A mídia, as cotas e o sempre bom e necessário exercício da dúvida, por Ana Maria Gonçalves

Tenho escrito alguns artigos sobre racismo e, em todos, invariavelmente, apareceu quem tentava fugir do assunto para falar sobre cotas. São assuntos relacionados, eu sei, mas também complexos por si só. Cotas não seriam necessárias se não houvesse racismo. Mas estão aí, os dois,...

Tenho escrito alguns artigos sobre racismo e, em todos, invariavelmente, apareceu quem tentava fugir do assunto para falar sobre cotas. São assuntos relacionados, eu sei, mas também complexos por si só. Cotas não seriam necessárias se não houvesse racismo. Mas estão aí, os dois, e talvez agora, depois da histórica decisão do Supremo Tribunal Federal, nos dias 25/04/2012 e 26/04/2012, reafirmando a constitucionalidade das cotas, possamos começar a conversar de verdade sobre eles. Porque talvez a velha mídia pare de fazer a campanha suja que vem fazendo e nos deixe, finalmente, tratar desses assuntos e das vidas das pessoas por eles modificadas (brancos, negros, cotistas, não-cotistas etc…) com a honestidade e o respeito que todos merecem. É agora que começa o trabalho, e é bom que a gente tente separar, principalmente, o que é fato do que foi campanha, o que é verdade histórica do que foi mero exercício de futurologia. Será um longo caminho que vamos ter que aprender a trilhar juntos, independente de sermos contra ou a favor. Somos sujeitos históricos: o que fizemos ontem, como povo e como indivíduos, reflete na realidade que temos hoje, assim como o que fazemos hoje vai determinar com o que teremos que conviver amanhã. A História não nos deixa viver impunes.

Quando mudei de opinião sobre as cotas, em 2006, aprendi a duvidar. Durante um bom tempo ainda me vi balançada entre argumentos, mas todos eles perderam a força quando vi esse video, de 2007. Nele, Seu Jorge conta que sua filhinha mestiça, de 6 anos, era segregada pelas coleguinhas na escola de balé. Isso não tem nada a ver com preconceito de classe, é racismo puro. Racismo entre crianças de 6 anos. As coleguinhas a segregaram porque ela era diferente, e a única diferença visível estava na cor. “Essa menina/ tão pequenina/ quer ser bailarina”, diz o poema de Cecília Meireles, “Mas depois esquece todas as danças/ e também quer dormir como as outras crianças”. Alguém tem alguma ilusão de que a filha de Seu Jorge, depois de uma brutalidade dessa, conseguirá dormir como as outras crianças de sua escola de balé? Se a gente continuar querendo acreditar que não é problema nosso, que todos nós que vivemos nos tempos de hoje não temos nada a ver com os resquícios perenes e dolorosos da escravidão, isso vai continuar acontecendo. Crianças de seis anos continuarão sendo vítimas de racismo. Brancas, mestiças ou negras. Porque o racismo que marca sem dó a criança estigmatizada, tem na outra ponta aquela que vai crescer presa a esse sentimento nefasto, mesmo que no futuro aprenda que ele é reprimível e condenável. Esse livro de Eliane Cavalleiro nos mostra que racismo introjetado na infância não desaparece sozinho. Para combatê-lo, e todos nós estamos sujeitos a ele, é necessário um exercício contínuo e nem sempre agradável de observação e conhecimento de nossas palavras e reações e, sobretudo, do ambiente à nossa volta. Alguém tem alguma dúvida de que, se os pais dessas crianças que se recusaram a dar a mão para a filhinha de Seu Jorge tivessem amigos, vizinhos e colegas de trabalho negros, com quem convivessem em situação de igualdade, essa situação poderia ser diferente? Provavelmente ninguém as instruiu a não dar a mão. Elas observaram e concluíram: aqui há uma diferença, e ela envolve cor. Para ajudar a combater o racismo e o preconceito de cor, as ações devem ser pontuais e específicas, como as cotas raciais. Que não são, de maneira alguma, incompatíveis com as cotas sociais, específicas para ajudar a combater a desigualdade econômica. Preconceito de classe e preconceito de cor, embora muitas vezes se sobreponham, não são a mesma coisa, e exigem soluções diferentes. São assuntos sérios que exigem, sobretudo, que sejam deixados à margem de disputas políticas e de poder. Há racismo e luta anti-racismo na direita e na esquerda. Não é bandeira de ninguém, embora ainda sejam tão poucos os dispostos a carregá-la. Há racismo e luta antirracista na direita e na esquerda (recomendo a leitura do livro O Marxismo e a questão racial – Karl Marx e Friedrich Engels frente ao racismo e à escravidão). Não é bandeira de ninguém e é de todo mundo, e tenho esperança de que um dia seremos muitos a carregá-la.

Eu sou otimista; e ficarei ainda mais quando mais pessoas começarem a duvidar do que ouviram ou leram até aqui (inclusive nesse artigo), procurar informações confiáveis e comprováveis, se dispor a ouvir quem está há mais tempo na luta e tirar suas próprias conclusões. Esse vai ser um longo artigo porque, desde que comecei a fazer tudo que listei aí acima, e esse também é um processo contínuo, tenho me horrorizado com o tipo de “informação” e de ações sobre as quais boa parte da mídia brasileira tenta levar seus leitores a tomar posição. Não vou mentir dizendo que não quero fazer as pessoas mudarem de opinião, porque no fundo, é o que queria que acontecesse. Mas acima de tudo queria que tomassem os exemplos abaixo como ponto de partida para esse tão bom e necessário exercício da dúvida. Seria bom que cada pessoa que é contra as cotas raciais, disposta ou não a mudar de ideia, não aceitasse como verdade absoluta a opinião de nossos “formadores de opinião”, checasse o que eles dizem e escrevem, e observasse se o que resta de concreto nisso tudo ainda oferece base suficiente para sustentar uma posição entravadora do diálogo e das lutas anti-raciais no país. Não é nos dividindo entre bons e maus, petralhas e esquerdistas, cegos e aqueles que veem a luz, racistas e não-racistas etc… que vamos resolver o problema do racismo. É nos unindo na análise de situações concretas, na resolução de problemas concretos e, sobretudo, na tentativa de reestabelecimento e recuperação de um mínimo possível de verdade histórica.

Esse não será um artigo desapaixonado, pois me é caro. É a minha contribuição, que junto à de vários ativistas e simpatizantes dos movimentos negros, passados, presentes e futuros, para começarmos a estabelecer as bases sobre as quais as conversas sobre racismo e correlatos devem se firmar. E escrevo porque acredito que essa base está muito mais próxima do que, na média, a sociedade brasileira realmente almeja, do que o baixíssimo nível no qual parte da grande mídia quer fixá-la. Ali Kamel, Yvonne Maggie, Demétrio Magnoli, e Demóstenes Torres, para citar os que ocupam mais espaço, mais os editorialistas de O Globo, Folha de São Paulo e Estado de São Paulo, ao nos falar do ódio que as cotas vão despertar no povo brasileiro, sabem do que falam. Se eu também me informasse apenas através de seus textos, estaria odiando negros, esquerdistas, lulo-petistas, ongs patrocinadas por fundações norte-americanas, jornalistas delinquentes e todo tipo de gente irresponsável que macaqueia a América do Norte num momento em que os americanos percebem a grande burrada que fizeram, e não se tocam que vão deflagar uma sangrenta guerra civil que vai primeiro segregar e depois dizimar boa parte da população, como aconteceu com a Índia, Ruanda e África do Sul, já tendo começado pelo genocídio de todos os mestiços, não poupando também os índios que forjaram suas identidades nos últimos anos, e está preparando um enorme exército de filhos de Pelé e Joaquim Barbosa para tomar todas as vagas dos 19 milhões de brancos pobres. Esse bando de inconsequentes, unidos em torno do Ministério da Segregação Racial, defende cotas para negros que vão se humilhar na condição de cotistas porque não estudam o suficiente para passar no mais meritocrático de todos os sistemas de avaliação, o vestibular, que foi substituído por um tribunal racial que promove o apartheid que separa os brancos dos negros que, uma vez na universidade, vão fazer a qualidade do ensino despencar, e apelam para mentiras que conseguem convencer ministros que não conhecem nada da nossa história e se deixam enganar por ideologias infundadas que pregam que, no Brasil, – que nunca discriminou negros, que nunca teve leis segregacionistas, que sempre tratou seus escravos com a maior dignidade e doçura, que foi usado pela África, que resolveu exportar pra cá seu sistema de escravidão, onde todas as índias e escravas tiveram relações consensuais e amorosas com seus senhores, provando que somos um exemplo de democracia racial e ser seguido, que nunca teve cotas para brancos e que é só um pouquinho racista, de vez em quando, numa instituição ou outra – o racismo prejudica os negros. Esse é o cenário quase completo no qual a mídia quer nos fazer acreditar – e temer, claro, porque sabe do poder intimidador do medo – no intuito de defender os interesses do “povo”.

Só a hipocrisia pode justificar essa cruzada, impendido-os de dizer que, na verdade, defendem ideologias e interesses próprios pois, segundo pesquisa do Data Senado divulgada em julho/2011, assim pensa o “povo” brasileiro: 66% manifestaram-se a favor das cotas para negros; 73% favoráveis às cotas para indígenas; 78% apoiaram cotas para estudantes que cursaram a rede pública; 83% defenderam cotas para estudantes de baixa renda e 85% aprovaram cotas reservadas para pessoas com deficiência. É interessante analisar que, quanto mais “povo”, maior a aprovação às cotas; e que, em relação à cota para negros, por exemplo, a rejeição mais significativa vem de homens com 20 a 29 anos, curso superior e renda acima de 10 salários mínimos. É esse o perfil de quem mais rejeita cotas. É rico, pelo padrões nacionais; deve ser branco, pelo nível educacional; e são os interesses dele, longe de serem representativos dos interesses do povo brasileiro, que os nossos jornalistas e editorialistas defendem, querendo nos fazer acreditar que falam pelo povo e com o povo. Não falam. E foi isso também que, no histórico dia 25/04/2012, o Supremo Tribunal Federal teve a sensibilidade de perceber.

Eu tenho um sonho – Há anos venho prestando atenção nos absurdos que os formadores de opinião são capazes de dizer contra as cotas. Apenas para que vocês tenham uma ideia, vou pegar o texto publicado por Yvonne Maggie em sua coluna semanal no portal de notícias da Globo, G1, no dia 23/04/2012, “A constitucionalidade das cotas raciais no Brasil”. Um dia antes da votação no STF, Yvonne Maggie escreveu:

“Em Thirteen ways of looking at a black man, de Henry Louis Gates Junior, professor de Harvard, há uma história reveladora do que se passou depois da lei dos direitos. Neste livro, Harry Belafonte conta que alguns anos depois de 1964 fora convidado para fazer um filme. O produtor, muito animado, lhe dissera: “Harry, será maravilhoso, vamos fazer um filme dirigido e estrelado por negros, produzido por negros, com música feita por negros e vai ser belíssimo”. Ao que o ator, nervoso, respondeu: “Não quero fazer parte disso, passei tantos anos lutando para sair do gueto, não serei eu a me enfiar de novo nele”. Gates conta que durante a entrevista, após esta declaração de Harry, seguiu-se um silêncio constrangedor, só quebrado com uma sonora gargalhada do entrevistado e a seguinte frase: “Eu não aceitei a armadilha, mas é claro que Sidney Poitier aceitou e ficou rico estrelando todos aqueles filmes”.

