Alice é menina e não cortou com Tramontina. De pele escurinha, acha graça quando a chamam de moreninha. Considera raça uma coisa daninha, e racismo atitude de gente estranha e mesquinha. Uma garota afortunada, que nunca sofreu preconceito por nada. Em quase 30 anos de vida, nunca se sentiu discriminada ou preterida. Filha de bem sucedidos profissionais, aprendeu desde pequena que todos somos iguais, sem necessidade de tratamento ou direitos especiais. Em outras palavras, cotas e vitimização… jamais!

Semana passada publicamos um texto onde o autor (e meu amigo) narrou um episódio que o fez se dar conta de como o racismo tem sido velado em sua vida – de classe média numa metrópole como o Rio. A intenção era convidar os leitores a refletirem sobre como o preconceito se faz presente em suas vidas. Afinal, se o mundo é racista não ser alvo de racismo já é um modo de gozar de privilégios.

Como era de se esperar as reações foram diversas. Dentre os que discordaram houve quem dissesse que o racismo não existe, quem se opusesse as cotas e até quem acusasse o texto de racismo! De fato, é estranho, principalmente a negros, ler experiências de brancos com o racismo, ainda mais quando este não está totalmente sensibilizado às questões raciais. E é por isso que é tão importante que cada um descubra a própria conveniência em participar de um sistema que se faz invisível.

Não é de se espantar que um não-negro não saiba reconhecer episódios de racismo. É fácil ignorar um problema que não nos atinge e nos privilegia, ou até mesmo achar que “não temos nada  com isso”. No entanto muito me espanto sempre que uma pessoa de cor expressa ter passado imune ao racismo, negando ter sofrido qualquer tipo de discriminação em toda a sua vida. Ainda que sempre tenha sido minoria na escola, na faculdade e outros ambientes. Enfim, fazendo a Alice.

Contudo nenhuma dessas Alices que encontrei foi capaz de responder negativamente a todas essas perguntas:

  1. Nunca reparou no alívio que alguns sentem quando você não fala como funkeiro?
  2. Nunca percebeu alguém segurando a bolsa mais firme ao passar ao teu lado?
  3. Nunca brincaram dizendo que não te enxergam no escuro?
  4. Nunca falaram que seu cabelo é ruim ou o que valha?
  5. Nunca um segurança te deu atenção demais em uma loja de departamento?
  6. Nunca presumiram que você era funcionário de algum lugar?
  7. Nunca presumiram um apetite sexual exacerbado?
  8. Nunca ao passar entre carros na rua ouviu uma sinfonia de portas sendo travadas?
  9. Nunca demonstraram expectativas sobre o tamanho de alguma parte do teu corpo?

Enfim, existe outra infinidade de perguntas possíveis. O problema das Alices é que embora não neguem todas essas perguntas, negam terem sido vítimas de racismo.

De todas as ideias usadas para desacreditar um preconceito, vitimização, pra mim, é a mais cruel delas. É como dizer que alguém morreu baleado por não ter desviado da bala, ou foi estuprado por usar short curto, ou foi assaltado por não tomar cuidado. Esse argumento só faz sentido quando se pretende aliviar a culpa do autor. O que me leva a crer, a partir das Alices (que geralmente se declaram contra cotas e qualquer ação reparadora) que negros de classe média/alta no Brasil  identificam-se e espelham-se no branco – à la Maneco.

Perceber o racismo a nossa volta exige reconhecer que alguma atitudes e brincadeiras não são sempre inofensivas e que o agressor pode estar a sua volta. Portanto, argumentos que exponham o racismo tornam-se um atentado a sanidade mental para os que tem delírios de que os tratamentos e oportunidades são iguais entre negros e brancos. Um delírio que as estatísticas econômicas e sociais, e a realidade nas prisões e nos morros desfazem rapidamente. Independente do grau de ingenuidade.

Racista não é um adjetivo aplicável somente a segregacionistas ou nazistas, é um pensamento que também permeia todos os que pensam que o grande problema da teoria que hierarquiza seres humanos a partir do seu tom de pele foram abolidos com a escravidão. Independentemente dos antepassados, textura do cabelo ou do tom de pele de quem acredita que sim.

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