Asfixia emocional

A maternidade me transformou antes mesmo de eu parir. No processo de aprender a ser...

Sufocar

A maternidade me transformou antes mesmo de eu parir.

No processo de aprender a ser a melhor mãe que eu poderia ser, eu aprendi a acolher. A empatizar. E isso mudou a minha vida.

Esse acolhimento me surpreendeu ao iluminar partes de mim que antes eu mantinha no escuro. Me peguei, de repente, abraçando uma menininha triste e assustada que eu encontrei num canto, escondida sob camadas e camadas de raiva. Uma menininha de cuja existência eu havia me esquecido por completo, que a vergonha de sentir, de chorar, tinha me feito enxotar da memória.

Depois de dar voz à dor que ela sentia, um pequeno milagre aconteceu: comecei a sentir também a dor dentro de outras pessoas. Minha percepção do mundo e de quem estava ao meu redor mudou. Subitamente, éramos todes crianças tristes e assustadas, tentando sobreviver ao que não queríamos lembrar.

Hoje eu entendo. Como podemos nos abrir para os sentimentos de outras pessoas, como podemos nos dispor a sentir com elas o que elas sentem, e não apenas entender o que elas pensam, sem que tenhamos antes abraçado os nossos próprios sentimentos negados, reprimidos, silenciados?

Como reconhecer em você o que há em mim se eu não suporto antes me olhar no espelho?

Se estamos tentando não sentir, não conseguimos lidar com o sentimento de outrem, porque a dor lá fora nos faz recordar da dor aqui dentro. Incomodades, queremos que aquilo acabe logo, mas, por mais que queiramos, não temos como fazer alguém parar de sofrer (o que nos faz sentir, ainda por cima, impotentes). É aí que podemos optar por agir egoísta e pragmaticamente sobre aquilo que efetivamente está sob o nosso controle; não o sofrimento em si, mas a demonstração dele para nós – o choro, as lamúrias, os lamentos que se desenvolvem diante dos nossos olhos e ao alcance dos nossos ouvidos.

É por isso que nossas palavras de conforto mais comuns frequentemente carregam, no fundo, a conotação de “pare com isso”: “não foi nada”, “não chore” ou “vai passar”, por exemplo. Todas elas, ao invés de realmente oferecerem um ombro, apenas impõem o fim da exposição daquela dor diante da gente. No fundo, quando confortamos alguém dessa forma, só quem se conforta somos nós.

E como reage a pessoa cujo sofrimento incomoda a quem está à sua volta, ou a quem ela ama? Fugindo para poder sofrer em paz, talvez, ou, mais provavelmente, engolindo seus sentimentos e corroendo-se aos poucos, por medo de afastar as outras pessoas.

É isso que acontece com a criança. Para ela, a ideia de viver distante do amor de seus pais é simplesmente excruciante; o medo do abandono é absoluto e avassalador. Qualquer coisa lhe parecerá melhor que isso.

Não creio que seja o intuito de nenhum pai ou mãe que eu conheço desamparar ses filhes num momento de angústia. No entanto, frequentemente, a impressão que passamos às crianças infelizmente não é essa. “Seu sofrimento me incomoda. Pare ou eu vou embora” é a lição que a criança aprende com cada noite passada chorando sozinha no berço, com cada explosão emocional à qual, por birra adulta, viram-lhe as costas, com cada ameaça de violência por sentir que ela recebe – como “vou te dar motivo para chorar”, ou “se você disser de novo que me odeia, vou embora”, ou “se você disser que odeia o seu irmãozinho, vai ficar de castigo”. Com cada machucado e tombo e susto tratados com “já passou”.

Ah, “já passou”. Eu poderia escrever uma tese sobre esse já passou. Duas palavrinhas tão pequenininhas e tanto autoritarismo, tanto silenciamento, tanto adultismo nelas. Tanto gaslighting*. Desde quando se pode, de fora de alguém, determinar quando o sofrimento dessa pessoa acaba ou não? Se a pretensão em si já é absurda, dar voz a ela é uma crueldade. Mas mesmo mães pais muito carinhoses e bem intencionades continuam reproduzindo essa fala, pois tanto a escutaram ao longo de suas próprias infâncias que não se dão conta do quão violenta ela é.

Essa frase, como as que eu citei acima e tantas outras, é um bolo de alfinetes recoberto por algodão. Parece doçura, parece carinho, parece apoio, mas, no fundo, é só uma ordem muito egocêntrica e autoindulgente emanada da pessoa adulta direto para o coração da criança: “cale-se!”

É assim que internalizamos a noção de que só merecemos e recebemos amor quando estamos felizes e somos agradáveis. Não é à toa que tantas pessoas cometem suicídio “inesperadamente”, sem ter dado mostras da profundidade da depressão em que se encontravam. Até o final, elas têm a sensação de que precisam manter a qualquer custo a fachada da felicidade ou se verão completamente sozinhas naquela escuridão.

É uma lição que, na maioria das vezes, levamos para o resto das nossas vidas, acarretando não só falta de autoconhecimento, mas também o desprezo, deslegitimação e invalidação de nossos próprios sentimentos. Muitas vezes nos orgulhamos dessa repressão e ostentamos como medalhas as neuroses que ela nos causa, como se fossem mostras de força. “Estou cada vez melhor, melhor e melhor”, murmuramos rangendo os dentes para os nossos botões inquietos.

Mais do que isso, como dito, por termos aprendido desde cedo a não sentir, aprendemos também a não tolerar o sentimento de outrem, a não ser que seja algo feliz e bonito e sorridente, que não seja desagradável para ninguém. Não apenas evitamos chorar, como passamos também a considerar fraca e inconveniente a pessoa que chora. Nos afastamos (quem sabe até com repugnância) de quem “escolhe” sofrer e falar de coisas ruins e, se um dia nos tornamos mães e pais, o nosso impulso será o de reproduzir esse silenciamento também com nosses filhes (além de todas as outras pessoas ao nosso redor), que, por sua vez, um dia crescerão e darão continuidade ao ciclo tóxico do recalque.

Podemos passar nossas vidas tentando construir uma nova realidade para nós, mas nada de fato mudará enquanto mantivermos nossas caixas-pretas sentimentais intocadas e seu conteúdo inalterado. O mundo lá fora não terá salvação enquanto o mundo aqui dentro não for tido como digno de ser salvo, enquanto o que se passa nele sequer for ouvido ou considerado.

Quando vejo um certo tipo de ira, invariavelmente me pergunto se ela não seria um cobertor pesado com que se abafam os soluços de uma criança que há anos chora sozinha, sufocando lentamente longe da luz do acolhimento.

______________

*Gaslighting: quando alguém manipula a situação, nos fazendo duvidar da nossa própria percepção. Por exemplo, quando nos agride e faz parecer que a vítima é ela, ou que a culpa da agressão é nossa, ou que nós é que somos sensíveis demais, ou que não estamos sentindo o que estamos sentindo, etc.


3 comments

  1. Clarissa Menezes Homsi Responder

    Muito bom querida! Qta sensibilidade. Adorei! beijo

  2. Letícia Penteado Responder

    Obrigada! =)