Twitter Facebook Orkut   RSS  
Lado B Cadastre-se para receber
nossos boletins periódicos

Sociedade de filhos tristes

Por Eliza Capai
[14 de julho de 2008 - 11h52]
Era noite na Nicarágua. Georgina já havia perdido a bolsa de estudos na faculdade de jornalismo quando se descobriu grávida. Agora, estava prestes a perder a casa hipotecada por conta da falência de seu mercadinho. “As pessoas tinham fome, não podia dizer ‘não’ para um fiado”, se justifica. Assim, decidiu não perder o ônibus que a levaria para o outro lado da fronteira em busca de um bom trabalho para pagar as dívidas. Mas não foi fácil se lembrar sempre dos gritos de Israel na chuva. “Não vá, mamãe, não vá…”. No ponto de ônibus todos olhavam com pena o menino de 12 anos que chorava ao ver a mãe partir. “Lembro de tudo, de absolutamente tudo”, confidencia Israel seis anos depois, em um dia de chuva forte, decorrência da passagem de um furacão na Nicarágua.
“Toda migração significa uma separação, uma divisão da família”, explica Martha Cranshow, da Red Nicaragüense para las Migraciones, uma organização da sociedade civil tocada por voluntários. De acordo com um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), 5% dos nicaragüenses menores de 18 anos são vítimas desta divisão e têm o pai, a mãe ou ambos fora do país. Os traumas desta cisão variam de acordo com a forma como a migração é organizada. ”Os impactos serão muito maiores se a migrante é uma mulher. Se ela for mãe solteira, pior ainda“.
O pai de Israel era casado com outra mulher quando Georgina engravidou. E assim continuou depois do nascimento de seu filho. Quando a mãe partiu, Israel ficou com o tio. “A casa era muito grande, eu me sentia muito sozinho”, reclama o rapaz, hoje com 18 anos, que teve insônia e um sentimento de profunda tristeza nos seis primeiros meses. “Outro fator que determina os impactos da migração é a forma como é organizada a guarda: se os irmãos continuam juntos e vivendo com alguém com quem já viviam antes, o aspecto emocional é menos abalado”, explica Cranshow.
Para atenuar a solidão, Israel foi morar com a tia e com os primos com quem vivera antes, quando a mãe deles havia emigrado. Assim que Georgina conseguiu um emprego como doméstica, começou a mandar dinheiro para a Nicarágua. Mas alguns anos depois ficou desempregada e grávida novamente. Sem dinheiro nem para a comida, cortou as remessas e as ligações para casa.
“Meu Deus, isso é o que mais me arrependo, de ter desaparecido. Mas não tinha um centavo para ligar para o meu filho”, chora. Hoje, com seu emprego de cozinheira em um hotel, ela envia 50 dólares para a irmã e mais 50 para o filho. A mesma quantia paga o aluguel de seu barraco, um quarto e sala com paredes de lata, e mais 100 para a mulher que cuida de sua filha. Sobram somente 50 para todos os outros gastos.
Assim como 15% das remessas enviadas para o país, parte do dinheiro que Israel recebe é usada para custear sua educação. Apesar de lamentar a distância, ele faz jus a seu esforço: atualmente, cursa Relações Internacionais enquanto a mãe trabalha de domingo a domingo. Na espaçosa casa da tia, com um pátio no fundo, ele conta que aos poucos foi se acostumando com a ausência. “No começo eu só chorava, mas hoje já entendo que minha mãe não está comigo e tento me acalmar”.
Pátria enferma
Depressão, tristeza e insônia e a conseqüente queda no rendimento escolar. Estes são alguns dos efeitos mais comuns sofridos pelos ”órfãos“ da Nicarágua, de acordo com estudo da Rede Nicaragüense para as Migrações, realizado em 2005. “Repetimos o estudo em 2006 e 2007, e os resultados foram exatamente os mesmos. Se esta tristeza dura alguns dias, tudo bem, mas se isto vira algo constante significa que estamos construindo uma sociedade doente”, lamenta Cranshow.
A “sociedade de filhos tristes” é o segundo país mais pobre da América Latina, ficando atrás apenas do Haiti. Atualmente o “item de exportação” que rende melhores números ao Produto Interno Bruto local é o ser humano. Quase 10% dos nicaragüenses são emigrantes legais e o envio de dinheiro para casa equivale a 17% do PIB: em 2007 foram 990 milhões de dólares, 40 milhões a mais que no ano anterior (dados do BID). Uma quantia bem significativa se comparada aos 335 milhões de investimento externo direto.
“Se ao Estado nicaragüense o que interessa é a exportação de pessoas, poucas iniciativas serão tomadas para gerar alternativas nas zonas demográficas críticas que as expulsam. Existem poucas ações de contenção de emigrantes porque há mais rentabilidade nas remessas do que nas ações para conter este movimento”, explica o especialista José Luis Rocha Gómez. “Para mim, além das causas econômicas, a grande causa de migrações é a falta de esperança”, acrescenta David Orozco, oficial do Programa Direito e Comunicação do Fundo de População das Nações Unidas.
“O que acontece aqui é mais ou menos o seguinte: vem um desastre natural [como o Furacão Mitch – ver box] e a reconstrução do país acontece cercada por casos de corrupção. Aqui usamos a expressão ‘a esto no se le ve futuro’. Como estamos sem esperanças com o país, então saímos. Se as pessoas tivessem interesse, investiriam aqui “, opina. A taxa de emigração se multiplicou em 16 vezes dos anos 1950 para o ano 2000 na Nicarágua e o discurso que a motiva é sempre a busca de trabalho. Mas, atualmente, embora 20% da população do país seja analfabeta e 40% das casas não tenham água encanada (dados de 2005 do Instituto Nacional de Censos e Estatísticas), a taxa de desemprego, que era de 11,3% quando Georgina emigrou, caiu para 7% em 2006.
A Nicarágua tem hoje mais de um milhão de emigrantes legais e ilegais. Se considerarmos que as remessas afetam grupos de quatro pessoas – como na casa de Israel com quem vivem a tia e dois primos – chegamos a quatro milhões de pessoas beneficiadas em um país de cinco milhões. “Ou seja, os efeitos são quase universais”, conclui Martha. Se é o homem/pai quem emigrou e do outro país manda o dinheiro que irá assegurar a sobrevivência de sua família, a sua função social de provedor se mantém. Mas quando é a mulher quem emigra deixando para trás sua prole, observa-se uma modificação de vários papéis sociais.
O papel de administradora do lar, normalmente exercido pela mãe, é incorporado pela filha mais velha – mesmo que ela seja mais nova que o filho homem. Assim, ficará responsável pela limpeza e pela cozinha. A gestão do dinheiro e o papel de autoridade passam para a nova tutora das crianças, normalmente a avó, uma tia ou uma vizinha. Se a mãe mantém contato freqüente, continua sendo a referência afetiva mais forte e assim se garante um vínculo saudável. “Quanto maior a comunicação da mãe com os filhos, menor a angústia”, aponta Cranshow. “Sempre que a gente se fala, nos despedimos dizendo ‘te amo muito’, ‘estou com saudades’. Ela é a pessoa que mais adoro no mundo”, diz Israel, que se prepara para emigrar para ficar ao lado da mãe. “Tudo mudou quando ela foi, agora tudo vai mudar de novo”, sorri esperançoso.

