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"Propaganda de Serra destila e falsifica a história", diz José Dirceu


de www.pt.org.br
(20/9/2002 - 17h23)
 

O presidente nacional do PT, deputado federal José Dirceu (SP), tem fama de estar sempre um estágio à frente das circunstâncias. É um estrategista. Enxergar longe para ele, talvez seja também um hábito herdado da liderança estudantil, exercida do alto de caixotes, agarrado a postes, janelas, capôs de carros… O orador inflamado dos anos 60, forjado na luta contra a ditadura, ganhou cabelos brancos, óculos e uma agenda de telefones recheada de números influentes e poderosos, entre eles o do presidente da República. A agenda engordou, mas o discurso manteve o estilo: difícil não incluir uma frase, um período, um certo apelo ao sonho e à emoção.

A principal diferença agora é que o sonho não é mais uma palavra de ordem lançada ao oceano do futuro. Ele tem prazo de validade e a contagem regressiva aproxima-se nervosamente do desfecho. A menos de 20 dias das eleições presidenciais de 2002, na qual Luiz Inácio Lula da Silva desponta como franco favorito, José Dirceu analisa a ofensiva de José Serra contra o candidato e o PT. E desbasta o que considera uma monstruosa engrenagem posta em prática no horário eleitoral para ocultar a História e reescrever alguns de seus principais capítulos.

Na cirurgia do vale-tudo, segundo o dirigente do PT e coordenador nacional da campanha Lula Presidente, atribui-se papel central a um coadjuvante e desqualifica-se a liderança verdadeira sob o manto seboso do preconceito. "Dizer que o Serra foi mais importante que o Lula e o PT na Constituinte, nas Diretas e no impeachment é uma falsificação grosseira", dispara. "Serra nunca foi líder. Nem dentro do PSDB ele é. Porque desagrega em vez de unir; divide, em lugar de somar. O país vive uma hora difícil; precisa de alguém com trânsito empresarial e popular, e facilidade para o diálogo. Mas, principalmente, precisa de liderança. O Serra não está preparado para a Presidência da República. O homem é Lula", aponta José Dirceu.

Confiante no desempenho do partido que preside há quatro mandatos — e que reformulou, abrindo-o para alianças e projetos espetados no resgate da questão nacional — o deputado já se preocupa com o derradeiro e decisivo estágio da corrida pelo voto: o trabalho individual e coletivo da militância nas ruas até 6 de outubro. "Vamos manter nossa estratégia de serenidade e firmeza. Mas sem levar desaforo para casa", recomenda. A seguir trechos de entrevista ao site Lula Presidente, na qual exercita rigorosamente suas próprias recomendações.

O PT está sofrendo o segundo ataque especulativo nesta campanha eleitoral. Há dois meses, acenava-se com a argentinização; agora, tenta-se desqualificar o partido e seu candidato. O senhor acha que isso coloca em xeque a própria idéia de alternância no poder?
Olha, a sociedade brasileira repudia esses métodos. Já repudiou a ação desestabilizadora na onda de terrorismo econômico. Tanto que o Lula continuou subindo nas pesquisas…

Mas isso teve um preço?
Exato. Quem pagou caro por aquelas afirmativas "Serra ou o caos" foi o Brasil. Agravou-se o risco internacional; intensificou-se a fuga de capitais. No final, a irresponsabilidade foi punida com a crítica quase unânime da opinião pública.

Como o senhor avalia o artifício atual de desidratar a candidatura Lula na propaganda política?
A tentativa de desqualificação do Lula já sofreu uma derrota também. Primeiro nos tribunais. A liminar do ministro Gerardo Grossi é paradigmática. Considera injuriosa a propaganda por externar conceitos e preconceitos que não se compatibilizam com certas garantias constitucionais. Em outras palavras, Serra, a pretexto de chamar para o debate, quer introduzir o medo e o preconceito no processo eleitoral.

Ele diz que pretende puxar o PT para o debate…
O que ele apresenta para debate é risível. Dizer que o Serra — o Serra? — é mais importante na vida política do país do que o Lula, convenhamos, é uma tentativa grosseira de reescrever a história. Dizer que ele aprovou mais emendas na Constituinte é ridículo, porque o PMDB tinha maioria absoluta na Constituinte. Dizer que no [processo de] impeachment do Collor o Serra teve um papel mais importante que o do Lula e do PT, olha, isso salta à vista: é uma falsificação grotesca da verdade. Qualquer colegial sabe que não foi assim…

O candidato Serra é exibido como o parlamentar dos compromissos sociais.
O Serra? Dizer que ele defende o emprego, defende garantias sociais… Ele votou contra. Votou contra várias garantias sociais que foram aprovadas na Constituição. Basta ver o voto: ele teve nota 3,5 no Diap [Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar] e o Lula teve 10.

