Ótimo
investimento
Jean-Luc Mechelon, 50 anos, formado em filosofia e letras modernas na faculdade de Besançon, é o ministro da Educação Profissional da França. Você leu corretamente, ministro da Educação Profissional. Não se trata de uma secretaria nem subpasta. No país do atual melhor futebol do mundo há um ministério só para a educação profissional. Além de ministro, Mechelon é vice-presidente do Conselho Geral de Ensino da França. Foi o mais jovem senador eleito em toda a história do país, aos 35 anos de idade, em 1986. E é líder da corrente mais á esquerda do Partido Socialista.
Fumante compulsivo, daqueles que em 40 minutos de entrevista consegue consumir seis bastões de tabaco, concedeu a entrevista que segue numa pequena sala no Estádio do Gigantinho, em Porto Alegre, no encerramento do Fórum Mundial da Educação. Evento que reuniu 12 mil pessoas do mundo inteiro com um único proposto. Discutir alternativas ao projeto neoliberal para a área.
As esquerdas brasileira e francesa vêm se aproximando, encontrando afinidades, esse caminho é uma tentativa de globalização das esquerdas?
É verdade que há um diálogo crescente entre nós em matéria de relações humanas e de interesses políticos. Precisamos levar em conta que existe uma lógica de cada um dos Estados, mas considero que o ponto de vista progressista permite superar as adversidades que surgem de maneira espontânea. É importante dizer que também temos um ponto de convergência geopolítica. Das duas partes temos interesse em aliviar o peso do neoliberalismo. Nós temos a força da União Européia e o Brasil tem muitas qualidades. Sentimos todos que o Brasil está a ponto de passar para o pelotão de frente e por isso queremos nos aproximar. E países como o Brasil precisam se aproximar da Europa, já que assim aumentam sua capacidade de negociar e participar do movimento de desenvolvimento, como ocorreu recentemente com a China. A China agora faz parte da Organização Mundial do Comércio (OMC). É um ato muito importante. Mostra que é uma época de desenvolvimento e estamos todos implicados. Por isso, precisamos nos organizar. O que fazemos pode parecer pouco importante, falando, trabalhando em comum, mas há um nicho cultural comum entre América Latina e Europa e isso precisa ser mais explorado.
O que a França vem fazendo na área de Educação?
Somos uma potência educativa. Dispomos de um potente serviço público de educação que acolhe mais de 90% das crianças acima de três anos e escolariza 100% de cada geração. Estamos em um processo importante de massificação da educação. Temos atualmente 2 milhões de estudantes no ensino superior e 5 milhões no ensino médio, o que proporcionalmente é muito para lá. O caminho do futuro para nós é o de fortalecer o sistema de acolhimento da juventude imigrante, que tem chego todos os dias no país. Agora, são jovens sozinhos. Antes era a família ou só o pai. Atualmente a França recebe muitos jovens sozinhos todos os anos. Fortalecer o dispositivo para integrá-los e educá-los é o nosso principal objetivo. Porque teremos de construir uma sociedade onde não haja setores excluídos da alfabetização. Não é possível. A segunda parte é a construção de um sistema que chamamos de "Educação por Toda a Vida". Para integrar não só o período escolar, mas também toda a vida profissional. Assim, as pessoas vão continuar freqüentando a escola sempre, já que elas vão passar a ministrar matérias que o cidadão esteja tendo necessidade de aprender por conta do trabalho ou de mudanças na sua perspectiva pessoal. É o que teremos diante de nós. O terceiro ponto é que estamos fortalecendo o sistema de ensino profissional. Fazemos um trabalho de integração profunda de ensino do saber técnico-científico-manual e a parte intelectual, cultural, humanista como dizemos. Estamos fazendo isso.
Qual o percentual do orçamento investido em educação na França?
Entre 7 e 8% do Produto Interno Bruto do país. É o setor onde são alocados mais recursos, com 600 milhões de dólares para 60 milhões de franceses.
Esse número tem permanecido o mesmo nos últimos anos?
Não, vem crescendo. O maior crescimento da Europa com investimento em educação é o nosso. Nós investimos muito no setor. Sabemos que para cada franco investido em educação, voltam três ou quatro na produção, na elevação do nível e da competitividade da nossa economia.
Então investir em educação vale realmente à pena?
Para aqueles que consideram que educação quando pública e gratuita traz resultados pouco produtivos, respondemos com os nossos resultados. Somos 60 milhões, o que não é muito. Não temos nenhum recurso natural. E somos a quarta potência econômica mundial e o segundo país exportador per capita do planeta. Isto é a nossa rentabilidade produtiva de investimento em educação pública.
Mas esse seu discurso é inversamente contrário aos últimos textos divulgados pelo Banco Mundial que tem defendido a tese de que a educação deve menos pública, principalmente no que diz respeito ao ensino superior.
Não tenho nenhuma confiança no Banco Mundial. Eu acho que o sistema francês, igualitário e universalista, funciona muito bem. Não deixaremos que na França haja um mercado educativo. Não deixaremos que mercantilizem o saber na França.
É possível uma educação globalizada que respeite as diversidades culturais de cada país, utilizando a internet como instrumento?
Não temos que sonhar com a internet. Não há nenhum meio técnico que possa dispensar os professores e a escola. Há uma função social para o ensino, de ensinar a viver. É um aprendizado concreto que não se confunde com o acesso à informação. A moda de que o e-learning (ensino à distância) seria uma solução, resolvendo o problema do acesso ao saber e permitindo reduzir os sistemas educativos até uma porção mínima, é astutamente desenvolvida e defendida pelos partidários da mercantilização da educação. Isso é considerar o conhecimento somente como uma informação, que é preciso adquirir, se necessário, no âmbito de uma troca mercantil, calando a dimensão sumamente social de qualquer aprendizagem, o papel de guia do professor e da equipe educativa e mais geralmente das múltiplas funções socializantes que realiza o ato pedagógico educativo.
A receita para construir um outro mundo, na sua opinião, deve passar por mais investimentos em educação.
Passa por rejeitar a mercantilização da educação, pois isso é rejeitar novas desigualdades entre países. Enquanto uma parte da população mundial ainda não tem acesso à educação fundamental, os esforços educativos dos países do Sul são captados por certos países do Norte que aproveitam sua posição dominante. Isso se traduz em um verdadeiro roubo de cérebros, que consiste para os países desenvolvidos numa imigração seletiva, fazendo imigrar pessoas altamente qualificadas formadas nos países do Sul a custo de sacrifícios consideráveis. Roubo em curto prazo, esse método só pode agravar o desequilíbrio do desenvolvimento e debilita ainda mais a estabilidade e a paz internacionais. É assim que penso.
Por Renato Rovai