Vítimas e algozes

Quantas vezes você sofreu uma agressão e só pensou que deveria ter reagido horas, dias, meses...

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Quantas vezes você sofreu uma agressão e só pensou que deveria ter reagido horas, dias, meses depois? Quantas vezes demorou ainda mais tempo para entender que não merecia aquele tratamento, que nada justificaria aquilo?

Quantas vezes alguém gritou ou fez alguma grosseria com você e você se calou, hesitante, incapaz de, naquele momento, articular, sequer para si, que essa pessoa não tinha esse direito? Que ninguém tem o direito de desrespeitar você, ainda que você tenha errado?

Quantas coisas você poderia ter dito? “Ok, eu errei, peço desculpas, mas você não pode me tratar assim.” “Entendo que você esteja irritado, mas exijo respeito.” “Eu não tenho que aguentar isso.”

Mas as palavras, mesmo essas palavras, simples, pacíficas, não vêm. Para onde elas foram? Onde se esconderam? Vejamos.

A menininha de dois anos derruba o copo de suco. O pai grita com ela. Grita quando o copo cai, grita enquanto vai buscar o pano, grita enquanto limpa o chão. Grita todos os gritos que já ouviu na vida, o trabalho estressante, o time de futebol que não ganha, os semáforos que sempre fecham na hora em que ele vai passar. Grita, grita, grita.

Ela tem dois anos. Não foi de propósito. Copos caem, acidentes acontecem, especialmente quando a sua coordenação motora ainda está em pleno desenvolvimento. Há apenas alguns meses, sequer se esperaria que ela segurasse um copo sozinha. Ela está se aventurando, aprendendo. E falha, porque falhar faz parte de se aventurar e aprender.

Ninguém repreenderia uma criança que cai quando está começando a andar. Mas o suco suja o chão e isso cria uma oportunidade para extravazar dá trabalho para o pai. Ele grita, e grita ainda mais (ou mesmo fisicamente agride) se a criança responde. E, assim, as palavras dela aprendem a rapidamente fugir em situações de conflito.

E se fosse de propósito? E se ela tivesse atirado no chão o copo? Daí valeriam os gritos, ou a possível surra que tomaria na maioria dos lares mundo afora?

Não. Porque ela ainda seria uma criança, com pouquíssimo controle sobre seus sentimentos e atos, dominada por seus impulsos, agindo e falando sem pensar. Ao contrário de nós, pessoas adultas. Ou deveria ser.

Será que, sem os gritos já ouvidos, o trabalho estressante, etc., a postura do pai seria a mesma? Ou será que ele seria capaz de olhar para a situação com mais clareza, menos tomado por emoções incontroláveis que o levam a reagir com tanto exagero e irracionalidade?

Sempre podemos pedir desculpas mais tarde, é verdade. Mas quão reparador é o que acontece mais tarde se, para a criança (especialmente nessa idade), só existe o agora?

Quando uma criança é tratada dessa forma, ela aprende que aquele tratamento é admissível e merecido por ela. Que aquela reação é compatível com aquela situação. Que sofrer desrespeito faz parte da correção dos erros dela e que ela sempre está errada, mesmo que não entenda o porquê.

É necessário intervir quando vemos isso ocorrer, por mais atrito que isso nos possa causar com pessoas adultas a quem amamos. Porque com estas poderemos conversar novamente depois, com a cabeça fria; com a criança não. A criança precisa ouvir, ali, imediatamente, que lhe é devido um tratamento digno, ou o momento de defendê-la, de protegê-la, de incutir-lhe a noção de que aquele abuso é inescusável terá passado para sempre. Se não tomarmos uma atitude, em breve estaremos diante de mais uma pessoa cuja reação automática diante de uma grosseria é encolher-se e culpar-se em silêncio.

Muitas vezes passamos tanto tempo e nos dedicamos tanto a aprender a reagir a ofensas que nossa reação fica até desequilibrada. Excessiva. Nos tornamos pessoas constantemente armadas, à espera de alguém que nos pise nos calos (e tudo vira calo), para que possamos revidar tudo o que não revidamos a vida toda. Na nossa ânsia por jamais nos submetermos àquilo de novo, inadvertidamente impomos a outrem o que nos fizeram. Montamos artificialmente uma maldade que não é nossa e amordaçamos a empatia dentro de nós.

E nunca haverá vingança suficiente. Porque a raiva que sentimos é da nossa própria impotência, da nossa própria docilidade. Nós, vítimas, nos culpamos pelo que outras pessoas nos fizeram. Nós, vítimas, achamos que estava sob o nosso controle outra pessoa não nos agredir. E isso, claro, não é verdade.

O mundo condiciona as crianças a não discutirem, a apanharem sem chorar ou reclamar, a suportarem e calarem, a nunca dizerem não. E depois recrimina a passividade, culpando a falta de reação do agredido pelos atos do agressor.

Já fomos crianças. Já sofremos esse condicionamento. Agora somos gente grande e temos o poder de escolher. Cabe-nos decidir se queremos passar de vítimas a algozes.

Vamos quebrar o ciclo da violência!