Por acaso temos o livro em casa e eu resolvi conferir. Já escaldada nesse tipo de manipulação, poucas vezes estive errada em duvidar, principalmente quando algum negro (no caso, dois) é pego para servir de boneco de marionete. Pois bem, a estória contada por Yvonne Maggie não existe. Há dois fragmentos que ela parece ter juntado, enfeitado com silêncio constrangedor, gargalhada sonora, uma data hipotética, umas frases de efeito inventadas e legitimadas por aspas, além de distorcidas para ilustrar o próprio ponto de vista. Essa estratégia de eleger um “negro boneco de marionete”, selecionar parte ou sentido de seu discurso ou ato, e reinterpretá-lo de modo a que ele sirva de exemplo a ser seguido pelos “menos esclarecidos”, como se ele já tivesse passado por isso e soubesse mais e melhor, é bastante comum, como já apontei aqui. Antes de mostrar o que realmente escreveu o professor Henry Louis Gates Jr. que, junto com Harry Belafonte, é figura importante na luta dos direitos dos negros norte-americanos, acho importante contextualizar algumas coisas.

Em 1953, Belafonte se mudou para a vizinhança branca de Elmhurts, no Queens. Magurite, que era sua esposa na época, nos conta: “Logo que nos mudamos, de repente vimos uma quantidade de placas de “Vende-se” aparecendo”. Um dia depois, Adrienne, quatro anos, negra, filha de Magurite com Belafonte, dizia para a mãe: “Mãe, temos que nos mudar! Há negros se mudando para a vizinhança!”. (págs. 161 e 162). Na época Belafonte já era bastante conhecido como ator e cantor, e muita gente analisa que isso se dava, não só mas também, porque ele não era preto-preto. Apesar da pele mais clara, a ele também não era permitido usar as dependências dos hotéis nos quais se apresentava, tendo sempre que dormir em pensões para negros nos arredores das cidades. Em 1957, Belafonte atuou em Island in the sunformando par romântico com uma atriz branca, Joan Fontaine. O filme, e principalmente o beijo entre os dois, casou escândalo nos EUA, fazendo com que fosse introduzida legislação no estado da Carolina do Sul, multando as salas de cinema que exibissem o filme. Nessa mesma época foi escândalo também, entre as comunidades negras e brancas, o fato de Belafonte, então, ter se separado de sua primeira esposa Margurite, negra, e ter se casado com uma mulher branca, Julie Robinson. É aqui que acontece a primeira história que inspirou a adaptação de Yvonne Maggie, contada nas páginas 169 e 170:

“Belafonte se lembra que mais ou menos naquela época Otto Preminger queria escalá-lo para uma versão filmada de Porgy and Bess. Ele achou o script racialmente ofensivo – um romance entre um drogado e uma puta, não era? “Um monte de gente da comunidade negra disse não. Quem quebrou a corrente foi Sidney, que aceitou fazê-lo.” Na sequência, o filme não fez muito sucesso quando saiu, em 1960, e foi severamente criticado pela imprensa negra. Mas um padrão estava estabelecido. O desencantamento de Belafonte com Hollywood cresceu. Na década seguinte, seu amigo Poitier fez dezessete grandes filmes; Belafonte não fez nem um.

Pra começar, os roteiros que lhe era oferecidos o horrorizavam. Ele menciona uma série de filmes que recusou. “Um deles era o filme chamado To Sir with Love.”

“Você o recusou?” Eu estou chocado.

“Ah, merda, sim. E também Lilies of the Field“.

Esse, claro, foi o filme de 1963 que firmou Poitier coma uma presença significante no cinema pós-guerra: nobre, abnegado, bondoso. Quando o vi, aos treze anos, caí no choro. Era o perfeito veículo dos movimentos dos direitos civis no momento. Sua mensagem para a América branca era praticamente telegrafada: Nós somos um povo amigável e generoso, nós somos bons cidadãos.

Belafonte tinha outra opinião sobre isso. “Quando li Lilies of the Field, fiquei furioso. Você tem essas freiras fugindo do comunismo, e do nada há esse negro que se coloca por inteiro ao serviço delas, sem dizer nada, e sem fazer nada exceto ser comandado por essas feiras nazistas? Ele não beijou ninguém, ele não tocou ninguém, ele não tinha cultura, ele não tinha história, ele não tinha família, ele não tinha nada. Eu disse, “Não, eu não quero encenar filmes assim”. O que aconteceu foi que Sidney Poitier aceitou – e ganhou o Oscar”.

Sobre Poitier, que sempre foi e continua sendo seu amigo, Belafonte diz: “Sidney foi sempre mais maleável, mais acomodado. Ele escolheu cada um daqueles filmes para continuar exercitando sua beleza e se assegurar de que, nunca, mas nunca mesmo, perturbaria a psiquê branca com algo que fizesse. Nem em público, nem em particular”.

A segunda história apropriada por Yvonne Maggie está nas páginas 171 e 172:

“Em 1960, por exemplo, ele recebeu um Emmy por um especial que ele fez na televisão para a Revlon Hour, chamado “Tonight with Belafonte” [1959]. Como o show foi um sucesso de audiência, Revlon decidiu que poderia ser um bom caminho. De acordo com Belafonte, um acordo foi assinado no qual ele receberia um milhão de dólares para produzir e apresentar mais cinco shows. O segundo show, estrelado por astros brancos e negros do jazz, pop e folk, fez um sucesso estrondoso. Então, ele foi trazido de volta à realidade.

“Fui convidado para uma reunião com Charlie Revson”, ele me contou. “Eu deveria ir sozinho? Eu mal posso esperar – estou pensando que ele quer me dar metade de sua empresa, ou algo assim. Então, estamos almoçando em sua sala de jantar particular, e ele está dizendo, “Como um judeu em Jersey City, eu entendo de opressão” – da, da, da, da – “mas temos que conversar sobre o show. Ótimas avaliações. Ótimas críticas. Muito bem. Mas estamos recebendo alguns retornos que dizem que você deveria fazê-lo só com negros. Se você pudesse só descartar as pessoas brancas…” Eu não podia acreditar. E eu disse, “Sr. Revson, deixe-me te falar uma coisa. Se você me pedisse para colocar uma saia florida e cantar mais calipso, e dançar mais, porque é isso que as pessoas brancas gostariam, eu poderia pensar. Mas o que você me pediu para fazer – não há como eu concordar. Eu não posso me ressegregar.” Ele me disse, “O. K.”. Às quatro horas daquela mesma tarde, eu recebi um cheque de oitocentos mil dólares. Charlie Revson disse, “Adeus. Você está fora do ar.”

Se Yvonne Maggie leu o livro e se lembrava vagamente da história, o mínimo que se esperava de alguém que quer se levado à sério, é voltar ao livro e ver realmente como aconteceu. Se o fez e, mesmo assim, inventou isso tudo, é mais grave ainda. Yvonne Maggie é professora titular do Departamento de Antropologia Cultural do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, de acordo com o Perfil de seu blog. Não deveria se sujeitar a esse tipo de situação. Ela também datou a fábula inventada de “alguns anos depois de 1964″, (prestem atenção que as duas histórias acima acontecem por volta de 1960, ou antes) para nos “ensinar” que os negros norte-americanos inteligentes, depois dos Direitos Civis, não estão mais nem aí para essas lutas de negros. Não é verdade, e principalmente não é verdade em relação a Harry Belafonte (um dos mais destacados na campanha dos Direitos Civis, amigo pessoal de Luther King, Mandela, idealizador do “We are the World” e ainda na ativa, aos 84 anos de idade) e Henry Louis Gates Jr., ativista pelas ações afirmativas nas universidades estadunidenses. Se Yvonne Maggie tivesse se dado ao trabalho de descer do alto de sua cátedra, poderia ter facilmente se informado da opinião do professor Gates, antes de usá-lo. Nesse vídeo, por exemplo, onde ele diz que a única razão de ter tanta gente (refere-se aos negros, em uma igreja negra) conseguindo se virar bem, é por causa do movimento dos Direitos Civis “E” das ações afirmativas. E continua: “Sem ações afirmativas nós nunca teríamos sido capazes de integrar as historicamente racistas e brancas instituições da sociedade americana… A primeira pergunta fundamental à qual temos que nos dedicar é como proteger, preservar e expandir as ações afirmativas. (…) Eu consegui ir para Yale University porque eles estavam tentando se diversificar. Eles estavam querendo que as classes se parecessem mais com a América. (fala de como era na faculdade e de sua vida profissional depois de se formar) Cada uma dessas coisas dessas coisas foi propiciada, foi tornada possível, pela existência de ações afirmativas. Isso não significa que eu não era qualificado, isso quis dizer que, por causa do racismo, a mim nunca teria sido permitido competir num terreno mais ou menos nivelado com garotos e garotas brancos. E para mim, para alguém que se beneficiou tanto das oportunidades das ações afirmativas, plantar-me no portão e tentar manter outros negros do lado de fora seria ser tão hipócrita quanto Clarence Thomas”. Talvez Harvard, que Yvonne Maggie faz questão de citar para conferir mais autoridade ao boneco de marionete que inventou, não teria Henry Louis Gates se ele não tivesse sido beneficiado por algo que ela o coloca para combater, fazendo-o passar pelo hipócrita que ele não é e não quer ser. É ofensivo o que Yvonne Maggie fez ao trabalho e à vida dos dois, principalmente tendo o professor Gates, relativamente rico e conhecido, também presidente do Instituto W.E.B. Du Bois, passado recentemente por essa traumática e vexatória situação de racismo. É intelectualmente desonesto e deveria ser vergonhoso.

Esse não é o único problema com o texto de Yvonne Maggie. Tente encontrar os outros na rasa análise que ela faz sobre as resoluções da Suprema Corte Norte-Americana (para facilitar, deixo esse vídeo), com o contexto em que ela fala de Rosa Parks, com a data sobre as leis segregacionistas nos Estados Unidos, com a afirmação de que o Brasil não teve leis segregacionistas, com a frase “Neste julgamento que se avizinha apenas duas vozes estarão defendendo a posição de Rosa Parks. Rosa Parks é patrona de um prêmio da Associação Americana para a Ação Afirmativa, fundada em 1974 e que, “se opõe veementemente às ações estaduais e federais que poderiam eliminar programas de ações afirmativas que proporcionam acesso igualitário e justiça para as minorias e mulheres em emprego, educação e oportunidade econômica.” Yvonne Maggie decidiu que Rosa Parks, ícone e precursora das ações afirmativas norte-americanas, era contra as cotas, e que só duas vozes estariam lá para defendê-la. Parece-me que foi apenas falta de interesse em se inscrever, como mostra o processo. Interessante também é o fato de ela usar como mote a foto de Barack Obama, deixando de informar que tanto ele quanto Michelle Obama foram beneficiários de ações afirmativas nas universidades. No texto seguinte, Separados legalmente (Publicado no jornal O Globo de 1º de maio de 2012, caderno Opinião, p.7), também dá para brincar de “jogo dos sete erros”. Tente você também. Sugiro começar lá no final, quando ela diz que o Brasil rasgou a Carta da ONU, depois de ler esse comunicado oficial da ONU, emitido seis dias antes de Yvonne publicar seu artigo. Ela também estava presente no julgamento do STF, e seria interessante comparar o que ela viu e ouviu, com os que aconteceu nos dias 25/04 e 26/04/2012. Com os textos do geógrafo e sociólogo Demétrio Magnoli também dá para fazer o mesmo exercício (principalmente nos que ele fala de Martin Luther King e Frederick Douglas), como já nos mostrou o doutor em Antropologia Kabenguele Munanga, mas hoje quero tratar de outra coisa sobre ele.

