O relato abaixo foi publicado em 2013, quando eu ainda estava grávida do meu filho mais novo, no blog Ciranda Materna, da Raphaela Rezende.


“Mulher tem que ser bonita até fazendo cocô”.
Eu cresci ouvindo isso.
Só que eu não era bonita. Eu não era bonita para o mundo fora da minha casa, porque, salvo alterações cosméticas drásticas, eu jamais seria a loira peituda e magrinha que é o padrão de beleza atual (loira ‘do cu rosa’ como dizem os mais asquerosos); e eu não era bonita para o mundo de dentro da minha casa, porque minha “beleza” dependia do que eu fazia, do que eu falava, da forma como eu me comportava e pensava, do que eu vestia.
Com cerca de quatro anos, descobri no parquinho da escolinha que eu nunca seria o super-homem. Eu não podia ser o super-homem, porque eu era menina. Não foram os adultos que me disseram isso – foram as próprias crianças com quem eu brincava, chocadas ao riso com a minha falta de noção. Que feia eu era! A menina que queria ser o super-homem.
Pouco mais tarde, embora eu não saiba precisar o quanto, descobri que eu era ainda mais feia do que supunha. Minha mãe, horrorizada, com meu bilhete inocente nas mãos – “Ai loviu” dizia a cartinha – corrigiu primeiro o inglês, para depois corrigir a intenção. Não se mandavam bilhetes desse tipo para amiguinhas. Por que não, mamãe? Porque é feio. Ponto.
Eu era feia.
E, assim, eu tinha que compensar pela minha feiura. Eu tinha que agradar, da forma como pudesse. E na minha casa era difícil agradar. Adultos irascíveis normalmente não são fáceis de se agradar. O que agrada num dia pode desagradar no outro. O que rende ternura numa hora pode render uma surra na outra.
Logo aprendi que minha feiura transbordava para as minhas palavras, que eram ofensivas mesmo quando eu não queria que fossem. “Essa cantora ainda está viva?” Questionei, certa vez, curiosa sobre a voz que preenchia melodiosamente o silêncio do escritório. “O QUÊ?! O QUÊ?! REPETE!” Por sorte, o arroubo de violência foi contido antes de se tornar físico. Fugi para o quintal, confusa, aliviada por não ter apanhado e… com raiva da minha própria feiura, que não me permitia sequer perceber o quão feias eram as minhas palavras. Feia! Feia… Feia.
É que certos homens, que não têm grande apreço pelo gênero feminino como um todo e menos ainda por crianças, podem ser especialmente “exigentes” com suas filhas quando se sentem emasculados fora de casa (o que, claro, tende a acontecer com eles com uma certa frequência – basta uma fechada no trânsito, uma chefe mulher, não ser chefe, etc.). Impõem padrões de ‘beleza’ absurdos e punem com severidade qualquer feiura.
E muitas vezes as mulheres desses homens também se sentem muito feias. E, por isso, ao invés de defenderem suas filhas, assistem, passivas, ao espetáculo de violência, para depois abraçarem suas crias e pedirem compreensão para o pai que está passando por um momento difícil, pedirem para que ELAS se esforcem para evitar que esse tipo de coisa aconteça.
Por isso, feia, minha existência era pontuada por olhares de tigre, palavrões, adjetivos, puxões de orelha, tapas na mão, ‘croques’ na cabeça (batidas com as juntas dos dedos) e, claro, surras, normalmente na bunda, desde a clássica palmada até com as mais variadas ferramentas como cintos com arrebites de metal, pedaço de pau, fita métrica. Mas, claro, a minha feiura não terminou junto com a minha infância e logo eu já era grande o bastante para apanhar em saraivadas de tapas e pontapés que pareciam vir de todos os lados de uma só vez.
