Há muito tempo, filmes com temática LGBT sequer poderiam ser pensados, tão pouco as produções adultas direcionadas a este público. Então como resolver essa questão? Simples, fazer o que sempre fizemos: imaginar. E nesse processo, as revistas de fisiculturismo tiveram papel fundamental, como podemos conferir no longa Carne Fresca (Beefcake).

Com 97 minutos de duração e misturando ficção com fatos reais, vamos imergir nas famosas revistas americanas de fisiculturismo. Fosse por dinheiro, fama ou desejo esses belos rapazes estavam dispostos a quase tudo. Editor da revista Physique Pictorial, o fotógrafo Bob Mizer, conseguiu produzir um excelente trabalho em uma revista que tinha como objetivo ir bem mais além do que a simples valorização dos exercícios: o desejo oculto de outros homens pelos belos bolos de carne que ali estavam expostos.

Produzido em 1998 e lançado no Brasil dois anos depois, Beefcake, como ficou conhecido internacionalmente, não chega a ser claramente um documentário, já que tem suas nuances de ficção e drama, mas cumpre o seu papel de caráter informativo e consegue entregar algo agradável. Durante ele, podemos ver desde como eram produzidas as belíssimas fotos em um resort paradisíaco, onde homens estavam completamente nus, circulando para os ensaios e cliques da revista pseudo-gay feita por Mizer.

A grande sacada do filme é mostrar realmente os bastidores de tudo, sem omitir a maioria das informações. Por exemplo: é difícil acreditar que em Magic Mike ninguém se prostituía ou mantivesse relações com outros rapazes, por questão de gosto ou mesmo de interesses; já em Carne Fresca, não há essa omissão.

O fotógrafo Mizer foi acusado de constituir uma rede de prostituição, pois mantinha relações sexuais com seus modelos, consumir de drogas e por vendê-los como bolos de carne, para as festas que aconteciam fora do resort. Tudo isso é apresentado. Mostra também a presença de outros cafetões, que traziam rapazes que andavam nus na frente de outros, e, ainda assim, não tinham – ou fingiam – ter noção do que ia acontecer com eles depois disso.

O interessante de acompanhar são os depoimentos, estes sim conseguem prender a atenção, não que os corpos esculpidos ali não cumpram esse papel, mas a ideia ao assistir este filme, deve ser outra, já que ele, de certa, forma é uma crítica à geração seguinte, que irá explorar isso de forma mais sexualizada e menos sensual, como o próprio modelo Jim Lassiter afirma. Até Joe D’Alessandro, que chegou a trabalhar em filmes de Andy Warhol, narra sua experiência com Mizer e os outros modelos.

Talvez não seja o melhor filme para assistir em um dia de chuva, pois precisa de uma certa atenção e um olhar um pouco além dos dorsos, abdomens e peitorais dos personagens. Ele faz claramente compreender que, o que virá nos anos 80 e, consequentemente, nos anos seguintes, nada mais é do que uma evolução, meio sem graça, daquilo que mexeu com tantos homens nos anos 50.

O imaginário consegue “brincar” muito mais com o possível do que com o concreto, talvez essa tenha sido a receita de sucesso de uma revista que se propôs apenas a apresentar belos homens em poses fisiculturistas.

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