Salvadorenhos tipo exportaçãoPor Eliza Capai
[15 de agosto de 2008 - 10h47]
Maria Helena morava na parte leste de El Salvador quando se apaixonou por um conterrâneo que morava em Los Angeles. Largou o emprego de professora em Santa Rosa e partiu para os EUA em 1994. No ano seguinte teve o primeiro filho, algo que se repetiria nos dois anos seguintes. Hoje, seus três garotos têm 11, 12 e 13 anos, e por conta da idade deles ela se sente mais tranqüila para começar a trabalhar num McDonald’s.
Enquanto isso, em seu país natal, sua mãe, também Helena, lembra da filha. Quando lhe pergunto se recebe dinheiro dela, responde com um olhar triste: “Pouquinho. Só uma filha que foi para os Estados Unidos e, você sabe, a vida lá também não está fácil”. Na região onde ela vive, o estado de La Unión, metade dos lares conta com a ajuda financeira de familiares no exterior. Média maior que a do país, onde 23% das famílias recebem dinheiro dos aproximadamente 2 milhões de salvadorenhos residentes nos Estados Unidos (de acordo com a Encuesta de Hogares y Propósitos Múltiples, elaborada pela Dirección General de Estadística y Censos). “A divisão de outros tempos entre esquerda e direita é hoje em dia a divisão de quem recebe e de quem não recebe remessa”, compara Gilma Perez Valladares, do Instituto de Direitos Humanos da Universidade Católica de San Salvador. Nos primeiros cinco meses deste ano, US$ 320,8 milhões entraram para as famílias que ficaram e em 2007 as remessas somaram 18% do PIB salvadorenho. “Há um vício e como qualquer vício cada vez se precisa de mais e mais. Assim, sempre é necessário que mais pessoas saiam”, critica Jesus Aguilar, do Carecen Internacional, entidade que presta assistência jurídica e social a migrantes. O “vício” salvadorenho começou nos anos 80. Com a intensificação da violência e do conflito armado, o país assistiu a um boom migratório com destino principalmente aos Estados Unidos. Quando a onda iniciou, as remessas vindas de emigrantes somavam US$ 60 milhões, o equivalente a 1,5% do PIB. A guerra civil, que durou de 1979 a 1992, expulsou cerca de 25% da população. Quando estava por terminar, um programa de estabilização econômica foi instaurado e assim o país se tornou menos dependente das ajudas econômicas dos tempos da guerra. “Só que no lugar da cooperação internacional vieram as remessas”, explica Gilma. Em 1990, o montante enviado para El Salvador já somava US$ 322 milhões, equivalente a 5,9% do PIB e a 108% das exportações totais do país. Outra década mais e as remessas já batiam US$ 1,75 bilhão, 13,2% do PIB. Em 2001, o país já havia hasteado a bandeira branca e junto com dois furacões que destruíram parte da economia a dolarização foi imposta. “Foram três catástrofes em menos de dois meses”, ironiza Katharine Andrade Eekhoff, professora da Universidade Católica de San Salvador. Com a paz e as remessas, o consumo e o PIB duplicaram. Um bom negócio “Para os governos de países como El Salvador, a migração é um grande negócio. Além das pessoas enviarem dinheiro, o Estado não tem mais qualquer responsabilidade com elas, não tem nenhum gasto”, opina Jesus Aguilar. Desta forma, as políticas implementadas para sanar as causas do problema são ignoradas. Os novos emigrantes, que geralmente estão em situação ilegal, são os que enviam mais dinheiro para casa. “Como eles não têm segurança do futuro, nem sabem em que condições estarão amanhã, trabalham em dois empregos e mandam o máximo de dinheiro que conseguem. Quando o migrante está em situação legal, se acalma e planeja levar o restante da família. E as remessas diminuem” completa. O dinheiro enviado por Maria Helena à mãe anda hoje por volta dos US$ 100 mensais. Boa parte do dinheiro que ela recebe vai para a compra de remédios e outra parte ajuda a pagar a empregada doméstica nicaragüense Esmirna, uma morena sorridente que trabalha cantarolando. Aos 24 anos, quando viu a mãe morrer e ficou com o pai alcoólatra, decidiu sair de Los Ovitos rumo a Pasaquina – cidade salvadorenha que dá as boas vindas para quem chega num cartaz assinado pela Western Union. Depois de um ano, Esmirna foi para San Miguel e começou a trabalhar na casa de Helena. “Sempre fui muito bem recebida aqui, me tratam como filha”, conta, sem reclamar do salário de US$ 100 mensais. Parte do que recebe envia para os irmãos mais novos do outro lado da fronteira. O dinheiro que veio dos EUA, passa por El Salvador e chega à Nicarágua. Tudo por meio de migrantes. Hoje, o salário mínimo salvadorenho está em US$ 158 