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A crise no andar de baixo

Por Texto e Fotos por Marília Melhado
[18 de fevereiro de 2009 - 12h40]
Foto: Marília MelhadoFoto: Marília Melhado

A vida para o brasileiro Murilo de Paula nunca foi fácil. Vindo de uma família humilde do interior de Minas Gerais, cresceu vendo as dificuldades com que a mãe, empregada doméstica, tinha para manter sozinha a família de seis filhos. Durante a adolescência, sonhava em ter uma bicicleta, mas tinha consciência de que sua renda familiar não lhe permitia tal “luxo”. Decidiu trabalhar pelo sonho. “Recolhia esterco e vendia. Guardava todo o dinheiro, só pensava na bicicleta”, lembra com orgulho. Depois de muito poupar, enfim chegou ao montante necessário para a compra, mas quando voltou à loja o preço já tinha dobrado. “Demorei muito tempo para juntar o dinheiro. O jeito foi comprar uma de segunda mão”, recorda-se.

30 anos depois, Murilo ainda luta para conquistar o essencial em sua vida. Hoje, carrega sucata em um carrinho de ferro pelas ruas tumultua­das de São Paulo. São 100, às vezes 200 quilos de material reaproveitável descartado por famílias de toda a cidade. Há pouco mais de um ano, a módica renda lhe garantia alguma tranquilidade para pagar o aluguel de uma casa – de um cômodo, onde mora sozinho – e uma previdência privada. Mas agora a relativa estabilidade financeira de um ano atrás acabou. “Antes dessa crise eu ganhava R$ 100 por semana, hoje meu lucro não chega a R$ 50”, conta o catador.
A razão da queda dos rendimentos do catador teve início a milhares de quilômetros de onde ele coleta sucata. A crise econômica mundial originada nos EUA e cuja reação em cadeia afetou com mais ou menos intensidade todas as partes do mundo, chegou até o chamado “andar de baixo”. A desvalorização dos produtos recicláveis é fato consumado de norte a sul do país. “Houve uma queda de 70% nos lucros dos catadores”, explica Luís Henrique da Silva, membro da Associação dos Catadores de Papel, Papelão e Material Reaproveitável de Minas Gerais (Asmare). Materiais como papel misto e jornais, por exemplo, quase não compensam mais a coleta, separação e prensa, já que na hora de revender o retorno é desanimador. “Os preços estão em queda livre. No norte de Minas, a situação é alarmante. Tem gente vendendo o quilo do papelão a um centavo”, revolta-se Silva.
“O retorno que tenho é vergonhoso. Às vezes tenho vontade de abandonar isso. Mas se parar não como”, pondera Sebastião, catador há quatro anos. “Cada centavo que o depósito diminui eu sinto”, complementa Murilo de Paula.
Em setembro, o ferro, que valia R$ 0,42, dois meses depois caiu para R$ 0,16 o quilo. O plástico, de R$ 0,40 para R$ 0,30 e o alumínio – um dos mais bem pagos –, que era vendido a R$ 3,40, em novembro só valia R$ 2,90. O papelão baixou de R$ 0,28 para R$ 0,24. Em janeiro, a Central das Cooperativas de Catadores de Materiais Recicláveis do Distrito Federal e Entorno constatou que o quilo do papelão, um dos materiais mais coletados, chegou a R$ 0,07. A aceleração da queda se explica pelo aprofundamento da crise nos meses posteriores. Entre os 20 primeiros dias de 2009 já houve novas baixas de preço.
Fábio Penha é dono de depósito de recicláveis em Santa Rita do Passa Quatro, interior de São Paulo. Desde o começo da crise já assistiu ao fechamento de depósitos e a desistência de catadores em persistir no ramo. “Os coletores são os que mais sentem a queda do preço, alguns estão procurando outros meios de sobreviver. Como estamos no interior, muitos foram para a colheita de laranjas”, exemplifica ele.
Além da influência da queda no consumo, intermediários e a indústria costumam abaixar o valor pago a fim de amenizar o próprio prejuízo. “Eles desvalorizam nosso material, dizendo que não valem o preço certo”, conta Sebastião.
“Em épocas difíceis como a a­tual, a produção cai e as commodities (matérias primas) são as primeiras a terem o preço deflacionado. Desta maneira, os recicláveis têm uma redução ainda maior para se manterem competitivos”, explica a coordenadora do departamento de economia da PUC-SP, Rosa Marques. O economista Fábio Mar­vulle Bueno acredita que, em 2009, a situação só tende a piorar. “As projeções mostram uma queda significativa no crescimento do país em 2009. Haverá um aumento do desemprego e mais pessoas podem migrar para a coleta de materiais recicláveis. Esse fenômeno aconteceu na Argentina, quando ela entrou em crise em 2001”, compara. “Uma realidade dessas é muito complicada porque os catadores terão que trabalhar muito mais para ganhar muito menos”, pondera Bueno.


