Despir para proteger

* Com a (linda e essencial!) colaboração de Lulu Anders Conceito curioso. Um pai, para proteger seu filho, corajosamente se embrenha entre...

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* Com a (linda e essencial!) colaboração de Lulu Anders

Conceito curioso.

Um pai, para proteger seu filho, corajosamente se embrenha entre manifestantes black bloc e o retira de lá. O menino a princípio se recusa a sair, mas o pai argumenta pungentemente sobre a inutilidade daquele tipo de manifestação, diz que o ama… “desce ao chão, águia audaz, que a noite é fria”.

Li isso, bem assim, aqui. Mas talvez a tinta em que aquelas linhas foram escritas só fosse cor-de-rosa para os meus olhos.

Essa névoa romântica me fez pensar numa cena de carinho equivocado, de autoritarismo por engano, vinda de um pai bem-intencionado, amoroso, preocupado com o bem-estar de seu filho, que não queria perdê-lo, vê-lo preso ou machucado.

Mas daí eu vi o vídeo do que realmente aconteceu e foi dito e como tudo aconteceu e dito.

Vi os puxões, os trancos, a violência. Vi o dedo adulto em riste, martelando seu controle no peito de um menino. Vi o tom de voz de “eu sou seu dono”. Vi o riso e o escárnio dos repórteres que registravam a cena. Vi o rapaz que, mesmo vacilante e fragilizado, sabia-se com razão, mas estava preso na angústia de não conseguir se expressar e argumentar de forma coerente em meio à comoção do momento, repetindo apenas as mesmas coisas de novo e de novo, gritando para ser ouvido a despeito silenciamento imposto pela agressão que ali sofria, publicamente, de seu pai.

Em dado momento, o pai arranca do rosto do filho a camisa preta que o cobria. Esse “desmascaramento” foi muito simbólico. O rapaz, adolescente, construindo um eu autônomo, foi despido à força dessa identidade propriamente sua por um pai que não a aceita, que não o aceita. Pois o filho tem que ser o que esse pai dele, dono dele, quer que ele seja. “Você é meu filho. Eu te sustento” Ele repete diversas vezes. Mas poderia ter dito “você pertence a mim. E enquanto você depender e não tiver como se defender de mim, você será só o que eu quiser que você seja e agirá só como eu quero que você aja.”

Como pode o desnudamento do rosto do jovem à revelia, essa exposição, passar por proteção e cuidado? O gesto poderia muito bem ter sido o de abaixar-lhe as calças. Porque a finalidade era a mesma: enfraquecê-lo, ridicularizá-lo, forçá-lo a submeter-se por medo e vergonha. Se há alguém ali sendo cuidado e protegido, esse alguém é o tirano que se refestela no pátrio poder poder familiar.

“É o meu sonho”, protesta o rapaz. E, não contente com a humilhação que praticava, o pai foi mais longe: “você não vai mudar o mundo, meu filho”, ele decreta, com toda a amargura da geração que falhou e inveja o mundo de possibilidades da juventude. Com as certezas do velho que se nega a ouvir o novo, que se resigna e se acomoda em sua impotência. Como a “sabedoria” desdenha da paixão e do vigor que ainda não foram sufocados pelo cinismo!

Quem acha que isso é uma forma de empatia, de “eu já passei por isso” está redondamente enganado. Essa parte do “diálogo” se resume a “Você é fraco, você é tolo. Os meus grilhões um dia serão os seus e não há nada que você possa fazer para mudar isso. Eu aceitei, você também tem que aceitar. Até mesmo os seus sonhos me pertencem.”

Não há debate, não há discussão, não há apoio, nem orientação. Há apenas o mandar e o obedecer. Assim como o mundo faz com o pai, sente o pai que deve fazer com o filho.

“Você não estava falando comigo”, diz o garoto. E o tirano lança mão de sua cartada maior, do último refúgio de seu autoritarismo parental, o autoritarismo que empurra e bate, mas não é violência; que grita, mas não agride; que expõe, mas está protegendo; que humilha, mas é para o seu bem. “Eu te amo, cara”, ele diz, emocionado. Eu te amo, eu sou seu pai. Eu te amo, me obedeça. Eu te amo, é seu dever me entender e me perdoar. Eu te amo.

O menino balança, incapaz de ignorar o sentimento, preso na coleira invisível de seu próprio amor, este sim real, incondicional, transformado em ferramenta de controle. Responde: “eu também”.

Já o amor do pai se chama socialmente de amor, mas tem pouco de amar de fato. Porque é difícil acreditar num amor que não respeita. A pessoa que o pai ama, ali, não é a pessoa que o filho realmente é, mas o projeto, a pessoa que ele quer que o filho seja. O “resto”, a “máscara”, ele arranca, ele destrói, ele desconsidera. Porque o covarde precisa matar no outro aquilo que um dia teve tirado de si.


30 comments

  1. Maria Responder

    Apesar deste lado ter existido, por um lado, como você acha que um pai vai tirar seu seu filho, menor de idade, do meio de um black bloc? Você acha sincesamente que ele tem que chegar de mansinho, trocando uma idéia? Isso se faz em casa, tranquilo. Agora no meio de uma manifestação? Ah, tá bom!
    A manisfestação do black bloc deve ser mais pensada para melhor agir. Eles estão equivocados ao destruir não só o patrimônio público, mas de um comerciante que muitas vezes são pequenos, nem sempre grandes empresas. Para que isso? Eu faria a mesma coisa se fosse o pai, não sei se com tanta violência ao filho, mas com energia e força sim!

