A rosa de plástico que enfeitava a mesa de centro da sala de minha avó estava presa atrás de minha orelha. O lençol de cama azul estrelado cobria minha cabeça e corpo como um manto divino. Sentia-me como uma Deusa e andava de um canto ao outro do quarto ao som de alguma melodia mental que já não me lembro mais. Eu tinha seis anos. Era tudo muito mágico até que um tio me interrompe e diz: “Fernando! Está parecendo uma drag queen”. Eu rapidamente retirei a flor da orelha e disse: “Não, tio. Eu estava brincando de super-herói”. Eu não sabia exatamente o que era uma drag queen. Sabia que eram todos “gays” e que os gays não eram bem vistos.

transbordando

Aquelas palavras ecoaram em mim por dias, talvez anos. “Parece uma drag queen“. Aquele momento não foi apenas a interrupção de minha brincadeira infantil, foi também uma denúncia, um tanto distorcida sobre mim mesmo, que dizia algo como: ” Fernando, você não é como os outros meninos”. Logo esse não-ser passara a compor o meu cotidiano. Eu era o que envergonhava o pai ao preferir não jogar futebol – até tentei, mas preferi deixar de fazê-lo.

A adolescência me surgiu como o período de agravamento da tensão. Naquele momento eu não era apenas o que gesticulava diferente, o que brincava diferente, o que andava diferente, eu era, acima de tudo, o que desejava diferente. Já havia dentro de mim a convicção de ser gay, de gostar de homens. Ela vivia em mim, nas minhas voltas pela internet em salas de bate papo, nas minhas excitações quando aos 12 anosolhava para alguns primos, amigos e famosos. Não havia controle sobre isso. Eu não deseja mulheres, os corpos em desenvolvimento das meninas não eram os objetos do meu desejo como sempre se esperou de mim. Minha força desejante direcionava-se aos garotos. Eu os amava todos, em sua virilidade, do jeito espaçoso, nos jogos, na timidez e em todos os aspectos que apresentavam.

Até que me dei conta que este desejo deveria encerrar-se em mim por não ser como o dos outros. Sempre olhei para os casais heterossexuais na sala de aula. Eles podiam (e ainda podem) pegar na mão um do outro, amassarem-se no muro da escola, podiam dar-se apelidos melosos, enquanto eu não. Por isso percebi que meu desejo deveria ser encerrado em mim mesmo, e que , no máximo, eu poderia consolidá-loe na masturbação.

Muito cedo descobri a pertinência do sexo “nas sombras”, descobri que alguns dos meus amigos e desconhecidos em alguns terrenos baldios, ou em carros de madrugada, poderiam se servir do sexo não-afetivo. O mundo da sexualidade me foi apresentado dessa forma: o eu-desejante era bestial e, portanto, o lugar que me cabia eram os terrenos baldios.

Não cheguei ao processo comum de se assumir. Chegar aos pais e dizer: “Sou gay”, até porque minha mãe é lésbica e meu irmão mais novo também é gay e já havia se assumido antes de mim. O meu problema sempre fora comigo mesmo, com minha egodistonia – quando o “eu” não se adequa a condição de existência do “eu”. Quando pensava em minha feminilidade, no meu desejo impronunciável, em minhas práticas sexuais nos banheiros da vida e nos terrenos baldios, pensava sempre, mergulhado na culpa, na minha avó. Afinal, “ela já teve a filha e um neto homossexuais, será que eu nunca darei um bisneto pra ela?”. Aquilo era um imenso peso pra mim.

Minha sexualidade se revelou de forma impronunciada: nas crises de depressão que vivi por me apaixonar por amigos e nas tentativas de suicídio. Contei com a perspicácia de minha mãe, que já sabia. Sempre soube. Não precisei falar nada. Ainda era indizível pra mim. Minhas depressões persistiram por muitos anos (e ainda persistem), foram ao todo três tentativas de suicídio – de por fim a minha impossibilidade de pertencer ao mundo, de por fim a imensa solidão de jamais poder expressar meu afetos.

Recentemente tenho me descoberto cada vez mais. Não sou simplesmente um homem gay. A flor em meu cabelo e o manto de deusa que eu queria quando criança ainda persistem no meu ser. Não me vejo mais como um homem. A categoria de homem não me cabe – e talvez nunca coube. Hoje eu a transbordo, assim como a categoria de mulher também. Eu transbordo pelas amarras do gênero. Sou trans*. Sou não-binárix. Nem homem, nem mulher. É assim que me vejo, pelo menos, nos últimos tempos. Ainda essa semana vivi a terrível sensação de ter minha identidade de gênero classificada como uma categoria patológica (Disforia ou transtorno de gênero pro DSM-CID). Uma identidade que ainda não pronunciei para minha família. Apenas de já ter compartilhado com alguns. Sou trans androssexual (que tem desejo sexual por homens). A transgeneridade não binária, portanto, para mim é um recomeço, é me assumir pela primeira vez, publicamente, a minha identidade . É recomeçar traçando uma nova trajetória.

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