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Eu sou assim

Lula dispensa apresentações. É candidato a presidência da República pela quarta vez consecutiva e está na vida pública desde 1977. De qualquer forma, acha que nesta eleição o brasileiro terá condições de conhecê-lo melhor. Diz que está mais solto e que está sendo mais ele mesmo. Ao contrário do que estão dizendo, garante:  amadureceu, mas continua sendo Lula.

por Anselmo Massad e Glauco Faria

 

O marketing de Duda Mendonça muda a sua política, os seus ideais?

Outro dia um assessor meu fez um comentário sobre isso com o qual concordo. Ele disse: um dos grandes méritos de Duda Mendonça nos trabalhos que está fazendo para o PT até agora é o de revelar com muita maestria o Lula do jeito que o Lula é. Quem me conhece e convive comigo, pessoal ou profissionalmente, sabe que sou assim mesmo, brincalhão, afetivo, espontâneo, contador de piadas, e também sério e firme nas negociações e disputas.

Acontece que grande parte da população só conhecia o Lula sindicalista ou político, fazendo discurso, de cara fechada. Agora todo mundo está me conhecendo de modo mais completo, mais humano. Além disso, há a questão do amadurecimento, das mudanças, que, espero, tenham sido para melhor.

Quanto à política e aos ideais, continuam os mesmos. Mesmo porque continuam também os mesmos os problemas fundamentais do Brasil que justificaram a criação do PT. Nós podemos estar falando muita coisa de outras formas, mas estamos falando das mesmas coisas. Vamos acabar com a fome, vamos combater a miséria, vamos retomar o desenvolvimento do país com distribuição de renda e afirmação da soberania nacional, vamos mudar o rumo do Brasil. E, nesse sentido, Duda sabe seguir direitinho as diretrizes políticas do partido, adequando-as da melhor forma possível à TV e ao rádio. Os conservadores não se conformam porque nós tomamos o Duda deles.

 

Quais seriam as prioridades de um futuro governo liderado pelo senhor?

A maior prioridade é a retomada do desenvolvimento econômico com distribuição de renda e justiça social. O Brasil precisa mudar de rumo. Na questão social está a verdadeira dimensão do desenvolvimento econômico que queremos para o nosso país. Ela é a verdadeira face do “risco Brasil”, para usar um termo da moda. Nesse sentido, o Brasil vive uma situação trágica, que pode ser medida pelos índices crescentes de desemprego e pelas conseqüências que traz ao cotidiano das pessoas por meio da  insegurança e da violência. Propomos, dessa maneira, tratar o social e o econômico como duas dimensões interligadas e igualmente prioritárias do desenvolvimento brasileiro.

É preciso voltar a investir em infra-estrutura, em especial no setor energético para que possamos superar de vez o risco de apagões, além de melhorar e ampliar as nossas rodovias, portos e aeroportos. E isso pode e deve ser feito com o compromisso de manter a inflação sob controle. A defesa da estabilidade da moeda já é uma conquista do nosso povo.

O PT está construindo o nosso programa de governo com base em propostas elaboradas durante anos em debates amplos com a sociedade. O Instituto Cidadania, por exemplo, deu contribuições importantes nos setores de Moradia, Segurança Alimentar (Projeto Fome Zero), Segurança Pública para o Brasil, Educação, Ciência e Tecnologia, e Energia Elétrica, para citar os mais divulgados pela imprensa.  As diretrizes do nosso programa de governo foram aprovadas em dezembro do ano passado no Encontro Nacional realizado em Pernambuco. Agora, estamos debatendo amplamente na sociedade a construção do Programa de Governo.

Tudo isso significa, como já disse, mudar o rumo do nosso país. Entre 1950 e 1980, o Brasil cresceu a uma taxa média anual de 7,3% – um desempenho extraordinário – que contrasta com a média de 2,44% verificada nos anos do governo FHC. Se, por exemplo, o Brasil tivesse mantido um ritmo de crescimento em torno de 7% anuais durante os últimos vinte anos, hoje teríamos um nível de renda per capita de aproximadamente 11 mil dólares, próximo ao da Espanha.

 

Qual a importância de uma reforma tributária no país? Que mudanças precisam ser implementadas?

Assumi publicamente o compromisso de encaminhar no meu primeiro ano de mandato uma proposta abrangente de política tributária ao Congresso Nacional. Vamos propor a desoneração da produção e das exportações, o fim das contribuições em cascata e o restabelecimento da progressividade dos impostos diretos. Quem ganha mais, paga mais. Quem ganha menos, não paga, ou paga menos.

 

Como se promoveria um reaquecimento da economia?