A solidão do negro — Infelizmente tenho que concordar que associar seu nome ao do senador Demóstenes Torres é golpe baixo. Então, por favor, considere apenas a relação com esse assunto, que eu faria mesmo se o senador não tivesse caído em desgraça pública. Mas foi com Demóstenes Torres que essa história começou, quando o partido dele resolveu entrar com a ação questionando a constitucionalidade das cotas. Demétrio Magnoli parece admirá-lo por isso, e declarou à revista Istoé, que elegeu Demóstenes como uma das personalidades brasileiras mais influentes: “Demóstenes não é mais um comerciante num mercado em que se trafica influência em troca de cargos e privilégios. Ele tem princípios e convicções. Foi o primeiro parlamentar graduado a erguer a voz contra as cotas nas universidades”. Para Demétrio Magnoli, erguer a voz contra as contas é prova de princípios.

Em março de 2010 foram realizadas audiências públicas no STF (Supremo Tribunal Federal), onde foram ouvidos vários depoimentos contra e a favor das cotas, com a finalidade subsidiar os ministros na decisão que foi tomada apenas agora, em 26/04. Os vídeos estão todos aqui, mas o que me interessa é a fala do senador Demóstenes, nesse video à partir de 32’55”. No dia seguinte, a fala de Demóstenes teve grande repercussão na imprensa, como esse artigo, e Demétrio Magnoli logo saiu em sua defesa, provando. Assim como Demóstenes, Demétrio entende muito pouco de escravidão africana, o que dá para perceber pela bibliografia de seu livro, Uma gota de Sangue, que a Veja chegou a chamar de“um esforço de pesquisa histórica monumental”. Faltou esforço, claro, porque a pesquisa de Demétrio passou longe das particularidades dos diversos modelos de “escravidão” africana, que nada tinham a ver com o nosso modelo de escravidão colonial. A leitura de um livro como Slavery in Africa – Historical and anthropological perspectives poderia ter evitado essa falha bastante grave. Demétrio também se acha habilitado para falar de movimento sanitarista ignorando a eugenia nada inocente do médico Renato Khel, patrono da cadeira número um da Academia Brasileira de Filosofia. Demétrio Magnoli tem a cara de pau de dizer que “O Brasil não tem tradição de estabelecer distinções entre os imigrantes“, mostrando que passou longe de livros fundamentais como “Negotiating National Identity – Immigrants, Minorities, and the Struggle for ethnicity in Brazil”, ou “Another Arabesque – Syrian-Lebanese Ethnicity in neoliberal Brazil“, entre vários outros que tratam do assunto.

É bastante falha a formação de Demétrio Magnoli sobre um assunto em que ele se considera especialista, recebendo grande espaço em jornais, rádio e TVs. Mas, mais falha ainda, parece ser sua memória. Parei de levá-lo depois de uma entrevista no programa Roda Viva. Destaco aqui o Bloco 4, à partir de 1’55”, quando o jornalista Delmo Moreira diz: “Eu li um artigo do Demétrio em que ele dizia que a escravidão no Brasil tinha sido, entre aspas, você colocava, um sistema democrático, porque mulatos também tinham sido donos de negros, como se a questão fosse essa. A questão é que não havia brancos escravos, e não que negro também não pudesse escravizar”. Aos 4’9″ Demétrio o interpela: “O Delmo leu mas não viu o contexto. Eu não falei que a escravidão no Brasil era democrática. Que frase horrível para se atribuir pra alguém, né?”, e continua “explicando” o que tinha dito/não dito, elevando a grosseria e a arrogância a esportes olímpicos. Procurei a entrevista e não encontrei; mas caí nesse vídeo, e acredito que Delmo pode ter se confundido de mídia. Mesmo que não, está lá, em 1’50”, a frase de Demétrio, com toda sua horrorosidade e sem contexto algum: “A escravidão não foi um fato racial. Foi um fato econômico, do capitalismo mercantil, e foi bastante democrática, no seguinte sentido, num sentido bem específico: se você tiver dinheiro, você pode comprar um escravo, mesmo se você foi escravo. Ex-escravos compraram escravos”.

Mas é sobre o Bloco 3 que podemos fazer as observações mais interessantes e significativas, principalmente à partir de 10’10”, quando Paulo Lins introduz as questões raciais. Por volta de 17’56”, Demétrio o ignora ostensivamente e lhe vira a cara, para escutar Marília Gabriela, aproveitando para lhe chamar a atenção aos 18’14”. Marília Gabriela então diz:“Eu não sei mais como me portar em relação a essa causa porque chamar alguém de negro… Ah, Fulano é negro… Já fui corrigida uma vez: “Olha, não diga desse jeito que nós não gostamos”. Então… chamar de preto não é… eu não sei… quer dizer… tudo… esse assunto… eu só tô fazendo… tô sendo superficial, tô sendo quase irresponsável de falar dessa maneira, mas é só pra dizer que a… o assunto é tão delicado, é tão delicado, e é tão problemático, é tão ainda…. que o politicamente correto ainda num, num, num… concluiu isso tudo”. O importante aqui é o visível desconforto de Marília Gabriela ao tratar do assunto, bastante comum na maioria das pessoas brancos, principalmente quando na presença de um negro. Outra coisa que não podemos deixar de notar é que, apesar de já ter ouvido de algum negro a maneira como ele/ela gostaria de ser tratado, ela diz que continua sem saber como se portar. No vídeo, percebemos que a tensão continua crescendo entre Paulo Lins e Demétrio Magnoli, que o provoca através de olhares e risos irônicos. Demétrio apresenta suas ideias como se fossem dos movimentos negros e, por volta de 21’10” Paulo Lins tenta interferir, sendo inicialmente ignorado. Aos 21’24” Demétrio vira para ele e diz, no jogo no qual é mestre, que é imputar suas ideias a alguém: “Isso não é uma concepção minha, isso é uma concepção dos [inteligível – sucessores? assessores?] disso. Paulo Lins parece nem saber por onde começar, depois de ouvir tanta teoria infundada apresentada como projeto vindo “do lado de lá”. Rio aqui do fato de não ter conseguido entender a quem Demétrio atribui sua teoria da conspiração, porque isso não poderia ser mais significativo de seu modo de agir. Notem que ele sempre atribui suas ideias a um inominado “vocês”, a uma entidade despersonificada, a um coletivo inexistente, a um “os adeptos de tal ou tal coisa”, afastando qualquer possibilidade de constatação ou diálogo. Nesse momento, Marília Gabriela os interrompe e diz que tem que acabar o programa, mas, antes, puxa assunto com Demétrio. Paulo Lins também a aproveita a oportunidade e os dois trocam algumas palavras, sem que Demétrio se digne a olhá-lo. Marília então sai em favor de Paulo Lins, dizendo que temos que considerar a opinião dele, contrária à de Demétrio, de que é necessária uma política de cotas deve ser considerada. A resposta de Demétrio é “Tem que considerar errado isso”, e tenta explicar seus motivos. Os dois continuam numa tentativa de se fazerem ouvidos, até que Paulo Lins consegue a atenção de Marília Gabriela ao comentar o racismo presente a olhos vistos na sociedade brasileira e dizer que, ali mesmo, naquela mesa, poderia se ver isso. Marília se assusta e pergunta “De que forma?”. Todos se calam quando Paulo Lins responde com outra pergunta: “Só eu de negro estou aqui. Por quê?” O silêncio é constrangedor, principalmente porque logo em seguida percebemos que, além de não terem entendido a pergunta, eles não têm a menor ideia do que Paulo Lins está falando. Ele insiste: “Me responde isso”. Demétrio começa a responder, Marília se ofende (“Não, você desculpe, Paulo, me desculpe…”) e cria-se uma enorme confusão até que Paulo Lins percebe que terá que desenhar. Não passou nem pela cabeça daquelas pessoas que ele estava comentando que só ele de negro estava ali, naquela bancada, enquanto que outros negros e pardos, que não tinham conseguido passar pelo filtro do racismo, não ocupavam posições de destaque no Brasil. O mais interessante ainda é que ele desenha, mostra o racismo estrutural que Demétrio tentou negar o tempo todo, e mesmo assim ninguém entende, ninguém ouve. A pergunta de Paulo Lins era: “SÓ eu de negro estou aqui; por quê?”

“SÓ” é a chave da pergunta, e todos a ignoraram. Demétrio tenta lhe “dar uma lição de moral” contando uma historinha para ensiná-lo a deixar de ser negro e ser “brasileiro”, assim como Marília Gabriela, que encerra nervosa: “Então ficou claro para você (como se fosse Paulo Lins quem não estivesse entendendo) que, pela sua experiência de vida, HOJE, você era necessário aqui? E, com licença, o que não elimina que eu convide outras pessoas… é.. ahm… o que eu vou ter que qualificar, ou classificar de alguma maneira e vou incorrer no… no.. no politicamente incorreto… Uma loucura!” Com uma paciência infinita, Paulo Lins ainda tenta mais uma vez. Marília não deixa: “Peraí, um minutinho, deixa eu acabar.” E acaba. Quando volta o quarto bloco, Demétrio Magnoli comenta as intervenções de todos os outros entrevistados. Ignora a de Paulo Lins. Assim como o Brasil tem ignorado o que dizem e pensam seus intelectuais negros. Destaquei o HOJE ali em cima, na frase da Marília, porque seria interessante saber: quantos negros já foram lembrados pela produção do Roda Viva quando os assuntos eram outros, que não assuntos de negros? Paulo Lins estava ali, naquele dia – HOJE – porque tocariam em assuntos de negros e ficaria chato não ter algum negro compondo a mesa? Se não foram muitos os entrevistados ou entrevistadores negros que já passaram pelo programa, será que um pouquinho de inclusão e diversidade não traria perguntas e interesses diferentes ao programa, baseados em experiência de vida? Por exemplo: vocês acham que algum daqueles entrevistadores brancos faria a pergunta: “Por que SÓ temos o Paulo Lins de negro aqui?” Ou, ele não estando lá, e sendo todos brancos para tratar daquele ou de outro assunto qualquer, alguém perguntaria ou já se perguntou: “Por que só nós, os brancos, estamos aqui?” Essa é uma pergunta que, aliás, acho que nunca deve ter nem passado pela cabeça de muitos que são contra as cotas, em ambientes mais elitizados como restaurantes, cinemas, teatros, shoppings e universidades. Questão de costume. Naturalização provocada pelo racismo estrutural. Questão de falta de experiência de vida: pouquíssima chance de conviver com um negro que esse não estivesse em condições subalternas.