na zona urbana e US$ 74 na zona rural, e quando as pessoas vêem seus familiares ganhando mais de US$ 20 por dia nos Estados Unidos não querem trabalhar por tão pouco. Assim os trabalhos mais mal remunerados são passados para os hondurenhos e nicaragüenses. “Repetem-se os padrões de exploração mundial. Para os imigrantes em El Salvador paga-se menos que o mínimo, o que ainda assim significa mais do que receberiam em seus países”, explica Gilma. Repete-se em escala menor a mesma política estadunidense de discriminação em relação aos latinos: menores salários, mais horas diárias de trabalho e xenofobia estão no cotidiano dos submigrantes dentro das fronteiras salvadorenhas. Dólares de passagem O dinheiro que chega do norte, além de sair pelas fronteiras com os trabalhadores imigrantes, volta ao local de origem por meio dos produtos importados. No país que assiste à sua indústria atrofiar com a dolarização, as prateleiras estão cada vez mais recheadas de produtos de afuera. A balança comercial de El Salvador fechou 2007 com US$ 4 milhões negativos. Dos Estados Unidos, vêm mais de 40% de suas importações em produtos variados, que vão do petróleo ao milho. “Em última instância, as pessoas migram para enviar dinheiro ao país natal e seus parentes compram produtos importados: o dinheiro só passa”, resume Jesus. Boa parte das críticas feitas às remessas é que pouco se investe com o dinheiro recebido. “Toda a população gasta 80% do que recebe. Quanto mais pobre, maior será esta porcentagem porque como se ganha pouco quase tudo vai para comida e gastos primários. As remessas não entram como algo extra, entram junto com os salários de um e de outro da casa”, esclarece Katharine Andrade. O dinheiro dos emigrantes é fundamental para a sobrevivência de muitas famílias. Nas cidades salvadorenhas em que os familiares migraram massivamente para os Estados Unidos a taxa de pobreza é bem menor que daquelas onde há menos emigrantes. Na cidade de Santa Catarina Masahuat, onde 0,6% das famílias recebem remessas, a taxa de pobreza alcança 74,5%. Do outro lado de El Salvador, em La Unión, a cidade de Concepción de Oriente tem 63% de suas casas beneficiadas por dinheiro do estrangeiro e a taxa de pobreza é de 39,1% (dados de 2004 da EHPM). Outro dado que mostra como a migração exige uma reestruturação da vida social é o fato de, em Santa Catarina Masahuat, 15,7% dos chefes de família serem mulheres, contra 41,5% em Concepción de Oriente. Ou seja, a migração em El Salvador continua sendo predominantemente masculina. “O dinheiro é muitas vezes enviado para que os que ficaram não precisem trabalhar”, comenta Jesus. Katharine completa explicando que um efeito positivo das remessas é que elas proporcionam uma elevação do nível de escolaridade para quem fica, já que estas pessoas podem se dedicar de forma integral aos estudos. Não são apenas os mais pobres que se beneficiam do dinheiro que vem de fora. Juan e Érika, que ficaram em Anamoros estudando enquanto seus três irmãos partiram, são um exemplo. Junto com os dólares, eles importaram também um modo de vida, refletido nos lares que têm melhores condições econômicas e ainda contam com ajuda externa. “Há mais consumismo nas famílias que recebem remessas, reflexo do estilo de vida em que estão vivendo seus familiares”, continua Jesus. No país sitiado por redes de hambúrguer estadunidenses e shopping centers, Juan, menor de idade, sai da aula e entra em sua caminhonete 4x4 cabine dupla Nissan para ir para casa – a poucas quadras da escola. O carro foi comprado por um dos irmãos de Juan, que é administrador, em dezembro. Em suas férias, ele voou dos EUA para El Salvador incrementando outro bom negócio das migrações: o turismo étnico. Os salvadorenhos que voltam para visitar o país natal ficam mais tempo e gastam mais dinheiro que os turistas de outras nacionalidades: em média são US$ 97 por dia enquanto os estrangeiros deixam US$ 87 (dados do Ministério do Turismo). Os vôos entre os dois países, que somavam 123.846 passageiros em 1992, saltaram para 1,3 milhão de passageiros em 2004. Erika, irmã de Juan, também dirige o 4x4 para ir para o seu curso de cosmética. Hoje, namora um estadunidense e se prepara para emigrar. No país de cima, além do amado, encontrará o irmão e duas irmãs que trabalham em salão de beleza. Ela então engordará os US$ 550 mensais enviados para os pais e irmãos que ficaram. Juan pensa em um dia também se juntar aos hermanos de cima. O sonho da “terra prometida” Quando a professora perguntou quem pensava