    1. Letícia Penteado Responder

      Maria, para mim, são dois assuntos diferentes. Eu não estou comentando a respeito das manifestações e dos black bloc, estou comentando a respeito da atitude do pai em relação ao filho e da repercussão que isso tem tido na mídia, das leituras que têm sido feitas, na minha opinião, equivocadamente.
      Não, realmente, não dava para esse cara chegar de mansinho e trocar uma ideia, porque nem mesmo na casa dele ele poderia ter feito isso. Como o menino disse, ele não falava com o filho. E provavelmente, não sabe falar. Só sabe fazer o que fez no vídeo – impor, mandar, controlar.
      Talvez, se o relacionamento em questão fosse mais baseado no respeito e menos baseado na hierarquia, o jovem sequer estivesse ali. Ou talvez o pai estivesse junto. Ou talvez ambos estivessem usando outra via para tentar mudar o mundo.
      Você acha surpreendente que um rapaz cujo pai age dessa forma entenda que a única via possível de revolução seja esse tipo de manifestação? Porque eu não. Eu acho supercoerente e previsível levando em conta a amostra pública que recebemos da educação que ele teve.
      Esse negócio de “ah, eu sou contra, acho um absurdo e filho meu não participa disso” é que não faz sentido. Você iria retirar um filho seu de uma manifestação assim porque discordaria do posicionamento político dele? Ou porque estaria com medo de que ele se machucasse? Entende a diferença? A sua preocupação é com o adolescente ou com silenciar no adolescente aquilo que te incomoda?

  2. João Guilherme Lacerda Responder

    Lindo texto. Senti a mesma aflição ao ver esse pai cheio das boas intenções mas que é violento e abusador contra o próprio filho.

    Lidar com um filho adolescente certamente não é fácil, mas a violência que sofre o rapaz apenas demonstra que só há diálogo pela força e o poder se conquista num embate truculento.

  3. leslymonrat Responder

    Quando assisti o vídeo também achei o pai apenas autoritário. Mas fui mais cauteloso que a autora.

    Afinal, o sujeito se meteu numa situação em que poderia facilmente ter se tornado vítima. Ou a autora não viu as mãos sem rostos dos “black block” que já o agarravam e puxavam?
    E foi também uma situação inédita na dinâmica de manifestações públicas deste tipo, situação que parece não ter interessado diretamente à autora, mas que os profissionais da mídia presentes não deixaram de perceber.

    E tudo isso por quê? Tem que haver um motivo, talvez vários.

    Prestei mais atenção, e à medida que fui ouvindo a discussão, vendo as expressões, observando os entornos e participantes coadjuvantes, como presumo que a autora fez.

    Para mim pareceu que o que ele queria dizer para seu filho, desde o começo, era o que disse no final. Que o amava e que, por favor, voltassem para casa pois estava preocupado com ele.

    Porque dizer isso só naquele momento e de maneira tão atabalhoada? Só posso especular.

    Quem sabe como este pai foi tratado quando era filho? Como seu pai (o avô do garoto) se relacionava com ele? Por acaso ele foi criado com uma figura paterna à antiga? Homens não mostram sentimentos. A educação afetiva do filho é responsabilidade da mãe. O que sei da dinâmica familiar deles? Nada.

    Cheguei à conclusão, talvez equivocada, que tratava-se de um pai que amava o filho e não soube expressar esse sentimento em um momento de urgência emocional. Quiçá não soube expressá-lo toda a vida de ambos.

    A autora acha que o menino “sabia-se com razão”. É mesmo?

    Para começar, aos 16 anos todo mundo tem certeza de várias coisas, e principalmente, que os outros é que não os entendem. Assim é um adolescente normal na “Idade do Hormônio”. Isso passa com as experiências da vida, e irônicamente volta na velhice por conta das mesmas.

    Tolo é o adulto que acha que o garoto estava apenas chocado com a ação inesperada do pai quando repetia argumentos genéricos, incapaz de justificar de maneira convincente (até para si mesmo, pois resolveu sair) sua presença ali.

    Achar que o garoto estava ali apenas realizando um sonho, é se perder na “névoa romântica” que a autora acha que dissipou no início do artigo.

    Então o menino não estava sob pressão dos pares (seus “amigos”)? Ou sob a influência de alguns professores “legalzões”? Ou dando vazão ao sentimento impotente de ver a avó “morrer em um hospital público” (palavras dele)? Ou respondendo ao imperativo hormonal?

    Achar que apenas o amor do filho é “este sim, real” (e o do pai, por contraste, não), e que este amor o prende em uma coleira invisível, é direito da autora.
    Mas é inescapável chegar à conclusão que a solução mais fácil para essa situação é “quebrar a coleira”, transformando o amor em outra coisa, que amor não é.

    Será que a autora acha que o filho deve, para se libertar da coleira, expressar seus sentimentos de maneira tão equivocada quanto o pai, talvez odiá-lo?

    Ou pensa que um menino de 16 anos será capaz de perceber e transformar a relação de poder existente entre amantes (o pai e o filho se amam), preservando seu amor pelo pai mas dissociando este amor de algum tipo de ascendência emocional/psicológica?

    Um menino de 16 anos dará mostra de uma capacidade de auto-conhecimento titânica que a gigantesca maioria dos adultos, inclusive os autores de blogs não tem?

    Tanto o garoto quanto o pai tem bons argumentos de seu lado. Obviamente se amam.
    Nenhum dos dois parece ter exercitado a comunicação destes conhecimentos e amores com eficiência até aquele momento, ou não teriam sequer chegado àquela situação.

    A autora não expressa dúvida sobre sua análise do video em momento algum; não leva em conta outros fatores sociais e individuais que incidem sobre os dois seres humanos envolvidos; “entra na cabeça” e “põe vozes” nos dois “personagens” como um autor de ficção.

    Na minha modesta opinião, ela está apenas projetando sobre estes personagens da vida real suas próprias convicções e conflitos, arriscando pitacos em terreno desconhecido e reclamando uma capacidade de observação que ninguém tem.

