Esses dias eu recebi a indicação do Pedro Soares de um livro para resenhar aqui na coluna. Como minha vida tá um pouco enrolada no que se refere à leitura e ele já leu o livro, convidei-o para escrever o texto como colaboração. Esse é o texto que vocês lerão a seguir, aqui na Estante.

Estante2

Texto do nosso colaborador, Pedro Soares.

Imagem divulgação

Fake é o livro de estreia de Felipe Barenco. Nascido em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro e formado em Direção Teatral pela UFRJ, escreve para teatro, tevê e cinema. Na internet ficou conhecido com o perfil de humor @donashakespeare, no twitter. Foi na cidade imperial que se inspirou para escrever seu primeiro romance.

Felipe queria falar sobre ser gay, sobre sexualidade e sobre o amor. Escreveu o livro que sempre quis ter lido quando era novo, mas que ninguém escreveu.  Cansado de esperar pelo SIM das editoras grandes, e já que alguns sonhos simplesmente não aceitam esperar, lançou seu próprio selo editorial e estruturou toda a venda do livro pela internet.

Fake conta a história de Téo, um garoto de 19 anos, que acaba de ingressar na faculdade de Direito. Logo no começo, ele conhece um menino incrível e muitas coisas acontecem, até ele perceber que nada é tão perfeito assim.

O livro se encaixa na categoria YA (Young Adult – literatura para quem tem entre 16 e 24 anos). Entretanto, o considero universal. Por suas páginas, são explorados vários temas que se encaixam na vida da maioria dos seres humanos. Há também vários dilemas interessantes sobre ser gay: contar ou não contar para a família? Como? Etc.

A história é apaixonante e bem escrita. A narrativa é sutil. O acabamento gráfico é delicado e majestoso. Achei interessantíssimo o recurso utilizado quando os personagens trocam sms: imagens de telefone com abas das mensagens, dando assim um ar intimista.

Há uma dose de realismo bem empregada. Na maioria dos livros brasileiros procura-se referências em obras de fora. Não é o que acontece em Fake. O protagonista, Téo, estuda na UERJ, mora na Zona Norte do Rio e tem uma vida típica de alguém da classe média com 19/20 anos. Tudo isso acrescenta de maneira positiva à narrativa, e faz com que maiores identificações surjam.

Os personagens não são maniqueístas, o que é ótimo. O que evidencia isso é Davi, menino por quem Téo se apaixona nas primeiras páginas, que é cheio de luz e trevas, por exemplo.

Davi tem AIDS. E isso merece ser destacado pelo jeito como o assunto foi abordado. Sem achismos ou estereótipos, coitadismo ou preconceito. Por consequência, fica exposto como o autor não é um amador.  Isso fica evidente quando aparecem explicações que não são didáticas e ao mesmo tempo, como os dilemas que surgem são bem desenvolvidos.

Ainda sobre as personagens, cabe destaque especial à tia do protagonista: Eleonora. Ela é excêntrica, louca, imaginativa, caridosa e espetacular. É uma personagem cômica atual e bem elaborada.

Se há algo de ruim no livro, é o seu tamanho. Devorei suas 264 páginas em uma tarde de sábado e, tudo que restou no final foi aquela sensação doce e perversa de: “precisava saber o que iria acontecer, porém me sinto triste por ter terminado.”

Fake consegue envolver o leitor com suas palavras dóceis e reflexivas. Consegue fisgar olhos distraídos para o que há de mais bonito e interessante: a vida.

O livro, por fim, merece ser lido e relido por todos aqueles que procuram uma história envolvente, com controvérsias, ambiguidades e lirismo. Tudo convivendo da melhor maneira possível, sem ser fake.

O livro está à venda apenas pelo site Livro Fake, no qual está disponibilizado um trecho do livro para ser lido em pdf.

*Pedro Soares é leitor compulsivo e viciado em filmes antigos. Acredita que o meio, assim como profetizou Guimarães Rosa, é travessia. Tudo é efêmero e transitório, por isso prefere aproveitar e curtir o melhor da vida. Não à toa, morre de amores por Stanley Kubrick, Almodóvar, Oscar Wilde e mais um montão de escritores e cineastas apaixonantes.

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