Resenha de “Manuscrito encontrado em Accra”, de Paulo Coelho (com um adendo)

Redação
Por Redação agosto 17, 2012 09:39 Atualizado

Na esteira da polêmica acerca das declarações de Paulo Coelho sobre Ulysses, a Folha de São Paulo me convidou a resenhar o último livro do Mago, Manuscrito encontrado em Accra. Aceitei o convite. Segue abaixo o texto da resenha e, logo depois, um adendo que elabora um pouco mais um tema que não coube no exíguo espaço dos 2.500 caracteres que eu tinha.

Nos últimos dias, dois acontecimentos envolveram o nome de Paulo Coelho com muita repercussão. Depois de sua declaração à Folha, de que Ulysses fez mal à literatura e cabia em um tuíte, Coelho foi violentamente atacado. As reações não vinham da cultura erudita entrincherando-se na autodefesa, mas de comentaristas que rendiam culto a um monumento como forma imaginária de comunhão com ele. Curiosamente, a insistência no valor de Ulysses e na falta de valor de Coelho era contraditória com a própria obra de Joyce que, apesar de eruditíssimo, nunca escondeu seu gosto pela cultura popular. Em seguida, coerente com o que defende, Coelho deu apoio ao blog “Livros de Humanas,” processado pela Associação Brasileira de Direitos Reprográficos por compartilhar PDFs de livros, muitos já esgotados.

Os episódios são relevantes à luz do novo livro do Mago, Manuscrito encontrado em Accra. De certa forma, o livro é sobre o que estava em jogo nas polêmicas sobre Joyce e o compartilhamento de PDFs: como se erigem os monumentos? Quem tem direito de reproduzir o quê? Um manuscrito do século XIV, encontrado em Accra no século XX, traz as respostas de um copta do século XI a perguntas ouvidas em Jerusalém, às vésperas da invasão cruzada.

A captura de Jerusalém pelos cruzados em julho de 1099 seria acompanhada do massacre de quase toda sua população judaica e muçulmana. No mesmo átrio em que, um milênio antes, Pôncio Pilatos havia entregue Jesus, o copta reúne concidadãos para dissertar sobre o futuro, o amor e a derrota.

O jornalismo e a crítica têm se dedicado com mais frequência a achincalhar Coelho do que a cumprir o seu papel, que é entender o objeto. A versão mais comum para o sucesso de Coelho (é “autoajuda barata”), ainda que fosse verdadeira, não explicaria nada. De inúmeros escritores poder-se-ia dizer o mesmo, mas só Coelho fala a milhões. Por quê?

Manuscrito encontrado em Accra oferece uma explicação: Coelho traduz, para a literatura comercial moderna, o gênero da parábola. De larga tradição, dos Evangelhos à contística didática medieval, a parábola não se reduz à autoajuda porque nela opera o discurso ficcional, desestabilizando a aparente univocidade do ensinamento. Daí o fascínio de tantos leitores: simples e compreensível, a parábola preserva uma dose de mistério. A fresta que se abre entre a alegoria e seu sentido fundamenta uma das lições do copta: a circulação infinita dos relatos, negada tanto pelos defensores das hierarquias culturais como pelos guardiões da propriedade privada sobre os textos.

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Adendo: A quem quiser se dedicar a entender o porquê do grande sucesso de Paulo Coelho para além dos clichês “ah, vende mundo porque é autoajuda barata” (como se não se pudesse dizer isso de pilhas de escritores que não atingiram 0,1% do sucesso do Mago), eu sugeriria que se aprofundassem na questão formal que a resenha só teve espaço de mencionar brevemente: a operação da parábola. Mais conhecida entre nós pela sua presença nos Evangelhos, a parábola (do grego: lançado ao lado) tem larga tradição na literatura ocidental. Floresceu à toda na literatura medieval e particularmente, no caso da literatura hispânica, em um gênero, a contística didática. El conde Lucanor, de Don Juan Manuel, talvez seja o espécime mais ilustre desse corpus.