Trama de filme
Sem aguardar a maioridade, Saslaya decidiu seguir os passos da mãe. Ela vivia com seu avô e um irmão mais novo em uma modesta moradia na Nicarágua. Para viver, catavam lixo. Além disso, ela cozinhava para os homens da casa e tinha de se sujeitar a um outro tipo de violência comum em situações como essa: o abuso sexual por parte de um parente; no caso, o avô. ”Observamos que entre 12% e 15% das crianças que vão viver na casa de outro familiar ou amigo quando a mãe emigra sofrem algum tipo de violência intrafamiliar“, relata Cranshow.
Cansada dos abusos, a pequena colocou seu melhor vestido e saiu da Nicarágua de mãos dadas com o irmão, rumando para a Costa Rica. Dormindo na rua e indo sabe-se lá como, os dois chegaram ao Lago Nicarágua e depois de pagar a um coiote (responsável por levar as pessoas que cruzam a fronteira), entraram em um barco para chegar ao país vizinho ilegalmente. Dário, o irmão, ainda não tinha morrido no sobe-e-desce-morro ilegal, nem sua irmã havia sido novamente vítima de abuso sexual quando os dois se sentaram em um barco que cruzaria o Rio San Juan, divisa natural da Nicarágua com a Costa Rica. Junto aos seus conterrâneos em busca de uma vida melhor, Saslaya resumia seu périplo: “Meu pai morreu, minha mãe está na Costa Rica. Meu irmão e eu vamos em busca dela. E aqui estamos”.
Mas isto é ficção. Saslaya é a personagem vivida pela jovem atriz nicaragüense Sherlyn Paola, no filme costarriquenho El Camino. Sherlyn não saiu em busca de sua mãe do outro lado da fronteira. Depois da escola de manhã e das aulas de teatro à tarde, ela volta para a casa de sua tia, onde vive com seus primos e a avó. Na vida fora dos sets, seu pai morreu pouco depois de a mãe ter emigrado junto com a tia para a Costa Rica, há 10 anos. “Minha tia falou que está trabalhando, outros falam que ela está presa. Mas da minha mãe não tenho notícias”, conta, com os olhos marejados.
O irmão de onze anos vive com a avó materna em condições econômicas piores que a de Sherlyn com sua tia. “Uma coisa que observamos muito é a filha se transformar em uma pequena mãe, se preocupando com a saúde e disciplina dos irmãos”, explica Cranshow. “Queria ser grande para ajudar meu irmão”, diz a protagonista, assim como diria sua personagem. “Nosso país, a Nicarágua, sofre com muitas coisas. Sofre com a falta de luz, a falta de água, com o trabalho”, fala serenamente a atriz, tentando justificar a emigração.