    Em resumo: Pode ter acertado uma ou outra, como o relógio parado, mas é só achismo expressado de forma lírica em uma crônica sobre o cotidiano.

    V.K.

    Letícia, essas palavras não são minhas, apenas repasso para maior reflexão do texto. Abraços

    1. Letícia Penteado Responder

      “Afinal, o sujeito se meteu numa situação em que poderia facilmente ter se tornado vítima. Ou a autora não viu as mãos sem rostos dos “black block” que já o agarravam e puxavam?”
      Coitado, né? Então, eu vi. Mas o que vi foram pessoas tentando evitar uma agressão, não agredindo. Ao contrário dele.
      “Para mim pareceu que o que ele queria dizer para seu filho, desde o começo, era o que disse no final. Que o amava e que, por favor, voltassem para casa pois estava preocupado com ele.
      … Quem sabe como este pai foi tratado quando era filho? Como seu pai (o avô do garoto) se relacionava com ele? Por acaso ele foi criado com uma figura paterna à antiga? Homens não mostram sentimentos. A educação afetiva do filho é responsabilidade da mãe. O que sei da dinâmica familiar deles? Nada.
      Cheguei à conclusão, talvez equivocada, que tratava-se de um pai que amava o filho e não soube expressar esse sentimento em um momento de urgência emocional. Quiçá não soube expressá-lo toda a vida de ambos.”
      Pois é, mas é esse o meu ponto. É o que tendemos a achar. Mas que amor é esse que só fala com a pessoa amada para mandar? Porque é o que ele foi fazer. Mandar. E por que é sempre a criança ou adolescente quem tem que ser compreensive? Não duvido que esse pai tenha sido tratado de forma similar, ou pior. Mas não estamos falando do tratamento que ele recebeu, estamos? Estamos falando de ele replicar o tratamento que ele possivelmente recebeu com o próprio filho. Algo sobre o qual ele tem controle, algo que ele poderia escolher não fazer.
      Isso é amor? Poderia ser expresso de outra forma. E não, não é suficiente dizer “não consigo”. Não quando a sua incapacidade resulta em desrespeito a quem supostamente se ama.
      “A autora acha que o menino “sabia-se com razão”. É mesmo?”
      Sim, o menino sabia que tinha razão. Não no sentido de que ele estava objetivamente certo, mas no sentido de que, dentro dele, na sua subjetividade, ele sentia com todo o seu ser que estava certo, que o que fazia era bom, era ótimo, era ‘para o bem de todos’, como ele coloca diversas vezes.
      “Para começar, aos 16 anos todo mundo tem certeza de várias coisas, e principalmente, que os outros é que não os entendem. Assim é um adolescente normal na “Idade do Hormônio”. Isso passa com as experiências da vida, e irônicamente volta na velhice por conta das mesmas.”
      Ah, os hormônios. Vamos tapar os nossos ouvidos com os hormônios para não termos que ouvir adolescentes, mulheres, idosos…
      Sim, adolescentes são impetuosos, românticos, idealistas. Estão numa transição que é sempre muito mais difícil para eles próprios que para as pessoas à sua volta. Mas isso não quer dizer que seus sentimentos e posicionamentos não sejam legítimos, ou que se possa partir do princípio de que serão menos ponderados ou válidos que o des adultes.
      “Tolo é o adulto que acha que o garoto estava apenas chocado com a ação inesperada do pai quando repetia argumentos genéricos, incapaz de justificar de maneira convincente (até para si mesmo, pois resolveu sair) sua presença ali.”
      É mesmo? Que bom deve ser nunca ter passado por uma situação assim. Como mulher que já presenciou violências diversas desse tipo, posso dizer que reconheci muito de mim mesma e de outras vítimas ali. É o que pode acontecer quando temos um posicionamento, mas somos inesperadamente confrontadas por alguém a quem vemos como “autoridade” alguém que nos causa “temor reverencial”. É por isso que instruímos gestantes a saberem o beabá do parto na ponta da língua. Para que não lhes faltem as palavras para se oporem a um eventual obstetra que tente levá-las para a uma cirurgia desnecessária sob um pretexto falacioso. É por isso que promovemos campanhas para ensinar às nossas meninas que podem dizer não, apesar de terem passado a vida aprendendo a agradar, a aceitar, a tolerar. É por isso que o assédio moral por parte de um chefe ou superior hierárquico muitas vezes parece que é algo que a pessoa aceita calada. É por isso que é tão difícil para filhes pararem de se submeter à violência de seus pais. Porque lá fora você ensaia um discurso; aqui dentro, diante da pessoa que te faz sentir sempre como se você tivesse cinco anos e dependesse dela para viver, você gagueja e não lembra de mais nada. Porque aprendemos, na base da agressão (muitas vezes física), desde cedo, que manda quem pode e obedece quem tem juízo. Recomendo a leitura de outros posts a respeito de adultismo neste blog (que estão aí, linkados no texto), para esclarecer meu ponto de vista. Tem um, em particular, “Sobre Pais e Bullies”, que não está linkado, mas também pode valer a pena.
      Olha, eu tenho a língua bastante afiada e normalmente penso rápido. É difícil me faltarem palavras, argumentos. E mesmo eu passei por situações assim. A tensão aumenta, a adrenalina entra em cena (já que o comentador gosta de falar de hormônios), porque nosso corpo não entende que a ameaça que enfrentamos não é física. E isso nos coloca num estado de fuga ou luta que embaralha nossos pensamentos e nos faz perder as palavras.
      “Achar que o garoto estava ali apenas realizando um sonho, é se perder na “névoa romântica” que a autora acha que dissipou no início do artigo.”
      Quem acha isso? Eu, pessoalmente, acho que ele crê que está lutando por seu sonho.
      “Então o menino não estava sob pressão dos pares (seus “amigos”)? Ou sob a influência de alguns professores “legalzões”? Ou dando vazão ao sentimento impotente de ver a avó “morrer em um hospital público” (palavras dele)? Ou respondendo ao imperativo hormonal?”