Vários estudiosos da contística didática medieval – penso aqui nos ótimos trabalhos de María Rosa Menocal, por exemplo – têm demonstrado algo bem interessante nos últimos anos. A aparente univocidade do ensinamento transmitido pela parábola (e, no caso d’ El conde Lucanor, essa aparente univocidade é ainda mais destacada que em Paulo Coelho, posto que a moral da história está separada do texto, em itálicos) é poderosamente desestabilizada pelo discurso ficcional, que introduz uma fresta de ambiguidade, quando não de contradição, ali onde só se vislumbraria, à primeira vista, um conto exemplar acompanhado de seu ensinamento. Ah, mas El conde Lucanor é uma grande obra do cânone ocidental, e Paulo Coelho escreve “autoajuda barata”, retrucará o crente na naturalidade, na estabilidade e na imortalidade das hierarquias culturais, cegado até mesmo para o óbvio parentesco entre as textos.

O que esse crente não percebe é que os eixemplos d’El Conde Lucanor eram o Paulo Coelho de sua época, assim como Shakespeare, Dostoiévski e Stevenson também foram cultura do populacho em seu momento. Só depois, muito depois, na maioria dos casos, eles se transformaram em monumentos eruditos. A distinção entre cultura popular e cultura erudita não depende, portanto, de alguma característica própria, essencial, imanente dos textos. Ela se ancora nos mecanismos de produção, circulação, reprodução e consumo das obras – mecanismos que, evidentemente, se transformam com o tempo. Já está demonstrado, por exemplo, com sólida pesquisa etnográfica, que a miríade de distinções que realizam os ouvintes de música popular não é menos complexa, multifacetada e rigorosa do que aquelas que realizam os consumidores do corpus de peças musicais europeias dos séculos XVIII e XIX que viemos a conhecer, umas poucas décadas atrás, como “música clássica”. Quem quiser saber um pouco mais sobre como eu vejo esses processos de valoração em estética, pode consultar a longuíssima peroração sobre o assunto que publiquei na Revista Brasileira de Literatura Comparada.

Em outras palavras, se quiser invocar a aparente naturalidade de alguma hierarquia estética para desqualificar Paulo Coelho, fique à vontade, mas não imagine que, com isso, você estará entendendo alguma coisa, porque essas hierarquias não são tão naturais como podem lhe parecer à primeira vista.

Redação
Por Redação agosto 17, 2012 09:39 Atualizado
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20 Comentários

  1. Gabriel Cavalcante agosto 17, 11:21

    Perfeito! Pessoalmente ostento as falhas de caráter de nunca ter lido nada dos dois autores… mas a análise e os pontos que você colocou estão muito claros e fecham a questão (ou deveriam).

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  2. Uélintom agosto 17, 15:23

    Um comentário de cunho estritamente pessoal. Meu sogro, pobre e analfabeto, adora as músicas cantadas por Raul Seixas. Meu primo (ele não conhece meu sogro), que é diretor comercial de uma grande emissora de tv a cabo e que já morou na europa, adora as músicas cantadas por Raul Seixas. Meu sogro diz que gosta porque Raul fala de coisas vividas pelos mais pobres, sobre suas vidas e suas desilusões (com a cidade grande, por exemplo), gosta da música e faz uma análise racional da letra. Meu primo simplesmente diz que adora o som, que sempre ouve nas férias, sob o capacete, quando passeia pelas estradas dos “States” em sua Harley Davidson. Acho que o texto esclarece muita coisa sobre isso – além de não ser coincidência o fato de Paulo Coelho ter feito muitas músicas de sucesso com Raul Seixas.

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    • Ramiro Conceição agosto 17, 20:22

      Numa boa, Uélintom… Gostaria até que fosse diferente, mas não é!

