Texto traduzido e adaptado daqui.

AVISO: ESTE POST VAI O MAIS FUNDO POSSÍVEL, NÃO LEIA SEM ESTAR PREPARADO(A). TAMBÉM ESTOU CIENTE DE QUE HÁ OUTROS ASPECTOS DA CULTURA GAY ALÉM DESSA PERSPECTIVA – SÓ QUE, NESSE MOMENTO, É A ESTA QUE ESTOU DANDO ATENÇÃO.

Não tenho mais esperanças com a comunidade gay. Tenho 37 anos, quase fazendo 38 morte. Nasci em um mundo de pessoas, mas receio que morrerei em um mundo de animais inconscientes e viciados na internet. Saí do armário em 1993 em Sydney, em uma cena gay que era vívida, colorida, assumida e orgulhosa. Aqui estou, 20 anos depois, em uma comunidade dizimada pela internet. Completamente, absolutamente dizimada. Como um todo, gays de todos os lugares se tornaram um grupo doente de animais que completamente perderam a capacidade de interagir em níveis autênticos, que de forma assustadora se esmagaram em categorias de uma lista, e que banem grupos inteiros de iguais baseando-se simplesmente nas características indesejadas que não cabem na imagem modelo do Gay-Por-Dinheiro. Exigimos direitos iguais, mas nos tratamos como animais sub-humanos enquanto idolatramos o Homem Heterossexual como um Rei Divino.

Somos uma não-comunidade. Nós nos tornamos um produto de consumo. Somos os iGays. Perdemos nossas almas, e nem reparamos.

Nunca me senti tão feio, desmerecido e nojento quanto me sinto agora. Me tornei tão autocrítico e sem auto-estima que se eu pegar e sair (embora isso tenha se tornado uma expedição sem sentido de ser ignorado e julgado, vendo pequenos grupos de homens gays ignorando outros pequenos grupos de homens gays), já me sinto desconfortável demais para dançar. Não vejo mais alegria nessa vida, porque perdi a esperança de que compartilharei minha vida com outra pessoa. Vejo outros homens gays, mais velhos que eu, que literalmente desistiram da vida. Eu costumava condená-los, revoltado por tanta apatia, mas estou começando a entendê-los, e entender por que sentem tanto que suas existências foram arrancadas deles mesmos. São chamados de “velhas rancorosas,” mas merecem amor e respeito. Nem todo mundo é forte o suficiente para continuar resistindo contra essa monstruosa vida desalmada que ser gay se tornou.

Depois de ter a cultura do consumo enfiada dentro de nossas goelas receptivas e cheias de porra por décadas, depois de sermos heteronormativizados ao ponto em que derivamos o ser gay, nosso único desejo se tornou esse:

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“27 anos. 1,83m. 82kg. Branco. Em relação aberta. Sim, esta é minha foto. Ativo americano. Só rapidinhas. Seja realista, não vim aqui para perder tempo. Mande fotos antes de qualquer coisa. Visitando pelo fim de semana.”

Não importa mais como somos – gordos, feios, bonitos, arrumados, jovens, velhos, brancos, africanos, asiáticos ou o que for – O CARA ACIMA é o único parceiro aceitável em nossas vidas. E se isso for A ÚNICA OPÇÃO ACEITÁVEL, então estamos em péssimo estado, porque simplesmente não há cópias do Adônis suficientes para sair distribuindo.

Não enxergamos mais seres humanos para aprender a amá-los, explorar suas virtudes, nos perdermos em seus olhos e aproveitar a emoção do romance e da paixão. Simplesmente entramos no Grindr, ou em um dos outros caça-níqueis gays, e repetidamente clicamos em “mostre mais”, esperando pelo prêmio que nunca virá. Somos viciados, como qualquer outro viciado em loteria. Não importa quantos homens bonitos, com passados parecidos e coisas em comum que nos mandem mensagens; a não ser que sejam esse cara aí, não queremos saber.

Ignoramos, bloqueamos ou damos corda à quem sofre como sofremos, nos odiando cada vez mais, e projetando esse ódio nos outros. Salivamos com esses caras perfeitos – só do lado de fora, e em mais lugar nenhum – que só existem nas nossas telas e fantasias pornôs. Nos deixamos vulneráveis frente a eles, agimos como crianças quando nos ignoram ou nos rejeitam, puxamos nosso cabelo e choramos pelas nossas amaldiçoadas vidas de solteiro.

Negamos nossos desejos mais íntimos e dizemos que só queremos diversão sem compromisso porque não queremos parecer grudentos ou desesperados, MAS É EXATAMENTE O QUE SOMOS. Também é muito conveniente quando dizemos “Não quero um relacionamento” porque fica muito mais fácil acidentalmente esquecermos de dar uma resposta à mensagem da última foda. Não tinha nada de errado com ele, ele era gostoso, sexy e nos fez gozar, mas não era o prêmio, não era o Príncipe Encantado Gostoso Ativo Macho Hetero sobre um cavalo alado, sem camisa, com músculos latejando, bem-dotado, preparado para nos foder infinitamente até um nirvana multi-orgásmico feliz para sempre onde a Cher rebobina o tempo (eeeeeca, um ícone gay, que coisa mais gay, fiquei de pau mole só de pensar nela! SÓ HOMENS MASCULINOS. SEM VIADAGEM. SEM AFEMINADOS.)

Negamos toda uma parte da nossa sexualidade (nossa versatilidade, o fato de que temos um pau E um buraco) e nos tornamos viciados em submissão, procurando infinitamente pelo Ativo Gostoso Discreto que vem nos salvar, sempre recusando oferecer o prazer que estamos viciados em receber. Nós nos enfiamos em padrões heteronormativos do masculino e feminino, homem e mulher, esposa e marido, ativo e passivo, abraçador e abraçado, o que dá e o que recebe, beliche de cima e beliche de baixo, e nós LITERALMENTE NOS ODIAMOS por isso. Dizemos que somos versáteis, mas na primeira oportunidade as pernas vão para o ar, venha me salvar, Tarzan Macho Ativo! Se nos permitíssemos amor e romance, como já o fizemos nos dias áureos do orgulho verdadeiro, poderíamos acabar nos apaixonando por um cara o suficiente para querê-lo por inteiro, e não só para nos entregarmos. Não seria só nosso cu. Mas não! Nossos vícios passivos não permitem isso, afinal amor e romance não são “coisa de macho”, são coisa de menina, certo? E é mais fácil BLOQUEAR, PUXAR A ALAVANCA, MOSTRAR MAIS HOMENS, PRÊMIO? BLOQUEAR, PUXAR A ALAVANCA, MOSTRAR MAIS HOMENS…

BLOQUEAR, PUXAR A ALAVANCA, MOSTRAR MAIS HOMENS… e aí apertar o gatilho, porque nesse momento, em 2013, uma bala parece melhor do que olhar para outro corpo sem cabeça e sem alma com a palavra MACHO escrita em cima.

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