O presidente nacional do
PT, deputado federal José Dirceu (SP), tem fama de estar sempre um estágio
à frente das circunstâncias. É um estrategista. Enxergar longe para ele,
talvez seja também um hábito herdado da liderança estudantil, exercida do
alto de caixotes, agarrado a postes, janelas, capôs de carros… O orador
inflamado dos anos 60, forjado na luta contra a ditadura, ganhou cabelos
brancos, óculos e uma agenda de telefones recheada de números influentes e
poderosos, entre eles o do presidente da República. A agenda engordou, mas
o discurso manteve o estilo: difícil não incluir uma frase, um período, um
certo apelo ao sonho e à emoção.
A principal diferença
agora é que o sonho não é mais uma palavra de ordem lançada ao oceano do
futuro. Ele tem prazo de validade e a contagem regressiva aproxima-se
nervosamente do desfecho. A menos de 20 dias das eleições presidenciais de
2002, na qual Luiz Inácio Lula da Silva desponta como franco favorito,
José Dirceu analisa a ofensiva de José Serra contra o candidato e o PT. E
desbasta o que considera uma monstruosa engrenagem posta em prática no
horário eleitoral para ocultar a História e reescrever alguns de seus
principais capítulos.
Na cirurgia do vale-tudo,
segundo o dirigente do PT e coordenador nacional da campanha Lula
Presidente, atribui-se papel central a um coadjuvante e desqualifica-se a
liderança verdadeira sob o manto seboso do preconceito. "Dizer que o Serra
foi mais importante que o Lula e o PT na Constituinte, nas Diretas e no
impeachment é uma falsificação grosseira", dispara. "Serra nunca foi
líder. Nem dentro do PSDB ele é. Porque desagrega em vez de unir; divide,
em lugar de somar. O país vive uma hora difícil; precisa de alguém com
trânsito empresarial e popular, e facilidade para o diálogo. Mas,
principalmente, precisa de liderança. O Serra não está preparado para a
Presidência da República. O homem é Lula", aponta José Dirceu.
Confiante no desempenho
do partido que preside há quatro mandatos — e que reformulou, abrindo-o
para alianças e projetos espetados no resgate da questão nacional — o
deputado já se preocupa com o derradeiro e decisivo estágio da corrida
pelo voto: o trabalho individual e coletivo da militância nas ruas até 6
de outubro. "Vamos manter nossa estratégia de serenidade e firmeza. Mas
sem levar desaforo para casa", recomenda. A seguir trechos de entrevista
ao site Lula Presidente, na qual exercita rigorosamente suas próprias
recomendações.
O PT está
sofrendo o segundo ataque especulativo nesta campanha eleitoral. Há dois
meses, acenava-se com a argentinização; agora, tenta-se desqualificar o
partido e seu candidato. O senhor acha que isso coloca em xeque a própria
idéia de alternância no poder?
Olha, a sociedade brasileira repudia esses métodos. Já repudiou a
ação desestabilizadora na onda de terrorismo econômico. Tanto que o Lula
continuou subindo nas pesquisas…
Mas isso teve um
preço?
Exato. Quem pagou caro por aquelas afirmativas "Serra ou o caos"
foi o Brasil. Agravou-se o risco internacional; intensificou-se a fuga de
capitais. No final, a irresponsabilidade foi punida com a crítica quase
unânime da opinião pública.
Como o senhor
avalia o artifício atual de desidratar a candidatura Lula na propaganda
política?
A tentativa de desqualificação do Lula já sofreu uma derrota
também. Primeiro nos tribunais. A liminar do ministro Gerardo Grossi é
paradigmática. Considera injuriosa a propaganda por externar conceitos e
preconceitos que não se compatibilizam com certas garantias
constitucionais. Em outras palavras, Serra, a pretexto de chamar para o
debate, quer introduzir o medo e o preconceito no processo eleitoral.
Ele diz que
pretende puxar o PT para o debate…
O que ele apresenta para debate é risível. Dizer que o Serra — o
Serra? — é mais importante na vida política do país do que o Lula,
convenhamos, é uma tentativa grosseira de reescrever a história. Dizer que
ele aprovou mais emendas na Constituinte é ridículo, porque o PMDB tinha
maioria absoluta na Constituinte. Dizer que no [processo de] impeachment
do Collor o Serra teve um papel mais importante que o do Lula e do PT,
olha, isso salta à vista: é uma falsificação grotesca da verdade. Qualquer
colegial sabe que não foi assim…
O candidato Serra
é exibido como o parlamentar dos compromissos sociais.
