Braços demais – o mito da mulher multifuncional

Essa é a imagem da deusa do patriarcado capitalista: uma mulher com diversos braços, fazendo mil coisas ao mesmo tempo. Não basta ser...

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Essa é a imagem da deusa do patriarcado capitalista: uma mulher com diversos braços, fazendo mil coisas ao mesmo tempo.

Não basta ser mulher. Tem que ser supermãe, mulherão, esposa perfeita, dona de casa impecável, profissional ultraeficiente. Desde pequenas, somos expostas figuras como essa ou às ideias que remetem a ela e nos é ensinado que esse é o ideal a ser alcançado.

Tem que ser mãe. E ser mãe mesmo sem apoio de ninguém, menos ainda do pai da criança – talvez, aliás, ele seja tão inútil ou nocivo que se prefira até mesmo que ele fique longe. Mas a mulher tem que ser mãe, senão ela não é mulher “de verdade”. Não está “realizada”. E não é só mãe, tem que ser a melhor mãe. Supermãe. Tem que amar mais as crianças do que a si mesma (só não mais que ao maridão, né?), tem que viver sorrindo e falando docemente, tem que ter as crianças mais bem-comportadas, mais bem-vestidas, mais estudiosas e mais limpinhas do mundo.

mulher_faztudoTem que ser mulherão. Ser “gostosa”, bonita e perfumada o tempo todo. Tem que faxinar a casa toda e ainda cheirar a sabonete e ter as mãos suaves como algodão. Tem que “se cuidar”, né? Não pode “relaxar”, não pode engordar, não pode deixar de usar maquiagem, tratar cabelos, pele, unhas. Tem que ser bonita até fazendo cocô.

Tem que ser esposa. Porque uma mulher sem marido é como um peixe sem uma bicicleta água. E não basta casar, tem que “segurar seu homem”, e para segurar o seu homem, ela tem que ser perfeita. Não pode incomodar o maridinho, esse ser tão frágil, com seus problemas do dia-a-dia; quando ELE chega em casa é para descansar, porque ele sim trabalha duro, não é como ela, que praticamente não faz nada o dia inteiro. Tem que ser compreensiva com as “necessidades” dele e estar sempre sorrindo e pronta para fazer sexo olímpico de todas as formas que ELE quiser, porque, né, senão ele vai “procurar lá fora”. E aí você pode até “perder seu homem”. Que vergonha (para você).

Tem que ser dona de casa. Mas tem que ser impecável mesmo. A casa tem que estar brilhando, reluzindo, ofuscando “azinimiga”. Cada coisa no seu lugar, nem mesmo um grão de poeira no chão, nenhuma roupa por lavar, nenhum brinquedo espalhado. E, de novo, tudo isso sem deixar as mãos calejarem, sem ficar fedendo a produto de limpeza e SOZINHA. Porque homem não tem jeito para essas coisas, sabe? E, mesmo que tivesse, não se pode atribulá-los com esse tipo de tarefa, porque eles se aborrecem. E não devemos jamais correr o risco de aborrecê-los.

mulher faz tudo 2Tem que ser profissional. Porque, né, mulher que não trabalha está se aproveitando do marido, é vagabunda encostada em homem. Caçadora de pensão. Então ela tem que trabalhar, e muito, mesmo ganhando menos que os homens que fazem o mesmo que ela faz; tem que ser ultraeficiente, na verdade, trabalhar mais que eles, porque tem que se provar o tempo todo, a menos que queira que insinuem que está ali por ter concedido favores sexuais. Muitas vezes ela inclusive agrega tarefas como fazer cafezinho, atender telefone e ser bibelô de escritório, afinal, esses são “papéis femininos”. Homens não são capazes de dominar a complicada ciência de fazer passar água quente por pó de café, ou atender a um telefonema. Além disso, ela tem que ficar de olho na concorrência, já que “não existe amizade entre mulheres”.

Mas não basta exigir tudo isso da mulher. Tem que incutir nela a ideia de que ELA é quem quer isso tudo para si. De que o valor dela é diretamente proporcional à sua proximidade desse paradigma impossível. Que essa sobrecarga, essa martirização, esse moedor de carne feminina, é uma espécie de calvário, algo que lhe enobrece o espírito e a torna uma pessoa melhor. Que todas as outras mulheres são suas adversárias e que é só preenchendo todos esses requisitos o tempo todo que ela vai ganhar das outras. E que ela tem que ganhar das outras. Sempre.

Kali01-282Na religião hindu há uma deusa que se parece com essa imagem – é, aliás, a referência para muitas das versões dela. Kali, segundo a Wikipédia, “É considerada uma manifestação da deusa Parvati, a esposa de Xiva. Aprecia sacrifícios sangrentos e é representada manchada de sangue, com cobras e um colar de crânios de seus filhos”.

Muito menos assustadora, à primeira vista, é a imagem da deusa do patriarcado capitalista. Ela também aprecia sacrifícios de sangue, desde que não menstrual, e suor, de preferência sem cheiro, e lágrimas, desde que sem manchar a maquiagem. Mas muitas vezes é representada sorrindo, olha só.

Porque show deve continuar.

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***Meus agradecimentos a Lulu Anders, que também colaborou no post “Despir para Proteger”, por ter me provocado pela primeira vez a reflexão sobre esse tipo de gravura.