Aliás, feia, eu tinha que pedir desculpas depois de apanhar, por “me terem feito bater”, por ter precisado apanhar para aplacar minha feiura. Porque, apesar de às vezes parecer que era um alívio para quem me batia, que a pessoa estava procurando motivos para fazê-lo, superdesagradável TER QUE me bater. Se o faziam era porque eu causava isso.
Aprendi, pelo menos, a não sentir a minha raiva, guardá-la às sete chaves dentro de mim, para não ficar ainda mais feia (coisa feia, sentir raiva de quem te brutaliza pelo seu bem!).
Feia, esses eram os meus momentos de “verdade”. Porque o resto do tempo, quando eu não estava apanhando, era porque eu estava fingindo ser alguém que eu não era. Estava fingindo ser bonita. E sempre com o medo de ser descoberta, de a fraudulência da minha suposta beleza ser exposta… o que sempre acabava ocorrendo, claro.
Mas eu continuava tentando. Quem sabe um dia eu mesma acreditaria que era bonita. Eu era feia, então eu tinha que agradar. Mais do que agradar, eu não podia desagradar.
Me ensinaram a lutar, cerrar os punhos e bater, bater com força, com vontade, para ‘me defender’. Me ensinaram, na verdade, que essa era a melhor forma de resolver conflitos. Mas se eu era feia, se eu era “uma merda”, por ser criança, por ser filha, por ser adolescente, por ser eu, por ser feia… que direito tinha eu de me defender? Eu merecia o que fizessem comigo.
Eu sabia lutar, mas não me sentia digna de defesa – minha vida era uma série de castigos pela minha feiura e eu continuava feia, continuava merecendo ser castigada. Tentando suprir minha necessidade de luta, de justiça, buscava alívio em causas alheias, caçava moinhos, sempre chamada com escárnio de a “defensora dos os fracos e os oprimidos”. Tinha que lutar por alguém, já que não era capaz de lutar por mim mesma.
Minhas palavras eram assertivas; minha postura, confiante. Minhas histórias eram inventadas, minha agressividade montada, minha sexualidade exagerada. Para mim, para os outros. Tudo maquiagem para a minha feiura.
Eu era feia, não podia desagradar. Se mostravam interesse em mim, eu tinha que corresponder às expectativas. Foda-se que eu não estava a fim. Foda-se que eu não estava pronta. Quem sabe assim eu conseguiria um pouco de atenção, um pouco de notoriedade… e talvez isso se passasse por beleza por um segundo.
Eu era uma criança obviamente problemática, eles em geral eram jovens adultos à procura de algo em que meter a pica. Algo, sim, porque mulher é coisa, não é gente. Especialmente meninas feias como a que eu era. E eu, que queria tanto ser bonita, fiquei ainda mais feia. Agora, além de feia, era suja. E a culpa era minha. Da minha feiura, da minha falta de vergonha. Ah, que vergonha eu tinha da minha falta de vergonha! De não conseguir parar. De não merecer ser tratada com respeito. Eu não queria aquilo, não tinha prazer, não tinha por quê… mas não conseguia não fazer. Eu precisava agradar. Eu não podia desagradar. Eu era feia.
E na minha escola, os que ficaram sabendo que a sapata feia já dava queriam que eu desse também para eles. E quando eu me neguei (nem sei como me neguei, acho que foi mais porque não tinha como nem onde aquilo acontecer), eles passaram a me atormentar diariamente. Me apalpavam sorrateiramente, me xingavam, tomavam minhas coisas, me humilhavam. Como é que eu ousava não dar para eles? Quem eu pensava que era? Eu, feia desse jeito? E não adiantava chamar para a briga, olha só – e eu não sabia resolver conflitos de outra forma. Os professores viam, todo mundo via, mas todo mundo achava merecido. Porque eu era feia, afinal. Eu merecia.
