Tirania Infantil?

http://pt.wikipedia.org/wiki/Tamagotchi Li hoje, por infelicidade, mais um artigo que usa exemplos extremos de crianças mal-educadas por pais permissivos...

http://pt.wikipedia.org/wiki/Tamagotchi
http://pt.wikipedia.org/wiki/Tamagotchi

Li hoje, por infelicidade, mais um artigo que usa exemplos extremos de crianças mal-educadas por pais permissivos para pregar o adultismo.

Mais um artigo que consulta “especialistas” que não comprovam suas afirmações com nenhuma evidência científica, como se bastasse o argumento de autoridade para validar o preconceito. Mais um artigo alarmista, que usa a previsão infundada de um futuro infeliz e desajustado para as crianças para promover a histeria controladora entre os pais. Mais um artigo que, machistamente, parte do princípio de que apenas à mulher cabe cuidar da criança e que, ainda mais machistamente, prega o adultismo para que a mulher consiga “segurar seu homem”. Mais um artigo que distorce o depoimento de uma mãe para usá-lo contra ela própria. Mais um artigo que contrapõe as crianças às pessoas que cuidam delas, como se fossem partes inconciliavelmente em guerra.

Daí recebi o link de um texto curto e simples que expressa muito bem o meu sentimento neste momento, chamado “Não é conveniente ter filhos” de Gabi Sallit. É isso. Ter filhes não é conveniente. Não se encaixa na sua agenda. Não é cômodo e confortável para as pessoas ao seu redor. Mas, se nada mais – nenhuma das outras grandes decisões da sua vida – tem que ser, por que justamente isso teria?

Não dá para ter filhes e continuar sendo a mesma pessoa e fazendo as mesmas coisas. Até porque o dia não passa a ter mais horas depois que eles vêm; parece, inclusive, ter menos, muito menos.

Não são as crianças que nos privam de nós. Não é por culpa delas que, de uma hora para outra, não nos reconhecemos. Essa luta contra a tão arvorada quanto inexistente “tirania infantil” (como se fosse possível a alguém numa posição tão vulnerável ser tirânico!) não é só uma luta contra as crianças. É, no fundo, uma luta contra a vida, contra si mesme, imposta por uma sociedade que exige que tenhamos filhes ao mesmo tempo em que exige que nunca nos tornemos pais.

O maniqueísmo estúpido que nos quer sempre absolutes (só mães ou só mulheres, só pais ou só homens, só cuidadores ou só pessoas) é o mesmo que não é capaz de ver a relação familiar senão como algo necessariamente opressivo, em que há sempre dominantes e dominades, nunca um equilíbrio.

A verdade é que ninguém é, nem deve ser, só mãe ou pai, mas ser mãe ou pai em alguma medida fazem parte da pessoa que a gente se torna depois que nosses filhes surgem na nossa vida. Porque somente a completa indiferença nos manteria inalterados diante da enormidade desse acontecimento.

Talvez o melhor conselho para quem deseja ter filhes seja justamente “você vai se transformar numa pessoa nova. Tente conhecer essa pessoa ao invés de ficar tentando combatê-la.” Quanto mais cedo a gente aceita a morte do nosso antigo eu, mais cedo passaremos pelo luto e mais cedo poderemos encontrar e aceitar o nosso novo eu.

Ninguém fala para o amigo que vai embora da festa para dar comida para o cachorro que ele está sendo tiranizado; ninguém diz para a colega de serviço que não vai poder viajar porque não encontrou quem cuide de seu gato que ela agora deixou de ser mulher e passou a ser só dona de bicho. Entendemos de imediato que se trata de seres com necessidades especiais e uma capacidade de acomodação menor que a nossa. Que a nossa decisão de nos tornarmos guardiões dele implica esse cuidado, essa responsabilidade, essa consideração. Não é sacrifício, é algo que faz parte. Pode não ser fácil, mas não é um ato de altruísmo.

Por que nos falta essa empatia com nosses filhes? Compreendemos o absurdo de exigir do bicho que deixe de ser bicho, mas continuamos a exigir que a criança que deixe de ser criança.

