Sempre critiquei a forma como a homofobia nos transforma em uma coisa só, a ser temida e aniquilada. É mais fácil demonizar e perseguir uma entidade abstrata, tipo “os gays”, do que dar nome e rosto a quem se está matando. Perdemos nossa individualidade para sermos um alvo maior, mais fácil de atingir.

DandoPintaSloganJá tentei argumentar, quando disse que os gays não são todos iguais. Que não somos todos promíscuos e nem fazemos parada cometendo atentados ao pudor, ou que lutamos pelos direitos das travestis colocar o peito para fora, para não desrespeitar ninguém. Muitos são discretos, fora do meio. Não há mais sentido em nos considerar grupo de risco para a AIDS. Não somos bombadões de academia preocupados apenas com a selfie no espelho e com a depilação. E não necessariamente entendemos sempre de moda, de maquiagem, de cabelo, de decoração ou teatro, e nem todos tivemos pais ausentes ou idolatramos nossas mães.

Já disse tudo isso, mas menti. Eu e todos os gays somos assim, sim.

Alguns se revoltam e gritam que esses “estereótipos reforçam o preconceito”. Reproduzem a homofobia para tentar desesperadamente – e em vão – provar que são diferentes, que merecem tratamento melhor. Confesso que eu criticava essa escolha covarde, mas até entendo. É o medo de ter sua humanidade negada, de morrer. É o medo de ser apenas mais uma bicha. Eu entendo, porque sou até esse tipo de gay também.

Sou todas as bichas porque “bicha” não tem nome, cara, idade ou tamanho. Bicha é bicha. É o que sou 24 horas por dia porque me negaram outra identidade. Parece que “levanto bandeira”, mas na verdade ela é levantada e colocada em minhas mãos todos os dias, sem que eu peça! A bandeira, o rótulo e o estereótipo são meus companheiros eternos, pois basta que eu esteja entre pessoas “normais” para que seja lembrado deles.

Meninos hétero nunca são lembrados de sua heterossexualidade. A norma não se acusa, simplesmente é. Para eles, a sexualidade é apenas outra parte de suas vidas. Ela não os DEFINE em seu papel social, como acontece comigo.

Falam em “gayzismo” quando grito por direitos, mas ninguém perguntou se eu queria  fazer isso. Chamam de “vitimismo” e insistem que são esses movimentos que “destacam” os gays, por marcar diferenças e fomentar o ódio, mas não se preocupam em ver que fui levado a isso. Ora, eu sou diferente porque nunca me trataram como um igual!

EU SOU BICHA O TEMPO TODO!

Eu era a bichinha da sala de aula que temia qualquer risadinha e era mais bicha ainda quando sobrava na escolha de times, na quadra esportiva. Era bicha por andar com as meninas e mais bicha ainda quando elas se negavam a me emprestar uma boneca e eu precisava implorar. Bicha, quando fugia do assédio de alguma garota e infinitamente mais bicha quando me sentia surpreso e lisonjeado de que ele existisse. Bicha, quando perdi a virgindade e quando me apaixonei, mas não podia dividir essas coisas com meus amigos porque os dois assuntos envolviam homens. Esse tempo passou, mas eu continuei bicha.

Eu sou bicha, quando abro meu armário, precisando escolher as roupas para evitar chamar atenção e ainda assim escuto minha mãe pedir cautela. Quando escuto música controlando meus movimentos e vigiando a minha sombra, para conferir se ninguém está me seguindo com um porrete. Até quando faço graça para conquistar as pessoas, sou bicha, porque “ser legal” pode desculpar o meu “erro”. Serei bicha eternamente, porque nunca me foi permitido pensar em ser médico ou professor sem que BICHA viesse como título primário. Ser bicha poderia ter sido apenas mais um traço da minha personalidade, mas é algo tratado como marca de definição pela sociedade.

Para ser bicha, basta não ser hétero. É por isso que bombados, pintosas, discretos, ursos, positivos, michês, sapatas, travestis, trans, casados, promíscuos, homossexuais ou viados, são todos iguais. Uma coisa heterogênea, desunida, que reproduz opressão e parece se odiar. Uma coisa transfóbica, que “não curte efeminados” e que não vota em candidatos LGBT. Uma coisa tão obcecada em buscar essa aceitação que nunca virá, que chega a sacrificar a riqueza da própria diversidade.

Querendo ou não, sou todas essas bichas. Quando me chamam de VIADO, automaticamente deixo de ser uma pessoa e me transformo em um grupo. Esse grito nos une, e por isso todos morremos um pouco quando um de nós sangra. Todo dia morre “só mais uma bicha”, então está na hora de mostrarmos que somos bichas sim,  mas que somos muitas, incontáveis…

TODAS.

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