Foto: Reprodução da página Sou/Curto Afeminado.

Sem dúvida, a coisa mais cruel em um mecanismo de opressão é quando a vítima o internaliza. É óbvio que dói muito quando um estranho se sente no direito de gritar nossa inferioridade, mas acho que é pior quando fazemos isso sozinhos. Uma bicha machista parece realmente comprar a ideia de que vale menos, como se precisasse se punir por seu “erro”. A homofobia internalizada “mata” os gays diariamente, a cada olhada no espelho…DandoPintaSloganHá quem diga que “viado não quer nada sério”, como se o colapso do ideal romântico fosse culpa dos gays ou de algum tipo de fenômeno incompreensível, exclusivo dessa população. É lógico que a sexualização masculina tem um papel nisso, mas o modelo que somos condicionados a priorizar na hora de buscar por um parceiro também. E mais, o endeusamento desse modelo – macho, branco, alto, forte, ativo – afeta a maneira como esses homens se percebem em sociedade e principalmente, a forma como nós – meros mortais – nos percebemos em relação a eles.

Gurl, já diz o RuPaul: Se você não consegue se amar, como vai amar outra pessoa? Amém!

Nessa semana, duas notícias ilustraram o problema. O estilista Giorgio Armani declarou que “homossexuais não precisam se vestir como homossexuais”, e a foto de um casal viralizou, com todos se mostrando chocados com a diferença física entre os dois, como se fosse impossível aquela “bichinha” pegar um “homão”. Beijos para as recalcadas, néam?

O Armani, nem comento. Deixarei esse link com alguns de seus modelitos super másculos, para ver se ele entende que roupa é roupa, e que todo mundo, e cada grupo, é livre para usar o que quiser. Agora, o lance do casal é bem triste. Será que no momento em que se conheceram, a relação de poder entre eles era a mesma? Será que o garoto tailândes teve coragem de chegar no bofão, acreditando que certamente teria uma chance com ele? Ou será que a iniciativa veio do  gostosão alemão, certo de que “a bichinha” ficaria encantada com a “dádiva” da sua atenção?

Prefiro acreditar que não foi assim. Quero crer que desde o princípio o relacionamento deles se desenvolveu com base no respeito, resultando em algo que hoje parece bastante sólido. O importante é que os dois estão felizes. O que espanta é o discurso machista criado pelos comentários sobre eles, baseados na foto. O discurso de que o homem percebido como “bonito” (tipicamente europeu) e “macho” (maior e barbado) é melhor. De que o homem mais baixo e magro, ainda por cima afeminado, precisou fazer alguma coisa em especial para conquistar esse grande “santo graal”, como se precisasse compensar seus “defeitos”. Dinheiro, fama, feitiço… Até “pau grande” seria uma justificativa aceitável. Afinal, qualquer coisa considerada boa para o ideal masculino é obviamente vista como qualidade. Tudo serviria, menos o amor. Será possível que a gente valha tão pouco?

casal gay

É assim que o machismo se mantém. Há quem defenda que atração sexual é apenas uma “questão de gosto”, e que a preferência por algumas características ao invés de outras não tem nada a ver com preconceito ou construções sociais. Parece que nascemos assim, naturalmente dispostos a considerar o macho branco mais bonito, porque o conceito de beleza é uma coisa fechada e óbvia na qual os indivíduos se encaixam ou não. Isso é ridículo, pois o que é bonito atualmente não era necessariamente bonito no século XIX, e há coisas que são bonitas para os japoneses e que são horrorosas para nós. Diga-se de passagem, não é preciso usar exemplos tão extremos. Um vizinho ou colega de trabalho pode ter um conceito de beleza distinto do seu, embora a proximidade social entre vocês provavelmente fará com que ambos entendam da mesma forma o que a sociedade aceita como bom ou ruim.

A relutância – e inveja – em aceitar o amor desse casal, só comprova nosso complexo de inferioridade. Politicamente, gritamos por orgulho e até defendemos a diversidade, mas quando uma situação concreta se apresenta, voltamos a privilegiar um ideal masculino como melhor. E isso não é vida.

Nada é mais triste que uma bicha machista. Ser afeminado ou não, no caso, é irrelevante. Se um homem transa com homens, é relegado ao papel de viado mesmo que seja “discreto e fora do meio”. A questão é que esse ódio, essa repulsa, vir de dentro. É de matar! De verdade, até porque muita gente se suicida por não se aceitar. Famílias são desfeitas, relacionamentos são abortados. Tudo porque a mentalidade machista, racista e classista diz que algumas pessoas valem menos do que as outras, e porque reproduzimos isso.

Não se engane, a culpa é nossa. Não existe um supervilão machista nos fazendo engolir essa ideologia. Nós a internalizamos e a reproduzimos a todo momento, e com isso a validamos. A mesma ideologia que nos coloca para baixo, que nos segmenta, que arma nossos agressores. A ideologia que nos mata. Quando uma bicha é machista, não vive, já nasceu morta.

Bichas, melhorem!

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