Este claramente não pretende ser um texto definitivo sobre o tema. Acredito que para compreender o transfeminismo seja necessário que o pensemos a partir de três aspectos distintos (porém relacionais): a trajetória e historicidade do conceito de Gênero; a necessidade de um suporte teórico-ativista de empoderamento das identidades trans, historicamente subalternizadas; e a compreensão crítica do conceito de mulher. Assim, relacionando estes três aspectos, é possível entender tanto a necessidade e emergência do transfeminismo, quanto sua legitimidade objetiva e histórica nas lutas feministas.

Considero importante entendermos e discutirmos o transfeminismo, pois ele se insere, no conjunto de movimentos somato-políticos, de crítica ao essencialismo, ao determinismo biológico, e às crenças quase lombrosianas de que a verdade sobre o ser residiria em algum lugar da anatomo-fisiologia do corpo, como nos diria Berenice Bento em recente ensaio à Revista Cult.  Isso posto, pretendo, nos parágrafos seguintes, organizar este texto a partir das categorias que elenquei.

1. A trajetória e historicidade do conceito de Gênero

Não é possível falar em transfeminismo, sem que pensemos a categoria de ” Gênero”, como sendo algo fluido, socialmente construído, performado, e sistêmico. Parafraseando Teresa de Lauretis: um sistema sexo-semiótico, de interpretação dos dados biológicos como produtores de diferenças, que não são per si, mas produtos da interpretação arbitrária dos “marcadores biológicos”.

Gênero é um conceito que surge fora da gramática e da linguística, aproximadamente nos anos 1950, quando o Dr. John Money, da Universidade John Hopkins, o utiliza no estudo da redesignação sexual de pessoas intersexuais. Neste caso, John se pergunta: Se estas pessoas nasceram com genitália ambígua, como é possível que o genital seja fator decisivo na constituição do gênero? Não pode ser. Então, utiliza-se de tal conceito, para designar o resultado de seu tratamento de “reorientação do gênero” das pessoas intersexo. No entanto, o modelo de compreensão do Gênero proposto por ele se mostrou falho, e hoje existem movimentos e demandas de pessoas intersexo para que elas tenham autonomia na decisão do gênero ao qual se identificam, e não fiquem a mercê de uma decisão médico-familiar. Entretanto, não podemos desconsiderar que John Money avançou no descolamento do gênero e do genital. Uma relação direta e não arbitrária, para compreendê-los, como distintos , possibilitando, apesar de seus erros, desdobramentos teóricos importantes.

Paralelamente aos estudos de John Money, começaram a surgir, dentro das universidades, demandas para que existam estudos  e disciplinas, até então consideradas não acadêmicas, como os estudos negros, latinos, feministas,… Demandas que surgem, não no seio das universidades, mas a partir de movimentos sociais, como os Panteras Negras, o Movimento Feminista, o Free Speech, e outros movimentos nos EUA. Dando origem, assim, aos estudos culturais, negros, e ao campo conhecido como Women Studies, ou “Estudos das Mulheres”.

É no âmbito dos estudos das mulheres que o conceito de Gênero passa a figurar de forma semelhante (cof) ao que conhecemos hoje. A partir da afirmação já famosa de Simone de Beauvoir em seu livro ” O Segundo Sexo” – ” Não se nasce mulher, se chega a sê-lo” – entretanto, aqui quero fazer um parênteses. Essa afirmação de Simone, não é uma afirmação diretamente sobre ” Gênero”, mas sobre a mulher, para Beauvoir, a mulher não era compreendida como um ” outro”, mas como uma subalternidade que só podia se constituir em relação ao sujeito “homem”, em sua dependência. O devir mulher, não poderia, na ótica de Beauvoir, caber em um entendimento do ” devir homem”, de modo que, os primeiros estudos feministas, nos trazem uma ótica ainda essencialista de ” diferença de gênero”, diferença que continua a se constituir a partir de novas interpretações dos dados biológicos.

Os Estudos Feministas, até então, se centravam em um determinado sujeito, em uma determinada mulher, é quando surgem, com Angela Davis, e outras feministas negras, latinas, operárias, lésbicas (com grande enfoque no ” continuum lésbico” de Monique Wittig), com a crítica a este sujeito do ” feminismo clássico”, ou seja, a crítica a um feminismo que havia se mostrado branco, classe média, acadêmico e elitista. É neste momento, que surgem também, os “Estudos de Gênero” que constroem uma crítica ao feminismo, ao pensar as ” masculinidades”, aliadas aos estudos Gays e Lésbicos, oriundos das demandas dos movimentos sociais, marcadamente daqueles que surgem após a Revolta de Stonewall.

É neste momento que ” Gênero” passa a ser concebido em sua fluidez, e que a afirmação de Simone de Beauvoir é ampliada, a partir de um questionamento simples: “Se existe um devir mulher, porque não poderia existir um ‘devir gênero’?”. Entretanto, apesar deste questionamento, os estudos e movimentos gays e lésbicos se tornam higienizados, defendendo um corpo gay desejável, belo, normativo, e sobretudo, heteronormativo. É criado, como diria Guacira Lopes Louro em seu texto “Teoria Queer- Uma política pós-identitária para a educação”, uma identidade gay “positiva”, e, obviamente, essa identidade positiva, subentende a construção de uma identidade “negativa”, geralmente associada ao gay afeminado, e à travesti.

Neste momento, ainda não havia uma distinção teórica clara entre Identidade de Gênero e Sexualidade, tal distinção se produz apenas com o trabalho teórico da antropóloga feminista Gayle Rubin, em seu artigo “The Traffic in Women: Notes on the  ‘Political Economy’ of Sex”. Artigo no qual ela afirma ser necessário pensar como categorias radicalmente distintas a sexualidade e o gênero, mesmo que, em determinados momentos, como posteriormente nos mostrará Judith Butler (em seu livro, “Gender Trouble”), tais categorias se amparem em sustentação mútua da cis-heteronorma.

