O Brasil que relincha aplaude Sheherazade - MariaFrô

O Brasil que relincha aplaude Sheherazade

A melhor definição dada à sociedade bestializada que tem justificativa e aplaude criminosos em concessão pública que incita a violência foi de Matheus Pichonelli: “O Brasil que relincha”. “Tá com dó? Leva pra casa”...

A melhor definição dada à sociedade bestializada que tem justificativa e aplaude criminosos em concessão pública que incita a violência foi de Matheus Pichonelli: “O Brasil que relincha”.

“Tá com dó? Leva pra casa”

Com os clichês de sempre, o Brasil que relincha tenta justificar, em horário nobre, a ação de quem espancou e amarrou garoto nu em um poste no Rio

Por: Matheus Pichonelli, Carta Capital

05/02/2014 14:28, última modificação 06/02/2014 12:36


Jovem foi amarrado em poste no Rio após ser espancado; para o senso comum, é assim que deixaremos de ser o “país da impunidade”

No fim do ano passado, três presidiários do Maranhão foram degolados por grupos rivais diante de uma câmera de celular. Divulgado nas redes, o vídeo chocou a comunidade internacional. Era o retrato de um país em que um detento é morto a cada dois dias de forma violenta. Quem assistiu às cenas não levaria dois segundos para concluir: este país pode ser tudo, menos um paraíso para bandidos.

Atualmente existe um déficit de 200 mil vagas no sistema penitenciário brasileiro. São 563.723 presos para 363.520 vagas. A lei da física segundo a qual dois corpos não ocupam o mesmo espaço não vale para quem está condenado pela vida antes da própria Justiça, morosa a julgar boa parte de seus enjaulados, muitos deles com mais tempo de detenção do que de condenação.

Diante do quadro, ter pena ou não dos condenados chega a ser infrutífero. Piedade não resolve a tragédia; a racionalidade, sim. Esta não desconhece que o “país da impunidade” tem mais presos do que sua capacidade permite.

E questiona: impunidade para quem? Neste país, negros e brancos cometem exatamente os mesmos crimes, mas uns são maioria nas cadeias e outros, nas faculdades. Os segundos, não importam as atrocidades cometidas nas vidas pública ou privadas, serão chamados de cidadãos de bem; os primeiros terão sorte se não forem degolados. Mas, de acordo com o relato do senso comum dos almoços de domingo, os primeiros estão no paraíso, o “paraíso dos bandidos do país da impunidade”; os segundos, no inferno. De vez em quando, suas carteiras são surrupiadas, e a Terceira Guerra será proclamada. Os primeiros, quando pegos, são enquadrados na lei que o segundo grupo finge desconhecer. Se tiverem sorte. Se não, ouvirão gritos, tapa na cara de policial, de delegado, da vítima, será amarrado em postes ou vai mofar na cadeia até que alguém, com pena ou não da sua situação, lembre de vez em quando que uma vida vale mais que um iPod roubado. Ou uma carteira velha de cartões desbloqueados.

Esta é a vida real. Mas, no discurso moralizante, céu e inferno estão em lugares invertidos. Este discurso antes estava restrito ao ambiente familiar: o xucro falava atrocidades, se enfurecia, ficava vermelho, ameaçava infarto mas, ao fim do jantar, servia-se do café e se acalmava nos primeiros segundos da novela. Voltava a hibernar em paz sobre o sofá com uma baba pastosa no canto da boca. Depois o xucro descobriu a internet e se transformou em comentarista oficial de portais. É lá que ele transpõe tudo o que sabe sobre leis, direitos de ir e vir, humanidade e segurança pública, sempre sob o lema “bandido bom é bandido morto” e suas variações: “direitos humanos são direitos dos manos”, “direitos humanos para humanos direitos”, “tá com pena do bandido, leva pra casa”, “estatuto de criança e adolescente protege o jovem bandido”, etc.

