Politicamente correto!Por Mouzar Benedito
[09 de março de 2010 - 16h33]
Tenho ouvido muitos discursos “politicamente corretos” em que não falta nunca a expressão “todos e todas”, e comecei a pensar em certas figuras que tiveram apelidos que chocariam os ouvidos de muita gente hoje em dia. Vou dar alguns exemplos.
Será que se o Cego Aderaldo – grande cantador nordestino – vivesse hoje seria chamado de Deficiente Visual Aderaldo? O Aleijadinho seria Deficientezinho Físico? Plínio, o Velho, naturalista e escritor latino, seria convertido em Plínio, o da Melhor Idade? E as palavras negro e negra, bonitas e com um grande significado simbólico adquirido naturalmente, pela militância de sua gente, não podem mais ser usadas? O grande líder da Revolta da Chibata, João Cândido, que recebeu o epíteto Almirante Negro, viraria Almirante Afro-descendente? E já não se pode falar mais em favelas. Agora são comunidades. Então, pensemos como ficará uma música “antiga” que fez muito sucesso... “Comunidade, oi / comunidade / comunidade que eu trago no meu coração. / Comunidade dos sonhos de amor e do samba-canção”. E aí me vem à cabeça o samba de Stanislaw Ponte Preta, “Samba do Crioulo Doido”... Duas infrações ao politicamente correto num único título de música: crioulo e doido. Stanislaw deve estar no purgatório, com os ouvidos queimando por causa disso. Para socorrê-lo, fiz uma letra para um samba politicamente correto com o mesmo tema, não simplesmente “traduzindo” para a corretice o samba dele. Quem sabe seu espírito baixa num novo Noel Rosa ou num êmulo do Afro-descendentinho da Beija-Flor e faz uma música para ele, e assim escapa de continuar purgando seu pecado e vai pro Céu. Aí vai a letra, Stanislaw. SAMBA DO AFRO-DESCENDENTE DESPROVIDO DE PENSAMENTO LÓGICO Arnaldo, ô ô Arnaldo, Afro-descendente Desprovido de pensamento lógico... Sabe, gente, Vou contar o que ele fez recentemente Tão nobre figura é beleza pura: Verticalmente prejudicado, De idade provecta, Tem raciocínio lento e confuso E no uso da memória é difuso. Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 83. Nas bancas. |
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