      ENTRE FRACOS, FRAQUES E FRAUDES
      by Ramiro Conceição
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      Parte I: A SOCIEDADE ALTERNATIVA /1/
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      De acordo com iniciados e entendidos, Raulzito conheceu Mr. Rabbit em 1973. Parece que a “drinving force”, isto é, a força motriz, para tal encontro foi um texto de Rabbit publicado na renomada revista “A Pomba”. Nasceu daí a parceria que, em pouco tempo, se tornaria referência no cenário cultural brasileiro.
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      À época, Mr. Rabbit era conhecedor do famosíssimo “Sistema Thelêmico de Realização Espiritual” cujas bases teóricas foram formuladas pelo inglês Aleister Crowley, que será abordado mais a seguir.
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      À guisa de conhecimento, deve-se esclarecer que “thelêmico” advém de “thelema” que, em grego, quer dizer vontade; ou seja, pode-se afirmar que, sem ter aqui um excesso de rigor, o “sistema thelêmico”, ideologicamente, convoca cada indivíduo social ao exercício do descobrimento e da realização de sua vontade. Pois bem. Em tal contexto, Mr. Rabbit doa, ensina, seu conhecimento a Raulzito.
      Parece que é desse período algumas composições: por exemplo, “A Maçã”, “Tente Outra Vez” e, muito provavelmente, outras, que seriam assinadas por Mr. Rabbit, Rauzito e algumas por Marcelo Motta; é também do mesmo período “Novo Aeon” com contribuição autoral de Cláudio Roberto, que viria a ser um ilustre e renomado compositor da música popular brasileira.
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      Ora, não devemos esquecer o que estava a acorrer no Brasil, quando tais artistas estavam em processo de desenvolvimento de sua arte: a ditadura de 64. Há notícias que Mr. Rabbit, por representar um efetivo perigo ao sistema, foi preso e torturado nos meandros escuros do exército. Não querendo polemizar e admitindo que tal fato tenha acontecido, devemos sempre tirar lições da História: como ensinou o velho Marx. Quer dizer, se tal fato foi verdadeiro, então, essa é a prova cabal que a “ditabranda”, além de bruta, foi burra!; pois o perigo efetivo, que Mr. Rabbit representava à ordem estabelecida, tinha a mesma dimensão e profundidade, por exemplo, do Pato Donald refletindo e discutindo diante das massas “O que Fazer?” de Lenin.
      Creio que, do exposto acima, agora está às claras os alicerces reais sobre os quais a “Sociedade Alternativa” foi proposta; se tudo continua nebuloso foi por que tudo que partiu de tais seres sempre foi muito nebuloso… Portanto, por questão metodológica, devemos passar agora aos fundamentos teóricos do “Sistema Thelêmico de Realização Espiritual”.
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      Parte II: ALEISTER CROWLEY, O MAGO DE MIL FACES /2/
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      Para compreender a complexidade filosófica descrita anteriormente, faz-se necessário responder uma pergunta: quem foi Aleister Crowley? Resumidamente, Edward Alexander Crowley foi um inglês que viveu nas primeiras décadas do século passado. Em seu tempo foi conhecido por diversos epítetos: Allick; Anticristo; Bruxo de Thelema; Conde Vladimir; Diabo; Lord Bolekine; 666; O Mago de Mil Faces e muitos outros.
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      Crowley foi um amador em tudo que fez, principalmente em de três atividades: foi alpinista; jogador de xadrez; e chegado à magia negra. Crowley era um megalomaníaco inveterado; na psicanálise seria considerado um doente sob um paroxismo de onipotência: se julgava ser a reencarnação de Edward Kelly, astrólogo da rainha Isabel I, que viveu no século XVI; tinha alucinações de profeta: cria, por exemplo, que a irmã de um de seus amigos era a Dama Escarlate, que é descrita no Apocalipse; acreditava ser também a última encarnação do conde Alessandro di Cagliostro, fundador em Viena da Ordem Maçonica Egípcia (paro por aqui, pois creio que já basta!; e que já esteja descrita suficientemente a insanidade de tal personagem…).
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      Devo relatar que, não por culto à MINHA VONTADE mas por impulso à NOSSA VERDADE COLETIVA, durante a vida de tal “mago”, aconteceram coisas pitorescas. Por exemplo: por ser chegado ao álcool, às orgias e às drogas (cocaína, heroína e mescalina) teve influência sobre Aldous Huxley que, no período, escreveu “Céu e Inferno” e “As portas da percepção”.
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      Aproximando-se de nossa cultura ibérica, deve ser mencionado que o “mago” conheceu também Fernando Pessoa. Como sabemos, o nosso poeta foi um esotérico, mais precisamente um astrólogo. Pois bem, Pessoa descobriu um erro na carta astrológica de Crowley e, por ser fluente em inglês, enviou uma correspondência ao dito cujo, que era editor e proprietário da “Mandrake Press”. Obviamente, o mandrake inglês se mostrou interessadíssimo e propôs um encontro.
      Nosso mago desembarca em Lisboa em 2/9/1930. Por aproximadamente 20 dias, o mandrake se hospeda em dois hotéis: no “L’Europe” e no “Paris”. Finalmente, o encontro se dá em 7 de setembro (juro!!!). Palavras vão, palavras vem…: Pessoa se sente seduzido pela acompanhante do mago inglês, uma tal de Harini Larissa. Mas acontece algo extraordinário em 25/9/1930: nosso mandrake desaparece de Lisboa, não pagando nenhum dos hóteis utilizados. Confusão!… Surge um boato de suicídio, nunca claramente esclarecido; contudo, muito depois, é desvendado o “mistério” numa carta de Pessoa destinada a Gaspar Simões (em 1/11/1931) que diz: “ Crowley, depois de se suicidar, passou a residir na Alemanha”.
      O nosso mandrake, na verdade, era um foragido dos credores da falida “Mandrake Press”, na Inglaterra!!! Após diversos estelionatos culturais na Alemanha, o mago de mil faces volta ao Reino Unido, onde até o seu fim trágico, já sem nenhum amigo, vive de bicos: feitura de horóscopos; vende pílulas de um elixir da vida, que são fabricadas com seu sêmem. Nosso mandrake morre em Hastings; e dizem que suas últimas palavras foram: “eu estou perplexo”!
      Qualquer verossimilhança com o trágico fim de um certo roqueiro, que no fundo, no fundo, desejou sempre ser um previsível elvispresleybrasileiro, foi intencional!.
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      Será que fui claro, ou ainda é preciso rabiscar volpianas bandeirolas coloridas?
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      PS: Volpi foi um magistral pintor, para que não reste qualquer dúvida.
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      Referências
      /1/ Diversas fontes na rede: é só digitar no Google “ Paulo Coelho e Raul Seixas” e ler paciente e paulatinamente.
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      /2/ José Paulo Cavalcanti Filho. “Fernando Pessoa, uma quase autobiografia”. Editora Record Ltda, pp 519-526. 2011.