A sofisticação de seu raciocínio denota uma deficiência lógica e cognitiva. Lógica porque vê impunidade em presídios superlotados destinados a animais, não para humanos. E cognitiva porque confessa a incapacidade de reconhecer a humanidade no outro – o outro é sempre o “bandido”, mas também pode ser a “biscate”, o “drogado”, o “mano”, o “playboy” e até o “que tem dó de bandido”. Para ele, não há nada, nem carne nem osso nem sangue debaixo do rótulo: tudo é uma questão de senso de oportunidade. Daí a paranoia, daí a patologia. O conselheiro Aires, célebre personagem de Machado de Assis, é quem costumava dizer: “a ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito”.

Esse comentarista de portal, também chamado de “sommelier de pena”, conseguiu emprego com um raciocínio parecido. Hoje é comentarista profissional. Disposto a jogar no lixo anos de lutas históricas, direitos adquiridos e proteção humana pelo fato de pagar imposto demais em seus produtos eletrônicos (que ele associa à corrupção, ao estado de insegurança, à impunidade, à ação de justiceiros e à necessidade do retorno ao estado de natureza), migrou o comentário de efeito retórico que apavorava os filhos (ou os pais, pois muitos mal saíram da fralda) para a internet e até para a tevê. Ali, seus delírios são reproduzidos como sentença definitiva. Por exemplo. Um menino, negro, é amarrado ao poste pelo pescoço, com a trava de uma bicicleta, nu e com a orelha cortada, em meio a uma movimentada avenida do Rio de Janeiro. Nestes delírios midiáticos, não se cogita sequer a possibilidade de ele ser inocente. Até que prove o contrário, é o “trombadinha” que transformava a vida das pessoas de bem em um inferno naquele trecho da Cidade Maravilhosa. Não importa se na Carta de 1988 não consta o vexame e exposição pública, com direito a mutilação, como meio de punir um crime antes de ser indiciado, denunciado, enquadrado, julgado e condenado.

Importa apenas o delírio.

Neste delírio, o inferno são os outros, e já que não inventaram uma capsula protetora para separar os que têm fome e os que não têm, resta esticar até o impossível a lógica de um argumento em partes desconectadas: “pagamos muitos impostos”, “a Justiça é morosa”, “vivemos no País da impunidade”, “a lei só protege bandidos”. E pronto: meia dúzia de clichês e embasamento mambembe e a salada está à mesa e os crimes, equiparados. É quando uma orelha decepada se torna menos grave que um suposto crime contra o patrimônio. Este país que aplaude o justiçamento é o mesmo que ignora uma questão histórica: o açoite é causa, não consequência, da tragédia – e esta não foi abolida com o fim da escravidão.

Para quem tem a solução debaixo do braço, a História é para os fracos. Para quem tem pena de quem não merece pena. Pela lógica dos comentaristas profissionais de portais, a ação dos justiceiros está legitimada quando a “pena” que tolera o crime é eliminada. Se a moda pega, não vai ter mão para amarrar nem desamarrar uns aos outros: uns farão justiça contra quem rouba carteiras; outros, contra quem desejar a mulher do próximo; outros, contra quem compra ou vende produto pirata; outros, contra suborno ao guarda para fugir da multa; outros, contra quem aceitar propinas; outros, contra quem faz vistas grossas sobre a venda ou consumo do crack nas grandes cidades. Se a lei não existe, tudo é permitido, e o Brasil se transformaria, assim, em uma grande Itaguaí  – com o perdão, novamente, a Machado de Assis, que criou a cidade onde todos os habitantes, de diferentes graus de insanidade, foram parar no hospício até que não sobrasse ninguém nas ruas no conto O Alienista.

Em algum momento da vida, todos passariam pelo educativo processo de purificação dos pecados: seriam açoitados em praça pública até refletir sobre os próprios atos, e não sobre a própria fome. Ficariam amarrados, inclusive, os que tem pena de quem não teve pena de quem não tem pena.

Nossa sede de justiça seria, assim, parte da paisagem sem precisar levar ninguém para casa. Estaria exposta e à vista de todos, como a desfaçatez de quem perdeu a vergonha de relinchar em horário nobre.

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