Até outro dia eles ainda passavam de carro pela minha casa de madrugada, gritando sobre a minha feiura – “vagabundaaaaaa!” Muito tempo depois, quando me deparei com um deles na rua, a reação foi bizarra: a pessoa me encarou ameaçadoramente, como se eu fosse uma criminosa, com toda a raiva e propriedade de quem encara alguém que lhe deve e se safou de pagar. Esse era o tamanho da minha feiura – ser cobrada por ela, com rancor, com ódio, cobrada a sentir vergonha dela, cobrada mesmo por quem já deveria ter se tocado de que se aproveitou dela e deveria dar graças a deus, aliás, de não ter sido preso ou pelo menos processado por isso. Mas a vergonha, a feiura, é só minha. Afinal, ninguém me amarrou, ninguém pôs uma arma na minha cabeça. Eu fui porque “quis”.
Também foi essa a atitude do tiozinho X me que flagrou com alguns rapazes e quis me chantagear para que trepasse também com ele. Tiozinho, tipo, cinquentão por baixo. Surpreendendo a mim mesma, me defendi, calma e lucidamente, explicando que ele poderia contar para quem ele quisesse, porque eu contaria para todo mundo que ele tinha tentado me chantagear. Ele me deixou em paz… mas, anos mais tarde, quando me encontrou na rua, parou onde estava e ficou me fitando com ódio. Quem eu pensava que era, eu, menina sem-vergonha, menina feia, para enfrentá-lo assim? Essa era a medida da minha feiura. Um estuprador se sentia no direito de me achacar.
Mas não foi só ele! Teve outra ocasião em que, ainda adolescente, eu estava de novo fazendo coisas feias na tentativa de deixar de ser feia (toda a minha vida era devotada a isso, afinal) e fui flagrada com um amigo adolescente por um adulto de uns trinta anos… que também quis tirar sua casquinha. O resultado, afortunadamente, foi o mesmo – consegui repelir o ataque com uma calma que assombrou até a mim. Este tornei a ver várias vezes, mas não me hostilizou.
Somente muitos anos mais tarde entendi que, em ambos os casos, havia me defendido com sucesso de tentativas de estupro. Eram homens adultos tentando se aproveitar da feiura de adolescentes. Fico me perguntando quantos adolescentes e crianças feios não acabam cedendo a esse tipo de pressão (“faz isso comigo senão eu conto para o seu pai que você… conto para todo mundo”). Fico me perguntando o que foi, dentro de mim, que me impeliu a lutar por mim a despeito da minha feiura, onde eu antes, tantas vezes, havia aceitado passivamente o que quer que me fizessem. Seria o fato de eu perceber uma gravidade incontestável na conduta daqueles homens (ainda que não me desse conta exatamente do quão grave ela era)? O fato de eu ver que eles eram ainda mais feios do que eu? Seria o blefe, o pagar para ver, a contrafobia? Seria eu querendo ser brava, querendo dizer para mim que era corajosa, para assim ficar mais bonita, menos feia? Me convencer de que, assim, todo o resto do que eu fazia era porque eu de fato queria? De que eu era feia, mas não tão feia assim, de que era feia, mas não era vítima?
Quando o homem com quem eu morava, meu então ‘cônjuge’, meu dito companheiro, avançou para cima de mim a murros e pontapés, só o que me vinha à mente, enquanto minha cabeça girava de um lado para o outro a cada golpe que eu recebia, paralisada, em choque, sem conseguir reagir, foi o primeiro homem que fez aquilo comigo, o primeiro homem que me mostrou o quanto eu era feia. E eu sentia que aquilo tudo, no fundo era culpa minha. Porque eu era feia. Eu tinha que ter provocado aquilo, era a única explicação.
Passando a mão no meu rosto feio, vi meu sangue de menina feia e pensei que nem mesmo papai havia me tirado sangue assim… senti os dedos dele apertando a minha garganta, caí no chão e vi, como se em câmera lenta, o pé dele vindo para me acertar no rosto, já caída, já rendida, rendida pela minha própria feiura, pela minha incapacidade de me defender. Naquele átimo de segundo, o bicho dentro de mim resolveu que não iria morrer ali. Não sei direito o que ela fez, mas eu escapei. Tenho certeza de que devo minha vida a ela.