      Não estamos todos, de uma forma ou de outra, sob a pressão de nossos pares ou superiores ou pessoas que admiramos? Não estamos todos dando vazão aos nossos sentimentos, sejam eles conhecidos e nomeados, ou reprimidos? Não estamos todos respondendo a algum imperativo hormonal a qualquer momento? Ou seriam apenas os adolescentes e es idoses (e as mulheres, claro, embora o comentador não tenha falado nelas) animalizados por seus hormônios? Incapazes de operar racionalmente?
      “Achar que apenas o amor do filho é “este sim, real” (e o do pai, por contraste, não), e que este amor o prende em uma coleira invisível, é direito da autora.
      Mas é inescapável chegar à conclusão que a solução mais fácil para essa situação é “quebrar a coleira”, transformando o amor em outra coisa, que amor não é.
      Será que a autora acha que o filho deve, para se libertar da coleira, expressar seus sentimentos de maneira tão equivocada quanto o pai, talvez odiá-lo?”
      Não. O que eu quis dizer foi que o amor do filho foi transformado numa coleira invisível, porque está sendo usado como ferramenta de controle.
      Vamos separar sentimento (que é algo sobre o que não temos controle) da forma como expressamos nossos sentimentos (que controlamos, escolhemos, deliberamos, etc.). O filho não tem como parar de amar o pai por um ato de vontade seu. O que ele pode fazer é, se o pai de fato não for capaz de respeitá-lo, afastar-se dele. Só. Isso é ódio? Não. Isso pode ser até mesmo um gesto de amor. Se afastar de alguém cuja convivência desgasta nosso amor por ele ou ela, que nos faz sobrepor raiva a esse amor.
      Eu não acho que o menino deve nada. Acho que já tem gente demais na vida dele achando que ele deve isso ou aquilo. O que eu acho é que é sempre bom a gente lembrar que o amor de uma pessoa pela gente e o nosso amor por ela não dá a ela o direito de nos desrespeitar.
      “Ou pensa que um menino de 16 anos será capaz de perceber e transformar a relação de poder existente entre amantes (o pai e o filho se amam), preservando seu amor pelo pai mas dissociando este amor de algum tipo de ascendência emocional/psicológica?
      Um menino de 16 anos dará mostra de uma capacidade de auto-conhecimento titânica que a gigantesca maioria dos adultos, inclusive os autores de blogs não tem?”
      Acho que é plenamente possível. Eu já vi até mesmo crianças com muito mais autoconhecimento do que adultes. Aliás, é muitas vezes no processo de crescer, na educação que esse autoconhecimento é quebrado, através da repressão dos nossos sentimentos, gerando diversas neuroses.
      Agora, ele, como menor que é, não tem como se distanciar do pai com eficácia. Ainda mais um pai que usa a dependência econômica como ferramenta de controle. Mas nem precisa, sabe? Só o fato de o menino se conhecer e saber que a injustiça que percebe existe, que seus sentimentos são válidos e legítimos já é suficiente para que ele não se envergonhe deles, não se culpe por eles, não os reprima. E assim não se torne uma pessoa neurótica e defensiva, que acha que está agindo racionalmente quando, na verdade, está sendo usada como marionete pelos sentimentos que engarrafou dentro de si.
      “Tanto o garoto quanto o pai tem bons argumentos de seu lado. Obviamente se amam.
      Nenhum dos dois parece ter exercitado a comunicação destes conhecimentos e amores com eficiência até aquele momento, ou não teriam sequer chegado àquela situação.
      A autora não expressa dúvida sobre sua análise do video em momento algum; não leva em conta outros fatores sociais e individuais que incidem sobre os dois seres humanos envolvidos; “entra na cabeça” e “põe vozes” nos dois “personagens” como um autor de ficção.”
      Eu acho que o comentador está cometendo o pecado que aponta. Eu estou desde o começo falando de uma percepção muito minha, do que eu vi. Mas tudo bem. Pode perfeitamente ser lido de outra forma. O que eu pondero, no entanto é: é um texto de uma opinião em um blog. Milhares de outras opiniões cheias de certezas (como a do próprio comentarista, tão afeito a explicações biológicas para desqualificar os posicionamentos de outras pessoas) foram emitidas, com muito maior contundência e bastante agressividade, aliás. O tom desse texto responde a elas. Por que, então é este texto o que incomoda? Para mim (para mim, aqui, dentro da minha cabeça, na minha percepção), a resposta é bastante clara: porque ele destoa do senso comum. O senso comum do “honrar pai e mãe”, o senso comum que acha que “adolescente é tudo uma merda”, o senso comum que acha que “se fosse filho meu…” Porque esse texto defende a pessoa que todo mundo quer execrar. Porque esse texto faz com que as pessoas se sintam culpadas por se sentirem no direito de tomar atitudes arbitrárias e truculentas “pelo bem” de outras pessoas. Porque esse texto cutuca certas feridas que doem quando são cutucadas. Mas, enfim, é só a minha opinião.
      “Na minha modesta opinião, ela está apenas projetando sobre estes personagens da vida real suas próprias convicções e conflitos, arriscando pitacos em terreno desconhecido e reclamando uma capacidade de observação que ninguém tem.
      Em resumo: Pode ter acertado uma ou outra, como o relógio parado, mas é só achismo expressado de forma lírica em uma crônica sobre o cotidiano.”
      Mas é claro que eu estou projetando as minhas próprias convicções e conflitos. Porque reconheci nessa situação muito das minhas próprias convicções e conflitos. Como reconheceram outras pessoas que têm convicções semelhantes e passam e passaram por conflitos similares.
      E, como eu disse, o meu achismo é aqui, no meu humilde broguinho, tão válido quanto o achismo de qualquer outra pessoa, em sua TL, em seu blog, em sua coluna de jornal, em seu telejornal. Jamais pretendi que fosse qualquer outra coisa.
      Eu sempre examino em mim o que me incomoda para saber antes o porquê de me incomodar. Sugiro que o comentador faça o mesmo.
      E reitero o convite para a leitura de outros textos do blog. Pode ser útil.