E que a mãe que deixe de ser mãe.


11 comments

  1. bbza Responder

    Como sempre, perfeito!
    Catherine

    1. Letícia Penteado Responder

      Obrigada, querida! =)

  2. NRdes1gn Responder

    Adorei!

  3. Natalie Catuogno Consani Responder

    ótimo texto!
    compartilhando.

  4. Linda Responder

    “Ninguém fala para o amigo que vai embora da festa para dar comida para o cachorro que ele está sendo tiranizado”. Talvez porque o cachorro não vire o ónus do mundo que circunda seu dono. Eu nunca precisei passar meses trabalhando por duas (e sem receber um tostão a mais) para cobrir licença-maternidade de alguém que pariu um cachorro. Nunca vi um cachorro correndo aos berros por um restaurante enquanto eu tentava jantar. Nunca fiquei aguentando uma dona de um cachorro falando só disso depois que adotou o bicho. Nunca fui assaltada por um cachorro porque a mãe dele é uma relapsa que só soube abrir as perninhas e se esqueceu de educá-lo. Nunca sofri numa viagem de avião por causa de um cachorro que se esguelou durante as 10 horas de voo. Se as mães não onerassem o mundo com seus rebentos, talvez houvesse mais empatia por elas. O grande problema é que ela botam filho no mundo e querem que todo mundo ame os filhos delas com a mesma força que elas. Que os aceitem com a mesma força que elas. Seu texto é prova disso: você praticamente implora por empatia. Ter filhos é decisão puramente pessoal e, como tal, ainda falta muito para haver o reconhecimento de que o mundo não é obrigado a compartilhar desta decisão que foi puramente sua.