A tal da liberdade de expressar opinião — A questão de não entender ou não levar em consideração o que fala um negro (ou fazê-lo de boneco de marionete,quando lhes convêm) é emblemática no posicionamento dos que estão na mídia contra as cotas. Ali Kamel, por exemplo, no seu livro “Não somos racistas”, dá voz à importante intelectual e ativista negra, doutora em filosofia da educação, Sueli Carneiro, para que ela o ajude a atacar Fernando Henrique Cardoso quando este se diz mulato. Tenho vontade, mas não tenho coragem, de voltar ao livro para saber se isso acontece mais vezes. Para saber se há, e quantos há, intelectuais negros com voz e posicionamento próprios, mas não consigo passar do primeiro parágrafo: “Foi um movimento lento. Surgiu na academia, entre alguns sociólogos na década de 1950 e, aos poucos, foi ganhando corpo até se tornar política oficial de governo. Mergulhado no trabalho jornalístico diário, quando me dei conta do fenômeno levei um susto. Mais uma vez tive a prova de que os grandes estragos começam assim: no início, não se dá atenção, acreditando-se que as convicções em contrário são tão grandes e arraigadas que o mal não progredirá. Quando acordamos, leva-se o susto. Eu levei. E, imagino, muitos brasileiros devem ter se assutado: quer dizer então que somos um povo racista?” (pág. 17)

Ali Kamel nos desinforma que o movimento de combate ao racismo e suas consequências (ou será que se refere ao movimento negro? ou ao movimento do mal?), no Brasil,“surgiu na academia, entre alguns sociólogos na década de 1950”. Se algum dia ele conseguir deixar o lugar privilegiado de onde exerce e tenta universalizar suas convicções tão grandes e arraigadas, e puder entender o quanto essa frase é moldada pelo racismo que tanto o assustou, também entenderia que o “movimento”, na verdade, foi imensamente mais lento do que imagina. Os sociólogos que cita, na década de 1950, apenas conseguiram captar os ecos da longuíssima luta que já vinha sendo travada pelos negros – e alguns brancos – brasileiros desde muito antes da escravidão. Se Kamel tivesse pesquisado o que seus colegas jornalistas negros já diziam no início do século XIX, pouparia-se da vergonha de apresentar agora, quase dois séculos depois, como a sacada do século, que a população negra e pobre deve é reivindicar educação de qualidade, pois assim todo o resto se resolve sozinho. Se estivesse se interessado em procurar a origem do “movimento”, Kamel poderia encontrá-lo, talvez até antes mas, com certeza, nos jornais O Homem de Cor, O Brasileiro Pardo, O Cabrito, O Lafuente, Crioulinho, todos surgidos na primeira metade do século XIX. Interessante sobre esses jornais é que alguns deles tiveram suas autorias questionadas e atribuídas a homens brancos, “num esforço de ignorar a participação dos “homens de cor” no cotidiano político da cidade”, como nos conta Ana Flávia Magalhães Pinto no livro “Imprensa negra no Brasil do século XIX”. Segundo a apresentação, “experiências cotidianas e variadas de enfrentamento do racismo, a criação de redes de sociabilidade e o uso de instrumentos legais para promover a cidadania foram registradas nas páginas de jornais assinados por “homens de cor” e dirigidos a eles”. Kamel se assustaria, com certeza, ao ler o que, em 1833, o jornal O Homem de Cor lutava contra uma ação do governo que queria instituir a obrigatoriedade da declaração de cor nas listas dos cidadãos (pág. 44), e clamava para que a Constituição fosse “uma realidade para todos os brasileiros, sem distinção de classes”. Irônico e interessante que, naquela época, “classe” era sinônimo de “raça”, e os homens negros diziam pertencer à classe dos homens de cor. Se conhecesse esses jornais, Kamel se assustaria também com a riqueza do cotidiano e das ideias, às vezes bastante contraditórias, de homens negros e pardos livres em uma sociedade escravagista. Isso é história, isso é movimento, muito anterior a 1950. Se o reconhecesse, Kamel saberia que esses homens já lutavam por educação e acreditavam que nela estava o caminho para a socialização. Esses homens que Kamel e tantos outros ignoram discutiram escravidão, liberdade, nação, identidade, mestiçagem, família, educação, ética, cultura, política, trabalho, mundo, guerra etc, e sempre com a boa vontade de esperar as coisas se ajeitarem, sempre acreditando em promessas que, de um meio ou de outro, haveria de lhes tornar cidadãos.

Tudo isso que está sendo defendido hoje pelos que são contra as cotas, esses homens da classe de cor dos séculos XIX e XX também já defenderam, em vários momentos, coagidos ou de livre vontade. Quando livres, porque os escravos eram proibidos de frequentar a escola pública, brigaram por educação de qualidade e, quando tinham a oportunidade de estudar, agarravam-se a ela como a única esperança de um futuro mais digno. Esperança que morreu frente ao descaso, a promessas nunca cumpridas, à constatação de que seus sonhos de serem cidadãos plenos e de direito, iguais a todos os outros como sempre pregou a constituição, nunca esteve nos planos de quem os governava. Uma boa ideia dessa longa luta dos negros por uma educação pública de qualidade está no livro “A educação dos negros: uma nova face do processo de abolição da escravidão no Brasil”. Na página 48 há um argumento que, para mim, tem a mesma raiz dos argumentos dos que dizem que, antes de brigar por universidade o negro deveria brigar por educação básica, ou a de que os estudantes cotistas não dariam conta de acompanhar os cursos ou não se tornariam bons profissionais. A frase é do deputado e escritor José de Alencar, em 1870, pregando contra a lei do ventre livre: “E como libertar o cativo sem antes educá-lo? Não senhores: é preciso esclarecer a inteligência embotada, elevar a consciência humilhada para que um dia, no momento de conceder-lhes a liberdade, possamos dizer: – vós sois homens, sois cidadãos. Nós vos remimos não só do cativeiro, como da ignorância, do vício, da miséria, da animalidade, em que jazeis!”

Quem quiser avançar mais um pouco mais e entender como se deu a expansão do sistema público de ensino no Brasil durante os anos 1917 e 1945, deve ler “Diploma de brancura – Política social e racial no Brasil, 1917-1945 . Nele entendemos que, não apenas os alunos, mas também professores negros, foram discriminados na implantação de um sistema do ensino voltado para a criação de um modelo de “homem brasileiro”, que era branco. Basta lembrar que a reforma do ensino público brasileiro foi coordenada não por educadores, mas por médicos, que estavam envolvidos no movimento eugenista. Deste livro, destaco a parte citada nesse importante artigo artigo de Pádua Fernandes: “No Rio, durante a era Vargas, a eugenia não estava relegada a conferências profissionais e remotos laboratórios, mas era um esforço coletivo, participativo. […] No sistema escolar, os eugenistas colocaram suas ideias em prática pela primeira vez, aprendendo e executando os programas para aperfeiçoar a raça. Suas pesquisas mostravam aquilo em que queriam acreditar: que alunos brancos, ricos, eram mais qualificados e isso podia ser mensurado. Nos casos em que um teste revelava o oposto, o pesquisador se esforçava para explicar por que os testes ou os pesquisados haviam-se desviado dos verdadeiros resultados, obtidos nas condições que se sabia serem verdadeiras. [p. 92]

Ao ignorar a luta secular dos movimentos negros (que também são compostos por brancos, é bom que se esclareça) por uma educação pública de qualidade, Ali Kamel quer fazer com que eles também esqueçam de quase dois séculos de promessas não cumpridas e, principalmente, da invisibilidade demonstrada no primeiro parágrafo de seu livro. Ao só reconhecer a história a partir do envolvimento, ou reconhecimento, dos sociólogos brancos, na década de 1950, Ali Kamel repete o comportamento que alguns desses sociólogos tiveram com importantes lideranças e intelectuais negros: trata-os apenas como como informantes ou estatísticas. A história é longa e pode ser lida com mais detalhes nos livros “Terms of inclusion – Black intellectuals in Twentieth-Century Brazil“(páginas 217 a 219 ) e O sortilégio da cor (págs. 262 a 274). Resumindo: Alberto Guerreiro Ramos Abdias Nascimento realizaram, pelo TEN , o 1º Congresso do Negro Brasileiro, reunindo intelectuais e ativistas dos movimentos negros, lideranças, pessoas da comunidade e acadêmicos brancos, para discutir problemas reais e soluções práticas para a inserção do negro na sociedade. Uma das reivindicações era que a academia parasse de usar os negros apenas como informantes, como “negro-espetáculo”, e no final do congresso uma ata foi escrita decidindo que pediriam ajuda à UNESCO para que fossem inseridos, como produtores de conhecimento, no projeto que já contemplava a academia (todos brancos) e que tentava mostrar o Brasil do pós-guerra como um grande exemplo de democracia racial a ser seguido, ignorando as pesquisas que demonstravam a persistência do racismo. Os organizadores do Congresso se assustaram e repudiaram o ato de “paternalismo” quando os acadêmicos convidados apresentaram uma segunda ata, com a visão apenas deles e não de todos os participantes, e que nada tinha a ver com a oficial. A segunda ata não foi aceita e, fingindo que concordavam com a primeira e liderados pelo sociólogo Luiz Aguiar Costa Pinto, os acadêmicos procuraram a UNESCO e conseguiram fazer com que eles, e não os intelectuais negros, realizassem o trabalho no Rio de Janeiro, que resultou no livro “O negro no Rio de Janeiro”, de Costa Pinto. Quando o livro saiu, em 1953, Abdias e Guerreiro Ramos, em jornais e em correpondência à UNESCO, acusaram Costa Pinto de plágio e de ter distorcido informações. Ele tinha se apropriado, sem dar crédito, de estudos apresentados durante o Congresso, tratando-os como mero material de pesquisa e não como produção de intelectuais negros. Costa Pinto teve acesso às atas do Congresso, tendo sumido com parte delas, depois te terem sido emprestadas em boa fé por Abdias Nascimento. A resposta de Costa Pinto às acusações, publicada em um artigo n’O Jornal, importante diário carioca da época, foi que era uma ameaça às ciências sociais que um pesquisador pudesse “ver como o seu material, ou parte dele, reage às conclusões de um estudo conduzido sobre ele. Duvido que haja biologista que depois de estudar, digamos, um micróbio, tenha visto esse micróbio tomar da penae vir a público escrever sandices a respeito do estudo do qual ele participou como material de laboratório”.

Pois é exatamente assim que boa parte dos anticotistas com amplo espaço na grande mídia trata os intelectuais negros e/ou suas opiniões: como material de laboratório. Há certo desinteresse pelo material nacional (exceto quando vem em forma de números), com clara preferência por material importado (Nelson Mandela, Henry Louis Gates, Harry Belafonte, Barack Obama), sendo melhor ainda se já estiver morto (Martin Luther King, Frederick Douglas, Rosa Parks), pois o perigo de eles “se rebelarem” é inexistente. Paulo Lins, como vimos no vídeo acima, se rebelou contra Demétrio, e a opinião de Demétrio é que a opinião de Paulo Lins deve ser considerada errada. Essa atitude revela bastante da sua porção biologista, sendo a Biologia ciência à qual ele é um dos que mais recorre, como se precisasse recordar constantemente que raça biológica não existe. Todos já sabemos disso; os negros, inclusive, quando muitos brancos afirmavam o contrário. Racismo é um problema social, não biológico; e é no campo das ciências sociais, e não biológicas, que ele deve ser combatido. Ninguém solicita exame de DNA para discriminar ninguém. Então, como é mesmo que essa série de pesquisas mostrando quem tem tais e tais porcentagens de ascendência africana, indígena ou européia podem provar a ausência de racismo na população brasileira? É sério que querem discutir/definir quem somos nós, brasileiros, através da genética?

Antes de contar uma última história que, pra mim, é o perfeito exemplo da cruzada de um dos principais grupos de comunicação contra as cotas, saliento a participação e a importância de vozes dissonantes dentro dessa velha mídia. São jornalistas que, contrariando as posições das revistas, das TVs e dos jornais nos quais trabalham, dão-se à liberdade e à dignidade de expressarem o que pensam e defenderem as cotas. Correndo o risco de me esquecer de alguém, saúdo Paulo Moreira Leite (que bom que ele mudou de ideia!), Miriam LeitãoHeraldo Pereira e Élio Gaspari. Eles fazem a maior diferença, como dá para perceber logo a seguir.