      1. Caroline Jamhour Responder

        Letícia, só queria dizer que, além do texto do post, achei todas as suas colocações nessa resposta totalmente fantásticas. Obrigada por se expressar de maneira tão clara e sagaz (estou agradecendo porque realmente me dá satisfação ver alguém dando voz a coisas que posso até pensar e sentir mas jamais poderia colocar de forma tão clara!).

        1. Letícia Penteado Responder

          Obrigada, Caroline! =)
          É bom a gente saber que não escreveu à toa.
          Beijo!

  4. Lulu Responder

    Sem palavras! Que pancada de texto, quanta coisa fervilhando, palavras tão certeiras! Você me honra com este texto, inspirado na minha humilde contribuição naquele nosso diálogo! <3

  5. Alexandro Responder

    Maria, se o discurso do pai fosse: “Proteste, mas não se comporte como um vândalo” ou “Estarei acompanhando tudo. Se quebrar alguma coisa, você perde a razão”, eu entenderia. Mas não foi o caso.

  6. Ricardo Andre Responder

    Me parece que autora usa o mesmo pressuposto de quem defende a redução da maioridade penal. De quem alguém aos 16 anos consegue tomar decisões com o mesmo grau de complexidade e discernimento de um adulto. Impossível concordar.

    1. Letícia Penteado Responder

      Ricardo, na verdade não é isso que eu estou criticando. E sou ferrenhamente contra a redução da maioridade penal, aliás.
      Explico: o meu problema não é com o pai querer proteger o filho, ou não concordar com seu ponto de vista, ou mesmo debater esse ponto de vista e tentar orientá-lo de forma diferente.
      O meu problema é com a conduta adotada por esse pai e a forma como ele abordou o problema (e os aplausos que recebeu por isso). E estou dizendo que a forma como ele abordou o problema é sintomática de toda uma maneira de ver filhes e educação e criação. E que essa maneira é provavelmente muito mais parte do problema do que seria, um dia, solução. Convido-o a ler outros posts do blog, para elucidar o que eu quero dizer com “essa maneira”.
      Você pode se dirigir diretamente a mim, não precisa falar na terceira pessoa. Se vamos debater, acho que é mais simpático assim, não acha?
      Obrigada pelo comentário.

    2. Jenifer Roda Responder

      Ainda que não saiba tomar decisões, deveria estar aprendendo a tomá-las, com a ajuda dos seus responsáveis. Em vez disso – e esse é o ponto aqui nesse texto, Ricardo – o pai não o incentiva a pensar sobre seus atos. Mas sim, manda nele como num cachorrinho: já para casa, que quem paga tuas coisas sou eu e portanto quem governa sua vida sou eu.
      Que tipo de adulto vai se tornar esse jovem, sendo tolhido, sendo podado? Não tendo apoio e se agarrando a um “amor paterno” que na verdade é uma situação de poder? É esse o ponto do texto. Com 16 anos tomamos atitudes acertadas ou não, mas de onde vem nosso alicerce senão dos pais/das mães?
      Impossível é você distorcer o conteúdo total do texto, como se estivéssemos defendendo que o menino devia responder à mesma altura do pai e dizer: cale essa boca e me deixa em paz, que você não manda em mim.

  7. Akire Responder

    Burguesia sendo burguesia. Pessoas legitimando que são donas de outras pessoas e mandam nelas. Que os adultos sabem mais que os jovens. Na garganta só fica entalado o “é por falta da luta de vocês que estamos assim, que os jovens precisam ir as ruas mascarados quebrando tudo e com razão para tentar transformar a merda que vocês todos deixaram. Porque se vocês estão contentes e bem, fazem parte de uma minoria privilegiada e feliz”
    Le, adorei o texto… e bem, já sabe, já estará encaminhado para nosso jornal!

    1. Letícia Penteado Responder

      Obrigada, Akire!

  8. sandra oliveira Responder

    Só gostaria de saber se a referida escritora tem filhos, se pariu, gerou, passou noites insones, frequentou frios corredores de hospitais ou até mesmo sabe o que é ficar presa a uma cama esperando que a vida acabe de se formar dentro de você porque as vezes a natureza precisa de ajuda. Puxões, trancos ,violência e dedo em riste, martelando controle como se dono fosse
    essa sim é uma névoa romântica de quem nunca teve que zelar por uma vida, paga e arcar por ela. Quando um pai diz eu te sustento, não é esse o termo que se usa quando você abre mão de você para dar ao outro? Para fazer pelo outro? É tão fácil ser revolucionário com as contas pagas….. com tudo a tempo e a hora…..abaixar-lhes as calças pra que? Quantas vezes, e anos isso foi feito…será que a escritora já limpou uma centenas de bumbuns de cocô? Para os pais isso não se chama humilhação, o nome disso é rotina ! Dileta escritora só concordamos numa coisa ….o amor não respeita…principalmente a morte, nem de matar o outro e nem de ter o outro morto dentro de um caixão. O verdadeiro covarde quer que a dor sempre seja no outro…. largue a caneta e vá fazer sua luta, se tiver com seus filhos…..mas não critique a dor e desesperos dos pais que se recusam a viver sem ter do lado o seu maior tesouro : filhos vivos e seguros!