O Serra? Dizer que ele defende o emprego, defende garantias
sociais… Ele votou contra. Votou contra várias garantias sociais que foram
aprovadas na Constituição. Basta ver o voto: ele teve nota 3,5 no Diap
[Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar] e o Lula teve 10.
Mas na propaganda
do candidato oficial, a geração de empregos é um item forte.
Vai criar emprego como? É unânime na sociedade que o governo que
ele apóia e fez parte é responsável por uma das piores crises de
desemprego da história brasileira.
O que sobra então
da propaganda?
Se você depurar a propaganda oficial o que resta, em última
instância, é a questão do diploma: a tentativa de desqualificar o Lula
pela via do preconceito.
Mas e a
experiência administrativa?
Os dois foram parlamentares. E o Serra, quando foi secretário do
governo Montoro, deixou como principal marca da gestão o uso da máquina
oficial para se eleger deputado. Isso foi o que ficou na memória política.
A passagem dele pelo Ministério do Planejamento, por sua vez, coincide com
uma das épocas de maior desastre da política econômica brasileira. Está
registrado no IBGE. Não é opinião. Então acredito que a verdadeira
discussão é realmente a tentativa de desqualificar o Lula. De explorar e
semear preconceito entre a população. Por que isso? Porque eles não têm
programa. Não têm o que propor. E não podem debater, verdadeiramente, a
herança que deixaram para a sociedade depois de oito anos...
Mas o que se
alega é que o PT não quer debater.
Essa acusação é um escândalo, porque se tem um partido que fez
curso de admissão, prestou vestibular e foi passado a limpo, no que diz
respeito ao debate de textos programáticas, esse partido foi o PT. Todos
os encontros do PT foram acompanhados pela imprensa. Foi quase uma
devassa. A imprensa chegou inclusive a discutir as divergências entre
diferentes membros da equipe de formulação do programa econômico.
Mas aí era uma
discussão interna?
O Lula discutiu o programa do PT com toda a sociedade brasileira.
Com sindicatos, empresários, ONGs, igrejas. O partido fez e faz um debate
amplo e democrático de suas propostas. Agora, o que nós não podemos é
aceitar a agenda do Serra. Quem dirige a nossa campanha somos nós. Nós não
queremos o voto do Serra. Queremos o voto do eleitor brasileiro.
Ele quer que o
Lula explique os 10 milhões de empregos…
Em questão de empregos, ele não tem argumentos a não ser uma
matemática colegial. Foge como o diabo fugia da cruz da questão
substantiva: Serra foi, e é, do governo Fernando Henrique Cardoso. O mesmo
que deixou a produção de joelhos e os índices de desemprego nas alturas.
Ele esconde isso no horário eleitoral. Aqui sim, caberia responder para a
sociedade: por que esconde pertencer ao mesmo governo que deixou a
sociedade nesse estado de coisas? Por que não rompeu?
Por quê?
Porque ele é o continuísmo. Representa os mesmos interesses que
estão nesse governo. A mesma coalizão. Ele está pronto para ser o
Presidente da República desse modelo. A mesma política e os mesmos homens.
Por isso fala em manter parte do ministério.
A fronteira entre
candidato e máquina é muito estreita?
O Serra usa a máquina do Estado.
Por exemplo?
Por exemplo, nós fomos debater na Escola Superior de Guerra. E
levamos o quê? Levamos propostas. Propostas que nós já defendemos no
Parlamento. O Serra levou o quê? Foi pedir para o ministro da Fazenda
liberar recursos para as Forças Armadas. Isso depois de oito anos de
governo FHC, que deixou as Forças Armadas à mingua… Outra evidência? Quem
pede direito de resposta nos programas do PT não é o PMDB ou o PSDB. É o
Ministério da Saúde, o da Educação, a Petrobras. Quer dizer, é uma coisa
descarada.
Serra disse que
Lula foi à ESG defender a bomba atômica, é verdade?
É mais uma calúnia para jogar uma cortina de fumaça naquilo que
interessa: a política econômica deste governo. O que o Lula falou aos
militares é exatamente aquilo que o Itaramaty tem dito: que o Tratado de
Não-Proliferação de Armas Nucleares que o Brasil firmou não vem sendo
cumprido pelas potências nucleares. Elas fecham os olhos para países que
desenvolveram artefatos nucleares e não permitem a transferência de
tecnologia para fins pacíficos. De outro lado, continuam a se armar e
rasgam, na prática, acordos do passado de controle de armas ou de mísseis.
Foi isso que o Lula disse.
Serra diz que o
Lula tem dois discursos.
