O que o mundo perde em Porto Alegre
Alguns elementos permaneceram ocultos nas eleições nessa capital de mais de um milhão de habitantes e em que essas áreas são reconhecidamente muito melhor conduzidas que em qualquer outro lugar do Brasil (um país pobre com uma cidade sui-generis, cujos Índices de Desenvolvimento Humano são Foi um embate entre dois mundos. De um lado o liberalismo econômico, a conservação da exploração do homem pelo homem para acumular lucro. De outro a tentativa de construir um mundo melhor, países afora, inspirada em grande parte na experiência de Porto Alegre, riqueza que muitos porto-alegrenses sequer chegaram a compreender. É isso o que deveríamos ter condições de enxergar neste momento: não o conheceram porque vivem presas de uma fantasia, uma realidade fabricada pelo poderoso grupo de comunicação local e seus grupos econômicos aliados. Não é de hoje que se sabe que o que aconteceu em Porto Alegre nesses 16 anos, e que motivou a vinda do Fórum para cá, é mais conhecido por uma infinidade de pessoas, movimentos sociais, partidos, sindicatos, associações e governos no mundo todo do que pela própria cidade em que Passamos os primeiros seis meses de 2004 na Espanha. Mais de uma vez apresentados, eu e a fotógrafa Ana Paula Stock, não apenas como brasileiros, mas como pessoas que viviam em um lugar especial. Foram muitas as vezes que isso aconteceu. E uma dessas manifestações nos marcou A Davos quente esfriou A partir de 1999, com as manifestações contra a OMC, em Seatle, nos Estados Unidos, o mundo passou a viver um clima de muito mais esperança. Em 2001, Porto Alegre, uma pequena capital de um estado brasileiro, começou a ser vista como a grande possibilidade de transformação do planeta, em algo melhor. Aqui, a Frente Popular chegou ao poder e inventou uma maneira revolucionária de dar poder aos habitantes da cidade. Com o Orçamento Participativo, subverteu regras que não mudavam em termosde democracia desde, provavelmente, a Grécia Antiga. A democracia participativa e diversos outros mecanismos que possibilitaram uma verdadeira apropriação pública do Estado, com arrojadas políticas de inversão dos investimentos, fizeram de Porto Alegre um lugar, realmente, especial. A ponto de, em plena ressaca neoliberal, dos anos que se sucederam à queda do muro de Berlim e a dissolução da União Soviética, Porto Alegre despontar no cenário mundial como a inventora da democracia que a esquerda ainda não tinha, uma democracia de qualidade, com substância, de alto impacto. O mundo ainda marcava passo no neoliberalismo. Porto Alegre andava no futuro, e inclusive com uma democracia própria, em nada lembrando o chamado socialismo real de qualquer outro lugar. Mas o que isso significa? Em todo o mundo, a democracia parecia ser uma coisa do capitalismo e o socialismo era chamado de totalitário. De repente, o mundo descobre que se inventou nos Pampas um tipo de democracia que dava novos ares àqueles que desde que o mundo é mundo lutaram contra a exploração econômica, ambiental, cultural, sexual etc. Descobriu-se no final do século XX que a democracia participativa vinha dando certo numa cidade grande e transformando a realidade de milhares de pessoas, principalmente as mais pobres, nas vilas, mas também chegando às áreas centrais da cidade. Passaram a vir estudiosos do mundo todo não só para saber do OP, mas das políticas ambientais, educacionais (que geraram um outro Fórum que também deve ir embora em breve, o Fórum Mundial de Educação), gerenciais (um tipo de administração transparente e com diversos mecanismos de apropriação pública do Estado nunca experimentados nesta radicalidade, na raiz, mesmo) e outras. O Planeta se admirou (até a ONU reconheceu) e escolheu Porto Alegre como o símbolo da luta por um mundo melhor, como contraponto ao Fórum Econômico Mundial, de Davos, o encontro anual que há mais de 30 anos reúne os donos do poder econômico numa estação de esqui na Suíça e que agora Em janeiro de 2001, Porto Alegre passava a ser conhecida como a “Davos quente”, a atrair a atenção mundial para nossos símbolos, entre eles a Usina do Gasômetro e o Guaíba, conhecidos hoje mundialmente pelo êxito da administração e seus mecanismos que possibilitaram ouvir a comunidade e a Esse comportamento é demais contraditório, absurdo até. Mas se explica um pouco se compararmos o que foi dito pelos jornais daqui com o que outros periódicos do mundo todo falaram de Porto Alegre sobre o que acontecia no mesmo período de 16 anos. O próprio conservador Le Monde assinalou no final do século passado que “a globalização parou em Porto Alegre”. A cidade foi notícia no The New York Times e tantos outros grandes jornais. Foram políticas e programas tão importantes que chegaram a motivar uma frase emblemática no jornal francês Le Monde Diplomatique, pouco ecoada por aqui: “o século XX começou em Porto Alegre”. Só o porto-alegrense não ficou sabendo, por obra e graça de uma imprensa que durante este tempo todo ocupou-se em fazer com que boa parte dos porto-alegrenses não se desse conta do que acontecia a dois palmos de seu nariz. As reiteradas desconexões de causas e efeitos, na tevê, rádios e grandes jornais, e a criação de um jornal sensacionalista fracionaram - estilhaçaram, melhor dizendo - a racionalidade que as transformações colocavam no dia-a-dia dos porto-alegrenses. O resultado foi que todos lá fora sabiam o que se passava aqui, menos uma grande parte do povo pobre e classe média da cidade, facilmente manipulada este ano para votar contra si mesma. Desta vez, o domínio do grupo de comunicação chegou ao absurdo de publicar uma previsão do tempo completamente equivocada, com chuvas e trovoadas no lugar do céu limpo do dia da eleição, com medo de que parte da classe média alienada não ficasse na cidade para votar em favor do seu Pouco mais da metade dos porto-alegrenses (53%) saiu nas ruas na noite de domingo, 31 de outubro, para comemorar a mudança. A outra (47%) chorou, impossibilitada sequer de falar com seus próprios vizinhos e parentes sobre o que realmente aconteceu, não só estes dias, mas tudo o que se De um lado a classe média e sua estética e ética ególatra, auto-referente e alienada por uma programação e vida social mastigada, enlatada para o consumo rápido, fácil e limpo. De outro, as camadas mais pobres e seu cardápio de sangue, futebol e mulheres nuas equilibradas diariamente numa * Escritor, autor de, entre outros, O Mundo das Alternativas – Pequeno |