Volta e meia, alguém, do fundo de sua vasta sapiência, resolve sugerir como pessoas negras devem lidar e reagir a circunstâncias racistas. Isso quando não declaram que essa opressão não existe mais, ou que não faz mais sentido nos dias de hoje. Pensando nesses profetas da “”democracia racial””, eis uma lista que visa desmistificar algumas das alegações mais frequentes.

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O Tempo

Após a abolição da escravidão, muitas pessoas acharam que, com o passar das gerações o racismo ruiria, contudo, mais de um século depois, essa ideologia permanece bastante viva e adaptada aos novos tempos. Semana passada mesmo vimos um poste substituir – novamente – o tronco onde pessoas negras eram são amarradas e torturadas em praça pública, com o objetivo de dar uma lição a outras pessoas negras que não acatam as recomendações da sociedade branca e para satisfação sanguinária da mesma. Essa longevidade da intolerância – que sempre se acreditou justa – se deve,  provavelmente, ao fato de que opressão nenhuma jamais foi vencida pelo descaso, mas sim pela contra argumentação e devida reeducação. O que nos leva ao próximo item…

Ignorar / Ter Paciência / Perdoar

Por mais que muita gente insista, deixar passar ou perdoar agressões racistas, por menores que sejam, não contribui em nada para sua dissolução. Pelo contrário, reafirma à pessoa responsável pela atrocidade que nenhum dano grave foi cometido. Incentivando-a a repetir o erro sem a menor consciência do mal que ela fez a alguém. Não que tomar conhecimento disso impeça de fato a recorrência do racista, porém, relevar só garante a impunidade e a permanência da injustiça. Pedir para pessoas negras relevarem é conveniente aos privilegiados pelo ideal de supremacia branca. Esperar que pessoas negras sempre levem tudo na brincadeira também é uma forma de discriminar, por exemplo: ninguém pede paciência quando pessoas judias rememoram a dor do Holocausto.

Sucesso

Ser bem sucedido no desempenho de seu trabalho, ou até no engajamento social, nunca impossibilitou uma pessoa negra de sofrer racismo. Por exemplo: Oprah, a mulher mais rica dos EUA, foi discriminada quando em visita pela Europa; Obama já foi confundido com manobrista; craques de futebol são xingados em estádios do mundo inteiro; Martin Luther King se reunia com os mais humildes e o presidente do seu país e, ainda assim, foi assassinado simplesmente por se manifestar contra a discriminação que sofria por ser negro num país inegavelmente racista. Enfim, são vários os casos de celebridades e profissionais bem sucedidos que, apesar de terem subido na vida com o seu trabalho, foram obrigados a ouvir gracinhas e foram destratados unicamente pela cor de suas peles. Tanto faz a área de atividade, até o nosso ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, já se pronunciou sobre as agruras pelas quais passou ao ocupar uma “posição de alta responsabilidade e visibilidade”. Esse tipo de rejeição ocorre porque todos esses cargos eram são tradicionalmente ocupados por pessoas brancas, então, quando um negro chega lá, seus colegas e as pessoas ao redor não conseguem lidar com o desconforto de obedecer a alguém parecido com quem eles estão habituados a ver limpando seus sanitários. Então, vamos parar de achar que meritocracia resolverá o próprio problema que há tanto fomenta… Se tão somente o suor da labuta garantisse respeito a alguém, médicos que apenas batem o ponto e vão embora estariam abaixo dos garis na escala social e remunerativa.

Relacionamentos interraciais

Apesar de toda a falácia de miscigenação, que vem sendo desmistificada pela genética, relacionamentos afetivos ou sexuais entre pessoas de cores diferentes não significa que o racismo está com os dias contados. Pelo contrário, contentar-se com o singelo fato de que pessoas brancas se envolvem e têm filhos com pessoas de outras cores não abala os muros que antes impediam a oficialização desses relacionamentos, mas sim os fortificam.

Caso você não saiba, a miscigenação brasileira teve início com o estupro de mulheres indígenas e africanas, e nem por isso os europeus responsáveis deixaram de explorar seus “filhos” e “mulheres”. Por séculos! Portanto, nessa mesma nota, vale também lembrar que o comendador que se apaixonou por Xica da Silva não deixou de ter escravos nem se tornou abolicionista. Defender esse tipo de lógica é tão coerente quanto afirmar que nenhum homem hétero pode ser misógino. Desejo não inviabiliza opressão. Então, acreditar que casais interraciais contribuem para o fim do racismo, antes de tudo, é flagrante de uma profunda inocência. Não são poucos os casos de pessoas não-brancas que preferem se envolver com branques justamente por auto-ódio e com o intuito de clarear a linhagem na esperança de que, clareando, seus descendentes não passem pela mesma discriminação que sofreram. Uma das piores dádivas do racismo é, justamente, a rejeição de pessoas negras à própria negritude. Desde a escravidão pessoas negras são ensinadas a respeitar, admirar, defender e até amar seus senhores. Logo, não há nada de revolucionário em alguém negro preferir se relacionar com pessoas brancas, visto que elas são o referencial romântico onipresente em novelas, filmes e livros.

Além disso, a defesa desses relacionamentos costuma sugerir que pessoas brancas, ao se juntarem a negros, asiáticos, indígenas etc., de alguma maneira, estariam compartilhando seus privilégios com seus cônjuges oprimidos, quando na verdade todo mundo sabe que não é assim que a banda toca. Enquanto encararmos pessoas brancas como símbolo de ascensão social ou salvadores, permaneceremos hierarquizando indivíduos segundo seu acesso à branquitude.

Não pretendo dizer que não há hipótese de felicidade em relacionamentos interraciais, só quero demonstrar como essa história de que “amor não vê cor” não é nenhum “e viveram felizes para sempre…” ou “e toda a cultura racista que sempre estruturou a vida do casal partiu rumo aos livros de história”.

 A Lei Áurea

Por mais incoerente que seja, não são poucas as pessoas que enchem a boca – ou os dedos – pra dizer que o racismo findou com a abolição da escravatura. Isso mesmo, numa canetada, negros escravizados se tornaram livres das correntes e do preconceito. E assim, tal qual uma deusa da criação, Isabel, através de palavras, fez a luz da igualdade irradiar sobre todos os seres humanos. Então, para dar continuidade à crença nesse poder transformador da palavra, termino: melhorem!

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