Arrastei pelo que pareciam milhares de quilômetros uma mala de mais de cinquenta quilos, humilhada, batida, machucada, feia, as pessoas desviando de mim, até que um taxista parou e, sem falar uma palavra, pegou a minha mala, colocou no carro, abriu a porta para eu entrar e me disse que eu entrasse, porque ele me levaria até onde eu quisesse ir. Eu fiquei com medo, confesso. Disse que era feia, mesmo sem usar essas palavras. Disse que não tinha como pagar. Ele me disse que ele tinha uma filha e que nunca iria querer pensar que alguém passou assim por ela nesse estado (nesse estado!) sem parar para ajudar. Os olhos dele eram límpidos, sinceros.
E aquilo me doeu… mais do que a surra que eu havia tomado. Aquele era um pai, um pai que não me julgou, que não me bateu, que estava mais preocupado comigo que com a minha feiura. Ele me ajudou a despeito dela. Era quase como se eu não fosse feia de verdade, como se fosse tudo coisa da minha cabeça. E de repente cada tapa, cada surra, cada dor minha de tantos anos me veio de uma só vez. Eu tinha que ser feia. Eu tinha. Senão… eu não teria merecido nada daquilo. E o horror de ser tratada daquela forma sem merecer era demais para mim. Pelo menos naquele momento.
E mais tarde me descobri grávida do homem que me bateu. E abortei aquele filho. Não porque fosse dele. Mas porque era meu. Porque eu era feia e qualquer coisa que saísse de mim seria feia também. E eu conhecia a dor de ser feia. Não queria isso para mais ninguém.
Muitos anos se passaram e um belo dia eu, que quase nunca havia sequer pegado uma criança no colo, comecei a ter uma vontade estranha de ter filhos. Essa vontade não era só minha, não era só para mim. Eu agora conhecia e amava uma pessoa muito, muito especial, e a ideia de fazer uma criança de nós dois era linda. Linda. Tão linda que eu até me esqueci do quanto eu era feia.
Comecei a ver as crianças ao meu redor e a forma como elas eram tratadas, comecei a lembrar de mim e de como eu me sentia ao ser tratada daquela forma, de como era ser uma criança feia. Percebi que havia uma distância imensa entre o que os pais achavam que estavam fazendo com seus filhos e a percepção dos filhos em relação ao que seus pais estavam fazendo com eles. E que isso era algo muito, muito estranho, já que todos os pais um dia com certeza já haviam sido filhos, ainda que sem pais.
E decidi fazer diferente. E comecei a ler e me informar e aprender. E no curso desse estudo, revisitei a menina feia dentro de mim. E voltei para aquele momento, dentro daquele táxi, em que meu mundo, todo apoiado no pilar da minha feiura, quase ruiu. Naquela ocasião, eu não tinha condições de chutar aquela merda e ver aquilo tudo vir abaixo, foda-se o resultado. Mas agora eu tinha. Eu tinha apoio, eu tinha amor, mas acima de tudo eu tinha uma criança que merecia e merece e esse esforço.
E foi daí que eu abri a porta para a “menininha batida e pisada que não sai da cozinha” que estava dentro de mim. E nós choramos juntas e abraçadas por muito tempo, como ainda continuamos a chorar, livremente, essa nossa história feia de como nos descobrimos belas. E contamos uma para outra de cada tapa, cada puxão de orelha, cada cintada, cada xingo, cada dor. Cada suspiro preso no peito, cada raiva guardada, cada rancor. E assim vamos nos curando, no sal das nossas lágrimas, no calor do nosso amor.
Enquanto saímos para brincar com nossa filha. Que nunca, jamais, será feia. Não para mim. E, espero, não para ela mesma.