Em 2006, a situação já estava tão escancarada que o ombudsman da Folha escreveu em sua coluna que o jornal não estava tratando tratando de maneira imparcial a discussão sobre cotas e políticas afirmativas. O manifesto anticotas tinha sido publicado na íntegra pelo jornal, ao contrário do manifesto pró-cotas. Entre os vários estudos que já trataram do assunto, recomendo a tese “Ações afirmativas e cotas na mídia: a construção de fronteiras simbólicas“, na qual Zilda Martins Barbosa analisa os textos publicados nos cadernos de opinião dos jornais Folha de São Paulo, O Globo e O Dia, segundo ela para “compreender a relação da mídia impressa com a população negra como um exercício de resistência à mudança, de caráter passional e maniqueísta. A despeito da retórica do dissenso midiático contra as cotas, estas já são uma realidade, vislumbradas como um contradiscurso”. É interessante essa ideia, de as cotas serem o contradiscurso. Outro material que também traz dados importantes é essa pesquisa do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades – CEERT e do Observatório Brasileiro de Mídia: A Mídia Impressa no Brasil e a Agenda da Promoção da Igualdade Racial . Os assuntos pesquisados foram ações afirmativas, cotas, Estatuto da Igualdade Racial e demarcação de terras quilombolas, (mas aqui ficarei apenas com as cotas), reunindo 1.093 matérias publicadas durantes os anos de 2001 e 2008 nos jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e o Globo, e nas revistas Veja, Época, e Istoé. É muita informação, e vale a pena tanto analisar os números quanto os argumentos, e perceber como estes vão se modificando, ou não, conforme vão surgindo as informações que os derrubam. Notem também que 100% das matérias – artigos, colunas, entrevistas e reportagens – das matérias da Veja e 100% dos textos opinativos – artigos e editoriais – do O Estado de São Paulo são contra as cotas. Vou me ater aqui ao jornal O Globo, um dos mais ativos nessa cruzada, e destaco uma informação de cada um dos links acima:

– os três jornais publicaram 32 editoriais sobre as cotas, tendo O Globo publicado 25, com argumentos que disseminavam as seguintes ideias: ações afirmativas/cota geram polêmica ou promovem racismo e segregação (32%), o mais correto é educar e não criar cota (24%), cotas baixarão o nível dos cursos (16%), critérios para cotas deveriam ser socioeconômicos e não raciais (12%), cotas subvertem a meritocracia (8%), cotas são equívoco, mas estimulam debate (4%) e critério da autodeclaração é questionável (4%). (página 14 da pesquisa)

– No caderno Opinião, de O Globo, 20 artigos foram sobre cotas, sendo que Ali Kamel (com sete artigos) e Demétrio Magnoli (com seis) dominam o espaço, com firme posicionamento contra. “Os outros sete artigos estão divididos entre os que são favoráveis às políticas públicas de ações afirmativas e posições neutras ou críticas com relação à medida.” (págs. 86 a 100 da tese)

Fonte http://www.interney.net/blogs/lll

Sabendo da discussão “viciada” que tem ocupado a velha mídia brasileira, e o quão desastroso seria um retrocesso na política de cotas para jovens com perfis, esperanças e dificuldades que eles conhecem tão bem, a ONG Omi-Dudú lançou a campanha Afirme-se. Procurada, a agência Propeg desenvolveu spots para rádio e uma peça publicitária que seria veiculada nos jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, A Tarde e O Globo. A agência negociou os espaços com os veículos, que cobraram, respectivamente, R$ 38.160,00, R$ 37.607,23, R$ 36.048,48 e R$ 54.163,20, valores arrecadados através de doações. A peça seria veiculada no dia 3 de março de 2010, para coincidir com o julgamento da constitucionalidade no Supremo Tribunal Federal, que estava marcado para os dias 3, 4 e 5. Dois dias antes de o material ser publicado no O Globo, a Propeg avisou à ONG que o anúncio teve que ser submetido à direção editorial do jornal (provavelmente aquela ali acima, dos editoriais contra as cotas), e que ele tinha sido classificado como “expressão de opinião”, elevando o valor cobrado para R$ 712.608,00. Segundo matéria do Observatório da Imprensa, no site do Jornal O Globo, o acréscimo para publicação de “expressão de opinião” é de 30% a 70%. No caso, O Globo estava cobrando 1.300% acima do preço negociado para veicular uma opinião diferente da sua. No dia 08/03/2010, a campanha Afirme-se! entrou com representação contra o jornal no Ministério Público do Rio de Janeiro. Estou em contato com ONG para saber se há novidades e se podemos ajudar, e assim que tiver notícias, se necessário, atualizo esse texto. Seria importante acompanharmos esse processo e e ajudarmos a denunciar mais esse abuso.

Aparecer em rede nacional, na novela Duas Caras, fazendo propaganda de um livro que estampa na capa os dizeres “Não somos racistas”, também não poderia ser classificado de divulgação de “expressão de opinião”? Será que, seguindo a política da direção editorial do grupo, a atriz Juliana Alves recebeu 1.300% a mais pela ação publicitária?

 

P.S. – em 8/05,  sem nenhum comentário, como se ele não tivesse existido, Yvonne Maggie apagou o parágrafo no qual atribui falsas citações a Henry Louis Gates e Harry Belafonte. O print screen do texto original está aqui. Leia o artigo de Idelber Avelar sobre o assunto: Yvonne Maggie: falsificação de citações, adulteração de arquivos e desonestidade intelectual.

 

Ana Maria Gonçalves, escritora, negra, autora de Um defeito de cor.

 

Golpe 16 - O livro da blogosfera em defesa da democracia

Golpe 16 é a versão da blogosfera de uma história de ruptura democrática que ainda está em curso. É um livro feito a quente, mas imprescindível para entender o atual momento político brasileiro

Organizado por Renato Rovai, o livro oferece textos de Adriana Delorenzo, Altamiro Borges, Beatriz Barbosa, Conceição Oliveira, Cynara Menezes, Dennis de Oliveira, Eduardo Guimarães, Fernando Brito, Gilberto Maringoni, Glauco Faria, Ivana Bentes, Lola Aronovich, Luiz Carlos Azenha, Maíra Streit, Marco Aurélio Weissheimer, Miguel do Rosário, Paulo Henrique Amorim, Paulo Nogueira, Paulo Salvador, Renata Mielli, Rodrigo Vianna, Sérgio Amadeu da Silveira e Tarso Cabral Violin. Com prefácio de Luiz Inácio Lula de Silva e entrevista de Dilma Rousseff.

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61 comments

  1. Spirito Santo Reply

    Lapidar!

    1. Vadio Reply

      A “Marcha das Vadias”, comentada, através de um conto, baseado em fatos reais, pelo ângulo masculino de quem foi nela, pelos motivos errados: obrigadopelavisita.blogspot.com

  2. Alberto Moby Ribeiro da Silva Reply

    Texto primoroso – uma referência! Obrigado por ajudar a dar às pessoas razões para duvidar da “verdade oficial”.

    Sou branco, filho de brancos muito pobres e que com dificuldades ascendi à classe média através do acesso à universidade. Apesar disso – ou exatamente por causa disso – sou veementemente favorável às cotas.

  3. Job Reply

    Triste aqueles que fomentam a diferença, solicitando tratamento diferenciado. Já ouvi um monte de bobagens, de pessoas que acham que a origem de cor ou raça, torna as pessoas melhores ou piores. Há diferenças, com certeza, e a questão física influencia nossa relação com o mundo. Mas, o que mais influência e a questão cultural, o esforço e os valores morais. Quando eu estava na fase de vestibular, lembro que brincávamos dizendo que para passar no vestibular, teria de sumir com um japonês por dia, pois eles dominavam estatisticamente a área de informática naquela época. Lembro particularmente de uma colega de turma de origem japonesa, que trabalhava de madrugada até as 8h na feira e depois ia estudar. Lutar contra o racismo e o preconceito, não é lutar por cotas e sim mostrar ao mundo como inúmeras pessoas mostram seu valor. Trabalhando e vencendo. Devemos lutar contra o tratamento diferenciado, seja ele a favor de um ou outro, quando se trata de raças ou cor. Me diga você, qual a sua opinião sobre o tratamento “diferenciado” dado as mulheres islâmicas? E me responda o porque esta é a religião que mais cresce entre os negros nos USA e na África, e entre os brancos russos?

    1. Rose Reply

      Também acredito em esforços pessoais,

      1. Ana Reply

        Acho que há vários assuntos em um só. Acredito que nem negros nem quaisquer minorias precisam de privilégios e favores, mas de justiça. Desta forma, acho que as cotas universitárias não podem ser consideradas mais que um paliativo enquanto a questão principal não é resolvida: ensino básico de qualidade para todos. TODOS. Até porque as cotas não contemplam todos os negros, nem todos os índios e por aí vai. Comparar nosso sistema de ingresso em universidades com o dos EUA é um equívoco. Não haver mais negros cursando ensino superior tem causas diferentes nos dois países, embora derivem ancestralmente de fatos históricos semelhantes. Nossas provas de vestibular não têm identificação. Quem as corrige não sabe se o candidato é negro, branco, índio ou judeu. Nos EUA há entrevistas e análise de currículo, o que torna o processo mais pessoal e mais sujeito a simpatias e antipatias. Em certo sentido, acharia mais lógico e mais rico estabelecerem cotas no ensino básico para escolas particulares. Dessa forma, crianças ainda pequenas teriam oportunidade de conviver com a diversidade e aprender com ela, principalmente aprender a amá-la, porque a diversidade é linda. Mas, é claro, sem perder de vista que sistema de cotas, seja ele qual for, só beneficia uma parcela reduzida da população, mesmo dentro do grupo a que se propõe a ajudar. O que devemos ter como objetivo sempre é educação básica de qualidade para todos, que é a única coisa que pode tornar uma sociedade mais justa. Outro aspecto importante é o perigo de se reduzir as questões humanas a questões de raça. Meu filho de 7 anos sente-se segredado por seus amigos e, de fato ele não é chamado por eles para programa nenhum. Meu filho, no entanto, é branco e loiro, não posso atribuir racismo a este fato. Nem acredito ser preconceito de nenhuma espécie. Questão de afinidades, temperamento? Não sei, mas há muito a pensar sobre sua forma de se colocar no mundo e engendrar seus relacionamento se eu não ficar restrita a um único aspecto da coisa (se ele fosse negro, por exemplo). Se vc atribui a causa de qualquer frustração ou dificuldade ao racismo por parte dos outros a discussão está encerrada antes de começar e se empobrece. A impressão que tenho atualmente é que não existem negros chatos, nem com falha de caráter ou portadores de quaisquer outros defeitos que acometem os outros seres humanos. Tudo se resume a racismo. Não estou discutindo se existe ou não racismo porque é bem óbvio que ele existe, assim como vários outros tipos de preconceitos que assolam a humanidade desde que se tem noticia. Mas nem o racismo, nem os demais preconceitos resumem-se na cor a pele, nas escolhas religiosas, enfim, não condizem exatamente, ponto a ponto com o que parecem ser em sua exteriorização. O ser humano é bem mais complexo do que isso. E, por último, a vitimização só contribui para aumentar o estigma.