Quem é falso, tem dois discursos, é o Serra. Ele agora vem falar
em política industrial. Vem defender a indústria bélica. Ele agora vem
falar em resgatar direitos e garantias da era Vargas. Ele se calou esses
anos todos. Apoiou abertamente o desmonte da política industrial feito
pelo FHC. Omitiu-se diante dos juros altos que quebraram milhares de
empresas. Ficou de maneira oportunista…
Por quê, na sua
opinião?
Porque não tem coragem de romper. Ficou dentro do PSDB e dentro
do governo e agora quer dizer que não concordava com a política. Por que
não rompeu? Quem tem duas caras, na verdade, é ele.
A propaganda de
Serra tende a mostrá-lo como personagem influente na luta pelas
Diretas-Já. É fato?
Nem nas Diretas, nem no impeachment Serra foi liderança decisiva.
Participou sim. Mas como figura de segundo plano. Era mais um deputado.
Essa é mais uma falsificação histórica: querer colocá-lo como liderança
relevante. Eu participei. Fui autor do requerimento junto com o senador
[Eduardo] Suplicy, para instalar a CPI do PC Farias. Participei de todas
articulações. Fui coordenador da campanha das Diretas. Conheço todos os
participantes e as lideranças relevantes desses episódios. E é só olhar os
jornais da época. O Serra? Querer comparar o Serra ao Lula nas Diretas, na
Constituinte e no impeachment é uma falsificação grosseira da verdade
histórica. Forçaram a mão: é grosseiro.
Seu discurso na
greve dos professores causou mesmo a pancadaria contra o Covas, como
sugere o programa de Serra?
Eu fiz realmente aquele discurso em frente ao Palácio dos
Bandeirantes. Foi filmado e utilizado pelo PSDB na campanha para a
Prefeitura de São Paulo, em 2000. E eles perderam. A Marta foi eleita.
Trazer isso agora, explorar a imagem do Mário Covas, que não apoiava o
Serra, mas o Tasso Jereissati [ex-governador do Ceará]; tentar colar o
Covas ao Serra é muito pequeno…
A idéia é mostrar
que o PT é um partido violento?
Evidente. É um método fascista. Uma manipulação porque as pessoas
que agrediram o Covas não pertenciam ao PT, mas a um outro agrupamento
político adversário nosso. É uma pobreza, só comprova o desespero da
candidatura oficial.
Os jornais falam
de reuniões de Serra com banqueiros e empresários para criar uma blindagem
de "terror" em torno da candidatura Lula. Você acha que as elites
participariam desse jogo?
Evidentemente, há setores que vão fazer de tudo para o Lula
perder. Mas é um direito deles. É legítimo, desde que dentro das regras do
jogo. Agora, nós vamos procurar dialogar e mostrar, a eles inclusive, que
quem tem condições de governar o Brasil e fazer uma transição segura é o
Lula. Quem pode estabelecer a negociação entre a sociedade organizada,
entre trabalhadores e empresários, para fazer as reformas de que o país
precisa é o Lula.
Por quê?
Porque é o candidato que tem partido, tem programa, tem
propostas, tem unidade, tem base social. Tem força política para construir
uma nova coalizão de centro-esquerda.
E o PSDB?
O PSDB está esgotado e sua coalizão implodiu. O PFL apóia o Ciro;
o PTB, idem, e o PMDB, mais da metade dele apóia o Lula. O Serra não tem
coalizão sólida para governar o Brasil. Quem tem é o Lula.
Você acha que o
risco de instabilidade com Serra é significativo?
Eu diria que a situação do Brasil já é grave o suficiente. O
governo está deixando o país numa situação muito grave de estagnação,
dívida interna, juros altos, déficit externo e vulnerabilidade
internacional.
O cenário é
adverso ao futuro governo?
O cenário exige um presidente com muita liderança. Esse
presidente não é o Serra. Serra nunca foi um líder.
Qual é o
diferencial entre ele e Lula?
O Serra não está preparado para ser Presidente da República. O
Lula está…
Por que o Lula
está?
Em primeiro lugar, porque tem um partido sólido. Segundo, montou
uma coalizão política com a escolha de José Alencar para vice, capaz de
atrair setores empresariais. Terceiro, tem base social organizada. Quarto:
tem um programa para o país neste momento.
Mas o Serra
também tem…
O programa do Serra é o continuísmo, que já provou sua
inviabilidade.
A propaganda
oficial mostra o Serra como um bom administrador…
O Serra é conhecido por ser um sujeito desagregador. Divide. Não
tem perfil de dialogar. Não é um líder. Nunca foi um líder. Serra não
agrega, divide. Nunca conseguiu trabalhar em conjunto com as outras
lideranças do PSDB. Sempre foi um fator de divisões.