    1. Letícia Penteado Responder

      Linda, você vive em sociedade. Viver em sociedade significa viver em contato com outras pessoas. CRIANÇAS E MÃES SÃO PESSOAS.
      “Talvez porque o cachorro não vire o ónus do mundo que circunda seu dono.” E cachorro não late, não faz cocô, não faz xixi (e um monte de pessoas donas de cachorro não se importam, não limpam, etc.)? Não incomoda ninguém? Aliás, você não incomoda ninguém? Nunca? Será?
      “Eu nunca precisei passar meses trabalhando por duas (e sem receber um tostão a mais) para cobrir licença-maternidade de alguém que pariu um cachorro.” Pessoas, por óbvio, não parem cachorros. Mas vamos deixar isso de lado. Você acha que é culpa da mãe que sai de licença você ter que trabalhar por duas sem receber um tostão a mais? Que tal falar da pessoa que te emprega, ou do sistema que te explora? Por que é justamente sobre os ombros de uma mulher tão explorada quanto você e de uma criança que você vai colocar toda a responsabilidade pela sua amargura profissional?
      “Nunca vi um cachorro correndo aos berros por um restaurante enquanto eu tentava jantar.” Bom, eu já lidei com muitos cachorros latindo e agindo de forma muito inconveniente enquanto eu tentava fazer n coisas. Mas, sabe o quê? Eu não recrimino o cachorro. Porque o cachorro faz o que está na sua natureza fazer. E também não recrimino, necessariamente, a pessoa que é dona dele, porque sei que nem sempre a gente tem como controlar tudo. Ela pode, por exemplo, ter acabado de se mudar e o bicho estar estressado, assustado, etc. Ou ele pode ser simplesmente um cachorro nervoso, traumatizado, mil coisas.
      Mas, voltando ao assunto, eu vivo lidando com pessoas adultas extremamente desagradáveis, mesmo sendo adultas e tendo plena capacidade de se controlarem. Pessoas que falam alto, que se comportam de forma inconveniente e inclusive beligerante e violenta. Inclusive em restaurantes. Quando eu estou tentando jantar. E eu tenho certeza de que não sou exceção. Mas, por algum motivo, as pessoas só reparam nas crianças. Como se as crianças fossem as pessoas que têm, como eu disse, plena capacidade de se controlar. E eu acho que isso é porque, no caso das crianças, podemos forçá-las, fisicamente, a se adequarem ao que queremos, coisa que não temos como fazer com a pessoa adulta. A minha resposta a isso é o famoso “por que você não vai implicar com alguém do seu tamanho?”
      “Nunca fiquei aguentando uma dona de um cachorro falando só disso depois que adotou o bicho.” Bom, eu já. E tudo bem. Sabe por quê? Porque as pessoas têm o direito de se interessarem pelo que bem entenderem e se devotarem ao que quiserem. Considero autoritária a postura de querer estabelecer o que é ou não digno de ser “monotema” na vida da pessoa. Considero, aliás, machista que apenas quando o monotema é criança isso seja um problema. Pessoa pode falar só de futebol, só de trabalho, só de política, só de namorades e tudo bem. Mas falou de criança e ser mãe, pronto. Merece o ostracismo.
      “Nunca fui assaltada por um cachorro porque a mãe dele é uma relapsa que só soube abrir as perninhas e se esqueceu de educá-lo.” Bom, vivo vendo notícias de pessoas que foram mordidas por cachorros que não foram bem-cuidados ou guardados pelas pessoas que são suas donas. Portanto, também aqui a sua analogia (ou, pelo menos, a sua tentativa de desconstruir a minha) falha. Outra coisa: o tanto de machismo em “só soube abrir as perninhas e se esqueceu de educá-lo” é de fazer vergonha a Jece Valadão. Parabéns. Só que não.
      “Nunca sofri numa viagem de avião por causa de um cachorro que se esguelou durante as 10 horas de voo.” Mesma coisa que no restaurante: eu já voei com pessoas adultas se esgoelando por doze horas de voo. E fumando no banheiro. Entre outras coisas. E, em todas as ocasiões, lógico, havia mais n pessoas comigo que também estavam incomodadíssimas. Mas, claro, incômodo mesmo só quando é uma criança chorando de medo, de incômodo, de dor de ouvido, coisas absolutamente normais e fora do controle dela e da mãe dela. De novo, só a pessoa que não tem capacidade para se controlar é a pessoa de quem é cobrado o autocontrole.
      “Se as mães não onerassem o mundo com seus rebentos, talvez houvesse mais empatia por elas.” De novo esse “onerar o mundo”.
      Você queria o quê, exatamente? Que ninguém saísse de casa com criança até elas atingirem a maioridade? Conforme-se: você vive em sociedade.
      Aliás, já que estamos falando de ônus, quem você acha que vai pagar a sua aposentadoria? As crianças de hoje. Sim, porque o sistema é de contribuição solidária. E não só; as crianças ao seu redor serão não apenas es possíveis assaltantes de amanhã, mas as pessoas que serão médicas, advogadas, engenheiras. Serão como eu e você. Porque elas são pessoas. No mundo. Na sociedade. A forma como as crianças são tratadas concerne a toda a sociedade porque elas fazem parte da sociedade. A forma como você é tratada, enquanto cidadã, enquanto mulher, concerne a toda a sociedade, porque você faz parte da sociedade. Não tem empatia? Ok. Mas tenha respeito. Saia da sua bolha adultocêntrica e adultista perceba que crianças são pessoas. Que elas têm o direito de ocupar o espaço tanto quanto você. Que elas têm o direito de fazer tudo o que não é proibido por lei, assim como você. E que, se você tem um problema com isso, o problema é você, não elas. A sociedade vem com crianças, porque crianças são pessoas e integram a sociedade. Quanto mais cedo você se conformar com isso, melhor para todo mundo.
      “O grande problema é que ela botam filho no mundo e querem que todo mundo ame os filhos delas com a mesma força que elas. Que os aceitem com a mesma força que elas. Seu texto é prova disso: você praticamente implora por empatia.” É muito conveniente querer para si o respeito que não se tem com outrem. Eu não quero que ninguém aceite ou ame mes filhes. Empatia… olha, eu realmente prezo muito pela empatia e a considero uma ferramenta útil para a vida em sociedade. Uma dádiva, na verdade. Eu não peço a ninguém para ter empatia, porque não acho que seja o tipo de coisa que se faz a pedido. Mas eu quero, e EXIJO que que RESPEITE. E tenho o direito de exigir. Assim como em relação a todas as outras pessoas. Porque crianças são pessoas.
      “Ter filhos é decisão puramente pessoal e, como tal, ainda falta muito para haver o reconhecimento de que o mundo não é obrigado a compartilhar desta decisão que foi puramente sua.” Sim, ter filhes é uma decisão puramente pessoal – a não ser aqui no Brasil, onde o aborto é crime. Eu escolhi ser mãe, mas conheço muitas que não escolheram, o que é muito triste tanto para a mãe quanto para a criança. Mas daí, claro, você provavelmente é das pessoas que acham que “é só fechar as perninhas” – espero que, por questão de coerência, você adote essa postura para si mesma também. Ou seja, na hora de se meter no útero alheio todo mundo acha lindo.
      Mas tudo bem, isso é só um detalhe. Vamos voltar ao assunto: o mundo É OBRIGADO a compartilhar dessa decisão sim. Porque, sem ela, a nossa sociedade acaba. Sabe, continuidade da espécie? Então. É do interesse de todes que as nossas crianças sejam muito bem cuidadas, porque elas são o nosso futuro. Clichê, mas verdade. E outra, não só por isso, como eu já falei aqui incessantemente, a questão é: você não tem que tolerar a mim? Eu não tenho que tolerar a você? Então temos também que tolerar a criança. PORQUE A CRIANÇA TAMBÉM É PESSOA E PARTE DESTA SOCIEDADE.
      Pensa assim, ó: todas as pessoas têm suas necessidade específicas. As necessidades das crianças podem não casar com as suas, mas isso não é culpa delas – nem sua. É uma circunstância. Mantenha-se longe na medida do possível e, no que não for possível, lembre-se que você não tem o direito de querer excluir ou cercear outras pessoas que não estão praticando nenhum crime contra você na sociedade da qual fazemos parte. Porque crianças são pessoas. Como eu e você.