        1. Ana Maria Gonçalves Reply

          Ana,
          Sempre que se fala em cotas universitárias, lembra-se de “ensino básico de qualidade para todos”. Diga-me: em que sentido são lutas excludentes? Quem exatamente você acha que deveria estar lutando por “ensino básico de qualidade para todos”? Só os negros que estão lutando por cotas, ou toda a população brasileira? Se toda a população brasileira, por que não vemos uma grande mobilização nesse sentido, já que todos, inclusive os movimentos negros, concordam que é uma luta necessária? Levando em conta que os movimentos negros vem sim, há anos, lutando por “ensino básico de qualidade para todos” (basta ler os links lá no texto), sem nunca ter sido ouvido direito ou levado em conta, você acha que é justo usar exatamente esse argumento para tentar invalidar a luta por cotas raciais? É como dizer para as mulheres: “Olha, ao invés de abrir Delagacias da Mulher, o correto é lutar contra a violência doméstica, o que beneficia a todos”. É claro que cotas raciais e Delegacias da Mulher são “paliativos”, mas são necessários, porque atacam o problema urgente e real, aqui e agora. É claro que podemos ter luta contra a violência doméstica e Delegacias da Mulher, assim como cotas raciais e luta por “ensino básico de qualidade para todos”, ao mesmo tempo. O que não dá pra fazer é jogar na mulher a responsabilidade por lutar (ou não) contra a violência doméstica, ou no negro a responsabilidade de lutar (ou não) por “ensino básico de qualidade para todos”. Ou é uma luta de todos ou não é.
          – É interessante que se venha falar de justiça, como na sua primera frase. Diga-me: qual é mesmo a justiça que se faz quando a universidade pública de qualidade é frequentada por maioria branca (atendo-me apenas à questão racial, embora sabendo que também há a social – que trato como problemas diferentes), ao mesmo tempo em que é sustentada também por impostos pagos pela população negra?

          – “Meu filho de 7 anos sente-se segredado por seus amigos e, de fato ele não é chamado por eles para programa nenhum. Meu filho, no entanto, é branco e loiro, não posso atribuir racismo a este fato.”- não pode mesmo e, portanto, o fato nem precisava ter sido citado aqui. Em nenhum momento do texto eu disse que racismo é o único motivo de segregação. Tomar esse exemplo para desqualificar a experiências de racismo sofridas por crianças negras no embiente escolar não é nada justo. Por favor, se o assunto realmente te interessar, e você quiser uma opinião embasada sobre o assunto, leia o livro que indico no texto: http://www.inclusive.org.br/?p=17958 Aquela, e não essa que você cita, é a realidade das crianças negras no ensino público brasileiro. Se procurar, também vai encontrar a mesma situação nas escolas particulares.

          – “E, por último, a vitimização só contribui para aumentar o estigma.” – se você mesma admite que racismo existe, como é que ações específicas para ajudar a combater o racismo fazem parte de um esquema de vitimização? Para ficar mais fácil de entender, deixemos um pouco de lado a questão racial e voltemos à violência doméstica contra mulheres. Pensa só: mulheres denunciando o machismo e suas consequências, e criando ferramentas para combatê-lo, estão se fazendo de vítimas ou lidando com uma situação existente? O mesmo pensamento vale aqui: negros denunciando o racismo e criando ferremantas que vão ajudá-los a combatê-lo, estão se vitimizando em que sentido mesmo, se todos admitimos (ao admitir a existência do racismo) que já o são? O que contribui para aumentar e perpetuar o estigma é o racismo, não sua denúncia ou seu combate.

      2. caca de paula Reply

        Nao existe esforço pessoal que nos iguale, quando tentamos uma vaga em uma Universidade Federal,vindo um de uma favela onde não havia mesa para escrever quando criança,livros,em sua volta somente adultos analfabetos e outro individuo filho da classe média alta.Essa base da infância irá demandar de reforços,vertibular gratuito e cota.E essa mancha deixada pela falsa libertação dos escravos pela fome e sede das crianças nordestinas,esta falta de nutrientes no cerebro afeta sencivelmente o aprendizado se não for corrigido até os 2 anos, e passa geneticamente deverá ser corrigida sim por cotas, mas acima de tudo com a generosidade de um povo que se diz tão acolhedor, mas nega o direito de liberdade, que só se conquista através da leitura real,entendida e não essa que está aí que esta passando todo mundo, que está fazendo com que os jovens fujam da escola porque não sabe nem as operações básicas e muito menos escrever.
        Se es realmente contra a conta imagine lutando pelos 20%, Assista Vista Minha pele um documentario aí vc, entenderá o que é ser negro e pobre no Brasil.Ah! eu sou branca, amiga de negros sempre, e sei o que eles passam.

    2. Rose Reply

      Desculpe-me, continuando meu texto. Também acredito em esforços pessoais, mas quando se trata de 400 anos de dominação, escravização e tantas atrocidades, esforços pessoais, tão somente, são eficazes em filmes de Hollywood. Se você é contra tratamento diferenciado e contra quem os fomenta, o que você acha do tratamento diferenciado e privilegiado que os brancos detêm em nossa sociedade por milênios, o que você acha dos brancos ricos que estudam nas melhores universidades do páis a custa da cota promovida pela cesta básica com sues ICMSs da cesta básica dos negros pobres, sim são os pobres, na maioria negros, que custeiam essas faculdades com suas cestas básicas.
      Enquanto o negro se aglomera em favelas, pontes, viadutos, escolas de samba, tudo bem, mas nas universidades as pessoas veem diferenciação, não entendo. Experimente procurar emprego com um branco, talvez menos qualificado que você, e veja quem é que conseguirá. Repare nessas diferenciações já tão instituídas (infelizmente)! Cotas não são as melhores alternativas, e também não são privilégios, são reparações.

  4. João Telésforo Reply

    Prezada Ana Maria,

    Obrigado pelo texto!

    No 1º semestre de 2009, eu era Presidente do Centro Acadêmico de Direito da UnB e organizei com meus colegas de CA um debate sobre cotas raciais. Contra as cotas, compuseram a mesa Demétrio Magnoli e Roberta Kaufmann (tentamos o Antonio Risério, infelizmente ele não pôde ir). A favor, prof. José Jorge, antropólogo da UnB, e Damião Azevedo, advogado que defendeu dissertação na UnB, em 2007, concluindo que as cotas seriam constitucionais.

    Eu tendia a ser contra as cotas, embora estivesse num processo contínuo não apenas de rever, mas de formar minha opinião (sempre foi um tema em que eu adverti, enquanto era contra as cotas, e mesmo durante algum tempo depois, que não tinha uma opinião firme, bem formada ainda). Aquele debate foi um episódio fundamental para que eu tenha mudado de ideia. Não apenas pela postura dos debatedores, mas porque, lá pelo meio do debate, que eu estava mediando, é que fui me dar conta (e anunciei ao público) de que não havia nenhum negro na mesa… Ninguém, no Centro Acadêmico, o percebera antes. Nem sequer pra esse tema!!! E olha que o sistema de cotas já estava instalado na UnB fazia quase 5 anos, àquela altura, o que já tinha ampliado um pouquinho a presença de negros no nosso cotidiano.

    Naquele dia, pude perceber de modo concreto e autocrítico a que ponto o racismo condicionava nosso comportamento, mesmo daqueles que estávamos dispostos a combatê-lo e enfrentar o tema.

    Algum tempo depois, passei a ter menos dúvidas ainda sobre a necessidade da reserva de vagas para negros (“cotas raciais”) depois que conheci, por meio de uma médica pediatra muito próxima, uma história de uma criança (pré-adolescente) que não aguentou estudar numa das melhores e mais elitizadas escolas de Natal (minha cidade de origem) devido ao racismo constante de que era vítima, e que a fizera entrar em depressão. A mãe teve de colocá-la numa outra escola, também particular, mas não tão “boa” (em termos de preparação para o vestibular e etc) quanto as “melhores”, mas em que a filha teria mais sossego, pois o corpo de alunos era mais diverso…

    Episódios como esse não são exceção, são o cotidiano. Infelizmente, o racismo atua não apenas produzindo-os, mas invisibilizando-os, inclusive para quem o produz. Por isso que é tão difícil mostrar para as pessoas que as “cotas sociais” (como se “cotas raciais” não fossem “cotas sociais” também) não resolvem o problema, e que as “cotas raciais” não privilegiam os negros de melhores condições econômicas.

    1. Ana Maria Gonçalves Reply

      Exatamente porque quase ninguém faz esse exercício que você fez, João: olhar em volta, com sensibilidade e crítica. É tão simples…

  5. Fontinatti Reply

    A análise é bastante informativa e formativa para pessoas leigas no assunto como eu. O vídeo do seu Jorge citado parece estar com o link quebrado. E não tenho saco para ficar assistindo Demétrio Magnoli, por isso parabéns 1 milhão de vezes.

  6. Ramiro Conceição Reply

    Entre o prostituto magnoli falando e uma Pulga cagando – aposto na Pulga.

  7. Lilian Gomes Reply

    Prezada Ana
    gostaria de agradecer-lhe pelo denso, esclarecedor e contundente texto e pelo enorme esforço no sentido de indicar os mecanismos utilizados pela mídia brasileira para se posicionar contrária às ações afirmativas. Você apresenta as verdadeiras motivações da elite branca, racista e que não quer compartilhar os espaços do conhecimento formal.
    Recomendei o texto no Facebook, principalmente, para aquelAs que são contrários às políticas de ações afirmativas para que se autoavaliem sobre a origem de suas convicções. Só tenho a agradecer-lhe.

    1. Ana Maria Gonçalves Reply

      Obrigada, Lilian. Principalmente quem é contra as cotas deveria estar combatendo esse tipo de situação, essas meias verdades, essas mentiras inteiras… Pega muito mal e, é claro, já tem muita gente percebendo.

  8. qualquer um Reply

    Pensando sobre cotas num texto que não é sobre cotas, quem é a cozinheira e por que ela não tem nome?: http://g1.globo.com/platb/yvonnemaggie/2012/04/20/para-gilberto/

  9. Lucas Secanechia Pereira Reply

    A Ana Maria Gonçalves está excelente de novo, consegue destrinchar todo o aparato midiático que, por anos, buscou inviabilizar as cotas raciais por argumentos tacanhos e inconsistentes.Depois deste texto, acho que não há como considerar minimamente os argumentos vindos de demétrios e companhia limitada. A ridícula tese de escravismo democrático é o suprassumo deste grupo; conseguem negar o racismo da escravidão de NEGROS no Brasil, isso é surreal e cômico se não fosse verdade; Demétrio, no lamentável Roda Viva do período de Marília Gabriela, que vinha quase sempre com péssimos entrevistadores e entrevistados, não foi capaz de explicar o porquê de somente negros serem escravizados nessa democrática escravidão à brasileira. Nessa linha ainda poderíamos afirmar que a escravidão foi vanguarda: vejam só, um instituto democrático em plena vigência do Segundo Reinado, isso só é possível de ser enxergado quando se tem uma visão meramente liberal de democracia, onde o direito a propriedade é o fim último da democracia.

  10. ruben caixeta Reply

    Texto essencial, muito lúcido e extremamente bem argumentado.

  11. Alexander Nassau Reply

    Muito lúcido, claro e amplamente bem argumentado esse texto. E como já se disse, passa a ser referência! No calor da ainda histórica decisão do STF, ele é um marco também no recolho de ideias e sistematização do que muitos tentam explicar e não conseguem. Entender, nos diz suas entrelnhas, não é reunir meia dúzia de pseudo-argumentos e formar uma ‘opinião’ confortável e criminosa sobre nossa escolha por persistir no racismo; é passar ao ato de mudar e fazer mudanças. Parabéns!

  12. Miriam Alves Reply

    Ana. Obrigado pela aula e fortalecer nossos argumentos

  13. Rafael Cesar Reply

    Ana, mais uma vez obrigado pelos seus cuidadosos e dedicados textos à questão.

    Só uma observação em relação à cena em que Juliana Alves lê “Não somos racistas”. Esses caras não têm limites em sua cruzada. A atriz em questão tem trajetória na militância negra, foi ligada à ONG Criola etc. Isso que fizeram teve requintes de crueldade, e consigo quase imaginar o prazer que tiveram ao obrigar, justo ela, a fazer a cena. Não foi apenas porque ela era a provavelmente única negra do elenco, e portanto a figura ideal a endossar a opinião do livro. Para além disso, que por si só já é cruel, não tenho dúvidas de que foi a atualização do que faziam os senhores de escravos com negros rebeldes: bota no tronco, em praça pública, pra dar uma lição.

