Ando até o ponto de ônibus e sinto os olhares. Observo tudo através do reflexo na tela do celular, em estado de alerta porque de repente vão me atacar. É uma droga viver com esse medo, como se estivesse errado por estar no meio da rua. Alguns olhares parecem mesmo de repulsa, mas não escondem a curiosidade, enquanto outros revelam desejo… Subo na condução. Não falei nada, não fiz nada. Os homens se comportam como cordeiros à frente de um lobo, ou como mercadorias oferecidas a um consumidor compulsivo. Na minha playlist, um antigo sucesso das Spice Girls Who Do you Think You Are – me faz perguntar: Quem vocês pensam que são?

DandoPintaSloganNão sou mulher. Não conheço o medo que a cultura do estupro provoca, porque andar pelas ruas sem ser assediado é parte do meu privilégio de macho. Obviamente que o “pecado” de ser gay me faz temer a homofobia – a masculinidade não permitiria que eu a afrontasse impunemente – mas quando um estranho me aborda, no máximo penso que serei assaltado. Estupro é coisa que não passa pela minha cabeça, mas sei que com as mulheres não é assim.

Será por isso que não me incomodo com a cobiça dos homens?

Alguns podem dizer que sou safado, não vejo problema nisso. Sexo é bom, a vida é curta, então vamos aproveitar. Acontece que a identidade gay compreende uma série de construções culturais que, no fim das contas, partem do uso de uma prática sexual como marca de identificação. Por mais que algumas pessoas se revoltem com isso, não é simplesmente o desejo por homens que me faz gay, mas a coleção de Barbie vários momentos que reforçaram essa identidade, fazendo a sociedade me rotular assim e, posteriormente, que eu aceitasse e assumisse isso. É algo muito sexualizado para “passar batido”.

A criação dos homens em nosso paraíso tropical é bastante libidinosa, com a repressão à sexualidade feminina servindo de freio para uma postura predatória que valoriza a quantidade ao invés da qualidade. Quando o papo é “homem com homem”, não existe o freio – embora o sentimento de culpa e as construções românticas às vezes ocupem essa função – e fica parecendo que “qualquer hora é hora”, o que reforça dois ideais complicados: o do “homossexual predador” e o da “bicha disponível”.

Ora, não é de espantar que homens heterossexuais fiquem eriçados, de medo ou tesão, quando um gay ocupa o mesmo espaço que eles. Como a masculinidade é considerada um grande valor, fica parecendo que QUALQUER homem hétero é objeto de cobiça de uma bicha, ou que essa figura – a bicha, o viado, o maricas, o boiola – está pronta a aceitar a “dádiva” de alguma demonstração de interesse por parte desses “seres superiores”. Bitch, please!

Somos livres para fazer sexo casual? Sim, graças à Cher! Há uma cultura underground de permissividade, com saunas, casas de orgia, Dark Rooms e pegação em parques públicos? Sim, é a nossa história. Com a tecnologia, dá para conseguir homens via celular. Aleluia! Isso tudo não significa que os homossexuais sejam mais sexuais do que sapiens, ou que a ideia que nos marginaliza, de que somos inferiores, seja verdade.

Aliás, esse tratamento moralista de qualquer coisa relacionada à sexo é uó, hipócrita toda vida…

Quando um heterossexual se enxerga como “alvo” de um gay, reafirma seu lugar de superioridade. Nesse caso, não é a beleza que está em jogo, porque o valor em si é heterossexualidade, tratada como objeto de desejo. Sim, a cultura gay reforça esse sentimento com a supervalorização do “macho alfa”, mas está apenas refletindo o pensamento dominante. É por causa da associação preconceituosa entre homossexualidade e promiscuidade, e por causa da associação entre masculinidade e o “correto”, que gays – e todos os LGBT, diga-se de passagem – são tratados como pervertidos eternamente dispostos ao usufruto do homem, essa “maravilha das maravilhas”!

O horror que causamos é proporcional a uma forma doentia de fascínio, já que somos apontados, viramos alvo de ataque, de riso, de assédio, mas quando demonstramos afeto causamos alvoroço porque um beijo vira “beijo gay”, rendendo assunto por semanas. Bem, pelo menos nosso amor vira ato político!

Gozar é muito bom e não há nada de errado em satisfazer nossos desejos, mas não dá para alguém chegar, vir com o papo de “faço tudo, mas não beijo homem”, e ainda tirar onda de que está prestando favor. É pra fazer o que, agradecer? Cêjura!

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta toda quarta, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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