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  3. Jair Fonseca agosto 17, 17:24

    Concordo plenamente, Idelber, apesar de não ter lido esse livro de Paulo Coelho! O título remete obviamente a “Manuscrito encontrado em Saragoça”, romance gótico do polonês Jan Potocki, escrito em francês, publicado na Rússia e cuja estória extraordinariamente descabelada se passa na Espanha. Seria até uma obra “pós-moderna” e “multicultural” da “globalização” se não tivesse sido escrita logo no início do século XIX. E isso me faz notar outra característica importantíssima de Paulo Coelho, nessa revisão crítica que fazemos de sua obra: é um dos pouquíssimos autores brasileiros que se dedicam à literatura fantástica, e de modo bem interessante, como mostra o Idelber: através da parábola, uma das modalidades da alegoria.
    Ao contrário de outras literaturas latino-americanas, não temos tradição do fantástico na literatura, nem no cinema – a exceção é Zé do Caixão, outra figura cuja vida-persona-obra costuma ser execrada por muitos de nossos supostos bem-pensantes.
    Paulo Coelho não só faz literatura fantástica, mas também, além de conseguir sucesso no país e se projetar no mundo, articulou isso ao “horizonte de expectativas” de quem estava à mercê dos livros de auto-ajuda e curtia literatura de entretenimento barato (a “pulp fiction” brasílica: livrinhos de faroeste e de “romance”, tipo “Sabrina”). Literatura solenemente desprezada pela crítica e pelos mesmos supostos bem-pensantes, que ao medir os outros por si se colocam, claro, em um patamar bem superior, mas nada fazem para mudar seu status e o dos outros. A exceção na crítica brasileira, como lembrado no post anterior, é a de Zé Paulo Paes, que significativamente não era acadêmico nem jornalista.

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  4. Leo agosto 17, 17:54

    Só este trecho explica tudo, foi “na lata”:

    “A distinção entre cultura popular e cultura erudita não depende, portanto, de alguma característica própria, essencial, imanente dos textos. Ela se ancora nos mecanismos de produção, circulação, reprodução e consumo das obras – mecanismos que, evidentemente, se transformam com o tempo.”"