Vida dupla “É muito comum que as mulheres não suportem a vida dupla no país receptor e acabem cortando a relação com o país de origem”, explica Adilia Solis, coordenadora da Rede de Mulheres Nicaragüenses na Costa Rica. Um dia, dando uma palestra sobre este tema na capital costarriquenha, uma das nicas começou a chorar. A emigrante sempre mandava remessas para a família, mas quando retornava ao país brigava com o marido, com seus filhos, com a mãe. Um dia conheceu um tico (costarriquenho) que começou a tratá-la como nunca tinha sido tratada antes e ela não teve coragem de contar à família sobre o novo amor. Resultado: cortou bruscamente os contatos com o lado de lá. “Mas não tem um só dia que não chore lembrando de meus filhos”, explicava a nica para Adília.
Apesar de este tipo de desaparecimento ser comum – seja pela criação de novos vínculos emocionais com o país de destino, seja porque a emigrante não conseguiu trabalho satisfatório para mandar remessas ou, pior, porque acabou vítima do tráfico humano – o caso mais freqüente é das mulheres que aceitam a vida dupla, como Georgina. Trabalham muitas horas diárias em troca de um salário baixo, sendo que metade de sua renda é enviada para o outro lado da fronteira. Agueda Marín, especialista da Organização Internacional para as Migrações (OIM), esclarece que “as mulheres migrantes normalmente não constituem novos vínculos no país para onde mudam, e seguem enviando suas remessas. Os homens, quando emigram, normalmente constituem nova família e com isso param de enviar dinheiro para seus países”.
Nesse contexto, Maria José se despediu do pai de seus filhos, que iria cruzar a fronteira primeiro. Depois, obedecendo-o, seguiu da Nicarágua para a Costa Rica com a cria. O companheiro a esperava já com uma nova família formada. Ela não gostou. Foi para a casa de uma prima e começou a buscar trabalho. Durante onze meses, o ex pagou pensão aos filhos e depois desapareceu, literalmente, do mapa. A jovem ficou fazendo bicos e continuou a criar Daniel e David. “Eles são muito malcriados”, lamenta. Um dia bateu no caçula e o Patronato (órgão estatal responsável pelo bem-estar das crianças) levou seu filho. Ficaram seis meses separados.
Ele voltou e encontrou a mãe com uma nova barriga, fruto de um romance de dois meses: “vacilei”, admite. Maria José chegou no hospital com a bolsa estourada e deu à luz. Mal cortaram o umbigo e já avisaram que, por conta de sua situação ilegal, a filha não sairia com ela. Sozinha, Maria voltou para casa. O filho mais velho foi para a escola e não voltou, também “adotado” pelo Estado. Logo levaram o caçula. Maria ficou sozinha no seu barraco, sem água, sem luz, sem encanamento, sem filho, sem papéis. “Não posso ficar sem meus pequenos”, conta com um olhar tão sofrido e distante que nem consegue chorar. Ao contrário de muitas emigrantes, ela não deixou seus filhos do outro lado da fronteira com famílias ou vizinhos. “Queria eles comigo”.
“Em vez de o Estado ajudar os migrantes pobres a saírem da dificuldade para melhor criarem os filhos, ele tira os filhos deles”, protesta Adília Solis. O governo deu um prazo de seis meses para que ela adequasse a casa para bem criar os filhos e que fizesse terapia. “Não gosto de ir no psicólogo, ela fica perguntando coisas do passado e aí eu lembro”, lamenta Maria José. Com seus quarenta dólares semanais, dez gastos com transporte, ela ainda não consegue ter como foco se regularizar no país – com a filha costarriquenha ela pode tirar o passaporte; ou poderia, se tivesse os cem dólares que faltam – e assim ter direito a usar os serviços públicos. Mas antes de obter dinheiro para os papéis, falta para o encanamento, o vaso sanitário, a torneira...
Se em um mês Maria não tiver conseguido alugar um quartinho decente (nunca mais baratos que cinqüenta dólares) ou conseguir boas condições para seu barraco, o Estado ameaça tirar definitivamente a guarda de seus filhos. “Vão vendê-los. Pior do que um filho morrer é ele estar vivo e você não saber como, com quem”. As crianças “abandonadas” são disponibilizadas para adoção e muitas acabam vítimas do tráfico de pessoas. Maria repetia a todo tempo: “Só tenho um mês. Ainda não fiz nada. Só falta este mês”. Todos os números corriam contra a mãe, que se sentia órfã. F
A Revista   |   Notícias   |   Blogueiros   |   Edição do Mês   |   Edições Anteriores   |   Blog do Rovai   |   Parceiros   |   Assine   |   Contato

Creative Commons License Revista Fórum está licenciada sob uma Licença Creative Commons.