    1. Letícia Penteado Responder

      Eu tenho dues filhes. Lulu Anders também é mãe. Recomendo a leitura do novo post do blog, guest post da Lulu para você entender melhor o nosso ponto de vista.
      Proteger e sufocar não são a mesma coisa. Não se pratica a humilhação sob o pretexto de educação, não importa o quão belamente você consiga adornar esse ato com as suas palavras.
      Não criticamos a dor, criticamos os atos.
      Você é livre para querer o que for. Mas eu é que não quero minhas crianças vivas só para mim, numa redoma de vidro.

    2. Letícia Penteado Responder

      Gente, porque sempre que a gente fala pela criança as pessoas presumem que não temos nenhuma?

  9. Tatiane Responder

    Discordo totalmente do texto. Por mais responsável e adulto que este jovem seja, toda a responsabilidade de seus atos é dos pais. Se ele se machucasse, se ele fosse preso….tudo responsabilidade dos pais. Não só por lei, mas socialmente também.

    Os argumentos de ambos, pai e filho, me pareceu desesperados, não pensados, feitos no calor do momento. Acho que naquele momento o pai usou o argumento mais apelativo (o amor) , e digo, se estivesse no lugar dele faria o mesmo. No meio daquela confusão não dava para nenhum dos dois argumentarem de forma coerente.

    Muito injusto e irresponsável a autora julgar com mãos de ferro esse pai. Vulgar a partir apenas de um pequeno vídeo. Sempre estamos julgando os outros antes de ver o todo.

    E tem mais uma coisa, porque o jovem esconde a cara? O que ele tem a esconder? Ele já não sabe o que deseja, o que quer? Só ele pra nos responder, mas pra mim ( e acho que pra maioria) quem se máscara em protesto não tem boas intenções.

    A impressão que o vídeo me passou é que esse jovem tem uma família que se preocupa com ele e com o que ele está fazendo.

    1. Letícia Penteado Responder

      Tatiane, você é livre para discordar.
      Mas sabe o que é irresponsável? Usar amor e responsabilidade parental para escusar esse tipo de atitude. Colocar as coisas como se não houvesse outra forma de agir.
      O pequeno vídeo foi suficiente para que milhares de pessoas se manifestassem a respeito da nossa “juventude perdida”, do “rapaz fanfarrão” e por aí vai. Mas no momento em que é criticada a atitude claramente autoritária e, no mínimo, equivocada, do pai dele, o mesmo vídeo não é suficiente para emitir julgamentos. Que conveniente, não?
      A maioria das opiniões contrárias ao texto que foram enviadas seguem essa linha. De que foi muita pretensão, irresponsabilidade, etc. etc. etc. julgar esse pobre pai… mas julgar o filho dele é tranquilo, aparentemente. Então eu julgo com mão de ferro o pai, mas você julgam com mão de ferro o filho (sim, porque é julgar achar que alguém merece esse tipo de tratamento e humilhação pública). E o seu julgamento é admissível porque recai sobre um adolescente, mas o meu é inadmissível porque perturba a santidade do pai. Desculpa, mas isso é adultismo e não cola. Não comigo.
      A propósito, você infere (más) intenções a partir de uma máscara, mas eu não posso inferir nada a partir de todo um vídeo. Não acho isso muito coerente. Fica bem claro que o problema, no fundo, não é o julgar, o inferir, que você tanto critica, mas sua discordância em relação ao que está sendo julgado e inferido. E, como você não consegue atacar o mérito, ataca a forma. Uma hipocrisia, em outras palavras.
      Ninguém nega a responsabilidade dos pais. E, como já respondi antes, não entro no mérito de por que alguém esconderia o rosto, se isso é a maneira “correta” de protestar. O que se coloca, no meu texto, é que há formas e formas de agir e que a via eleita por esse pai em particular, e vastamente aplaudida mundo afora, não me parece correta do ponto de vista de alguém que busca ter com criança e adolescente a mesma empatia que tem com adultes.

  10. Maria Responder

    Pois é Sandra atitudes assim são necessárias em determinadas situações. Isso não quer dizer que não conversamos, amamos e cuidamos.
    Acho muita pretensão nossa julgar a relação daquele pai e daquele filho. São expeculações apenas.
    Agora o que mais me preocupa é do Estado querer interferir nesta esfera tão privada que é a relação pais e filhos, como a lei da palmada. Daqui a pouco um sujeito que age assim vai levar uma multa, ou ainda ser preso! Ou pior linchado socialmente, cada a liberdade tão pregada por aqueles que valorizam o indíviduo?
    Esses discursos de respeitar o sujeito são lindos, ideias e abstratos, pois o sujeito está ao mesmo tempo em relação com a sociedade. Nossa sociedade anda cada vez mais doentia e discursos como respeitem a individualidade do menino, da criança, do bebê, são bonitos, mas sempre devem ser pesados no contexto que os cerca. E melhor será se estas regras vierem de dentro da família, do que Estado que te manda fazer uma coisa, que muitas vezes não faz o menor sentido para aquele núcleo.

    1. Letícia Penteado Responder

      Realmente não quer dizer que não amam. Quer dizer que não respeitam.
      E antes de falar sobre a Lei Menino Bernardo – ou qualquer lei, aliás – recomendo que se informe melhor a respeito. A referida lei (que você, como muitas outras pessoas, chama de “lei da palmada”) não prevê nem multa, nem prisão. A ideia é ajudar os pais, com medidas educativas e acompanhamento psicológico, a encontrarem formas alternativas para disciplinar suas crianças e adolescentes, e não complicar ainda mais a vida já tumultuada de uma família em que a agressão é corriqueira.
      Quanto ao linchamento social, espero mesmo que um dia a violência contra a criança seja tão malvista socialmente quanto o é a violência conjugal, ou contra idoses. Porque, para mim, não há diferença.
      Eu, como anarquista, não gosto do Estado mandando ninguém fazer nada. Mas, vivendo num contexto em que há leis que protegem adultes, não vejo sentido em justamente as pessoas mais vulneráveis de nossa sociedade ficarem desprotegidas. A mensagem que o Estado passa, assim, é a de que a violência contra elas é admissível, como você parece pensar.
      Defensores da brutalidade como forma de amor encontrarão milhares de páginas na internet onde poderão expressar seu autoritarismo livremente com muitas pessoas para apoiá-les. Esta não é uma delas.

