Usar o banheiro é algo comum, não é? Em geral, as pessoas sentem vontade de ir ao banheiro e vão. Fazem suas necessidades sem nenhum problema ou transtorno. Mas isso não vale para pessoas transsexuais e travestis. Muitas de nós, quando vamos a estabelecimentos públicos e tentamos usar o banheiro feminino, somos expulsas de lá, as vezes agressivamente, pelos seguranças, que nos consideram “homens” e nos impõe a utilização do banheiro masculino.

transbordando

Se no banheiro feminino querem nos expulsar, no masculino somos assediadas, ridicularizadas e chamadas de “traveco”. Meu texto de hoje, segue um curso diferente dos demais, quero falar sobre algo que aconteceu com uma amiga minha travesti de Fortaleza que é modelo e dançarina, Bruna Salles. Ela foi barrada e expulsa de um banheiro em um estabelecimento de uso público. Tendo sido humilhada por querer usar o banheiro feminino, no qual ela se sente a vontade, e que condiz com sua identidade de gênero. Antes de qualquer análise, quero que leiam o relato de Bruna com atenção:

Fui convidada a conhecer, pela primeira vez, um estabelecimento/barraca de praia chamado “Sunrise” no dia 25 de Março por amigos e aceitei o convite. A tarde, chegando na barraca fui ao banheiro do estabelecimento e entrei normalmente. No final da tarde, por volta das 15h,  voltei ao banheiro e fui barrada por dois seguranças (um homem e uma mulher). Eles disseram que receberam ordens de superiores através de seus pontos no ouvido e de rádio – equipamento que eu nem sabia existir. As ordens diziam que eu não poderia entrar em banheiro feminino e que se eu quisesse ir ao banheiro, teria que me direcionar ao banheiro masculino, sendo que os banheiros da barraca só tem uma única entrada, o que tornava o fluxo de homens e mulheres bastante intenso. Enfim, fiquei em estado de choque e não consegui reagir, mesmo sendo uma pessoa de personalidade muito forte. Fazia tempo que não me deparava com uma situação tão humilhante em um lugar tão público. Tudo que eu queria era um buraco pra me esconder. A única coisa que tive coragem de falar foi vou: ‘procurar meus direitos‘ ao que o segurança homem respondeu em alto e bom som: ‘essa lei não existe aqui na barraca’. Por fim ligamos pro PROCON. Saindo percebi piadas, cuchichos e dedos apontados pra mim. Então, me retirei de vez da barraca e fui embora abalada moralmente e me sentindo humilhada. Quero minha dignidade de volta!

Este depoimento, concedido a mim com exclusividade pela Bruna, possui importantes elementos para analisarmos como a cidadania de pessoas trans e travestis é precária e limitada. Como nos obrigam a existir como sujeito não-humanos, sem direito nem de sequer usar o banheiro.

Antes de prosseguir, informo que tentei contato com o estabelecimento sem ter sido atendida, e que já encaminhei Bruna para o Centro de Referência LGBT Janaína Dutra, em Fortaleza, para que ela processe a Barraca Sunrise e tenha seus direitos garantidos e possa, quem sabe, ter sua dignidade legalmente reconhecida apesar da violência a qual foi exposta.

Contudo, existem muitas perguntas a serem feitas neste caso: De quem foram as “ordens superiores”? O que dá direito aos demais de ridicularizarem-na?  A resposta desta é clara: o fato dela ser travesti. Sabemos que a existência de alguém que transgride as normas de gênero é sempre um problema para a “cis-heteronorma”, e se torna também um problema para o nosso sistema jurídico. Porém, Bruna não está sozinha. Coletivos LGBTs de Fortaleza estão organizando um ” beijaço” e “banheiraço” na barraca. Eu, aliás, estarei presente.

Este caso é mais um, entre tantos, Brasil a fora, de pessoas trans e travestis expulsas de banheiros públicos. É preciso que se construa uma legislação nacional com relação a isso. Medidas punitivas para empresas que desrespeitarem as pessoas trans e travestis. Uma legislação de incentivo fiscal para empresas que cumprirem a legislação e promoverem o enfrentamento à homotransfobia, e mais, a aprovação urgente da Lei João Nery para que não dependamos de um procedimento interminável, médico e legal. Para que nosso gênero seja reconhecido.

Outro importante aspecto são os comentários que li sobre o caso. As pessoas insistem em perguntar: “Mas ela é operada?”. Ao que deduzo que se ela fosse “operada” poderia usar o banheiro feminino, caso contrário não. Então nosso gênero se limitaria ao genital? E quando um homem perde o pênis vitimado por um câncer ou mutilado em uma guerra? Ele automaticamente deixaria de ser homem e deveria usar o banheiro feminino? John Money, lá nos idos dos anos 50, nos mostrou que Gênero e Genital são coisas de ordem distintas, sem contar que: O meu genital importa pra quem além de mim?

Esta coluna informa pouco, mas digo veementemente: Não a transfobia! Travesti não é bagunça! Mexeu com uma, mexeu com todas!

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