em migrar para conversar com uma repórter estrangeira que estava ali, Otoniel se candidatou de imediato. Logo que chegou me perguntou se eu estava oferecendo uma bolsa ou algo assim. Expliquei que não. Ele então me contou que o tio morreu tentando atravessar para os Estados Unidos pelo Pacífico e que isso traumatizou sua família. Mas não a ponto de fazer com que seu primo, órfão do migrante sem êxito, desistisse de rumar para Washington há três anos. “Mas você pretende cruzar ilegalmente, o que pretende fazer?”, perguntei. “Queria ganhar uma rifa, destas de supermercado, para ir”, responde o menino esperando um milagre que o leve para a “terra prometida”. Na mesma escola estuda Nelsi. A menina de poucas palavras, viu o pai migrar quando tinha quatro anos. Dois anos depois foi a mãe. Nos seis anos que se seguiram, migraram seus três irmãos mais velhos. Nelsi e os outros dois irmãos moram com a avó. “Mas eu não quero ir não, pelo menos não antes de acabar os estudos.” Todos eles costumam gastar parte das remessas em pedaços suculentos de pizza vendidos na esquina da escola. Depois do sucesso no Texas, o irmão de Angela, hoje um cidadão estadunidense, construiu um prédio de cinco andares com uma arquitetura americanizada na pequena cidade de Anamoros. Assim, Angela põe em prática as receitas aprendidas na cozinha estadunidense no leste salvadorenho. Em 1999, ela conheceu os Estados Unidos: “é bonito lá”, conta. Trabalhou três meses na pizzaria do irmão no Texas e voltou. “Não queria deixar meus filhos aqui não.” Em 2001, foi ao norte outra vez e ficou mais seis meses. O marido então foi e por lá ficou, enquanto ela voltou pelos quatro filhos – a caçula tinha três anos –, deixando para trás o marido e três irmãos. Do parceiro, nos bons tempos chegou a receber além dos US$ 870 para pagamento das parcelas da compra da casa, outros US$ 200 a 300 semanais. Mas aí o marido se enredou com uma mexicana e tornou-se bígamo. Sem remessas, Angela sustenta a família gerenciando a pizzaria do hermano. O dinheiro vindo do exterior de todos os personagens desta matéria é retirado em um dos três bancos de transferência da cidade de Anamoros. No Scotia Bank, um deles, o gerente Fausto Fuentes explica que a média das remessas é de US$ 300 mensais totalizando US$ 1,3 milhão por mês para um total de 4.300 clientes. O banco atende a cidade de Anamoros e outros quatro municípios vizinhos. Depois de falar de números e números, Fausto me conta que sua irmã migrou há nove anos e seu irmão há oito. Nem mesmo sua família escapou da sina da migração. F Negócio rentável, mas que decai Com a dolarização do país e a dependência das remessas, El Salvador se torna duplamente vulnerável às crises estadunidenses. A queda no montante das remessas que já se observa no México, decorrente de menores salários nos EUA, ainda não chegou ao país chico. Embora as famílias já notem uma redução nos valores mensais, o aumento de migrantes faz que se atente apenas a uma redução no crescimento do envio. Em 2006, observou-se um aumento de 20% no valor das remessas; no ano seguinte, 18%; e neste ano o crescimento se situa nos 6% (de acordo com a Carecen Internacional). ONDAS DE GENTE Nos últimos 50 anos, El Salvador experimentou três grandes ondas migratórias. No final da década de 60, a guerra com Honduras desalojou dezenas de milhares de campesinos do território vizinho que, de volta aos seus países, se estabeleceram nas montanhas do norte. Uma década depois, a região seria foco de ação de guerrilheiros durante o conflito civil que se estendeu de 1980 a 1992. A guerra expulsou cerca de 1 milhão de salvadorenhos temerosos da repressão e do serviço militar obrigatório. Chegando aos Estados Unidos, tiveram acesso ao Estado de Proteção Temporário (TPS, sigla em inglês) que lhes garante direito a residir e trabalhar nos EUA. Vencido este período, eles puderam pedir asilo político. Com o terremoto de 2001, iniciou-se a terceira onda de migração. Em busca de melhores salários e oportunidades, 1,5 milhões de salvadorenhos migraram. Alguns conseguiram o TPS que começou a ser dado com o terremoto – a última renovação deste estado é válida até 9 de março de 2009. Com a proteção, os salvadorenhos têm o direito de trabalhar, mas ficam impossibilitados de voltar para visitar suas famílias. Entre as principais lutas das organizações pró-migrantes salvadorenhas estão o direito ao trânsito entre os países para os que têm a TPS e o direito ao voto. F |
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