Foto: Carolina FariasCuba já havia deflagrado guerras pela independência e era a pátria de grandes pensadores latino-americanos, como José Martí, ao mesmo tempo que seu povo sofria com brutais ditaduras. Foi nesse contexto que há 50 anos a ilha viveu uma história que encantou e continua a encantar gerações que sonham em construir um mundo mais justo e solidário. No dia 1º de janeiro de 1959, as colunas do Movimento 26 de Julho adentravam em Santiago de Cuba após a vitória dos guerrilheiros da Sierra Maestra sobre o exército do ditador Fulgencio Batista, enquanto outros movimentos revolucionários e a população de uma forma geral tomava conta de outras cidades.
O furor popular provocaria a imediata fuga de Batista para a Ciudad Trujillo, na República Dominicana, e o início da “Caravana da Liberdade”, na qual Fidel Castro e os demais revolucionários, ovacionados pelo povo, passavam pelas províncias proclamando a vitória popular e o começo de uma nova era. “Os que pensavam seguir / Ganhando cem por cento / Com casas e apartamentos / E deixando o povo sofrer / Seguindo de modo cruel / Contra o povo conspirando / Para seguir explorando-o / Então chegou Fidel / Acabou a diversão / Chegou o Comandante e mandou parar”, dizia a canção popular do músico revolucionário Carlos Puebla.
Com o triunfo da Revolução, Cuba vivia pela primeira vez em sua história a possibilidade real de exercer o direito da livre determinação e estabeleceu um outro sistema econômico e social. “O país se caracterizava pelo desemprego em massa, o analfabetismo e precariedade do sistema de saúde. Dados do governo da época dão conta de que, em 1958, um terço da população de 6 milhões de pessoas estava desempregada. Aproximadamente 600 mil crianças careciam de escolas e a taxa de mortalidade infantil era de 60 a cada mil nascimentos”, recorda o membro do Comitê de Defesa da Revolução de um bairro de Havana, Juan Carlos Mendoza, que em entrevista a Fórum citou uma frase do poeta Cintio Vitier para ilustrar como foi aquele momento. “Janeiro de 1959 foi o êxtase da história. Ali sim a poesia e a história se fundiram absolutamente. E eu que vi isso digo que é algo muito difícil de transmitir aos mais jovens. Um momento que nem Martí e outros não puderam ver.”
A partir dali, a história do país mudou. “A sociedade cubana, sem dúvida, inaugurou um tempo de substantivas mudanças revolucionárias. Novas prioridades, socialmente orientadas, a eliminação da miséria e do analfabetismo. A prevalência de políticas públicas igualitárias, conferindo a todos padrões dignos de existência e a construção de sistemas de educação e saúde equivalentes aos melhores do mundo”, avalia o historiador Daniel Reis. Os avanços são evidentes e alguns feitos, notáveis. Cuba foi o primeiro país no mundo a erradicar o analfabetismo e, devido à atenção dada à educação, atualmente 650 mil universitários estudam na ilha, muitos deles estrangeiros. No Índice de Desenvolvimento Humano de 2007 o país ficou em 51º lugar, à frente inclusive do Brasil. A ilha tem a menor taxa de mortalidade infantil do continente, 4,7 mortes para cada mil nascimentos, e isso devido à atuação dos mais de 70 mil médicos cubanos, que frequentemente costumam sair de seu país nas chamadas missões, para atender a população de países carentes.
Porém, a parceria com a extinta União Soviética, apesar de ter ajudado a promover a modernização e o alcance de metas para as questões sociais em Cuba, ao mesmo tempo a colocava no epicentro da Guerra Fria. Isso gerou diversos episódios em que o país esteve ameaçado, como a invasão da Baía dos Porcos (1961), passando pelos atentados e sabotagens em aviões e navios com tripulação cubana civil até episódios como a Guerra dos Mísseis (1962). Sem mencionar ainda o bloqueio econômico à Cuba, decretado em 1960 pelo presidente estadunidense Dwight D. Eisenhower, que contribui para a fragilidade econômica do país.
Foto: Brunna Rosa.O “período especial” e as reformas Com o fim da URSS e a queda do muro de Berlim, em 1991, Cuba entra no que ficaria conhecido como “período especial”, quando a população cubana conviveu com a escassez absoluta de produtos básicos e a paralisação de sua economia. “Perdemos 80% de nosso mercado de exportação e importação. As fábricas eram de tecnologia soviética, tcheca, húngara e da Alemanha Oriental. Tivemos que procurar tecnologia em outros lugares e fazer uma nova reconversão na economia. A situação chegou a ser dramática”, aponta o historiador Del Real. “Durante este período, os desempregados recebiam subsídio do governo, não se fechou sequer uma escola, nenhum hospital e os serviços continuavam a ser gratuitos. Por sua vez, os EUA intensificaram a repressão e além do já conhecido bloqueio emitiram as leis Torricelli e Helms-Burton. Isso tudo tem um custo e as palavras ‘carência’ e ‘desespero’ são as que melhor definem este período, que dizem que acabou, mas eu não acho”, conta o professor Fiódor Macebo, da Universidade de Havana.