9 comments

  1. Responder

    Se aplica a mim, mas tbm se aplica a minha mãe e ela nem desconfia. Final de ano tá chegando e eu já tô pensando no estresse que vai ser: ela fica mal pq não consegue embrulhar presentes/ arrumar a casa/ fazer a ceia/ pintar cabelos e unhas/ sair na hora certa pra visitar parentes- e fazer isso tudo sozinha. Queria q ela fosse menos exigente com ela mesma. Ela nunca consegue alcançar esse objetivo, mas todo ano segue se estressando pra tentar conseguir… Se eu mandar esse texto pra ela, ela vai dizer: “é, tem mulher que é assim mesmo. ainda bem que eu não tenho marido pra encher o saco”… tipo: ela realmente acha que era só o marido que fazia essas exigências. Ela não percebe q já internalizou isso de tal forma q passou a se cobrar perfeição. Antes eu achava q perfeccionismo era uma característica de algumas pessoas, algo da personalidade, algo natural (não mto desejado, mas natural)… qto mais eu leio, mais eu vejo q não é. Se fosse, pq sempre se encontra mais mulheres perfeccionistas q homens? Somos ensinadas a ser assim pra q sirvamos melhor, pra sermos as mulheres dóceis q esperam q sejamos…. Queria q esse fim de ano fosse diferente pra minha mãe. :'(

    1. Letícia Penteado Responder

      “Ela não percebe q já internalizou isso de tal forma q passou a se cobrar perfeição. Antes eu achava q perfeccionismo era uma característica de algumas pessoas, algo da personalidade, algo natural (não mto desejado, mas natural)… qto mais eu leio, mais eu vejo q não é.”
      Exatamente, Gê. Obrigada pelo seu comentário.

  2. Lucia Figueiredo Responder

    Muito bom Letícia! Estou descobrindo seu blog e gostando demais dos seus textos!

    Interessante o quanto essas expectativas são muitas vezes contraditórias e nem assim nos damos conta da cilada: tem que gostar de sexo, mas não demais (se não é vagabunda); tem que se dedicar à aparência, mas não demais (se não é fútil); tem que se dedicar ao trabalho, mas não demais (se não é workaholic e negligente com a família); tem que se dedicar à família, mas não demais (se não fica desinteressante). A “medida certa” de ser mulher é tão exata!

    E o mais cruel é que devemos ser/fazer tudo isso sem esforço nenhum, como se fosse a coisa mais natural do mundo. O que nos impede de conversar abertamente sobre como é impossível (e indesejável) realizar todas essas expectativas, Então sofremos todas caladas, mas sempre sorrindo, achando que o problema somos nós, nossa incompetência.

    Me lembro de ter levado essas questões para a terapia motivada exatamente por um desenho (uma propaganda, provavelmente) como estes que você colocou: uma mulher linda, sorrindo, equilibrando graciosamente todas suas demandas em seus muitos braços. Hoje percebo que para ser uma mãe, esposa, irmã, filha, amiga, profissional, ser humano mais feliz, preciso (e quero e tento) fazer MENOS. E entender que a vida tem épocas, quando a gente se dedica mais a uma coisa ou outra.

    1. Letícia Penteado Responder

      Exatamente, Lucia! Obrigada por ter aparecido por aqui.Achei muito lindamente escrito o seu comentário, queria destacar algum trecho, mas não consigo de tão fantástico que está. Daria um texto por si só! Você tem blog? Sério, de enquadrar e colocar na parede. =)
      Beijo

      1. Lucia Figueiredo Responder

        Oi Letícia, obrigada pelo elogio! Gosto muito de escrever, mas essa é uma das coisas que eu não estou fazendo no momento. Sou só eu ou o cérebro da gente fica meio liquefeito depois de ter filho? Ainda mais no primeiro ano, parece que eu perco metade do meu QI, rs… Coloquei seu blog no meu feed e quando sobra um tempo leio os textos antigos. Estou adorando! Beijos

  3. Su Orzzi Responder

    Me descreve. Descreve o que o marido, a sociedade, minha família, TD MUNDO espera de mim…
    Eu estou cansada, eu não quero carregar todo esse fardo sozinha. Eu só não trabalho fora, mas pq bati o pé e disse que não daria conta nas atuais condições da minha vida, mas eu morro de vontade, sem precisar abrir mão do resto…
    Agora eu me pergunto: PRA QUE me cobrar tanto??? Pq deixo as pessoas exigirem isso de mim???
    Isso não está certo! Eu já estava com isso em mente, mas cada vez que leio um texto assim, penso em como escapar disso, pq to tão cansada que não tenho forças mais nem pra nadar contra a maré…
    Mas vou conseguir. Eu preciso conseguir. Eu quero ter um tempo pra ser eu mesma, ou pra viver o lado divertido da maternidade, sem me preocupar com barulho e sujeira das crianças…
    Vou salvar esse texto e ler mil vezes se necessário, pra não esquecer jamais!

    1. Letícia Penteado Responder

      Vai conseguir sim, Su! A partir do momento em que tomamos consciência da nossa situação nos tornamos verdadeiramente capazes de mudá-la.
      Obrigada pelas suas palavras.
      Beijão