    Um abraço do admirador,
    Rafael Cesar.

    1. Maria Luiza Junior Reply

      Boa observação, Rafael, mas note também a expressão da atriz, para mim um misto de desprezo e nojo, até na forma de utilizar as pontas dos dedos para folhear as páginas.

      1. Ana Maria Gonçalves Reply

        Obrigada pela informação, Rafael. No calor do texto, nem me lembrei de procurar mais informações sobre a Juliana. Mas a cara dela, como observou a Maria Luiza, é ótima…

  14. Mayra Reply

    Parabéns pelo artigo esclarecedor.

    Na sequência do seu, acabo de ler outro artigo que deixo aqui como uma sugestão de diálogo com suas ideias – e tb como uma ampliação dessa questão, do racismo, pra outras terras e outros tempos.É do Flávio Aguiar, na Carta Maior: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5581

  15. Cida Patroclo Reply

    Ana, seu livro foi uma das melhores coisas que li na vida, parabéns e obrigada por te-lo escrito.
    Mas eu também aprendi a duvidar e como tenho uma preocupação com o processo de formulação de políticas e as ideias, interesses e instituições que compõe o ambiente de tomada de decisão, não consegui estar integralmente feliz com o resultado. Por que não? Porque na semana seguinte foi votada a constitucionalidade do PROUNI e fico duvidando se a aceitabilidade das cotas não foi possível desde que as empresas de ensino privado tivessem garantida sua possibilidade de continuar sendo mantidas com recursos públicos. Veja quem entrou com o pedido de votação de constitucionalidade do PROUNI. A vitória integral seria a aprovação de cotas com a maximização do aumento de vagas nas universidades públicas e melhoria do salário dos professores. Importantíssimo o resultado da votação das cotas, mas para que de fato o negro tenha uma formação superior de qualidade é necessário que ele tenha acesso as universidade de qualidade e não nos contentemos com vagas em universidades com baixissima
    qualidade técnica, num faz de conta que somente com um diploma, com qualquer diploma, os negros terão mais chances no mercado de trabalho com salários dignos.

    1. Ana Maria Gonçalves Reply

      Cida, entendo seus poréns. São várias lutas e creio que, devagar, a gente chega lá… Axé pra nós!

  16. André Reply

    Eu sou a favor das cotas, mas gostaria muito de ver argumentos contrários. Infelizmente, a mídia colocou o Beira-Mar para discutir descriminalização das drogas.

  17. marcos nunes Reply

    É o argumento básico: aqueles que são contra s cotas o são porque aludem à criação de um regime de diferenciação perigoso, fingindo que tal “regime de diferenciação perigoso” já está criado e – principalmente e ainda bem – os favorece. Se o convívio entre as classes não tiver amparo legal e criado por um Estado que objetive dirimir conflitos sem usar a política do “deixa como está para ver como é que fica”, a situação só tende a se agravar, o que terminará por atingir justo aqueles que,tentando conservar seus privilégios, correm riscos permanentes de perdê-los por contrafações violentas, e não de competição por vagas em universidades e empregos. Mas os tais liberais que defendem a “livre competição” querem tudo, e tudo quer dizer tudo mesmo, isto é, administrar eles mesmos a tal “livre competição” de forma a eliminar por completo os riscos de perda. É isso que realmente se chama “aversão ao risco”.

    1. Ramiro Conceição Reply

      É isso mesmo, Marcos.

      1. Ramiro Conceição Reply

        Às portas duma tempestade, quando se olha para o céu, qual a cor hegemônica? Ora, obviamente é o cinza. Contudo, sabemos que isso não quer dizer, porventura, que não há pontuais nuvens brancas e nem pontuais azuis. Logo o cinza, embora natural, é uma visão primeira, incompleta – digamos superficial.

        Assim se algum meteorologista, dito especialista, se apresentasse em rede nacional de televisão e argumentasse, com a boca predatória de presas seculares, que o preto é um prenúncio duma tempestade então, sem dúvida, o dito-cujo deveria ser levado a consultar urgentemente um oftalmologista, não é verdade?

        Então por que, na tempestade do ensino superior brasileiro, a questão das contas é uma questão de negros racistas contra pobres brancos indefesos? Ora, isso é dito ideologicamente por uma elite racista para camuflar o crime cometido dia após dia – por séculos.

        É fácil, com poder econômico, apresentar bodes expiatórios para camuflar o crime cometido.

        E que fique claro: aqui não se trata de coitados, mas de uma massa a dizer, democraticamente:

        BASTA! POIS O ENSINO SUPERIOR NÃO É UMA QUESTÃO DE COMPETIÇÃO ENTRE APTOS E INAPTOS, MAS UMA QUESTÃO DE DIREITO!!!!!!!!!!!

        1. Ramiro Conceição Reply

          ILHA DAS ÁGUIAS
          by Ramiro Conceição

          Cantam cantos antigos
          que o Mal é ardiloso
          e que, sedutor, ilude a platéia
          que, por ter os caninos escuros
          com sangue de assassinatos cometidos,
          não percebe – por medo – a insensatez.

          Cantam sonhos longínquos
          que o Mal é a raiz da culpa
          que impede esta monada,
          desde a tenra idade,
          à iluminação, à Humanidade,
          ao cuidado desta Terra única.

          Cantam que tudo em nós é fruto
          duma moral hipócrita e repressora
          e que tudo sempre termina
          num medíocre e terrível engano
          colossal de templos e religiões:
          uma manada de anões primatas,
          bambos, prontos pra assassinar
          quem ouse à alegria de duvidar.

          Cantam cantos modernos
          que a nossa civilização
          judaico-cristã-muçulmana,
          por ser estupidamente desumana,
          possui a face dum quadro de Picasso:
          o lado esquerdo em cisalhamento ao direito
          tal qual o desespero em gritos dos ciprestes
          destorcidos das telas de Van Gogh.

          Cabe aqui uma pergunta.
          Fomos, somos e seremos somente
          caretas, caricaturas e canalhas
          dum bando de micos amestrados?

          Cabe aqui uma resposta.
          Por herança da evolução,
          somos um milagre repleto
          de coragem.
          Mas coragem pra quê?!
          Para cantar e permitir
          a continuidade da vida
          nesta casa bendita.

          Portanto canto e declaro
          claramente que somos parte
          das consciências do futuro,
          do passado e do presente
          em processos de passagem;
          canto e declaro
          claramente que a diferença
          entre um bem-te-vi e Einstein
          é simplesmente a maneira
          diferente do bater de asas.

          O amor é o senhor da Terra!
          E não há diferença qualquer
          entre a mulher, que nos braços
          seus filhos queridos abraça,
          e o Sol, que com nove braços
          seus filhos queridos entrelaça
          (Plutão não é um bastardo!).

          Dizem que sou de aquário
          pois ao sonhar às vezes rio,
          a crer que do nosso aguadeiro
          florescerá a sinfonia do amor
          que será cantada e amada
          em estelares línguas claras.

          Porém, confesso: sou um contumaz
          devorador de astrólogos à milanesa
          regados — é claro — à muita cerveja.
          Contudo, lúcido, continuo a declarar
          que o amor não necessita de templos
          e que nunca será de pouquíssimos,
          pois Beethoven canta no Uirapuru!

          À frente
          das minhas asas,
          dança com graça
          a Ilha das Águias.
          Lá,
          elas procriam.
          De lá,
          elas vigiam.
          De lá,
          vêm
          o início
          e o fim.

          Eu vim… de lá!
          Pra profetizar, instaurar e mediar
          toda a forma de amar que está ali,
          na estelar sala de estar e, aí,
          dentro do teu amor, caro Leitor.

          1. marcos nunes

            Você andou lendo o Luc ferry?

    2. Ana Maria Gonçalves Reply

      Exatamente, Marcos. E confundem a “divisão de opiniões” sobre as cotas, entre quem é contra ou a favor, num ambiente com informações completamente distorcidas – é claro, a confusão, e não o diálogo franco, interessa ao status quo – ao verdadeiro efeito das cotas: como é que pode ser “divisiva” uma solução que inclui? Chamar de “divisiva” a maior convivência entre brancos e negros numa sala de aula em uma universidade pública é de um absurdo tão grande que não sei nem o que pensar sobre isso… Ou melhor, tento não pensar, porque é triste demais a conclusão a que tendo chegar.

  18. goli guerreiro Reply

    muito bom ana,
    brigada!

  19. Jair Fonseca Reply

    Que a mídia corporativa é venal e só pensa naquilo, tudo mundo sabe, mas é muita cara-de-pau essa de que com expressão de opinião é mais caro!
    E eu não soube desse infame merchandaize do livro do Kamel na novela. Realmente, foi muito mais cruel o uso disso com a atriz negra. Mas a foto isolada do contexto da novela pode servir a uma discussão muito significativa sobre o racismo que a Globo tanto nega, através de um de seus intelectuais orgânicos (e muuuuito bem pagos): a moça tá com cara de quem não gostou…
    Não soube dessa história do Roda Viva, porque parei de ver o programa na época da Marília Gabriela, mas é bem significativa.
    E viva Harry Belafonte, que ainda foi um dos pioneiros do reggae!

  20. Eduardo de Assis Duarte Reply

    Parabéns Ana, mais uma vez, pelo brilhantismo, qualidade e densidade de seu texto. Infelizmente, ao que tudo indica, os membros do Conselho Universitário da UFMG devem basear suas decisões no discurso de “sábios” do porte de Maggie, Kamel e Magnoli… Pois não é que, poucos dias após a histórica decisão do STF, eles decidiram cortar pela metade o bônus anteriormente concedido a egressos da escola pública e afrodescendentes?
    Pois é, a Universidade Federal de Minas Gerais vai na contramão da história: além de não adotar as cotas, reduz em 50% o bônus duramente conquistado para afrodescendentes vindos da escola pública. O resultado se vê na branquitude imperante nas salas de aula, assim como nos estacionamentos lotados de carros de alunos. É a universidade dos ricos, sustentada pelo povo. É triste. A população paga para os filhinhos de papai estudarem de graça. É o Brasil de Demóstenes, vitorioso até na derrota.

    1. Jair Fonseca Reply

      Pô, Eduardo, que pena isso. Essa UFMG, tão importante e tão decepcionante, às vezes.
      E parabéns pela organização de “Literatura e Afrodescendência no Brasil”.

    2. Ana Maria Gonçalves Reply

      Dizer o que, Eduardo? Toda a minha solidariedade aí pra vocês… Triste, triste aqui.

  21. Maurício Reply

    Texto fantástico! Eu não teria tantos argumentos para defender este que é o meu ponto de vista. É escancarado o conluio da grande mídia em prol deste racismo estrutural. Me manifestei no blog da sra Maggie, indignado por conta do artigo dela, carregado deste racismo insidioso. É incrível como essa gente tenta fazer descer goela abaixo da população brasileira a tal da meritocracia, o que significa nada mais nada menos que atribuir ao negro a culpa por sua exclusão. E quer saber? Fiquei com medo de ser censurado por defender um ponto de vista não-racista em um veículo racista. Parabéns pelo desenvolvimento deste texto! Espero que ele seja um elemento para a informação dos desavisados! Obrigado pela defesa polida e cheia de consistência! Se me permitir, vou lançar o link de seu artigo em meu blog para ajudar a divulgar este documento importantíssimo! Viva as cotas!