Foi justamente nesse período que Cuba era notícia sempre que um “balseiro” chegava em Miami ou era preso na sua travessia ou ainda quando um corpo era resgatado em pleno mar. À época, o governo dos EUA ofereceu subsídios aos cubanos que conseguiam chegar em solo estadunidense e o resultado disso se assemelhou a uma espécie de corrida, onde valia tudo, roubar barcos, balsas e até aviões do governo cubano, tirar os pneus do carro e produzir sua própria balsa ou simplesmente tentar a sorte em cima de qualquer coisa que flutue.
“Convém recordar sempre, na hora de julgar a Revolução Cubana, que este grande processo de transformação social desenvolveu-se em um ambiente de encurralamento constante por parte da principal potência econômico-militar. Potência esta que utilizou toda classe de métodos – abertos e encobertos – para tentar derrotar o processo: atentados, terrorismo, subversão, campanhas de propaganda, inoculação solapada de epidemias, leis anticubanas etc. Nenhum país do mundo resistiu a 50 anos de agressão estadunidense, exceto Cuba”, pondera Ignacio Ramonet, em artigo escrito sobre os 50 anos da Revolução. O intelectual também não tem dúvidas em apontar as consequências desta situação. “Mas essa mesma resistência heróica teve um custo não somente econômico, não só em termos de sofrimento para os cidadãos, mas político. E não foi pequeno. Porque as autoridades de Havana tomaram para si o lema de Ignácio de Loyola, fundador dos jesuítas: ‘Em uma fortaleza assediada, toda dissidência é traição’. Isso contribuiu para limitar muito o debate interno sob os pretextos de ‘não dar armas ao adversário’ e de ‘não ser aliado objetivo do inimigo’. Permitiu também, às vezes, converter discrepâncias naturais em heresias sancionadas”, avalia Ramonet.
É o retrato de uma sociedade que chega hoje fraturada entre quem ficou na ilha e os dissidentes, depositários dos sonhos de uma juventude que está crescendo com ao menos um familiar que “se deu bem” em solo estadunidense. Reflete também a ansiedade de uma população em ter acesso a tecnologia, os dilemas entre as conquistas sociais de Cuba e uma estrutura administrativa, com vícios burocráticos e muitas vezes corrupta, além das lembranças de uma história pré-revolucionária triste e sanguinária.
Foto: Brunna Rosa.Mudanças sin perder la ternura “A primeira causa de nossa crise foi o colapso do socialismo burocrático europeu. A segunda, o bloqueio estadunidense. Já a terceira é fruto de nossos próprios erros cometidos na política econômica, produto de inexperiência em alguns casos”, avalia o historiador Del Real, sobre a dimensão da crise cubana dos anos 90. “O erro fundamental foi ter desenvolvido uma indústria a base de matérias primas importadas, outro problema foi a cópia do modelo e métodos de administração da URSS. Quando se percebeu que estes não davam resultados, começamos a mudá-los, mas foram criadas gerações inteiras com esta mentalidade e ainda estamos em um processo de re-educação”, completa.
Do caos, Cuba vai progressivamente emergindo, se adaptando e conquistando novas parcerias internacionais com países como China, Brasil, Argentina e, principalmente, a Venezuela, que permite ao país voltar a respirar na economia. “Sonhamos com esse necessário movimento que chamamos de ‘re-estruturação’, mas que terá que acontecer sob o risco de, como sistema, sermos devorados pelo funcionalismo”, disse Alfredo Guevara, fundador do Instituto de Cinema Cubano em entrevista ao jornal Juventude Rebelde, sobre as perspectivas de mudanças estruturais do país. Mudanças estas, que de fato estão acontecendo, talvez não no ritmo que a população aguarde, mas certamente caminhando a passos largos. “O governo cubano vem sofrendo mudanças lentas, graduais, há bastante tempo. Há vários dirigentes da geração ‘intermediária’, na faixa dos 40 aos 60 anos atuando em vários ministérios e Assembleias Provinciais. O vice-presidente de Cuba, Carlos Lage Dávila, tem 57 anos; o chanceler Felipe Pérez Roque nasceu em 1965; a ministra das Finanças, Georgina Barreyro, em 1964. Dos 390 novos membros eleitos para a Assembleia Nacional, metade são mulheres. E houve um crescimento de 36% na participação do grupo entre 18 e 30 anos”, detalha o historiador brasileiro Luiz Bernardo Pericás.
A atenção dada à idade dos dirigentes é algo fundamental, já que renovar os quadros políticos significa também reciclar as ideias e esperanças do país. “Eu já não confio em nenhum dirigente cubano que tenha mais de 75 anos porque todos, na minha opinião, viveram seus momentos de glória, que foram muitos, mas agora estão prontos para ser aposentados. É preciso passar o testemunho às novas gerações para que façam outro socialismo, porque este socialismo já estancou. Temos que fazer reformas em muitíssimas frentes da Revolução porque nossos dirigentes já não são capazes. Suas ideias revolucionárias de outrora se tornaram reacionárias”, argumenta o emblemático músico cubano Pablo Milanés.