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    • marcia wirthmann setembro 2, 01:22

      Parece que atacar Paulo Coelho é atacar um monumento Nacional. Cultura popular é formada pelas expressões do povo, há o que perdura, finca raízes, deixa marcas. E há os “moranguinhos do nordeste” coisa fabricada como os “ais ais ais”, e “ui, ui, uis” ,que passam, São fábrica de fazer dinheiro. Paulo Coelho, assim como a onda vampiresca, ou os romances encaixadinhos tem seu público que lê, empresta o livro, vende ou troca e fim. Artigo de consumo.

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      • Idelber Avelar setembro 2, 02:56

        Marcia, a sensação que eu tenho tido, lendo a imprensa brasileira, é exatamente a oposta. Não me lembro de Paulo Coelho jamais tratado como “monumento nacional” nos jornais e revistas brasileiros. Pelo contrário, a tônica tem sido a ridicularização.

        Quanto à sua crença numa separação fácil e tranquila entre a cultura verdadeiramente popular e as fábricas de fazer dinheiro, eu confesso que morro de inveja dela. Sério mesmo. Eu adoraria viver num mundo em que eu soubesse catalogar direitinho, de um lado ou de outro, o vaneirão, o tecnobrega, a música caipira, as modas de viola, as toadas, o funk carioca: um mundo em que essas coisas caísssem diretinho, de um lado ou de outro da dicotomia, do lado do bem ou do lado do mal. Deve ser bem feliz viver num mundo assim.

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        • Marcia Wirthmann setembro 6, 01:36

          Nos dois últimos meses tenho tido uma convivência com a a tv aberta, novelas, e os”astros” populares e as musica que nos persegue pelo dia. Ando vivendo em um Brasil muito neurótico, onde a criminalidade é o centro das reportagens, das chamadas. Neste Brasil, não existem analistas econômicos, não existe uma analise das notícias relevantes ou polêmicas. Ao “expectador” cabe assistir e acreditar. Sou frequentadora assídua de livrarias, e Paulo Coelho é um escritor estimado por seus leitores, pela Rede Globo, e é queridinho pelas livrarias. Vende em bancas de jornais, aparece na revista Caras, Contigo assiduamente, sendo impossível não notar.
          Quanto a Paulo Coelho, afirmar que em uma leitura a contragosto, feita em um período escolar, deduziu que Ulisses de Joyce dá um “tuiter “., ou é uma infantilidade, ou arrogância.
          Minha área de atuação é Artes,Filosofia com um carinho especial por Heidegger.Tenho um apreço pela cultura popular,mas aquela onda do Funk de uns dois anos atras, da cachorra, da droga, do besteirol, me deprime. Merece ser estudado e compreendido, Nem tudo que é popular é bom.
          O Paulo Coelho é um autor, que fez uma declaração desastrada. Como observadora é minha opinião.

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  5. Ramiro Conceição agosto 17, 18:21

