” Eu talvez estivesse saltitando por aí, mas meu pai me colocou em uma escola que me obrigou a ser durão e por isso não segui esse caminho. Eu agradeço.”

Foi mais ou menos isso que Russell Tovey – um dos protagonistas do seriado LOOKING, da HBOdisse em uma entrevista recente. Para fugir do óbvio, não vou falar sobre relações públicas e o que significa quando um ator (gay, e de uma série gay feita para o público gay) fala algo do tipo sem pensar.

Na real, não “pega nada” porque ele é bonito e – grazadeus, néam? – “macho”. A “masculinidade” ou até mesmo seu simulacro (tipo um Drag às avessas) ainda servem de salvo conduto para que um oprimido se transforme em opressor e possa gritar aos quatro ventos que é “homossexual, mas não bicha”.

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Além disso, a série parece feita sob medida para a atual geração gay, tão preocupada em ser assimilada e aceita ao invés de respeitada. Então quero que todos os gays levantem bandeira? Olha, enquanto existir gente morrendo apenas por ser LGBT, até acharia muito digno que todo mundo lutasse sim. Mas aí, cada um sabe de si. E da mesma forma que nem todos precisam militar, não é toda série que precisa ter duplo casamento homolésbico ou coral de pessoas trans, ou de repente uma pintosa de 13 anos cantando Destiny’s Child como acontece em Glee.

Mas né, se não atrapalhar, já ajuda.

Gays, notícia chocante! Não existe manual ou tipo ideal. Quer dar, quer comer, não quer fazer sexo, só faz com amor, só faz com mais de três, é bi, é pan, só pega umas amigas na balada ou nunca encostou numa mulher? Ótimo. A sexualidade é infinitamente mais complexa do que nossa mania de classificação, então nossos rótulos tão queridos só servem para polarizar coisas e transformar o arco-íris em um palco de disputas.

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É maravilhoso poder reclamar a identidade gay. Sair do armário e aproveitar o Grindr toda a cultura criada em torno de uma simples prática sexual ou orientação afetiva, que vai de pinturas excitantes da arte grega até o melhor dos musicais da Broadway, passando pelos desenhos do Tom of Finland, os livros do Jean Genet e – que coisa – até LOOKING!

Apesar do machismo e da homofobia seguirem infernizando o mundo e transformando a vida de crianças em uma tortura, até que se vejam na encruzilhada entre sair do armário ou jogar fora a chave, não há nada de errado em ser gay.

Não há nada de errado em ser gay e ser efeminado. “Bicha bonita não se esconde, mostra a feminilidade”, não é esse o meme? A opressão nos obriga a sermos mais fortes, a nos esconder em armaduras de audácia, de pinta ou de discrição. E se for para fazer concurso de macheza, é mais “durão” quem enfrenta as porradas de frente e sem sair do salto do que alguém que se esconde no próprio medo para “se dar ao respeito”.

Ah, isso é ataque. É “cagar regra”, é oprimir os gays machinhos que já são tão invisíveis por causa dessas pintosas… Não, bichas! O problema não é quem se expressa da forma que a sociedade designou como masculina. O problema é alguém ser obrigado a se mutilar contendo gestos para implorar por um “perdão” que nunca virá, e de quebra ainda acabar contribuindo para demonizar quem não pode ou não consegue fazer assim.

Não precisa “ser e curtir”, ou ficar com alguém que não te atrai. Basta não gritar isso como uma regra de ouro ou como se tivesse sido a razão de sua salvação. Muita gente morreu para que hoje se possa caçar homem no celular ou assistir um trio de bibas chorando as pitangas em uma série de TV. Aliás, ainda morre. Todos os dias. E alguma coisa está muito errada quando a opressão vem de dentro.

Gay, vai lá e arrasa porque a vida é curta, e se deixar ainda acabam com ela mais cedo. Queridos efeminados, não há nada de errado com a gente.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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