Outros graves problemas da realidade cubana também estão sendo atenuados. Desde 2006, o “ano da revolução energética”, quando os apagões foram superados. Foi no mesmo ano que Raúl Castro assumiu temporariamente o poder na ilha no lugar de seu irmão, Fidel Castro, com problemas de saúde. Após um ano de Raúl no poder – exatamente em julho de 2007 –, o governo organizou um debate nacional sobre o país. Movimento que mobilizou 5 milhões de cubanos a documentarem 1,2 milhão de críticas à estrutura de Cuba. Uma das principais, em relação ao transporte, já está provocando a modificação no setor. Graças à parceria com a China, somente em 2008 foram 913 ônibus novos e 248 usados que entraram em circulação na ilha.
Após eleições, em fevereiro de 2008, Raúl Castro eleito agora como presidente de Cuba colocou em debate outra reclamação constante da população, os baixos salários. “Devemos estar conscientes de que, para ir resolvendo paulatinamente as distorções existentes no sistema salarial, teremos que ir eliminando as gratuidades indevidas e os subsídios excessivos. Temos que atuar com realismo e ajustar todos os sonhos às verdadeiras possibilidades. Isto significa cumprir com o princípio socialista de que cada qual receba pelo seu trabalho”, anunciou Raúl Castro em seu discurso sobre os 50 anos da Revolução Cubana na Assembleia Nacional do Poder Popular. Raúl, neste mesmo discurso realizado no dia 27 de dezembro de 2008, falou sobre as novas mudanças que podem despontar em 2009. “Eliminar a prática de férias, ofertas alimentares e outros preços subsidiados que têm sido oferecidos a quadros, trabalhadores destacados e outros setores da população e que geram um custo anual de mais de US$ 60 milhões”, alertou Raúl. “Sabemos que a grande maioria da população não gosta da gratuidade e do elevado subsídio, como parte da retribuição que recebe. Sabemos que a população considera o salário. Discutimos amplamente este tema e vamos continuar a discutir e eliminar, paliativamente e paralelamente ao processo de dar o verdadeiro valor ao salário. Não existe outra solução”, sentenciou.
Outra mudança promovida pelo atual governo é na área da agricultura. Com uma produção completamente estatal e arrasada pelo marabu, uma praga que surgiu logo após a drástica redução da plantação de cana, Raúl ordenou a distribuição de terra para “os que querem plantar”. Mas parece que as dificuldades não têm fim, e Cuba vem enfrentando outro poderoso inimigo: os desastres naturais. A ilha foi alvo em 2008 de três furações de grande magnitude. Gustav, Ike e Paloma destruíram juntos 27 mil toneladas de alimento, causando prejuízos calculados de US$ 9.722 milhões, segundo dados do Ministério da Economia e Planificação. “Mesmo com os furações, Cuba cresceu em 2008 4,3%, índice altamente significativo em um mundo onde as principais potências capitalistas não conseguem frear a queda de suas economias”, pondera José Luiz Rodríguez, vice-presidente do conselho de ministros, em balanço da economia do país no ano de 2008.
Outro ponto sempre muito polêmico, mas que tem avançado em Cuba, é a situação do movimento LGBT. Perseguidos durante um período da Revolução, hoje os homossexuais estão conquistando seu espaço na sociedade cubana. Não que não exista preconceito, mas há uma clara política de aceitação da diversidade sexual, a ponto de Cuba anunciar no ano de 2008 a gratuidade na operação de mudança de sexo e no tratamento hormonal aos transexuais, além da criação do Dia Mundial Contra a Homofobia e a inclusão de filmes com a temática LGBT na programação da televisão.
Outras críticas do povo cubano ainda aguardam novas medidas. Uma delas são as restrições para viagens de cubanos ao exterior. A proibição de sair do país sem autorização do governo é uma das práticas mais criticadas pela população, que também não esquece que até pouco tempo era proibida de ter acesso a lugares da ilha, como alguns hotéis e praias, além de não poderem adquirir bens como celulares e DVDs.
Mas, por mais mudanças que internamente Cuba esteja disposta a realizar, a sombra do bloqueio econômico é grande. Raúl Castro demonstra empolgação com o novo governo estadunidense e já anunciou que está disposto a conversar com Barack Obama. Este, por sua vez, começou positivamente sua gestão em relação à ilha. Suspendeu os processos dos presos mantidos em Guantánamo e em seguida decretou o fim da base militar estadunidense em território cubano.
Resta saber se Cuba será excluída da lista de países do “Eixo do Mal” dos EUA e se finalmente o descabido bloqueio econômico terá seu fim. Quanto ao futuro da Revolução, mais do que nunca depende da capacidade de diálogo de seus líderes e de seu povo, que poderão fazer jus às palavras do eterno comandante en jefe, Fidel Castro. “Este país pode se autodestruir, essa Revolução pode ser destruída. Porém, os que podem destruir não são eles. Somente nós poderemos destruí-la, e isso seria nossa culpa.”
F