    Numa boa, Idelber.
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    Tentei ler seriamente Paulo Coelho. Fui até onde consegui: “O Diário…”; “O Alquimista”; e um livro que, neste instante não lembro o título, mas que pensei em adquiri-lo: porém, na livraria, só consegui ler até, aproximadamente, a página 80… Infelizmente não deu (num tuite, o resenharia assim: “Ah, sim, é uma história sobre uma vencedora puta por vocação! Pitoresco… Ponto”). Lembro que, naquela tarde de sábado, me ocorreu durante a leitura uma terrível pergunta: mas e a HISTÓRIA DE BILHÕES DE MULHERES QUE FORAM MASSACRADAS POR 10.000 ANOS DE CIVILIZAÇÃO?
    .
    A resposta a tal pergunta não tem nada de pitoresco, mas de GROTESCO. Depois, me apareceu uma segunda pergunta: que tempo é esse onde tem valor o pitoresco que nasce, cresce e morre sobre um substrato histórico onde impera o grotesco? Depois, me apareceu uma terceira pergunta: como preservar a continuidade da inocência sagrada de nossos filhos pequenos? Aí, chorei profundamente… Rezando um Pai Nosso…(que fique bem claro: não pertencerei até a minha morte a qualquer tipo de agremiação religiosa).
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    Bem, além disso, durante anos, tenho acompanhado Paulo Coelho em seus muitíssimos textos na grande mídia. Ás vezes durante meses não o leio, na esperança que alguma coisa tenha mudado, mas não: é sempre a mesma ladainha: um mestre, um sábio, uma terra distante, uma lenda e etc., depois uma liçãozinha de moral e ponto final. Tudo se passa como se Paulo Coelho fosse o dono de uma padaria em que a receita dos pães a serem vendidos está estabelecida; é absoluta, estanque, não há transição ou em poucas palavras: uma ode ao paroxismo da alienação; contudo, o Universo continua em expansão!
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    Se eu tivesse qualquer pedigree para dar algum conselho, a um autor que vende milhões de livros nesse mundo, seria o seguinte: cara, se você efetivamente acredita na vontade de sua pena, então, por favor, fique dez anos sem publicar; esqueça a grande mídia; e deixe nascer aquele derradeiro, tomara que definitivo! (Goethe levou 60 anos para chegar ao Fausto… E Pessoa morreu tragicamente sem concluir sua poética…: não há aqui nenhum idealismo sobre a arte: esse é o preço da literatura, se justo ou não: não é a questão!). Vale a pena? (o nosso mais amado Português parece que já respondeu…).
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    Quanto ao Ulisses de Joyce. Levei um ano para lê-lo… Briguei. Mandei Joyce tomar no cu. Pisei no livro. Abandonei-o. Retornei. Cheguei ao fim… Percebi que eram diversos livros e diversos autores: num só. Percebi que a personagem principal era a linguagem. Achei extraordinários dois capítulos, o 17 e 18: o primeiro, por provar que é possível escrever um romance através da dialética; o segundo, pelo sucesso conseguido em expressar através da escrita o fluxo do pensamento. Percebi também em muitas passagens a origem de textos de muitos autores: por exemplo, a certa altura do livro Joyce descreve um cachorrinho que enterrava e desenterrava ossos, pois bem Elliot, em seu memorável “A Terra Devastada”, se utiliza da mesma figura de linguagem para descrever a tragédia humana acontecida no século XX; percebi também numa certa passagem algo que poderia ter inspirado Drummond em seu famosíssimo poema sobre a pedra no caminho (não tenho qualquer informação se isso foi possível; contudo li: estava lá no Ulisses). Percebi também que toda a linguagem direta usada, hoje, na publicidade dirigida às massas, estava lá. Percebi também a profunda revolta contra o domínio inglês sobre a civilização irlandesa. Percebi também a crítica ácida, principalmente, contra a Igreja católica. Percebi também o amplo domínio, em todos os campos da linguagem, que Joyce possuía. E percebi, principalmente, que Joyce era um erudito em semiótica: creio que o Ulisses poderia ser considerado um quadro de Miró feito de palavras. Contudo, qual a minha grande crítica ao livro de Joyce: o rigor da forma, do estilo, atrapalhou o fluxo dinâmico do livro. Para mim, centenas, centenas e centenas de parágrafos poderiam ser eliminados sem que se perdesse a originalidade; por exemplo, para que o leitor entendesse a crítica à Igreja Católica, não seria necessário ler, praticamente, uma página inteira a listar somente nomes de santos, para mim, tal opção estética foi um erro; porém isso é um julgamento estético e, portanto, alguém, com todo o direito, pode achar o contrário. Mas gostaria de deixar claro: o que mais me comoveu foi conhecer o contexto em que Joyce escreveu tal obra, ou seja, Joyce levou até as últimas consequências, inclusive materiais, seu TRABALHO literário à superação da mediocridade contida em seu tempo; só por isso: ele deve ser lembrado, mas jamais cultuado. Portanto, creio que Paulo Coelho foi leviano em seus comentários sobre Ulisses.
    .
    Para finalizar, fica um poema:
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    .
    RASCUNHO
    by Ramiro Conceição
    .
    .
    De tudo
    que é vivido
    que fique o sumo
    que canta ao mundo.
    O resto é cena
    não vale a pena
    porque é mudo.
    Se maldito ou bendito,
    julgue quem leu o escrito:
    o tempo é iiiiiisssssssOO

    .
    .
    PS: qualquer erro gramatical, por favor, me desculpem.

