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Pinga Fogo - participe O cocaleiro
Evo Morales
Neste final de semana 130 deputados e mais 27 senadores, totalizando 157 congressistas, vão escolher o presidente da Bolívia. Concorrem os dois candidatos mais votados na eleição direta realizada em 30 de junho: Gonzalo Sanchez de Lozada (MNR) e Evo Morales (MAS). Lozada (que já foi presidente) provavelmente irá assumir a presidência em 6 de agosto, mas o grande vitorioso já é Evo Morales e o movimento que lhe dá sustentação. O primeiro escalão da campanha de Morales admite o resultado adverso, luta contra ele, mas ao mesmo tempo comemora as vitórias obtidas. O líder cocaleiro não vai ganhar porque o segundo turno no país é decidido por votação indireta e seu adversário conseguiu fechar um arco de alianças que alcança até o seu histórico adversário político Jaime Paz Zamorra (MIR). O avalista do “acórdão” foi o embaixador norte-americano Manuel Rocha. Ele chegou a dizer claramente que se Evo Morales, indígena de 42 anos, dois filhos, líder dos plantadores de coca da região do Chapare, em Cochabamba, fosse eleito, seu país não concederia mais apoio algum à Bolívia. Também circula que o embaixador ameaçou proibir vistos para todos os deputados que nele votassem e teria dito que os EUA poderiam romper relações diplomáticas com o país. Mas o que o candidato Evo Morales realmente representa? Morales é um candidato antineoliberalismo. Essa é a sua principal bandeira. Fez toda a sua campanha dizendo ser contra a lógica econômica vigente no país e se colocando numa posição antagônica à Alca e às privatizações dos recursos naturais do país, como o gás. Também defende uma política de controle da plantação de coca, que é o que garante boa parte da população do país no campo, mas sempre se colocou a favor de uma ação forte de combate ao narcotráfico. É importante registrar que a folha de coca é muito utilizada para fazer chá e para mascar nos países andinos. É claro que é utilizada para a produção de cocaína, mas especialistas garantem que não é refinada no país. Morales defende sua plantação controlada e legalizada e tem propostas concretas para o assunto. Está longe de ser um índio herói ou um personagem folclórico como boa parte da mídia oficial tenta pintar. “Considero de esquerda todos aqueles que estão ao lado dos interesses dos pobres no mundo inteiro, por isso sou de esquerda. Defendo a justiça social e por isso nosso movimento é a garantia de paz na Bolívia”, disse ontem (1/8) em entrevista coletiva para a imprensa internacional da qual a revista Fórum fez parte. E completou: “claro que sou contra a Alca. Se o povo do México que é um país grande hoje sofre com esse alinhamento, imagine a gente. A Alca só vai beneficiar os EUA. São eles que vão ganhar o nosso mercado, não o inverso”, sustenta. Mas por que, mesmo perdendo as eleições, a candidatura de Morales foi vitoriosa? Em primeiro lugar porque o seu partido, Movimento ao Socialismo (MAS) obteve 20% das cadeiras do parlamento. Para se ter uma idéia do que isso representa, é mais do que PT tem no parlamento brasileiro. E o partido já disputa eleições desde 1982. A primeira experiência do MAS foi em 1997 e na ocasião não lançou candidatos a presidência. Outro ponto a ser comemorado pelos partidários de Morales é que suas idéias e as ganharam milhares de adeptos no país e deram novo gás às lutas indígenas da região. O sucesso de Morales certamente vai motivar movimentos semelhantes em países como o Peru e o Equador, por exemplo. Além disso, deu vida a uma aliança dos setores indígenas com os trabalhadores organizados da cidade e a intelectualidade progressista do país, que estava dividida nos últimos anos. O MAS conquistou os setores organizados porque defende um governo com base nos movimentos sociais organizados e uma institucionalização do Estado, ou seja, acabar com a política de nomeações e indicações em concursos públicos, que é o que ocorre hoje no país. É claro que muita coisa ainda vai acontecer, talvez até, quiçá, neste próximo fim de semana, mas não é à toa que estão pintando esse indígena que na infância trabalhava numa padaria da 1h às 5h da manha ganhando como pagamento o café da manhã, como o espírito do mal. Ele se tornou uma real ameaça ao estabilishement boliviano e ao alinhamento submisso do país ao projeto continental dos EUA.
*Renato Rovai é editor da Revista Fórum
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