      1. Ana Responder

        9Adorei seu texto. É muito cansativa a necessidade de estarmos constantemente tendo que justificar nosso papel de mãe. Para mim, é tão simples…basta imaginar as vezes em que ficamos em situações de fragilidade, tudo que queremos não é alguém que nos ampare? Não é preciso uma adequação da rotina? Onde está a tirania disso? Obrigada por compartilhar.

      2. Dauilic Responder

        Simplesmente M A R A V I L H O S A toda a sua colocação!

  5. Flavia Lago Responder

    Por que a sociedade se incomoda tanto com o amor? Por que as crianças (como crianças em si) não são aceitas pela sociedade? Por que os pais que decidem viver a criação com apego são pessoas sempre estigmatizadas, “produtores de crianças mimadas”? Enfim, seu texto me fez lembrar dessas perguntas. Ótimo texto, ótima reflexão.

  6. Nilza Responder

    vejo isso como mãe de três meninos, que hoje são adultos: quando se tem um só filho é difícil estabelecer esse limite entre o amor e a submissão . Mas quando se tem mais de um, naturalmente os limites surgem, pois cada um dos filhos tem que receber respeito igual, inclusive do outro filho. Concordo que a criança tem que ser aceita como pessoa que é, com seus defeitos e qualidades, mas também precisa respeitar e aceitar as outras pessoas , inclusive aquelas que não conhece e com as quais não convive, num conceito muito mais amplo de respeito e solidariedade.

    1. Letícia Penteado Responder

      Nilza, concordo plenamente com você! Aliás, é um dos maiores desafios que surgem quando a prole aumenta – conseguir conciliar as necessidades e vontades de duas pessoas que ainda estão aprendendo a transigir, que muitas vezes, aliás, estão justamente passando por sua fase mais egocêntrica!
      Eu acabei de escrever um texto só sobre limites e como essa palavra costuma ser usada por um viés autoritário e comportamentalista, e fiz a ressalva para pessoas como você, que usam o termo num contexto de respeito às outras pessoas (que é algo que eu entendo que temos o dever de alimentar em nossas crianças).
      Obrigada!