É neste contexto, da higienização das identidades “gays e lésbicas”, no questionamento da identidade do “ser mulher” e do ” ser homem”, que surge um movimento pautado nas diferenças, e não-assimilacionista, como ferramenta de crítica. Tal movimento é teórico e também social, a “Teoria Queer”, termo, geralmente utilizado como ofensa e que é ressignificado como forma de empoderamento. É neste momento, a partir de uma associação teórica com os estudos pós-estruturalistas de Deleuze, Derrida e Foucault, que se começa a pensar o próprio Gênero com “ficção política encarnada”, termo cunhado por Paul. B. Preciado em palestra dada no ” Hay Festival, em Cartagena”.

No bojo destas discussões é que se começa a pensar a travestilidade, a transexualidade como uma experiência de gênero, a a transfeminilidade como uma forma de mulheridade. Essa compreensão é importante, quando nos deparamos com discursos essencializadores do ser mulher. Judith Butler, em seu livro “Gender Trouble”, inicia com um questionamento que considero vital: “Quem é o sujeito do feminismo?”, ” É possível, pensar de forma categórica e universalizante em ‘mulher’?”. A resposta, obviamente é “não”, é possível pensar em “mulheres”, em “mulheridades”, em vivências femininas, mas não é possível universalizá-las na produção de um conceito identitário imutável.

É neste sentido que a vivência das mulheres trans, das travestis, das pessoas não-binárias que se identificam com a feminilidade podem ser compreendidas como vivências femininas, e que devem ser respeitadas como tal. Obviamente, há diferenças na vivência de uma mulher cisgênero e de uma mulher trans, não há dúvidas, entretanto, ambas possuem vivências de suas feminilidades, das opressões diárias, dos enfrentamentos a partir de uma perspectiva do feminino.

2. A necessidade de um suporte teórico-ativista de empoderamento das identidades trans

 Quando surge o transfeminismo, ligado a Teoria Queer e às críticas pós-estruturalistas ao feminismo, o fazem como forma de empoderar as identidades e as feminilidades subalternizadas. Basta observarmos, por exemplo, que no Brasil 90% das travestis estão na prostituição. O transfeminismo é uma luta para que possamos existir, sermos reconhecidas, termos nossos direitos e nossa vivência garantidos e respeitados. Mulheres trans e travestis no Brasil tem média de vida de 38 anos, enquanto uma mulher cisgênero beira os 75 anos.

Há questionamentos de algumas correntes feministas que dizem que deveríamos lutar junto ao movimento LGBT, e não como vertente do feminismo, entretanto, é importante lembrar que as demandas gays e lésbicas são demandas de orientação sexual, dizem respeito ao desejo compreendido como perverso, e não a identidade de Gênero. São lutas distintas, em âmbitos distintos.

Durante séculos, o feminismo clássico lutou – como nos mostra Maria Clementina, historiadora da Unicamp, em seu artigo sobre as mulheres internadas nos manicômios do Juquery – pelo direito a independência. Segundo relatos da historiadora, havia mulheres internadas no Juquery, pois elas eram “independentes demais” e não cumpriam o seu “papel de mulher”. Ou seja, a mulher independente, ou que vivia livremente suas pulsões sexuais era compreendida como uma abjeção patológica. E hoje, é esta a condição de homens e mulheres trans que precisam de autorização de outro (sic) para existir. Precisam de laudos, remédios, consultas, anos de espera, uma cirurgia mutiladora, para que sejam reconhecidas como mulher.

Sofremos dos mesmos mecanismos machistas de objetificação sexual, e eu diria que a hipersexualização das mulheres trans e travestis é ainda maior. Como é possível negar a experiência, a vivência da identidade feminina que temos, simplesmente baseadas em conceitos essencialistas e biologizantes do que significaria “ser mulher”?

3. A compreensão crítica do conceito ” mulher”

Quando digo que o transfeminismo se relaciona com a necessidade de uma compreensão crítica do conceito de mulher, estou a dizer que, é a partir do transfeminismo, que conseguimos avançar rumo a desconstrução de uma existência feminina calcada na biologia, no útero e no ser mãe. No essencialismo. O transfeminismo, ao lutar pelas demandas das mulheres trans e travestis, inclui-se em um rol de lutas libertadoras das definições biologizantes. Quando se insere em um contexto pós-estruturalista, e de Quarta Onda do Feminismo, então, se constrói como ferramenta de compreensão múltipla e vibrátil das vivências femininas.

Por fim, para concluir e não me alongar demasiadamente, creio que seja importante também para o transfeminismo abrir-se a uma nova crítica e uma nova possibilidade de pensar a si mesmo, não apenas na crítica ao conceito de mulher, mas pensando, como outrora fez Judith Butler “Quem é o sujeito trans?”, “Quais as possibilidades de vivência da transexualidade?”, dessa forma, poderemos perceber que as vivências trans não são apenas binárias, ou seja, centradas no binarismo homem/mulher, mas atravessadas também por um amplo espectro não binário, uma ampla gama de identidades que vivem na fluidez, na ausência, na mistura, e que, por existirem dentro de um sistema binário encontram dificuldades de materialização corporal do gênero, de expressar a não binariedade, que, muitas vezes, não pode, nem ao menos ser enunciada, sem que nos digam que somos esquizofrênicos.

Todo movimento está, necessariamente, em constante atualização a partir da crítica oriunda de suas vivências. Quem sabe, um dia, como nos diz Preciado, não possamos nos organizar em torno de um amplo movimento somato-político?

Comentários

Comentários