O Brasil pode muito bem reorientar a sua economia para a inclusão de milhões de excluídos, tendo o social como eixo fundamental. A economia brasileira hoje atende apenas 20% da população, expressão da desigualdade inaceitável em nossa sociedade. Eticamente, o modelo atual é inadmissível. Politicamente, impede a construção da Nação. E, do ponto de vista econômico, saturou, não consegue mais ir para lugar nenhum.

Incluir milhões de assalariados no mercado de massas, retirar mais de 44 milhões da linha de pobreza e da miséria absoluta – isso é que vai abrir uma nova fronteira de crescimento para o Brasil. Isso é que vai criar novas oportunidades para a juventude, que quer um futuro, e para as empresas, que buscam mercados e espaços para ampliar a produção e a geração de empregos.

Crescer hoje é o caminho para ampliar a produtividade da economia, pois os novos investimentos já serão feitos incorporando as novas tecnologias. A estabilização será preservada, e até consolidada, na medida em que os ganhos de produtividade serão distribuídos na forma de salários e de investimentos sociais.

Vamos promover a inclusão social estimulando a oferta de bens de consumo de massa, industriais e agrícolas, e ampliando os serviços públicos essenciais. O crescimento da demanda será acompanhado pelo aumento da produção. Vamos também incentivar as exportações, de modo racional e firme. O Brasil tem condições de negociar de modo soberano os interesses nacionais em nível mundial. Quem quer produzir e trabalhar só tem a ganhar com o nosso projeto.

Inacreditável é ouvir dos nossos governantes, que conduziram o Brasil para a beira do abismo, que mudar de rumo e afastar o nosso país do precipício é que é arriscado.

 

Qual seria o papel das universidades e de institutos de pesquisa nesse reaquecimento?

Quanto ao papel das Universidades e dos Institutos de Pesquisa, vou contar algumas experiências que tive na visita de dez dias que fiz à China em maio do ano passado. Participei de debates em centros universitários em Beijing, Xian e Xanghai sobre as políticas educacionais e de ciência e tecnologia daquele país gigantesco. Apenas dois aspectos são suficientes para demonstrar o compromisso do Estado com o desenvolvimento do país e com a melhoria das condições de vida do povo: há uma grande integração entre os centros universitários e a formação de complexos industriais e empresariais. Ou seja, o avanço da ciência e da tecnologia nas Universidades está integrado ao planejamento econômico e impulsiona diretamente o desenvolvimento regional e geral do país.

O outro ponto que gostaria de chamar a atenção está relacionado com a educação básica, com a educação técnico-profissional e com os vários níveis de estágios tecnológicos existentes em um país com a dimensão e a população da China. A educação básica é muito valorizada, universal, e o professor é um profissional da mais alta respeitabilidade no país. Quanto à utilização dos recursos técnicos pela sociedade, há uma política bem interessante: além de o Estado incentivar ao máximo a formação de técnicos de nível médio, faz com que cada região, província, localidade utilize simultaneamente todos os meios técnicos disponíveis. Isso significa que todas as camadas sociais são mobilizadas e organizadas no esforço de desenvolvimento do país, independentemente da tecnologia que dominam: das mais primitivas até as de ponta.

 

Com todos os interesses contrários, como se pode distribuir renda no Brasil?

Distribuição de renda se faz gerando emprego e oportunidades de trabalho, possibilitando aumento de salários e renda, investindo na educação e na saúde da população, fazendo de fato a reforma agrária e a reforma tributária. Um dos nossos compromissos principais é com a geração de emprego e renda. A política econômica do governo FHC nunca teve a geração de empregos como compromisso real, efetivo. Pelo contrário, nestes quase oito anos, o governo manteve as taxas de juros reais em níveis brutais – e ainda as mantém -, inviabilizando os setores produtivos, os investimentos e os empregos. Além disso, ampliou a abertura econômica de forma irresponsável e, como resultado, “exportou” mais de 2 milhões de empregos durante os anos 90 – empregos que, é óbvio, foram perdidos aqui.

  

O que será feito do Mercosul? Qual a importância da inclusão de outros países?

Defendemos o fortalecimento e a ampliação do Mercosul. A crise da Argentina demonstra o quanto isso é necessário. A hora é de solidariedade com o país vizinho, de buscar meios concretos para ajudá-lo. É preciso pressionar o FMI para que faça negociações adequadas à situação de crise do país. A saída passa por uma aproximação com o Brasil.

A nossa história demonstra, a cada dia, que temos um destino comum: ou nos desenvolveremos com integração e soberania ou continuaremos submetidos aos interesses das grandes potências, para a completa infelicidade da grande maioria dos nossos povos.

 

E quanto à Alca?

