num distrito em que os Democratas são maioria de 5 por 1. Mas, se Grisanti for reeleito, terá sido justamente porque mudou de ideia e votou a favor do casamento gay.

Hoje, nos EUA, já é possível dizer que o casamento gay é uma bandeira palatável para conservadores. O apoio ao casamento igualitário subiu, em menos de dez anos, de 32% em 2004 para 53% hoje. Em estados como a Califórnia, esse apoio chega a 59%. Como o poder aquisitivo entre a população gay é superior à média, os quatro Republicanos que desobedeceram seu partido se viram recebendo doações eleitorais inauditas. A conclusão do New York Times, depois de longa pesquisa: votar a favor do casamento gay, mesmo que você seja um político Republicano do interiorzão, não é o risco que costumava ser há uns anos. Os quatro dissidentes não têm a reeleição garantida. Mas, se eles perderem, provavelmente será apesar, e não por causa, de seu voto pelo casamento igualitário.

O contexto brasileiro é diferente, mas as lições ficam. Nota-se hoje, no Brasil, a mesma tendência a sobreestimar o conservadorismo da população, a mesma boba premissa de que as posições conservadoras no eleitorado, se majoritárias, serão inamovíveis, a mesma pintura exagerada do poder dos teocratas e, no caso das forças chamadas progressistas, a mesma covardia que caracterizou o Partido Democrata nestas questões até alguns anos atrás (e que continua caracterizando-o em outras matérias, como o tema Israel, por exemplo).

Pois bem, em pesquisa realizada em meados do ano passado, depois de toda a fúria teocrata das eleições de 2010, antes de qualquer campanha educativa, sem nenhuma discussão arejada do assunto nos meios de comunicação de massa, em plena neura acerca do misterioso “poder” de uma bancada religiosa que reúne pouco mais de 10% da Câmara (e menos de 10% do Senado), quase a metade da população brasileira (45%) apoiava a união civil de homossexuais aprovada pelo STF. Alguém imagina qual seria esse percentual se as lideranças da chamada esquerda resolvessem realmente liderar uma campanha de esclarecimento sobre o assunto? Alguém pode medir o impacto de uma declaração de figura importante da política brasileira que repetisse o conservador Roy McDonald, do Partido Republicano de Nova York, que afirmou que a marginalização que sofriam seus dois netos autistas, por analogia, tornou para ele impossível votar de forma a marginalizar gays e lésbicas? Alguém já parou para pensar o que aconteceria se o governo realmente tomasse iniciativas que garantem direitos iguais para gays e lésbicas, fundamentando-as com remissão sistemática ao texto da Constituição Federal, que estabelece a igualdade de todos perante a lei?

Este blogueiro acredita que é muito mais produtivo fazer e cobrar essas perguntas que ficar eternamente justificando a inação governamental com o argumento de que estamos em um governo de coalizão e que a população é conservadora. A população é menos conservadora do que se imagina, e seu conservadorismo só se conserva porque aqueles que supostamente seriam responsáveis por transformá-lo se acomodam aos limites do possível.





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Comentários

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Redação
Por Redação abril 16, 2012 23:29
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22 Comentários

  1. aiaiai abril 17, 04:16

    Concordo com quase tudo, exceto com a questão que me parece fundamental no texto: acho que o governo não está inativo na questão dos homossexuais. Ainda tem muito a ser feito, mas está sendo feito.

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    • Idelber abril 17, 04:29

      O governo está realmente bastante ativo na questão dos homossexuais: colocou Crivella no ministério, cancelou a campanha de prevenção à AIDS porque ela incluía um casal gay, baniu o kit educativo anti-homofobia nas escolas, iniciou a construção de Parque Gospel no Acre e Parque Batismal em Minas, ambos com dinheiro público, referiu-se à educação anti-homofóbica como “propaganda de opção sexual”, reforçou a aliança com a teocracia e presidiu sobre o recorde histórico de assassinatos de LGBTs no país, agora mortos a uma média de quarenta por mês sem que o governo dê, sobre essa epidemia de assassinatos, nem uma palavra.

      Não dá pra dizer que esteja “inativo”.

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  2. wagner abril 17, 06:37

    Brilhante, concordo com tudo, e sua ironia com o comentário da aiaiai foi um ‘plus a mais’.

