Enfim, resolvi falar sobre “O 3º travesseiro”, livro que traz a história de um triângulo amoroso trágico. Na história temos Renato, que passa a se sentir atraído por seu melhor amigo Marcus. Ambos desenvolvem um relacionamento e até se assumem para a família, mas eis que Beatriz, uma amiga de ambos se intromete no lance entre os dois, a pedido da mãe de Renato, como ficamos sabendo mais a frente, a fim de separar o casal de meninos. Até uma gravidez acontece. O filho de Renato, que se percebe no meio desse emaranhado de acontecimentos, bissexual.

Depois de tantos contratempos, parece ao fim que as coisas realmente se ajeitariam, com a proposta de os três morarem juntos, enquanto seguem o curso “natural” da vida, entrar para a universidade. Porém, um acidente acontece e o que temos aqui, é o relato de todas essas coisas, de uma vida e de amores que seguiram o seu fado.

Em suma, esse é o enredo de “O 3º”, um livro que, a despeito do sucesso que fez à época de seu lançamento em 1997, conseguindo mais de nove reedições, nos conta uma história permeada de clichês e que podemos encontrar similares em vários sites de contos eróticos, por aí.

Mas, se a história é tão comum e permeada de clichês, como mãe rica dominadora que com a ajuda de uma menina “pobre” e cheia de ambição resolvem ajudar ao filho daquela a não desviar do seu caminho, o menino que se apaixona pelo melhor amigo… Como pode ela, então ter feito todo o sucesso no mundo gay como fez?

Lembram de que eu mencionei no texto sobre a coletânea de contos “Entre Nós” sobre nos sentirmos representados? Sobre como ver, ler e conversar sobre personagens gays, seja eles reais ou fictícios, nos tira da invisibilidade e nos mostra que pertencemos ao mundo, que não estamos sozinhos? Pois é, “O 3º” além de ter todos os clichês necessários à escrita de um bom livro para o mercado, ainda alcançou um nicho que era ignorado: o gay.

Não que não houvesse outras histórias homoeróticas, como podemos mesmo ver nos textos já aqui comentados, a questão é que eles não traziam as questões e a representatividade que esse trouxe.

Na época em que eu o li, o foi de uma vez só. Chorei e, creio que, hoje mesmo eu me emocionaria com tudo novamente, do mesmo jeito que me emocionei quando eu o reli algumas outras vezes. Mesmo os meus amigos que eu fiz ler, amigos héteros, inclusive se emocionaram. E aí, volta a questão do clichê e do universal da história: qualquer um poderia ser o Renato e o Marcus e, provável, que de um modo ou de outro tenhamos nos projetado para as personagens, encaixando partes de nossas vidas ou imaginando que algumas coisas poderiam ter sido daquele jeito.

homem terceiro travesseiro

Mas, dizer que o livro é maravilhoso?! Desculpe-me, não, ele não é. Hoje, depois de tantas outras leituras e da descoberta de que há inúmeras obras tratando de homoerotismo e homoafetividade por aí, de tantas épocas, vejo o livro como ele o é, um livro que conta uma história comum, mas que por ter sido lançado em um momento em que se necessitava de uma representação, da construção de uma imagem mais sólida de ser gay para muitos meninos, e mesmo meninas, que tenho certeza se restringiam mais aos contos eróticos e outros veículos marginalizados da homossexualidade, ganhou a importância que o “O 3º” teve.

O 3º travesseiro é um livro de Nelson Luis de Carvalho, publicado pela primeira vez em 1997, pela editora ARX.

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