Insinua-se, em
contrapartida, que Lula não comanda, tem por trás um homem forte, você,
por exemplo…
O PT não tem dono. Fui eleito presidente com debate político,
disputa democrática e uma longa estrada de construção de uma maioria
dentro do partido. Só agora no quarto mandato conseguimos construir essa
maioria sólida. Fui eleito por eleição direta. O PT funciona, se reúne,
tem direção etc. Não é um simulacro. É um partido. É uma ilusão imaginar
que no governo Lula vai ter um homem forte. É desconhecer o Lula. Ele é um
grande líder democrático que sabe decidir.
O PT mudou ou o
novo PT só existe na TV, como diz o Serra?
A prova maior que mudou é que a sociedade acompanhou essa
mudança. Aprovou-a. Votou no PT. Se não tivéssemos mudado não teríamos
conseguido esse apoio…
Mas por que
mudou?
Mudamos para fazer as transformações exigidas pelo país. Para
tanto era necessário abrir o partido para a sociedade, fazer alianças,
assumir que éramos governo. E, finalmente, construir um programa adequado
às novas condições internacionais e aos desafios brasileiros.
Por que a
resistência oficial em admitir isso?
Porque eles sabem que o PT se transformou no maior partido da
sociedade brasileira. Mais que isso: numa alternativa real de governo para
o país. Daí a tentativa de desqualificar, em vez de debater. O Serra está
fazendo o que o ministro do Tribunal Superior Eleitoral coibiu em seu
programa: externar conceitos ou preconceitos injuriosos que não se
compatibilizam com certas garantias constitucionais…
A bandeira do
diploma?
Num país que tem mais de 170 milhões de habitantes e apenas 6
milhões com diploma universitário, em vez de lamentar isso, a propaganda
oficial tenta estigmatizar. E insufla o preconceito contra aquele que
superou todos os desafios para se transformar na maior liderança popular
da história brasileira. É muita grosseria, a coisa toda é muito grosseira.
É quase um olhar
de colonizador sobre o povo?
Além de ser de uma ignorância enorme. Poderíamos listar centenas
de brasileiros sem formação convencional e que são os melhores em sua
área. A começar por Machado de Assis. Ou empresários, como José Alencar,
Roberto Marinho, José Afonso (dono da Líder). No mundo empresarial você
vai ter inúmeros exemplos. Gente de sucesso que começou no chão da
fábrica, trabalhando desde cedo para viver, sem tempo para estudar. Os
filhos, as novas gerações é que vão se formar. Como os filhos do Lula, que
são formados ou estão cursando universidade.
Há uma parte do
empresariado que aceita um projeto de país distinto do atual, dependente
de capitais externos e concentrador da renda e poder?
Acredito que uma parcela importante do empresariado brasileiro
não aceita mais essa política econômica. Uma parcela significativa não
aceita mais o modelo imposto de fora. E uma parcela razoável considera que
o PT e o Lula são o partido e a liderança que podem fazer essa transição
para um novo modelo econômico.
Como se deu essa
aproximação?
Pela convivência com administrações do PT. Pela participação em
experiências de governo do PT. Isso que deu a eles segurança. Não foi
somente nosso discurso. O PT não mudou no discurso, ao contrário do que
diz a campanha do candidato oficial. Quem mudou só no discurso foram o
Serra e o PSDB. Porque eles não mudaram na prática. Taí o governo FHC para
demonstrar.
Que diz fazer um
governo participativo…
O que ele faz são frases de efeito. Agora, diz que o governo dele
não precisa de Orçamento Participativo porque tudo já é participativo.
Quer dizer, como piada de manhã cedo, numa quinta-feira, é ótimo. Ou então
dizer que as privatizações foram um sucesso. Aí você abre o jornal e todas
as distribuidoras de energia elétrica estão quebrando. E as de
telecomunicações nós sabemos como estão…
O PT influenciou
no processo aberto pela Procuradoria da República contra parentes e
pessoas ligadas a Serra?
Não é verdade. Nós não trabalhamos com dossiês. Não há nada na
nossa campanha que envolva dossiê.
O que o senhor
recomenda à militância nos próximos dias?
Serenidade e firmeza. Esperar. Não responder num primeiro
momento. Não levar desaforo para casa. Não precisamos gritar. Nós não
precisamos gritar. O Lula não precisa dizer para a sociedade o que ele é.
Agora, o Serra, como não é nada, tem que construir através da propaganda
uma imagem falsa para enganar o eleitor.