Mas na propaganda do candidato oficial, a geração de empregos é um item forte.
Vai criar emprego como? É unânime na sociedade que o governo que ele apóia e fez parte é responsável por uma das piores crises de desemprego da história brasileira.

O que sobra então da propaganda?
Se você depurar a propaganda oficial o que resta, em última instância, é a questão do diploma: a tentativa de desqualificar o Lula pela via do preconceito.

Mas e a experiência administrativa?
Os dois foram parlamentares. E o Serra, quando foi secretário do governo Montoro, deixou como principal marca da gestão o uso da máquina oficial para se eleger deputado. Isso foi o que ficou na memória política. A passagem dele pelo Ministério do Planejamento, por sua vez, coincide com uma das épocas de maior desastre da política econômica brasileira. Está registrado no IBGE. Não é opinião. Então acredito que a verdadeira discussão é realmente a tentativa de desqualificar o Lula. De explorar e semear preconceito entre a população. Por que isso? Porque eles não têm programa. Não têm o que propor. E não podem debater, verdadeiramente, a herança que deixaram para a sociedade depois de oito anos...

Mas o que se alega é que o PT não quer debater.
Essa acusação é um escândalo, porque se tem um partido que fez curso de admissão, prestou vestibular e foi passado a limpo, no que diz respeito ao debate de textos programáticas, esse partido foi o PT. Todos os encontros do PT foram acompanhados pela imprensa. Foi quase uma devassa. A imprensa chegou inclusive a discutir as divergências entre diferentes membros da equipe de formulação do programa econômico.

Mas aí era uma discussão interna?
O Lula discutiu o programa do PT com toda a sociedade brasileira. Com sindicatos, empresários, ONGs, igrejas. O partido fez e faz um debate amplo e democrático de suas propostas. Agora, o que nós não podemos é aceitar a agenda do Serra. Quem dirige a nossa campanha somos nós. Nós não queremos o voto do Serra. Queremos o voto do eleitor brasileiro.

Ele quer que o Lula explique os 10 milhões de empregos…
Em questão de empregos, ele não tem argumentos a não ser uma matemática colegial. Foge como o diabo fugia da cruz da questão substantiva: Serra foi, e é, do governo Fernando Henrique Cardoso. O mesmo que deixou a produção de joelhos e os índices de desemprego nas alturas. Ele esconde isso no horário eleitoral. Aqui sim, caberia responder para a sociedade: por que esconde pertencer ao mesmo governo que deixou a sociedade nesse estado de coisas? Por que não rompeu?

Por quê?
Porque ele é o continuísmo. Representa os mesmos interesses que estão nesse governo. A mesma coalizão. Ele está pronto para ser o Presidente da República desse modelo. A mesma política e os mesmos homens. Por isso fala em manter parte do ministério.

A fronteira entre candidato e máquina é muito estreita?
O Serra usa a máquina do Estado.

Por exemplo?
Por exemplo, nós fomos debater na Escola Superior de Guerra. E levamos o quê? Levamos propostas. Propostas que nós já defendemos no Parlamento. O Serra levou o quê? Foi pedir para o ministro da Fazenda liberar recursos para as Forças Armadas. Isso depois de oito anos de governo FHC, que deixou as Forças Armadas à mingua… Outra evidência? Quem pede direito de resposta nos programas do PT não é o PMDB ou o PSDB. É o Ministério da Saúde, o da Educação, a Petrobras. Quer dizer, é uma coisa descarada.

Serra disse que Lula foi à ESG defender a bomba atômica, é verdade?
É mais uma calúnia para jogar uma cortina de fumaça naquilo que interessa: a política econômica deste governo. O que o Lula falou aos militares é exatamente aquilo que o Itaramaty tem dito: que o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares que o Brasil firmou não vem sendo cumprido pelas potências nucleares. Elas fecham os olhos para países que desenvolveram artefatos nucleares e não permitem a transferência de tecnologia para fins pacíficos. De outro lado, continuam a se armar e rasgam, na prática, acordos do passado de controle de armas ou de mísseis. Foi isso que o Lula disse.