Foto: Marília MelhadoFoto: Marília Melhado

E o governo?
Em dezembro do ano passado, o presidente Lula compareceu à celebração do Natal dos Catadores e da População em Situação de Rua, em São Paulo. Nela, ele mencionou a atual condição dos catadores. “Estou sabendo que o preço do aço que estão pegando para vender está caindo muito”, disse Lula. “Vocês estão vendo nos jornais que a GM, a Chrysler e a Ford estão praticamente quebrando nos Estados Unidos. Isso é menos produção. Portanto, menos perspectiva de vendermos ao nosso preço o material que reciclamos”, concluiu. Ao final do discurso, Lula prometeu políticas para amenizar o impacto da crise.
O economista Fábio Bueno alerta que, apesar do governo mostrar que a razão da crise é o mercado internacional, os catadores não podem comprar esse discurso e esperar a crise passar. “Os grandes avanços só serão alcançados com a mobilização da categoria”, garante. Para Bueno, as cooperativas e associações devem atuar sempre nacionalmente para ter peso em reivindicações como preço mínimo do material, quantidade e políticas de complemento de renda. “É a única maneira de o lado mais fraco não pagar o pato desta crise”, pontua.
O assessor especial do Ministério do Desenvolvimento Social e consultor técnico do Comitê Interministerial de Inclusão Social de Catadores de Materiais Recicláveis, Fabio Cidrin, argumenta que a crise não é o único fator da queda nos preços dos recicláveis, já que no início do ano as indústrias já produziram para o Natal e a tendência é desacelerar. “Como há mais material para ser reciclado proveniente do final do ano, a demanda é menor”, justifica.
Ainda assim, o consultor destaca algumas políticas que estão sendo implantadas para amenizar o problema como a isenção de licitação para contratação de associações ou cooperativas de catadores de materiais recicláveis nas áreas com sistema de coleta seletiva de lixo – prevista na Lei de Saneamento – e a recente aprovação de R$ 42 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Ministério do Trabalho e Emprego e Funasa para o financiamento de equipamentos e galpões de reciclagem, exclusivos para população de baixa renda. Além dessas políticas, Cidrin explica que é previsto em lei que todo órgão federal tem a obrigação de separar o lixo reciclável e direcioná-lo para associações de catadores. Contudo, o presidente da Central das Cooperativas de Catadores de Materiais Recicláveis do Distrito Federal e Entorno (Centcoop), nega que esta última esteja sendo posta em prática. “Os materiais não estão chegando para as associações e fazem muita falta nesse momento. Isso precisa ser cumprido, senão vira letra morta”, alerta.
Quando questionado sobre a possibilidade de não apenas assegurar o recebimento e a organização de materiais pelos catadores, mas principalmente sobre a viabilidade de alguma política para regular o preço do material vendido pela categoria, o assessor especial diz que “ninguém ainda pensou numa maneira de viabilizar uma regulamentação do preço”. Enquanto isso, os catadores esperam por uma solução para uma crise que não deveria ser deles, mas que já os atingiu em cheio. F
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