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  3. Pedro Mandagará abril 17, 10:56

    Eu já tinha lido o texto do NYTimes e achado muito interessante. Acho que ele confirma, mais uma vez, uma característica da política contemporânea de disjunção de reivindicações específicas. Ou seja, não há mais aquela ilusão do comprometimento automático com determinadas causas, ou de negação automática a elas, porque o sujeito é de esquerda ou direita. Ajuda muito a entender as recentes posições retrógradas de pessoas ligados a partidos de esquerda, como a Heloísa Helena.

    Isso coloca um desafio novo: a possibilidade da agenda de esquerda ser apropriada pelos agentes de centro-direita, que, por apoiarem uma ou outra causa, podem passar por mais progressistas. Acho que essa confusão ideológica, com algumas nuances, é usada pelo PV no Brasil. Talvez tenhamos chegado num momento de uma depuração necessária, onde a sobrevivência de partidos como o PSOL (para retomar o exemplo anterior) dependa da tomada de uma posição efetivamente partidária, “fechando” a questão (do aborto, p. ex) a novas discussões internas ou pela imprensa. Ou seja, talvez seja o momento de mais radicalismo. Que vocês acham?

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  4. Pedro Mandagará abril 17, 10:58

    Outro comentário, desta vez apenas teórico: não sei se a questão LGBT deveria ser subordinada a essa pauta dos “direitos humanos”, que é um conceito meio, digamos, complicado (tenho certeza que conheces as inúmeras discussões a esse respeito). Talvez no título do post não seria melhor “direitos civis”?

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  5. João Paulo Rodrigues abril 17, 11:31

    Os tais dos 10% é que são a questão. Como ficou demonstrado na crise política que estourou no exato momento em que este blog, o Tsvakko e o Celso Barros discutiam o assunto, o governo tem poucas armas contra a chantagem evangélica – a não ser que tome a bandeira do casamento como primordial, ao custo de ver outra bandeira ou projeto se sacrificado na bacia dos votos que necessita no Congresso para qualquer assunto.

    É lastimável, mas mais que exigir vontade política, é preciso pensar uma nova estratégia.

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    • Idelber abril 17, 15:29

      João Paulo, a sua própria última frase contradiz o primeiro parágrafo. Não há uma nova estratégia porque o governo não quer. E não quer não é porque “tenha poucas armas contra a chantagem evangélica”. Tenha dó. São menos de 10% da Câmara. O governo tem a chave do cofre. Tem 77% de aprovação. Tem uma maioria legislativa que governo nenhum jamais teve. Tem o megafone. Tem a caneta. Não “tem armas” porque não quer ter armas. Porque consolidou a aliança com a teocracia já de forma orgânica. Porque essas forças teocratas já estão super representadas dentro do próprio PT: haja visto um Senador da República — Walter Pinheiro — em cerimônia teocrata, o governador do Acre fazendo Parque Gospel e participando de evento “contra a heterofobia”, a prefeita de Betim fazendo parque batismal, um outro Senador — Lindbergh — solidarizando-se com Malafaia, a lista é infinita. É muito medíocre (não estou te chamando de medíocre, estou dizendo que o raciocínio é medíocre) achar que sempre vai ser assim porque não tem outro jeito. Isso é a definição da recusa a se fazer política. É como eu vejo.

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      • Gabriel Gabbardo abril 19, 07:45

        Eu apenas acrescentaria: suponhamos que o governo entre em rota direta de colisão com a bancada fundamentalista no Congresso. Haveria muito – muito – choro e esperneio por parte dos evangélicos. Mas o que o Crivella faria? Aliaria-se ao Aécio Neves, ao que resta do DEM, se autocondenando à irrelevância (e, portanto, perdendo todas as benesses que recebe por ser do governo)?

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      • Manuel abril 20, 06:04

        Só uma observação: a força dos fundamentalistas não vem, primordialmente, do tamanha de sua bancada no Congresso. Vem da influência percebida (real ou não) junto a uma parcela importante do eleitorado, que foi interpretada como determinante para a realização do segundo turno e para a vitória de Dilma no ano passado. Aí começou o que vejo da mesma forma que vc: a busca de uma aliança orgânica com teocratas. Você acha que a influência eleitoral do fundamentalismo no Brasil é superestimada?

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        • Manuel abril 20, 06:05

          Quer dizer, eu já pensei no argumento “se eles fossem tão influentes, teriam eleito uma bancada maior”, mas não tenho certeza que é assim que funciona.