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  6. Bruno agosto 17, 23:53

    Acho engraçado essas tentativas de ‘relativizar’ cânones, essas coisas. Como se tudo fosse tão somente política e relações de poder. Papo de bastardos de Bourdieu. É por isso que temos hoje poucos escritores relevantes mesmo.

    Só queria saber se a patota das esquerdinhas culturais sabe o que Shakespeare quis dizer em A Tempestade, quando Próspero quebra o cetro. Queria saber também se se faz Filosofia sem ler Platão, Descartes, Kant, etc.

    Eu, de minha parte, sei que não existe essência. Mas isso é algo que nunca irei encontrar em um Ferréz ou Jorge Amado da vida, que são escritores fracos justamente por engolirem o senso comum a respeito do assunto que estão abordando.

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    • Idelber Avelar agosto 18, 10:23

      Deixe-me tentar entender: temos hoje “poucos escritores relevantes” (sério? você procurou bem? tem certeza? poucos em comparação com qual época? o que é relevância?) porque críticos literários, historiadores, sociológos e filósofos pesquisaram e estabeleceram que a distinção entre cultura erudita e cultura popular não é intrínsica, imanente, mas produto de processos de circulação e reprodução. E que Shakespeare, por exemplo, era cultura do populacho no seu tempo.

      Essa pesquisa é responsável pelo fato de termos “poucos escritores relevantes” (concesso non dato). Realmente, faz o maior sentido! Parabéns, você parece ter entendido Shakespeare, Kant e Descartes direitinho!

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      • Bruno agosto 21, 20:48

        Entendi sim, caro Idelber. Tanto é que nem procuro mais fazer parte das pesquisas contemporâneas de Letras e seus modismos, que tratam com a mesma importância um texto de Kafka e Loiq Wacquant. Que criticam levianamente Michel Foucault, às vezes confundindo-o com um marxista.

        E, só pra constar, o que Shakespeare quis dizer com essa parte da peça A Tempestade tem tudo a ver com o que você colocou no seu texto. É, que, dada a situação atual da Academia (Acamerdia fica mais em conta), respondo com o recurso que tenho: o silêncio.

        Passe bem!

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  7. Lucas agosto 18, 20:53

    Como tudo que Idelber Avelar escreve, muito bem embasado este texto cá exposto. Contudo, continuarei sem ler Paulo Coelho: a vida é curta demais, não dá para conhecer toda a literatura, de modo que é mais seguro gastar o tempo com aqueles outrora populares e espinafrados mas hoje canônicos, caso de Dostoievski, chamado por seus contemporâneos, quando intentavam espinafrá-lo de “Cavaleiro da Triste Figura”.

    Pois é. Ele e Dom Quixote estão por aí, relevantes até hoje, sendo exemplos de opções mais seguras. Deixo Paulo Coelho para a posteridade…

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  8. regis mesquita agosto 19, 10:17

    Amigo, passei anos estudando as parábolas de Jesus. Até criei um site sobre elas: http://www.rmesquita.com.br/

    As parábolas tem sua força psíquica originada da sua relação com o cotidiano (real ou fantasioso) das pessoas; assim, quem escuta pode “criar em cima da criação”. Explico usando o Paulo Coelho: no livro “O Aleph” existe uma mulher apaixonada com quem ele bebe, fuma, flerta, fica pelado, mas não transa. A quase-amante é a reencarnação de uma vida passada e também existem alguns elementos paranormais. Com este enredo o autor consegue trazer para o cotidiano das pessoas a questão da espiritualidade sem culpa, aliviando a existência das pessoas deste peso. O extraordinário é colocado como um prêmio para quem se entrega ao momento. Neste sentido cabe na vida de todos e cada um reproduz o ensinamento com relativa facilidade. Daí o sucesso dele.

    Em Jesus acontece o mesmo. Nas parábolas são ressaltadas cenas cotidianas, fáceis de entender para as pessoas da época. Em cada uma delas existem a exaltação do momento presente e o rompimento com muitas das regras que o judaísmo tradicional impunha às pessoas.

    Portanto, as parábolas são (geralmente) formas de simplificar a vida, o que gera muita identificação de quem lê ou escuta.

