A socióloga carioca, Miriam Goldenberg, cunhou em seu texto “Corpo, Capital e Gênero” o conceito de ” miséria subjetiva”. Naquela ocasião, Goldemberg referia-se aos processos de subjetivação de relacionamentos abusivos em mulheres casadas do Rio de Janeiro. Essa condição de miséria subjetiva, caracteriza-se, basicamente, por uma percepção extremamente negativa de si mesmo, baixa auto-estima, desprezo pelo próprio corpo e incapacidade de olhar-se no espelho e reconhecer em si alguma beleza. Este conceito muito me interessou, primeiro, porque sou uma travesti em fase de transição. Minha aparência se mostra, ao mesmo tempo, distante do que era, e extremamente distante daquilo que eu gostaria que fosse. Meu corpo está em trânsito, e este transitar é entendido, por muitos ao meu redor, como uma monstruosidade, um indecifrável e indefinível estado de “ser nada”.

transbordando

Sou uma travesti gorda, sem passabilidade e feia (leia-se fora dos padrões de beleza). Isso é um recorte da minha existência, não é algo do que eu me envergonhe, mas é um lócus de existência que precisa ser problematizado em uma série de aspectos, seja na baixa auto-estima, caracterizada por essa condição de miséria subjetiva, seja nas relações com o “outro” na qual estou inserida, marcadamente as relações de natureza amorosa.

Aprendi (e não foi de forma carinhosa) que meu corpo travesti – abjeto – está fora dos “jogos do amor”. Com este corpo, jamais tive um namorado, jamais andei de mãos dadas pela rua e jamais experimentei aquilo que chamam de “amor romântico”. Obviamente, tenho minhas críticas a esse tipo de amor, mas, eu gostaria de poder vivê-lo, e infelizmente, não posso.

Há inúmeros homens que se interessam por mim de alguma forma, mas estes homens, em sua maioria, têm vergonha do interesse que possuem por mim, e essa vergonha vem justamente de reconhecer em mim um corpo abjeto, que serviria apenas para a satisfação dos seus impulsos sexuais, e não para a companhia na dimensão de sua vida pública. Muitas travestis e pessoas trans estão fora dos jogos do desejo. Estão fora do “poder amar”. Esta rejeição, obviamente, é introjetada e nos conduz a um estado temível de miséria subjetiva, de vergonha de si e da tristeza de existir. Viver na transição é viver em um limbo, um não estar em lugar nenhum e um não poder posicionar-se enquanto sujeito passível de ser amado.

Convivo diariamente com a sombra do suicídio. Convivo diariamente com o estado de miséria subjetiva a que me impuseram. Por isso, conhecer outras pessoas trans e dialogar com elas é um caminho de empoderamento. Hoje estou dando um curso de formação em São Luís do Maranhão, e sem acesso “fixo” à internet. Escrevo esta coluna deitada em uma cama, em meio a uma festa, observando os ritos do desejo do outro e sabendo que ali, naquele círculo do desejo não há espaço para mim. Escrevo essa coluna tão simples, para que aqueles que me leem com assiduidade não fiquem sem ler a coluna Transbordando neste Domingo.

Assumir nossa identidade de verdade é um ato de coragem e renúncia. Tive e ainda tenho de renunciar a muitas de minhas vivências e laços para poder existir como quero.

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