Serra diz que o Lula tem dois discursos.
Quem é falso, tem dois discursos, é o Serra. Ele agora vem falar em política industrial. Vem defender a indústria bélica. Ele agora vem falar em resgatar direitos e garantias da era Vargas. Ele se calou esses anos todos. Apoiou abertamente o desmonte da política industrial feito pelo FHC. Omitiu-se diante dos juros altos que quebraram milhares de empresas. Ficou de maneira oportunista…

Por quê, na sua opinião?
Porque não tem coragem de romper. Ficou dentro do PSDB e dentro do governo e agora quer dizer que não concordava com a política. Por que não rompeu? Quem tem duas caras, na verdade, é ele.

A propaganda de Serra tende a mostrá-lo como personagem influente na luta pelas Diretas-Já. É fato?
Nem nas Diretas, nem no impeachment Serra foi liderança decisiva. Participou sim. Mas como figura de segundo plano. Era mais um deputado. Essa é mais uma falsificação histórica: querer colocá-lo como liderança relevante. Eu participei. Fui autor do requerimento junto com o senador [Eduardo] Suplicy, para instalar a CPI do PC Farias. Participei de todas articulações. Fui coordenador da campanha das Diretas. Conheço todos os participantes e as lideranças relevantes desses episódios. E é só olhar os jornais da época. O Serra? Querer comparar o Serra ao Lula nas Diretas, na Constituinte e no impeachment é uma falsificação grosseira da verdade histórica. Forçaram a mão: é grosseiro.

Seu discurso na greve dos professores causou mesmo a pancadaria contra o Covas, como sugere o programa de Serra?
Eu fiz realmente aquele discurso em frente ao Palácio dos Bandeirantes. Foi filmado e utilizado pelo PSDB na campanha para a Prefeitura de São Paulo, em 2000. E eles perderam. A Marta foi eleita. Trazer isso agora, explorar a imagem do Mário Covas, que não apoiava o Serra, mas o Tasso Jereissati [ex-governador do Ceará]; tentar colar o Covas ao Serra é muito pequeno…

A idéia é mostrar que o PT é um partido violento?
Evidente. É um método fascista. Uma manipulação porque as pessoas que agrediram o Covas não pertenciam ao PT, mas a um outro agrupamento político adversário nosso. É uma pobreza, só comprova o desespero da candidatura oficial.

Os jornais falam de reuniões de Serra com banqueiros e empresários para criar uma blindagem de "terror" em torno da candidatura Lula. Você acha que as elites participariam desse jogo?
Evidentemente, há setores que vão fazer de tudo para o Lula perder. Mas é um direito deles. É legítimo, desde que dentro das regras do jogo. Agora, nós vamos procurar dialogar e mostrar, a eles inclusive, que quem tem condições de governar o Brasil e fazer uma transição segura é o Lula. Quem pode estabelecer a negociação entre a sociedade organizada, entre trabalhadores e empresários, para fazer as reformas de que o país precisa é o Lula.

Por quê?
Porque é o candidato que tem partido, tem programa, tem propostas, tem unidade, tem base social. Tem força política para construir uma nova coalizão de centro-esquerda.

E o PSDB?
O PSDB está esgotado e sua coalizão implodiu. O PFL apóia o Ciro; o PTB, idem, e o PMDB, mais da metade dele apóia o Lula. O Serra não tem coalizão sólida para governar o Brasil. Quem tem é o Lula.

Você acha que o risco de instabilidade com Serra é significativo?
Eu diria que a situação do Brasil já é grave o suficiente. O governo está deixando o país numa situação muito grave de estagnação, dívida interna, juros altos, déficit externo e vulnerabilidade internacional.

O cenário é adverso ao futuro governo?
O cenário exige um presidente com muita liderança. Esse presidente não é o Serra. Serra nunca foi um líder.

Qual é o diferencial entre ele e Lula?
O Serra não está preparado para ser Presidente da República. O Lula está…

Por que o Lula está?
Em primeiro lugar, porque tem um partido sólido. Segundo, montou uma coalizão política com a escolha de José Alencar para vice, capaz de atrair setores empresariais. Terceiro, tem base social organizada. Quarto: tem um programa para o país neste momento.

Mas o Serra também tem…
O programa do Serra é o continuísmo, que já provou sua inviabilidade.

A propaganda oficial mostra o Serra como um bom administrador…
O Serra é conhecido por ser um sujeito desagregador. Divide. Não tem perfil de dialogar. Não é um líder. Nunca foi um líder. Serra não agrega, divide. Nunca conseguiu trabalhar em conjunto com as outras lideranças do PSDB. Sempre foi um fator de divisões.