    Abraço,

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  9. Helder agosto 20, 00:04

    Excelente artigo, Idelber Avela. Parabéns.

    Obs.: María Rosa Menocal foi outra citação extremamente importante.

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  10. Theo agosto 22, 22:52

    Acho tudo muito bem colocado, relativizemos a cultura erudita, os cânones, ok. Mas você contrapôe o ‘argumento’ “ah, vende muito porque é autoajuda barata” à idéia de que muitos tentam mas não conseguem o mesmo sucesso comercial. E é esta a defesa do Paulo Coelho? Ele vende muito porque faz parábolas bem feitas? Portanto, sucesso de vendas é reconhecimento de qualidade?
    Tou com o Lucas: deixo o mago pra posteridade – eles que enfrentem as parábolas.

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    • Idelber Avelar agosto 26, 16:11

      De jeito nenhum, caro Theo, não foi isso o que eu disse. Não há uma linha em meu texto que sugira que sucesso comercial significa qualidade. Leia o texto de novo, por favor. O que ele afirma, e eu repito, é que o sucesso comercial é um fenômeno que tem que ser explicado. Só isso. Se a explicação é (como tem sido) “ah, vende muito porque escreve autoajuda barata”, a crítica teria a obrigação de explicar o porquê de vários outros escritores que usam a linguagem da “autoajuda barata” não terem o sucesso que ele tem. É isso.

      A qualidade literária, o valor estético, é outro departamento, outra discussão.

      Não é muito difícil de entender, né? Um abraço.

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  11. Sônia Aranha agosto 27, 05:03

    Gostei muito de sua resenha, sobretudo, do adendo. Vou ler com cuidado Cânone Literário e Valor Estético:
    notas sobre um debate de nosso tempo
    . Pela leitura ligeira que fiz já percebo que o estudo enriquecerá meu modo de pensar a respeito de literatura.

    Eu concordo com você: é preciso compreender o motivo pelo qual os livros de Paulo Coelho , mundo afora, fazem tantos leitores. Por outro lado, é preciso também compreender o porquê ele é pautado pela mídia como um usurpador.

    Acompanhei a trajetória do Paulo Coelho escritor. Lembro-me perfeitamente do lançamento do ,Diário de um Mago, depois Alquimista e todos os demais livros. E desde o início o escárnio fez parte da crítica e, para ela, Paulo Coelho virou um xingamento , sinônimo de burro, de burrice, sempre no intuito desqualificar um opositor. Mesmo quando o mundo comprava os seus livros e os lia e a crítica internacional o elogiava , aqui o nariz enviezado da crítica permanecia.

    Algo a investigar porque a mesma critica que ridiculariza Paulo Coelho é bem mais condescendente com outros autores de best-seller.

    Para o meu gosto literário prefiro a companhia do Jorge Luis Borges e do Ítalo Calvino a de Paulo Coelho, mas já li alguns de seus livros e gostei. Mas é um gostar momentâneo, ligeiro, como um beijo que roubado. Gostei,pronto acabou ,para nunca mais. Fica apenas uma lembrança longínqua e tênue. Borges não. Borges é um namoro longo de idas e vindas, de releituras constantes , quanto mais relê, mais gosta. O mesmo com Ítalo Calvino com seu apaixonante Palomar , suas cidades invisíveis…

    Fica, portanto, a sugestão para uma próxima investigação: que tipo de provocação a literatura de Paulo Coelho faz na mídia, a guardiã da erudição? Porque é interessante saber o motivo pelo qual uma mídia que flerta todo o tempo com o obscurantismo condene Paulo Coelho.

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Sobre o autor

Idelber Avelar é colunista da Revista Fórum e ex-editor do blog "O Biscoito Fino e a Massa" (http://idelberavelar.com). É Professor Titular de Literaturas Latino-Americanas e Teoria Literária na Universidade Tulane, em New Orleans. É autor de Alegorias da Derrota: A Ficção Pós-Ditatorial e o Trabalho do Luto na América Latina (UFMG, 2003) e Figuras da Violência: Ensaios sobre Ética, Narrativa e Música Popular (UFMG, 2011), e coeditor de Brazilian Popular Music and Citizenship (Duke UP, 2011), entre outros livros. Mantém o Twitter @iavelar

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