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  6. Alex abril 17, 12:09

    Parabéns pela belíssima análise. Agora, só lamento os comentários de quem ainda tenta justificar, de alguma forma, a homofobia velada do governo do PT. O governo da “presidente dos outros” não está refém de ninguém. Apenas escolheu um lado: o lado dos homofobicos.

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  7. Samuel Martins abril 17, 12:55

    Idelber,

    O grupo que esta no poder possui uma perspectiva gerencial da política, que evita conflitos, umbilicalmente ligada com a manutenção do que esta posto.

    A pauta êh importante e me parece plausível, mas não acredito que surgirah da esfera estatal.

    Com o aumento da importância das redes sociais no debate eleitoral, talvez seja possível catalisar mudanças necessárias.

    Efetivamente não existe avanços na garantia dos direitos humanos sem tensão, e isso êh incompatível com a perspectiva gerencial da política.

    Particularmente, a timidez, ou a covardia, na minha analise, já começou desde o primeiro governo Lula.

    Samuel Martins

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  8. André abril 17, 13:54

    Não sei exatamente quais as mudanças legislativas necessárias para que os homossexuais tenham os mesmos direitos que os heterosexuais. Mas desconfio que um apoio explícito do governo possa ser contraproducente já que poderia unir a oposição aos reacionários da base. Mas não custaria para Dilma fazer um teste, explicitar o apoio em uma causa menor e ver o que acontece.

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  9. André Kenji De Sousa abril 17, 18:15

    Eu diria que isso é mais complicado. Uma das razões pela qual os democratas perderam a cadeira de Antony Wiener no Congresso, num distrito de judeus ortodoxos, foi justamente a aprovação do casamento gay, e a grande razão pela qual Obama não pode apoiar o casamento gay é a forte oposição à idéia entre os negros.

    Diria que é isso que vai fazer com que o casamento gay caia em Maryland, infelizmente.

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  10. Rodrigo Eduardo abril 17, 19:15

    “A população é menos conservadora do que se imagina, e seu conservadorismo só se conserva porque aqueles que supostamente seriam responsáveis por transformá-lo se acomodam aos limites do possível”.

    Eita frase danada de boa, sô. Me deu até vontade de mandar fazer uma camiseta para estampa-la.

    Parabéns.

    Rodrigo

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  11. marcos nunes abril 18, 07:23

    O Congresso não vota, a Mídia de opõe, as Igrejas fazem passeatas, e a maioria não conservadora do povo brasileiro não se importa.

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    • RMA abril 19, 07:17

      Todos os comentários acima foram ótimos e verdadeiros, mas este último está mesmo de parabéns.

      RMA

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  12. Renata L abril 22, 12:01

    Esse texto é muito bom para rebater o argumento panglossiano habitual do “melhor dos mundos possíveis” de que lança mão o governismo defensivo. Política é a arte de construir o possível, e o possível nunca está dado a priori. Este governo tinha faca e queijo, e me parece que se rendeu a chantagem barata na área dos direitos humanos, sem nem esboçar reação. A pergunta “quem conserva a maioria conservadora” é incômoda. E deve ser feita e repetida todo dia.

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  13. Leonardo Bernardes abril 23, 09:50

    Você não é chegado no Zizek, mas ele tem comentários interessantes sobre a maneira como os limites do possível/impossível são coordenados em estratégias políticas e ideológicas. Como às vezes parece conveniente a utopia e o esforço por “arriscar o impossível” enquanto outras vezes o impossível é elevado à condição de barreira intransponível que mantém as ações políticas em espaços restritos e têm portanto um papel justificador.

    Acho que essa ideia se encaixa bem na maneira como o PT tem regulado às fronteiras e os limites das suas ações no que diz respeito a certos temas.

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Sobre o autor

Idelber Avelar é colunista da Revista Fórum e ex-editor do blog "O Biscoito Fino e a Massa" (http://idelberavelar.com). É Professor Titular de Literaturas Latino-Americanas e Teoria Literária na Universidade Tulane, em New Orleans. É autor de Alegorias da Derrota: A Ficção Pós-Ditatorial e o Trabalho do Luto na América Latina (UFMG, 2003) e Figuras da Violência: Ensaios sobre Ética, Narrativa e Música Popular (UFMG, 2011), e coeditor de Brazilian Popular Music and Citizenship (Duke UP, 2011), entre outros livros. Mantém o Twitter @iavelar

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