    2. Letícia Penteado Responder

      Aliás, vou te ajudar, Maria, para que você não passe vergonha também em outros lugares.

      Diz a Lei Menino Bernardo (Projeto de Lei n.7672/10)

      “Art. 17-B. Os pais, integrantes da família ampliada, responsáveis ou qualquer outra
      pessoa encarregada de cuidar, tratar, educar ou vigiar crianças e adolescentes que utilizarem
      castigo corporal ou tratamento cruel ou degradante como formas de correção, disciplina,
      educação, ou a qualquer outro pretexto estarão sujeitos às medidas previstas no art. 129,
      incisos I, III, IV, VI e VII, desta Lei, sem prejuízo de outras sanções cabíveis.”

      A Lei a que esse artigo se refere é a lei 8.069/90 (o Estatuto da Criança e do Adolescente). Os incisos mencionados do artigo referido dizem o seguinte:

      “Art. 129. São medidas aplicáveis aos pais ou responsável:

      I – encaminhamento a programa oficial ou comunitário de proteção à família;

      III – encaminhamento a tratamento psicológico ou psiquiátrico;

      IV – encaminhamento a cursos ou programas de orientação;

      VI – obrigação de encaminhar a criança ou adolescente a tratamento especializado;

      VII – advertência;”

      Há previsão de sanções sim, mas não para os pais e sim para os órgãos públicos que forem coniventes com a violência doméstica contra a criança.

  11. sheylane Responder

    Sou mãe de um adolescente. Desses aí que se enfiam em manifestação. Desse tipinho que acha que vai mudar o mundo. Cheio de verdades, cheio de sonhos hippies.
    Sou mãe de um garoto de 15 anos que questiona tudo que os professores dizem em sala, que fica se metendo a defensor de direitos humanos.
    Sou mãe de um garoto que que se acha muito responsável pelos seus atos que se acha muito grande. Cheio de mania de “mas então me explica como é isso”
    Sou uma dessas mães e/ou pais que sofrem, que temem quando o menino sai todo vestido de preto. Que não dorme, mas que sabe que nada mais se pode fazer a não ser confiar no que construímos coletivamente enquanto família.
    Sou mãe de um jovem garoto, de um menino que ousa, que sonha e que cresce. De um sujeito extremamente respeitador. De uma alma linda que na rua e em casa aprende que lutar pelo que ele acredita é urgente.

    Obrigada pela lindeza desse texto!

    1. Letícia Penteado Responder

      Obrigada a você pela lindeza desse comentário!!! Me emocionei lendo.
      “sabe que nada mais se pode fazer a não ser confiar no que construímos coletivamente enquanto família.” Exatamente isso. <3

  12. Maria Responder

    Vamos ao invés de enxegar nos outros o respeito e a liberdade praticá-los nós mesmo, em nosso cotidiano?
    Letícia, em relação a esta nossa discussão preferiria tomar um café com vc para conversarmos e nos entendermos, pois estamos falando de coisas diferentes. E como nesta relação virtual fica muito difícil de nos entendermos adequadamente, me retiro da conversa muito chateada pela maneira como vc encaminhou a discussão. Isto só me mostra o quanto estamos distantes neste mundo da internet, em que cada um tenta convencer o outro de sua opinião, interpretar os fatos de acordo com sua visão de mundo (muitas vezes sem a consciência de que apresenta uma versão dos fatos – o que não é o seu caso). Eu não tenho esta pretensão: mudar o mundo na internet, e acho muito ruim ficar intelectualmente me desentendendo com alguém que nem conheço, não sei se você pratica tudo aquilo que idealiza (isto não só para vc mas para todos nós).

    1. Letícia Penteado Responder

      Maria, eu busco praticar. Honesta e esforçadamente. Se consigo? Não sei. Não tenho como fazer uma avaliação objetiva a respeito.
      Eu não tento convencer ninguém da minha opinião, apenas a exponho e busco permitir que meu interlocutor forme seu convencimento livremente.
      Agora, veja, você veio até aqui para comentar o meu texto, não leu minhas respostas ou outros comentários, ficou só dando a sua opinião com colocações irônicas e falando de pretensões minhas, além de usar este espaço para fazer campanha contra a Lei Menino Bernardo (e ninguém estava falando dela), uma lei a respeito da qual você parece saber muito pouco. Mas isso não te impediu de escrever a respeito, de forma proselitista e equivocada.
      Daí, quando eu exponho isso para você, ao invés de considerar os meus argumentos, você se coloca em posição de vítima, “muito chateada com a maneira como [EU encaminhei] a discussão”. Isso não faz sentido para mim. Fica me parecendo que você é uma daquelas pessoas para quem respeito, polidez, etc. é uma via de mão única. Na minha opinião, faltou um pouco de autocrítica para você nesta nossa troca.
      Mas é possível que tivéssemos nos entendido melhor se estivéssemos conversando e tomando café. Quem sabe.