    1. Ana Maria Gonçalves Reply

      Maurício,
      É claro que pode divulgar.
      Os textos aqui estão sob esse licença: http://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.5/br/
      Informação é pra circular…

  22. Maria Luiza Junior Reply

    Ana, obrigada por mais esta contribuição ao debate sobre racismo.
    Permita-me apenas sugerir que acompanhe o caso do senador Demóstenes e analise se o seu protagonismo na ADI contra as cotas foi de fato fortuito e gratuito, o Demétrio não deve ter pago suas despesas de locomoção até o Senado, e o DEM, como uma versão brasileira do Partido Democrata dos EUA, com todo o ideário racista dos sulistas/ruralistas, contrário desde a titulação dos territórios remanescentes de quilombos, lá foi o tal “40 acres e uma mula” que dá nome à produtora de Spike Lee, à questão da Educação para os negros, só permitida em escolas segregadas.

  23. Alexandre Reply

    Excelente, Ana! Brava!
    Agora fiquei querendo ler alguma argumentação razoável contra as cotas. Teria algum exemplo para dar?
    Obrigado!

    1. Ana Maria Gonçalves Reply

      Alexandre e André,
      Eu indicaria o livro do Risério, embora ache que ele deu uma simplificada na questão da “inclusão”, tratando-a mais (ou especificamente, já não me lembro, pois faz algum tempo que li) do ponto de vista cultural: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=2283703
      Ou seja: não concordo com muito do que ele diz ali, porque acho que muita coisa ficou de fora. Mas, entre o que foi escrito contra as cotas, é o que vale a pena ler.

  24. Alexandre Reply

    Por “razoável”, quis dizer honesta. Ou seja, diferente dessas que você mencionou.

  25. Ana Maria Gonçalves Reply

    Muito obrigada a todos que leram, comentaram, incentivaram, trouxeram novas ideias e novas informações para o tema. Concordando ou não. É importante o espaço, o apoio, a disponibilidade e, principalmente, a busca de informações honestas sobre as quais essa conversa deve se edificar. A blindagem e a desinformação que são interessantes cultivar para que tudo continue na mesma são bem revoltantes pra mim. Obrigada.

  26. Danilo Reply

    Muito obrigado!

  27. Graciane Reply

    Excelente texto! Parabéns!
    Só uma correção: “no histórico dia 25/04/2011” (2012).
    Triste é ver que os argumentos contrários às cotas continuam num senso comum tão empobrecido.

    1. Ana Maria Gonçalves Reply

      Corrigido, Graciane. Obrigada.

  28. Eliana Vinhaes Reply

    Sempre defendi as cotas raciais, como defendo as sociais. Ambas se complementam neste Brasil que teima em escamotear suas práticas racistas. Acrescento que os conservadores anti cotas, subliminarmente defendem uma cota instituída e não questionada – a dos brancos bem nascidos e bem nutridos. Estes têm ingressos garantidos nas Universidades Públicas, egressos que são de escolas privadas, de casas com ração, de vida mais fácil, por não precisarem trabalhar, enquanto estudam.
    Seus equipamentos culturais lhes proporcionam fácil acesso às Universidades. Esta é a cota de brancos. Esta não se discute.

  29. Deise Benedito Reply

    Querida, vc simplismente dá um show nas suas reflexões, nas suas analises, sua pesquisa para fundamentar seus artigos realmente mostram toda a sua competencia compromisso e seriedade com a sua e a nossa ancestralidade. Vc atinge pontos que muitos, Profs.Drs.que vivem sob a impáfiados títulos acadêmicos não se atraveram a escrever.Claro! que não me refiro de forma generalizada, pois existêm inúmeras pessoas comprometidas e competentes no cenário academico, que buscam a equidade e a justiça aqueles que secularmente foram injustiçados por “ousarem” ocupar outros “espaços”.Se atreverem a sair do processo da favelização, e adentrar em um outro espaço reservado aos “eleitos”.
    Parabens, te admiro pela coragem, determinação, competência, ousadia e principalmente pelo compromisso, de ir além do que nossos olhos teimam em ver, vc prõe atraves de suas reflexões “enxergar”
    abcs.
    Deise Benedito- Sua Fã incondicional.

  30. Paulo Reply

    Argumentos muito bem construídos, escrita excelente, enfim, um artigo com grande poder crítico. Sou a favor das cotas há algum tempo já, não sei precisar bem, mas antes admito que engolia o argumento de cotas por questão de renda. Não por qualquer opinião da grande mídia (já que não a acompanho de forma alguma, é muita pilantragem e desinformação que me deixa desolado – pra não dizer com ânsia de vômito), mas porque a questão da exploração econômica da sociedade de classes sempre foi uma questão central para mim (e ainda é). No entanto, acabei percebendo que as políticas de cotas raciais de forma alguma é excludente em relação às de renda, portanto este argumento era incosistente. Mas devo dizer que não sou, em última instância, lá um grande apoiador nem das cotas por renda nem das raciais (friso o em última instância, pois no quadro atual são bastante progressistas), pelo motivo de que são lutas dispersas que de forma alguma tocam no ponto fundamental, no cerne histórico dos privilégios de nossa sociedade: o regime de exploração de uma classe sobre a outra.

    Tenho uma visão mais ambiciosa e global: destruir a sociedade de classes, pois esta é a única forma de demolir totalmente os privilégios, a exploração e a discriminação. Apenas quando todos os seres humanos realmente possuírem as mesmas oportunidades de vida, a mesma realidade material, é que a superestrutura ideológica poderá ser cambiada de forma radical e completa.

    Saudações comunistas à luta histórica contra a opressão racial! E parabéns pelo belíssimo artigo!

  31. rafael Reply

    Ana,
    sou branco e classe alta e em toda minha vida sempre convivi em um “mundo branco”, onde os negros que figuravam em minha vida sempre fizeram o papel, invariavelmente de: bedel do colégio (não professor), empregada doméstica, faxineira do escritório, etc.
    Mas nossa, somos tão educados e GENTE BOA, e nos damos tão bem com esses negros, que “como assim existe racismo?”.
    Enfim, foi assim que cresci e tenho bastante certeza de que algum dia, em alguma aula na minha faculdade particular de administração de empresas (não lembro de nenhum negro em nenhuma sala, por sinal) eu devo ter feito algum comentário contra as cotas. Acho que meu pensamento básico, então, era o de que existiam negros ricos e que o correto seriam somente as cotas sociais.
    Hoje, esse me parece um pensamento de querer levar uma exceção da regra(o negro incluído, ao contrario da massa excluída) muito em consideração, quando estatisticamente é quase irrelevante.
    A verdade, básica, é que eu nunca convivi com negros de uma forma em que eles não estivessem em algum nível de inferioridade. Existe um abismo, sim, que é fruto dos anos e anos de escravidão e racismo. E o racismo persiste, em boa parte, pela falta de convivência. Logo, hoje, me parece absurdo ser contra as cotas raciais.
    EXISTE uma dívida histórica, existe uma segregação, existe um abismo entre os negros e os brancos no Brasil, e existe muito racismo (bem, imagino que você imagine o quanto eu não ouço de comentários racistas dos meus pares – fico feliz de eu não ter me tornado racista dentro do ambiente onde vivo, o que não seria lá muito difícil, estatisticamente), logo, NECESSITAMOS das cotas raciais.

  32. FLÁVIO ALOÍSIO CARNEIRO Reply

    AGORA TEMOS UMA PESSOA QUE REALMENTE ESTÁ PREPARADA PARA COMBATER ESSES FILHOTES DO CASAMENTO ESCUSO DA MANIA DE GRANDEZA COM O COMPLEXO DE INFERIORIDQADE GERANDO ETNOCENTRITAS HETEROCÊNTRICOS.NÃO SÃO DOENTES ,MAS ESTÃO ADOECIDOS.COMO DISSE NELSON MANDELA AS PESSOAS NÃO NASCEM RACISTA,OU SEJA,ELAS APRENDEM,MAS NOSSO SAUDOSO PAULO FREIRE DIZIA:O PRIMEIRO MANDAMENTO DA EDUCAÇÃO É: QUERER APRENDER.MANDELA SEMPRE DISSE QUE SE AS PESSOAS APRENDERAM A SER RACISTAS ,ELAS PODEM DESAPRENDER.ENTÃO FICA ESSES EXEMPLOS PARA AS PESSOAS QUE SABEM QUE O RACISMO FOI UM INVENÇÃO DA “SANTA IGREJA CATÓLICA”E COMO DISSE NOSSO QUERIDO WILSON PRUDENTE SOBRE “O SISA” IMPOSTO DE CINCO POR CENTO SOBRE CADA NEGRO QUE NEGOCIADO COM OS ESCRAVISTAS CRIMINOSOS DAÍ CREDITARMOS A STIVE BICO A NOSSA CONSCIÊNCIA NEGRA,OU SEJA,NÓS ESTAMOS POR NOSSA CONTA.O TEXTO DESSA NOSSA QUERIDA GUERREIRA , ME REMETEU A UMA OUTRA MULHER GUERREIRA:ÂNGELA DAVIS E AQUELA VEREADORA DA BAHIA QUE AGORA ME FUGIU O NOME.VIVA AS MULHERES QUE HAVERÃO DE FAZER DO SÉCULO 21 O SÉCULO EM QUE TODOS OS ALGOZES DEVERÃO SER ENVIADOS PARA OS QUINTOS DOS INFERNOS.AXÉ-IAIÁ,AXÉ-BABÁ.

  33. Taís Ferreira Reply

    Adorei ler o texto. Muito esclarecedor. Indiquei aos meus alunos da graduação.

  34. Waldimiro de Souza Reply

    Na gestão de 1986 a 1988 do Ministro da Cultura Celso Furtado, aconteceu uma audiência com o Secretário de Cultura Gilberto Gil do prefeito Mario Mello Kertész e os fundadores do conselho do memorial Zumbi; Carlos Moura, Jornalista Justo do RJ e Waldimiro de Souza. Com objetivo de um projeto de reconstrução do pelourinho, da sua historia e apoio a população negra e pobre que habitavam em residências sem condições básicas. Naquele momento havia um clamor da população negra brasileira. Para surpresa de todos, o esforço para conquistar as verbas locadas para prefeitura de salvador na época viram pó. Alguém embolsou todo esse esforço coletivo da nação brasileiro e exterior. Ficaram evidente as palavras do ministro da cultura Celso Furtado, que o negro não tinha representação política, para fazer valer e cumprir um empreendimento dessa magnitude.
    Chegou a hora de modificar a estrutura dos partidos políticos que tem como base o conceito racistoide. O poder judiciário no processo da juridicidade há de gerir o estado republicano o poder civil pela democracia plena. 82% da população da Bahia são de negros e os mesmo não se elegem para o executivo e legislativo e quase não há negros no poder judiciário.
    OnegronoBrasil1980.blogspot.com está solidário ao Doutor Fernando Conceição, jornalista, professor da UFBA, biografo da obra de Milton Santos e organizador do projeto grupo de pesquisa permanecer Milton Santos que foi intimado pela Justiça da 10ª zona Eleitoral da Bahia, conforme e-mail que recebemos do mesmo;
    “Meu advogado ( tel.71.8739-5607) tem até o meio dia desta quarta-feira, dia 5, para apresentar nossa defesa. Ou, conforme despacho da juíza Maria Fátima Monteiro Vilas Boas, poderei pagar multa diária de R$ 5.000,00. É assim que “Salvador tem jeito”.”

    Parabenizamos pelas suas publicações do Jornal da Tarde da Bahia e pelo seu grande site http://www.fernandoconceicao.com.
    Conforme o clamor do poeta Castro Alves “A Deus e aos céus” compreendemos que o homem não alcança a capacidade e compreensão do poeta.