Insinua-se, em contrapartida, que Lula não comanda, tem por trás um homem forte, você, por exemplo…
O PT não tem dono. Fui eleito presidente com debate político, disputa democrática e uma longa estrada de construção de uma maioria dentro do partido. Só agora no quarto mandato conseguimos construir essa maioria sólida. Fui eleito por eleição direta. O PT funciona, se reúne, tem direção etc. Não é um simulacro. É um partido. É uma ilusão imaginar que no governo Lula vai ter um homem forte. É desconhecer o Lula. Ele é um grande líder democrático que sabe decidir.

O PT mudou ou o novo PT só existe na TV, como diz o Serra?
A prova maior que mudou é que a sociedade acompanhou essa mudança. Aprovou-a. Votou no PT. Se não tivéssemos mudado não teríamos conseguido esse apoio…

Mas por que mudou?
Mudamos para fazer as transformações exigidas pelo país. Para tanto era necessário abrir o partido para a sociedade, fazer alianças, assumir que éramos governo. E, finalmente, construir um programa adequado às novas condições internacionais e aos desafios brasileiros.

Por que a resistência oficial em admitir isso?
Porque eles sabem que o PT se transformou no maior partido da sociedade brasileira. Mais que isso: numa alternativa real de governo para o país. Daí a tentativa de desqualificar, em vez de debater. O Serra está fazendo o que o ministro do Tribunal Superior Eleitoral coibiu em seu programa: externar conceitos ou preconceitos injuriosos que não se compatibilizam com certas garantias constitucionais…

A bandeira do diploma?
Num país que tem mais de 170 milhões de habitantes e apenas 6 milhões com diploma universitário, em vez de lamentar isso, a propaganda oficial tenta estigmatizar. E insufla o preconceito contra aquele que superou todos os desafios para se transformar na maior liderança popular da história brasileira. É muita grosseria, a coisa toda é muito grosseira.

É quase um olhar de colonizador sobre o povo?
Além de ser de uma ignorância enorme. Poderíamos listar centenas de brasileiros sem formação convencional e que são os melhores em sua área. A começar por Machado de Assis. Ou empresários, como José Alencar, Roberto Marinho, José Afonso (dono da Líder). No mundo empresarial você vai ter inúmeros exemplos. Gente de sucesso que começou no chão da fábrica, trabalhando desde cedo para viver, sem tempo para estudar. Os filhos, as novas gerações é que vão se formar. Como os filhos do Lula, que são formados ou estão cursando universidade.

Há uma parte do empresariado que aceita um projeto de país distinto do atual, dependente de capitais externos e concentrador da renda e poder?
Acredito que uma parcela importante do empresariado brasileiro não aceita mais essa política econômica. Uma parcela significativa não aceita mais o modelo imposto de fora. E uma parcela razoável considera que o PT e o Lula são o partido e a liderança que podem fazer essa transição para um novo modelo econômico.

Como se deu essa aproximação?
Pela convivência com administrações do PT. Pela participação em experiências de governo do PT. Isso que deu a eles segurança. Não foi somente nosso discurso. O PT não mudou no discurso, ao contrário do que diz a campanha do candidato oficial. Quem mudou só no discurso foram o Serra e o PSDB. Porque eles não mudaram na prática. Taí o governo FHC para demonstrar.

Que diz fazer um governo participativo…
O que ele faz são frases de efeito. Agora, diz que o governo dele não precisa de Orçamento Participativo porque tudo já é participativo. Quer dizer, como piada de manhã cedo, numa quinta-feira, é ótimo. Ou então dizer que as privatizações foram um sucesso. Aí você abre o jornal e todas as distribuidoras de energia elétrica estão quebrando. E as de telecomunicações nós sabemos como estão…

O PT influenciou no processo aberto pela Procuradoria da República contra parentes e pessoas ligadas a Serra?
Não é verdade. Nós não trabalhamos com dossiês. Não há nada na nossa campanha que envolva dossiê.

O que o senhor recomenda à militância nos próximos dias?
Serenidade e firmeza. Esperar. Não responder num primeiro momento. Não levar desaforo para casa. Não precisamos gritar. Nós não precisamos gritar. O Lula não precisa dizer para a sociedade o que ele é. Agora, o Serra, como não é nada, tem que construir através da propaganda uma imagem falsa para enganar o eleitor.

 

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