  13. Príscila Responder

    Olha pais erram e acertam, meus pais erraram também, mas é sempre querendo o bem de seus filhos… E uma certeza eu tenho quando os caras mascarados aparecem nas manifestações eu vou embora… Porque sei que final bom não vai ter… Justamente pelo que já vi eles fazendo… E esse pai, ao ver também, foi da forma que sabia tirar seu menino de lá… E com surpresa ao ver que o filho já estava se tornando num deles… o maior medo que um pai tem é de perder o seu filho… Como muitos já perderam… Uma dor cingular… Que não há descrição… Usou a arma que tinha… Sua autoridade… Aceitou ser julgado, correu risco de ser apanhado, de fazer papel de ridículo… E foi ridículo… Mas enfrentou é tirou seu menino de lá… Coisa que só um pai faria mesmo… Falou coisas duras, sabendo que seu menino o odiaria (momentaneamente) por aquilo tudo… Mas só os pais são capazes de fazerem isso… Meu pai faria a mesma coisa… Talvez eu fizesse a mesma coisa… Não sei dizer, usaria palavras mais duras ou menos duras, também não sei… Mas só quem não dorme até a gente chegar… Que fica ao relento a nossa procura… Que se formos presos estará lá para nós dizer que sempre teremos um lugar… Que vai querer sempre viver por nós as nossas dores… Que é capaz de se por em frente de uma bala de revólver para nos proteger… Só está pessoa pode falar… Não escolheu as palavras certas, mas quem num momento de alta tensão pensa o que vai falar… Ele agiu apenas como pai… Se fosse um pai agressivo teria o tirado de lá a chutes e ponta pé… Com cintadas ou vassouradas (como muitas meninas o são ao projetar o insano desejo de marchar de ou sem sutiã)… Ele usou as palavras… Duras, mas o momento, às vezes exige isso de pais… Que não são coleguinhas, os quais tudo nos devem apoiar, mas são pais… Aqueles que devem sim nos proteger daquilo que achar ser arriscado para a nossa vida ou integridade… São apenas pais que erram e acertam o tempo todo… Eu, como manifestante, vi apenas um pai

    1. Letícia Penteado Responder

      Príscila, vejo no seu comentário muito do adultismo que entende que, quando a pessoa jovem age certo isso é mérito dos pais dela e que, quando age “errado”, leia-se de forma indesejada, isso é demérito só dela. E que qualquer reação dos pais diante disso seria justificada, um verdadeiro ato de heroísmo, a salvar essa pessoa de si mesma.
      Eu sou mãe. Eu posso falar. E não há melodrama que vá me cegar para a violência que eu vi nessa cena.
      Vamos parar de tentar vender a brutalidade como algo necessário ou mesmo aceitável? Vamos parar de fingir que não houve todo um percurso de erros paternos até chegarmos num acontecimento desses? Vamos parar de tentar justificar o desrespeito?
      Eu, como mãe, como mulher, como ativista, como pessoa, vi um tirano.
      Aliás, ficou perdida aí no seu comentário a frase “(como muitas meninas o são ao projetar o insano desejo de marchar de ou sem sutiã)”. Sinto que devo comentar.
      Insano é, em pleno século XXI, mulheres terem que se cobrir para “merecerem respeito” enquanto homens andam de torsos nus sem serem molestados. Insano é pensar que mulheres que não se cobrem são culpadas pelos abusos que sofrem porque “homens não são capazes de se controlar”. Insano é quem não é capaz de se controlar andar solto na rua. Insano é mulheres de burca, cobertas da cabeça aos pés serem estupradas e as pessoas falarem que a culpa era delas mesmo assim, porque seus OLHOS estavam expostos. Isso tudo é insano. Marchar, como mulher, contra essa insanidade, não é insano. É LINDO. E libertador. Convido você a experimentar. Ou, pelo menos, a ler mais a respeito.
      Por ora, deixo aqui um link para um outro texto meu, que talvez ajude a elucidar essa questão: http://leticiapenteado.wordpress.com/2014/06/06/por-que-as-mulheres-tem-tanto-medo-de-ser-estupradas/

  14. Cassiano Responder

    Leticia, o pai tomou a atitude certa. Não gostaria jamais de ver meu filho misturado com um bando de baderneiros sem o que fazer, preferiria ve-lo estudando ou fazendo algo melhor. Em relação ao tratamento do pai ao filho, é assim que se repreende um homem quando age como um imbecil: com firmeza, com dureza, com rispidez.

    1. Letícia Penteado Responder

      Cassiano, o pai não tomou a atitude certa. E, pelo visto, não é a primeira vez que ele não toma a atitude certa. A violência, o autoritarismo, o desrespeito, nunca estão certos. Mesmo que eles atinjam algum objetivo de curto-prazo, o preço que se paga por isso costuma ser maior do que o que se ganhou.
      Lembre-se que o seu filho não é você. Que você não tem o direito de impor o seu querer a ele. O que você julga melhor pode não sê-lo na opinião dele. E daí? Ele deve, então, sufocar seu próprio querer, seu próprio eu, para agradar a você? É isso que você, como pai quer para o seu filho? Acha que ele estaria melhor como um paletó vazio, bem empregado, bem sucedido e morto por dentro, como tantas pessoas que conheço? Entrando em crise de meia-idade aos trinta anos, porque nem sabe direito o que quer, o quem é de verdade, já que passou a vida inteira se transformando para agradar a pais como você?
      Você preferiria ver seu filho fazendo outra coisa, é justo que prefira. O que não é justo é que imponha essa sua preferência sobre ele sem sequer dialogar a respeito.
      Sobre a forma como “se repreende um homem”, achei essa colocação tão machista e autoritária! Primeiro, por que repreender? Por que não ouvir, escutar, conversar? Como eu já disse antes, talvez, se houvesse diálogo anterior, essa cena jamais tivesse acontecido. Mas o mais fácil é fingir que não se tem nada a ver com isso e “repreender”, simplesmente. Outra coisa: o que eu vi no vídeo não foi só dureza e rispidez. Foi violência. Então homem tem que ser tratado com brutalidade? É isso mesmo? Talvez o mundo fosse um lugar muito melhor se TODAS AS PESSOAS fossem vistas como tendo o direito de serem tratadas SEM dureza, SEM rispidez.