Sou um defensor da integração latino-americana, mas não apenas da integração econômica, comercial, mas também política e cultural. A proposta da Alca, nos termos atuais, é inaceitável. Não é um Acordo de Livre Comércio com os Estados Unidos, é uma proposta de anexação da economia da América do Sul e do Caribe à economia norte-americana. Um projeto de integração pressupõe certa eqüidade entre os membros que participam da integração. Os Estados Unidos detêm a hegemonia tecnológica, militar, cultural e econômica, e não se propõem a ter uma política compensatória como a que a União Européia tem para a Espanha, Portugal e Grécia.

O que se deve esperar de um governo de um país com a importância geopolítica e o peso econômico do Brasil é uma postura soberana em defesa dos interesses nacionais. O protecionismo dos Estados Unidos em relação ao aço, por exemplo, é mais um exemplo do tipo de integração que eles querem nos impor com a Alca. O nosso país precisa retomar o desenvolvimento sustentado, gerar empregos, distribuir renda, lutar de fato pelo fortalecimento e ampliação do Mercosul. Precisa garantir as bases para uma integração solidária e aberta para o mundo, mas com garantia de reciprocidade.

Aproveito para deixar claro que o Brasil não ficará isolado se o PT ganhar a Presidência, como procuram fazer crer os governistas. Nenhum capitalista investe em um país em função do seu presidente ou do seu partido. Veja a situação da China, que é um mercado preferencial dos Estados Unidos. Os capitalistas investem em um país quando são oferecidos três ingredientes básicos: mão-de-obra qualificada, infra-estrutura e mercado para os seus produtos.

 

Como seria realizada a reforma agrária patrocinada pelo seu governo?

Já disse várias vezes que a reforma agrária é uma questão de justiça social em nosso país e que um governo do PT será capaz de realiza-la sem ser necessário que ocorram invasões de propriedades nem qualquer tipo de violência no campo. Nós temos legitimidade e representatividade para resolver esse problema de forma negociada e pacífica. Quem tem terra e quer produzir pode ficar tranqüilo que vai receber incentivos para produzir cada vez mais. Quem não tem terra e quer trabalhar vai enfim receber sua terra e apoio para desenvolver a agricultura familiar.

Primeiro, estamos propondo a realização de um Plano Nacional de Reforma Agrária, envolvendo todas as organizações sindicais e sociais, e as organizações governamentais ligadas ao tema, na sua elaboração, implementação e que deverá definir, estrategicamente, os prazos, com definição de metas nacionais e regionais e de fontes de recursos a serem aplicados na execução de ações que sejam capazes de promover impactos positivos na vida das famílias de trabalhadores rurais e no campo.

Esta é uma luta histórica e será uma prioridade estratégica do nosso governo.

 

O senhor reajustaria o salário mínimo já no primeiro ano de governo? O senhor desatrelaria o reajuste do mínimo dos benefícios da previdência social?

O nosso compromisso é o de dobrar o poder aquisitivo do salário mínimo, o que significa aumento real. Mas isso será feito dentro das possibilidades, ao longo do mandato. A questão da previdência não impedirá o cumprimento dessa meta.

 

Em relação à segurança pública, o senhor criaria um ministério ou secretaria especial? Haveria uma intervenção mais direta do governo federal nessa questão?

Nós tratamos a questão da segurança pública com a maior seriedade possível. Durante mais de 15 meses trabalhamos na construção de um projeto, ouvindo os mais diversos setores: especialistas em segurança, administradores públicos e privados, e as mais representativas lideranças comunitárias, com o objetivo de apresentar um plano nacional de segurança, amplo, profundo e consistente. Para isso, realizamos seminários nacionais em São Paulo, Recife, Rio de Janeiro e outras cidades sobre temas como “O Município e a Segurança”, “As Instituições Policiais”, “O Crime Organizado” e vários outros.

Há propostas nos níveis dos governos federal, estadual e municipal. Há também clara distinção entre o que pode ser feito já, imediatamente, sem depender de mudanças legislativas, e o que requer inclusive alterações constitucionais. E há, ainda, claras medidas que promovem a eficiência policial e a indispensável participação cidadã das comunidades nos problemas de segurança pública.

Isso significa que, de um lado, o projeto dá conta de enfrentar a criminalidade e a violência atuais, ou seja, a questão de quem já caiu na criminalidade, e, de outro, também propõe  caminhos efetivos para impedir que outras pessoas venham a ser atraídas ou a cair na bandidagem. Nesse caso, trata-se inclusive de mobilizar toda a sociedade, em especial a juventude que já tem cidadania, para disputar com o crime organizado e o narcotráfico milhões de jovens das periferias e favelas das nossas cidades que querem ter uma vida digna, mas vivem sendo assediados por criminosos.

 

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